quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Revista POP - Por Luiz Domingues


Ao contrário de outras publicações inspiradas em preceitos contraculturais acentuados, a revista "Pop", editada pela Editora Abril Cultural, adotou desde o início, um outro rumo.
Muito mais inspirado no modelo norte-americano pró-establishement, centrou as suas baterias no modelo de uma juventude classe média e essencialmente preocupada com o vai-e vem da moda; comportamento; escolha de carreira; dúvidas sobre sexo; questões escolares e afins.
De uma certa maneira, pode-se dizer que a "Pop" antecipou em quatro décadas, o universo jovem que a Globo retrata em sua novela permanente, "Malhação". Todavia, como foi criada no início dos anos setenta, mesmo não ao não apresentar o melhor enfoque, esteve inserida em uma época sensacional sob o aspecto artístico / cultural, e dessa forma, quando o assunto em suas páginas foi arte e sobretudo, música, tornou-se praticamente impossível não falar sobre artistas bons, seja no Rock; na MPB; Black Music, ou qualquer outra vertente da época. Com o respaldo de uma editora forte, teve no seu acabamento gráfico, um trunfo e tanto. Mas mesmo ao não ostentar no texto a profundidade e sobretudo a paixão que sobravam na "Rolling Stone" brasileira, e principalmente na revista, "Rock, a História e a Glória", não posso de forma alguma dizer que tratou-se de um texto pobre, pois grandes jornalistas passaram por sua redação. Digamos que a linha editorial mais branda, fora uma escolha proposital da casa.
De fato, a editora Abril era uma empresa que seguia a linha de pensamento editorial dos grandes conglomerados de comunicação nortes americanos. E portanto, a visão de juventude que tinham, seguia esse padrão a observar o "american-way-of-life". Isso refletiu-se na revista "Pop" de forma incisiva, pois em sua existência, entre 1972 e 1979, a revista não falou uma só palavra sobre política. Apenas em sua fase final, em 1979, mencionou a questão da anistia, ainda assim, de uma forma discretíssima. Mas nos anos duros do regime totalitário de então, a "Pop" não deu uma linha sobre o assunto, ao preferir seguir em um mundo jovem e deveras alienado, ao retratar o seu leitor padrão como alguém preocupado exclusivamente com questões juvenis, tais como sexo; educação; moda etc. Todavia, calma, leitor ! Claro que a "Pop" teve seus méritos !
Como já disse, a época foi a mais favorável possível para falar-se sobre (boa) música. Os maiores nomes do Rock; MPB; Folk, e Black Music foram enfocados em suas páginas, portanto.
Com profusão de fotos e lay-out moderno, aos padrões setentistas, a "Pop", de certa forma foi a nossa "Circus", esta, uma revista norteamericana rica em ilustrações, e com um enfoque do Rock na linha de revistas de cinema de celebridades, mais centrado nas fofocas de bastidores.
Enquanto na "Rolling Stone" brasileira ou na "Rock, a História e a Glória", foram usuais entrevistas publicadas com Bob Dylan ou Mick Jagger a revelar coisas bombásticas, certamente na "Pop", o enfoque seria a última festa de arromba na mansão de Rod Stewart, onde Elton John e Keith Moon entraram de Rolls Royce dentro da piscina...

Mas havia matérias boas também, pois como já disse, o staff era de primeira, com jornalistas como : Leon Cakoff; Pink Wainer; Caco Barcellos; Okky de Souza; Ana Maria Baiana; Maurício Valladares; José Emilio Rondeau; Ezequiel Neves, entre outros, além das ilustrações de Decio Ambrosio.

Uma coluna assinada por um jornalista misterioso, marcou época nessa revista. Tratou-se da coluna denominada : "Pergunte ao Guru". Esse misterioso personagem respondia cartas dos leitores, com questões de diferentes motivações e que partiam do Rock aos tabus do sexo. Com uma boa dose de ironia, e a fazer uso das gírias da época, foi uma diversão garantida. Hoje em dia, a coluna "Pergunte ao Guru" está revivida nas páginas da Revista Poeira Zine. Eu desconfio qual seja a verdadeira identidade do "Guru". Trata-se de um velho e bom jornalista Rocker, mas não vou revelar a sua identidade, evidentemente.

Eu gostava muito das reportagens sobre bastidores do cinema. Ao antecipar lançamentos, a "Pop" publicava matérias sobre a pré-produção de filmes muito significativos a resvalar ou mesmo estar explicitamente na órbita da contracultura, com fotos incríveis dos bastidores das filmagens; entrevistas com o diretor; atores e produtores. Foi nas páginas da "Pop" que eu soube que filmes como : "Jesus Christ Superstar"; "Godspell"; "The Rocky Horror Show"; "The Phantom of the Paradise"; "The Wiz"; "Tommy"; e "Lisztomania" entre outros, que estavam a ser produzidos, o que deixava-me com uma enorme expectativa para assisti-los, e ao mesmo tempo a amargar uma longa espera visto que sempre ocorria com aquele substancial atraso em termos de estreia no Brasil, infelizmente. Certamente, as reportagens sobre cinema foram obra do saudoso, Leon Cakoff, cinéfilo inveterado, e que foi o responsável pela criação da hoje consagrada : "Mostra Internacional de Cinema de São Paulo", ainda nos anos setenta.
Há de em destacar-se também, os famosos posters. A seguir a linha de revistas de celebridades norteamericanas e europeias, os posters da "Pop" também marcaram época. Alice Cooper; Chico Buarque; Secos e Molhados; Genesis; Yes; Led Zeppelin...
Porém, os mais emblemáticos mesmo, ficaram marcados com o do Roger Daltrey, extraído de um "still" do filme : "Tommy", e o de Rick Wakeman, promocional dos shows que fez no Brasil, em 1975. Quem não pendurou na parede do quarto, o personagem "Tommy" dentro de uma cápsula enorme, a sugerir uma ampola com um líquido lisérgico e ao mesmo tempo, martirizado como um santo ? E a mesmo fenômeno em relação ao tecladista, Rick Wakeman, a usar quela capa megalomaníaca cravada em  lantejoulas...
Muitas vezes, a "Pop" usou de um recurso promocional bastante tentador para alavancar vendas. Compactos simples, com duas canções vinham encartados, vez por outra. Eu mesmo tive um que continha as músicas : "Como Vovó já Dizia", do Raul Seixas, "Jurubeba", do Gilberto Gil e "Postcard", do The Who, que ouvi até estragar a agulha da vitrola.
O jornal que vinha incluso, encartado na revista, chamava-se : "Hit Pop", e ali, tal como no "Jornal de Música" que vinha encartado na revista "Rock, a História e a Glória", havia boas informações, embora também nesse caso, a linha mais superficial observava-se, ao dar mais ênfase aos indicativos de discos mais vendidos, e músicas mais executadas em rádios, por exemplo. Portanto, uma linha a prestigiar os interesses das gravadoras
A revista encerrou atividades em 1979. Em um de seus últimos números, fez uma matéria sobre a comemoração dos dez anos do Festival de Woodstock. Claro que comprei, ávido por uma edição recheada por fotos e informações preciosas sobre essa efeméride, contudo... sinal dos tempos, tratou-se de uma reportagem superficial, diluída e muito decepcionante. Foi o fim da revista "Pop" e de certa forma a revista continuou posteriormente, reencarnada em publicações juvenis e femininas que a editora Abril pôs-se a lançar posteriormente. Os motes : moda; cuidados com o corpo; questões escolares e dúvidas sobre sexo, davam a tônica, e an passant, matérias sobre música e arte em geral. Claro, diminui-se a foco na música, e o teor dos artistas retratados, bem... prefiro não comentar, para não magoar ninguém.
Digo que Milton Nascimento; Yes; Traffic; Elis Regina; Jethro Tull; e Mercedes Sosa, certamente nunca mais figuraram nas páginas dessas revistas que sucederam a "Pop"... tire as suas próprias conclusões...
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2012

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O Paradoxo do Desperdício - Por Luiz Domingues


O Planeta Terra ultrapassou a marca de sete bilhões de seres humanos em seu contingente e um dos maiores desafios das autoridades de todos os governos nacionais, é sem dúvida alguma, alimentar e hidratar todas essas pessoas. Ao considerar-se que o número de animais e vegetais que também precisam de víveres é igual ou maior, pode-se afirmar que o desafio é dobrado ou bem mais que isso.
Por desequilíbrios da economia; políticas equivocadas e completa desarmonia social, o fato é que muitas nações passam por situação de penúria, com fome absoluta. Claro, recebem muita ajuda governamental internacional; também através de Ong's abnegadas que trabalham com afinco e sempre existe a presença de artistas com sensibilidade aguçada, que estão a promover campanhas beneficentes para minimizar tais efeitos etc e tal.
Contudo, mesmo com esses esforços, vemos pessoas a morrer dramaticamente, por falta de alimentos e água. Portanto, alguém poderia fornecer-me alguma explicação plausível para o desperdício colossal de alimentos que existe no Brasil ?
                          Foto : Silva Júnior - Folhapess

Questão de meses atrás (ao referir-me ao início de 2012), eu tive um problema sério de doença em minha família e por cerca de vinte dias, frequentei diariamente um hospital. Não pude deixar de reparar no desperdício inacreditável de comida que houve ali. Refeições intactas, recusadas pelos enfermos, foram jogadas literalmente no lixo, mesmo embaladas hermeticamente por empresas terceirizadas em fornecimento de alimentação. Isso é apenas a ponta do iceberg. Basta você ir à feira livre de qualquer cidade brasileira e verificar a quantidade absurda de frutas e verduras descartadas e jogadas no chão.
Outro dia, vi um documentário de um canal de notícias da TV a cabo, onde um repórter conduziu um imigrante angolano radicado em São Paulo, para um passeio em uma feira livre. O rapaz ficou atônito com a quantidade de comida descartada, e não cessava em afirmar que não conformava-se com a fartura, e o descaso que via por aqui, acostumado à escassez de recursos em seu país de origem.
Sob uma rápida pesquisa de internet, os dados são alarmantes ! Segundo dados da Embrapa, o Brasil é o quarto maior produtor de alimentos do mundo.
Acrescento que tem potencial para ser o número um, se tantas distorções não ocorressem em nossa legislação rural, com normas de cultivo e posse de terra, muito falhas; reservas indígenas absurdas; latifúndios improdutivos; acordos internacionais mal alinhavados a dar brechas para que nações concorrentes no mercado agrícola, tomar a nossa dianteira etc. Nesse contexto, cerca de 26,3 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçados por ano, o que resulta em uma média diária de 39 mil toneladas.
Segundo li em uma pesquisa do Instituto Akatu, aproximadamente 64% do que planta-se no Brasil, é jogado no lixo. 20% estraga na própria colheita; 8% no transporte e armazenamento; 15% na indústria de processamento; 1% no varejo e 20% no processo culinário, por maus hábitos culturais que o nosso povo possui.
Isso daria para alimentar 500 mil famílias. Preciso falar mais ?
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012.

sábado, 25 de agosto de 2012

Filme : The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray) - Por Luiz Domingues


Personalidade controversa que viveu na Inglaterra Vitoriana, Oscar Wilde, lançou em 1890, um romance que chocou a sociedade em sua época.

"The Picture of Dorian Gray" ("O Retrato de Dorian Gray", em português), contava uma história macabra, mas com nuances muitíssimo interessantes sobre transferências; subpersonalidades e outros aspectos usuais sob o âmbito dos estudos psicanalíticos. E certamente que a dose de hedonismo explícito, sob uma roupagem plena em sarcasmo e presunção, foi o fator que mais incomodou o público, naquele instante. Os diálogos criados por Wilde, são brilhantes, não há como negar-se, porém, apresentam-se carregados por uma carga de desprezo absoluto pela humanidade, que se por um lado torna-o intelectualmente atraente pela verborragia expressa sob prosódia e sobretudo pela acidez de raciocínio, entretanto, é também, paradoxalmente abominável em seus propósitos.
Muitos anos depois de lançado no mercado literário, o livro foi adaptado ao cinema. Em 1945, chegou às telas, então, "The Picture of Dorian Gray", dirigido por Albert Lewin. Eis a história :
Dorian Gray (interpretado por Hurd Hatfield), é um jovem rico e bastante afetado. Vive uma vida despreocupada em termos de responsabilidades pueris, e ao contrário, só a observar os prazeres. É um narcisista por excelência, e dessa forma, posa para um artista, ao visar imortalizar-se em um retrato.
O seu amigo, Lord Henry Wotton (vivido por George Sanders), é um aristocrata cínico e igualmente afetado pela soberba. É amigo em comum do pintor, Basil Hallward (interpretado por Lowell Gilmore).  Dorian diz sob estupefação ao ver a arte final da pintura : -"eu ficarei velho; feio; horrível. Mas este retrato conservar-se-á eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que nesta tarde de junho"...  mas, se fosse o contrário ? Se eu pudesse ser sempre moço enquanto o quadro envelhece ? Por isso, por esse milagre eu daria tudo. Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma" !
Fora um mero devaneio narcisista, mas o elemento macabro da história trataria em tornar essa afirmativa "mephistofeleana", uma verdade...

Através de uma andança por um bairro proletário de Londres, Dorian conhece a cantora de um cabaret de terceira categoria (Sybil Vane, interpretada por Angela Lansbury). Apaixona-se por ela, mas persuadido por Lord Wotton, a abandona covardemente, por temer "estragar" a sua vida fútil, ao trocá-la por uma paixão pueril.
A moça morre tragicamente por conta disso, e a vida segue, a não ser por um detalhe : um pequeno traço alterado no retrato, que Dorian, em princípio, não atribui ao seu ato marcado pelo egoísmo perverso. Contudo, esse traço na pintura também reflete-se em sua personalidade e ao mergulhar no hedonismo desenfreado, passa a cometer outros delitos e aí sim, nota que existe uma correlação de seus atos com o fato de permanecer sempre jovem, ao contrário do retrato, que degenera-se visivelmente.
Chega-se em um ponto, onde não é mais possível deixá-lo exposto em sua sala de estar, e assim, Dorian tranca o retrato no sótão de sua mansão, onde ninguém tem acesso, a não ser ele mesmo. Os anos vão passar. Lord Wotton envelheceu, mas Dorian permanece com a aparência de um jovem na faixa de vinte e dois anos, e a suspeita começa a provocar perturbação em seu círculo social.

Mediante o seu casamento marcado com Gladys Hallward (interpretada por : Donna Reed), que era apenas uma criança quando Dorian posou para seu tio, o artista plástico, Basil Hallward, a suspeita sobre a aparência imutável de Dorian torna-se ainda maior.
E como agravante, o fato dele recusar-se a exibir o retrato por anos, soma-se ao fato de infortunadamente ser avistado nas ruas de Londres pelo irmão da jovem cantora, Sybil Vane (interpretado por Richard Fraser), que o procura há anos, sedento por um sentimento de vingança.
Ao final, a farsa de Dorian é revelada, com o choque de um close assustador na pintura. A pintura, outrora galante, mostra agora um homem horrendo, transfigurado e a exibir a carga de seus atos perversos marcados sob um semblante hediondo a retratar a sua desumanidade.
Naturalmente, Oscar Wilde ao escrever essa obra, teve a influência de Goethe. A ideia de um pacto em torno da eterna juventude, veio da obra : "Fausto", evidentemente.  No filme, só os momentos em que mostra-se o retrato, o diretor usou a fotografia colorida. No restante, predominou a fotografia em preto e branco.
Um recurso discutível por muitos críticos, que acharam-no piegas por supostamente usar o intuito apelativo para chocar as plateias de 1945.
Devemos notar que no cômputo geral, o filme sempre foi classificado dentro do gênero, "terror".
Particularmente, eu discordo desse conceito, ao considerar ser tal filme, um thriller com apuro metafórico, muito além do terror macabro, puro e simples.
A começar pela sofisticação dos diálogos. Mesmo ao achar a motivação arrogante, não posso deixar de reconhecer o valor dessa construção desse texto, pelo ponto de vista literário.
Também pelas sutilezas, é claro. Aspectos sutis e inerentes à subpersonalidade, desenvolve-se na pintura viva, em constante mutação. O retrato é um mosaico a representar o Ego de Dorian Gray, na verdade.  Se pelo ponto de vista psicanalítico é muito interessante, na área das possibilidades propostas pela física quântica, mais ainda.
Em um campo de manipulação de energias eletromagnéticas, é muito confortável usar o artifício dessa transferência, de forma egoísta. Dessa forma, um dia a conta chega, via "boleto", mas enquanto não vem, um estrago é realizado, tal como Dorian o fez, ao usufruir egoisticamente desse artifício.
Hurd Hatfield, que interpretou Dorian Gray, nunca mais teve um papel significativo no cinema. Apesar de ter participado de produções grandes, como : "King of Kings"; "Boston Strangler"; e "El Cid", por exemplo, suas aparições foram secundárias.
Trabalhou bastante na TV, nos anos sessenta, como ator convidado de séries famosas ("Voyage to the Bottom of the Sea"; "The Wild Wild West"; "Murder : She Wrote" etc), mas a sua carreira nunca decolou de fato, após protagonizar : "The Picture of Dorian Gray".


A lenda urbana imputada-lhe, foi fatal, ao estigmatizá-lo como fadado ao fracasso, por ter vivido alguém que fez pacto com o "Diabo" na vida real. Entre amigos, ele ironizava, ao afirmar que mantinha o retrato guardado em sua casa, daí o azar na carreira...
Uma nova versão foi produzida em 2010. Já ouvi várias pessoas a comentar em fóruns de cinema pelas redes sociais, que acham a versão moderna melhor, por aproximar-se mais da obra de Oscar Wilde, no tocante ao aspecto macabro.
Lógico que tem muita tecnologia e atmosfera lúgubre que agrada a garotada "blockbuster", e acostumada aos vídeogames desde a mamadeira.
Respeito essa visão, mas fico mesmo com a versão de 1945, mais calcada em sutilezas; boa interpretação e texto impecável, em detrimento das pirotecnias da tecnologia moderna em prol dos sustos.
Para quem não assistiu ainda, recomendo, e recomendo que preste atenção nos diálogos, que são muito bem escritos.