quarta-feira, 28 de março de 2012

A Vez da Lusofonia - Por Luiz Domingues


A julgar pelos avanços que o Brasil tem apresentado nos últimos anos, seria mesmo uma questão de tempo para a nossa língua materna passar a ter uma maior relevância internacional, como sempre mereceu, a ter em vista que os portugueses espalharam o seu idioma por todos os continentes e isso não é pouca coisa. Portugal, um pequeno país em extensão territorial, mas um gigante pelo fato de ter difundido a sua língua e cultura através do planeta, vê agora seu filho maior, expandir-se e assim auxiliar a espalhar a língua portuguesa, para elevá-la em padrões inimagináveis, se vistos anos atrás. É sabido, por exemplo, que muitos países sulamericanos, em sua maioria, hispânicos, instituíram o português como matéria nas escolas de ensino fundamental, sabidamente por conta da liderança natural que o Brasil assumira no cone sul e América latina em geral, desde os primórdios da instituição do Mercosul.

Atualmente, ainda mais líder, a destacar-se entre os chamados, "Brics" e por ser projetado por economistas como uma possível potência de primeiro mundo em um futuro não muito distante, o Brasil tem dado margem a uma pequena corrida internacional em torno do interesse pelo português, a nossa língua. Segundo dados, o português é falado atualmente por cerca de 250 milhões de pessoas no planeta, ao contabilizar-se apenas os nativos. É a sexta língua mais falada do mundo, já superou o russo, língua de um povo muito antigo e dono de uma sólida cultura e história, por exemplo.

Contudo, alguns avanços ainda precisam ser conquistados. A falta de recursos nas áreas de educação e cultura, internamente a descrever, traz também seus reflexos nessa área, sob expansão da língua. São incipientes as iniciativas em prol do português. Se existe o Instituto Camões de Lisboa e o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo (além de 22 centros de cultura lusófona, espalhados pelo mundo), realmente no cômputo geral são muito poucas ações em prol da divulgação e enaltecimento de nossa língua & cultura. Outra questão é a institucionalização do português como língua oficial da ONU. Se o russo o é, com todo o respeito e admiração por esse país e sua cultura milenar, o português precisa dessa elevação, também.

Matéria publicada inicialmente no Blog Pedro da Veiga, em 2011.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Espaço Limitado - Por Luiz Domingues


O Brasil poderia ter um programa espacial mais avançado, mas por incrível que pareça não o tem, por outra razão bem diferente do que nossas deduções óbvias levassem-nos a crer. Antes que o leitor estranhe que eu afirme tal ideia ao contra-argumentar que um país com tantos problemas estruturais não poderia investir dinheiro pesado em algo supostamente irreal ante a nossa realidade e prioridades, é bom esclarecer que ciência não é algo supérfluo e assim, benefícios concretos poderiam advir em tal exploração. Portanto, não seria pelo fator financeiro, nem pela capacitação, instalações ou entraves burocráticos (pasmem !) A verdadeira barreira é a questão obscura em torno de opções feitas, deliberadamente pelas nossas autoridades.
Em recentes documentos revelados, ficou claro que uma forte pressão internacional, com direito a um velado embargo tecnológico, tem evitado o crescimento do Brasil nesse setor desde o início dos anos noventa, ao preservar assim os interesses de fora.
Em uma reportagem publicada no Jornal, Folha de São Paulo, vários desses documentos foram revelados e ficou bem clara essa pressão de nossos amigos oriundos de outras nações.
Sob uma farta profusão de telegramas (a Folha revelou cento e um, em seu site), mostra-se que esse embargo vem a ocorrer desde 1987, e teve duração, seguramente, até 2009. Sob a alegação de coibir a venda de materiais que pudessem ser usados na fabricação de mísseis, nações de primeiro mundo usaram de todo tipo de pressão para coibir o desenvolvimento brasileiro, assim como de vários outros países emergentes. Não foi à toa, portanto, que o envio do primeiro astronauta brasileiro ao espaço, tenha ocorrido apenas recentemente e como consequência, ter obtido resultados pífios para a praticidade da ciência, quando foi até motivo para chacota em alguns setores da sociedade, que ironizaram o fato do astronauta ter feito experiências primárias, dignas de alunos da 5ª série, na aula de ciências, como se tivesse sido através de experimentos com feijõezinhos no espaço...
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2011.

sábado, 24 de março de 2012

Sunset Strip, Um Dia Intenso - Por Luiz Domingues


Um dia em Los Angeles, em pleno ano de 1972, com muitas coisas a acontecer simultaneamente e entrelaçadas por um mesmo sonho. 
Esse é o mote do filme, "Sunset Strip", obra do diretor, Adam Collis, lançado em 2000. São várias situações aparentemente díspares entre si, mas entrelaçadas pelo sonho em torno do Rock.
Zach (interpretado por Nick Stahl), é um jovem guitarrista que aspira alcançar o estrelato, enquanto sobrevive com subempregos. Na base do esforço e tenacidade, consegue que sua desconhecida banda, abra o show de um astro do Rock britânico, chamado : Duncan (interpretado por Tommy Flanagan ).
Duncan é um artista "cool", consagrado, idolatrado e tem uma veia performática que gira entre os estilos de David Bowie; Jim Morrison, e Peter Gabriel se é que fosse possível abranger tantas nuances assim. Ele possui o seu público fanático e muito exigente. Duncan tem um affair rápido com a estilista, Tammy Franklin (interpretada por Anne Friel), que é dona de uma confecção onde costuma vestir muitos astros do Rock norteamericano, como Glen Walker (Jared Leto), famoso na cena do Country-Rock e com quem mantém um affair, também.  Apaixonado pela estilista, o fotógrafo de moda, Michael Scott (Interpretado por Simon Baker), acompanha toda movimentação em torno desses Rockers, no atelier dela e tenta ajudar um amigo compositor, Felix (interpretado por Rory Cockrane), que é depressivo e costuma afoga-se no álcool e nas drogas. Outro personagem interessante, é o empresário artístico, Marty Shapiro (Adam Goldberg), que empresaria bandas orientadas pela estética da Black Music (Soul Music / Funk / R'n'B). Completamente histriônico e prolixo, oferece momentos cômicos ao filme, sem dúvida.

Toda ação do filme, acontece no espaço de 24 horas, a gerar um dinamismo grande à trama. Zach e sua banda estão programados para abrir o grande astro britânico, Duncan no emblemático, Whisky a Go Go, uma casa de shows tradicional na vida real. Confusões as mais diversas acontecem durante todo o dia.  Zach é paquerado por uma bela mulher e ao aceitar o convite para entrar em seu carro, é conduzido para uma mansão e descobre que o namorado dela é uma estrela temperamental da música Folk, que o expulsa a tiros (menção à Mr. Zimmerman ?). No atelier de Tammy, a temperatura sobe nos provadores de roupas, a cada instante.
Duncan aparece com a sua entourage, e por ostentar seu temperamento alterado, como uma estrela e o fotógrafo, Michael Scott, fica dividido entre aproximar-se de Tammy, tentar ajudar o seu amigo Felix e aguentar o empresário falastrão, Shapiro.
Mas o mote principal dessa balbúrdia é o jovem guitarrista, Zach e o seu sonho pessoal. Ao empunhar a sua guitarra, Fender Stratocaster, toca na varanda de sua casa e sempre ouve outro misterioso guitarrista a tocar pela vizinhança. Percebe que ele o provoca a fazer duelos guitarrísticos, mas não consegue identificar de onde ele está a tocar. Chega o momento do grande show de abertura e tudo dá errado para Zach e seus companheiros. O áudio está um horror, o público só quer saber do show do grande Duncan, naturalmente e o dono do Whisky a Go Go, expulsa sumariamente a banda do palco.
Duncan entra em cena e faz seu Art-Rock, para delírio de seus catatônicos fãs. Scott logra êxito em seu intento, ao acertar-se com Tammy. Felix desiste do suicídio romântico e Glen Walker tem uma epifania sobre o novo rumo que sua carreira vai possuir.
Frustrado, Zach volta para a casa e mente ao seu vizinho, um simpático senhor idoso, que fora músico nas décadas de quarenta e cinquenta, ao dizer-lhe ter dado tudo certo, e que um grande contrato foi oferecido-lhe, decorrente da boa impressão que causara. Esse é um momento pungente do filme, pois firma a questão do músico em torno de seu sonho em alcançar o sucesso, na forma dessa sinergia entre dois músicos divididos por gerações diferentes, porém unidos pelo mesmo ideal. Para finalizar, Zach vai a uma lanchonete e após sair dela, ouve o misterioso som de uma guitarra a ecoar em um beco próximo. Bingo... é o seu vizinho guitarrista que nunca identificara anteriormente, e que toca o lindo tema que sempre ouve de sua varanda ("Cannyon Song", música da The Band). Ao aproximar-se, percebe que o garçom da lanchonete é o guitarrista em questão. Essa cena final é emblemática, pois sem pronunciar nenhuma palavra, ambos entendem-se ao conversar através das suas guitarras. É bonito vê-los a tocar em duo, com os olhos de ambos a brilhar e a certeza final : no Rock, o sonho nunca acaba...

Em suma, um bom filme a retratar diversas nuances sobre os bastidores do Rock setentista, com uma trama frenética e entremeada por muitos personagens a interagir sem necessariamente, haver uma relação mais aprofundada entre eles. Algumas situações cômicas e a mensagem final ao mostrar o lado lúdico do sonho, que é sempre nutrido pelos belos propósitos. Não trata-se de uma obra prima, mas certamente é agradável para assistir,

Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011

sexta-feira, 23 de março de 2012

Atire a Primeira Pedra - Por Luiz Domingues



Em uma guerra, não há mocinhos, nem bandidos como os filmes de Hollywood tanto disseminaram, por décadas a fio. Na realidade, barbaridades podem ser são cometidas por todos os personagens envolvidos no conflito. Recentemente foi descortinada uma página triste da história, onde atrocidades cometidas por cientistas sem escrúpulos os igualaram às praticas nazistas em campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial. Documentos revelaram que entre 1946 e 1948, um experimento científico  infectou cerca de mil e trezentos cidadãos guatamaltecos, acometidos por doenças venéreas, para supostamente testar os efeitos da então recém lançada penicilina, no combate às doenças sexualmente transmissíveis.

Entre outras praticas dignas de um Dr. Mengele, inoculou-se sífilis no globo ocular de prostitutas, e as estimularam a copular posteriormente com soldados do exército daquele país latino-americano, além de civis a apresentar quadro com deficiências físicas e mentais. Órfãos também foram usados nos experimentos, onde o cientista responsável, um senhor chamado, Dr. John Charles Cutler, manteve um laboratório nos moldes parecidos aos usados pelo personagem fictício, o sinistro Dr. Moreau, protagonista da ficção científica : "A Ilha do Dr. Moreau" (Livro de H.G. Wells), que gerou três bons filmes, por sinal. E o Dr. Cutler, que antes desses documentos vir à baila, por décadas foi considerado um benfeitor da humanidade por suas descobertas no campo das DST, agora sabemos, foi às custas de pessoas pobres de um país centro-americano, certamente tratadas como cidadãos de terceira classe. E para ir mais fundo, descobriram que antes, em 1943, já fizera vários experimentos em presidiários e infelizmente, em pessoas negras e pobres de uma penitenciária da Indiana. Porém, Mengele e Cutler não estão sozinhos na disputa pela "medalha de ouro Dr. Moreau". Cientistas coreanos, nos anos 1930, obrigaram cobaias humanas a ingerir repolhos envenenados e através de uma cúpula envidraçada, monitoravam "cientificamente', os vinte minutos em média, que esses infelizes demoravam para morrer, após violentas convulsões.

Um microbiologista chamado, Shiro Ishii, montou durante o período da Segunda Guerra Mundial , um laboratório ainda mais cruel que o do Dr. Cutler, instalado em um rincão asiático. Grigori Mairanovski, outro cientista, costumava realizar experimentos com cobaias humanas nos chamados, gulags, ao envenená-las com gás C-2. Durava cerca de quinze minutos a agonia dessas pessoas, observada com afinco pelo "nobre" pesquisador. E o objetivo desse experimento fora descobrir um meio do gás não deixar vestígios a ser descobertos por legistas, e assim contribuir com a eficácia do sigilo da espionagem na Guerra Fria.
E o que dizer dos experimentos da bomba atômica ? Pergunte aos pobres moradores do Atol de Bikini ou das Ilhas Marshall, onde muitos foram prejudicados, diante de casos relatados sobre abortos, nascimentos prematuros, câncer tireoidiano etc. Entre 1971 e 1989, um cientista sul-africano, torturou milhares de pessoas, ao alegar ter encontrado a "cura" para o homossexualismo masculino e feminino. Entre seus métodos, constava o uso de eletrochoques e castração química.

E o projeto MK-Ultra ? Muito antes dos Hippies dos anos sessenta eleger o LSD como o seu combustível, sob as bênçãos de Timothy Leary, cientistas fizeram muitos experimentos desde o final dos anos 1940, mas com outros propósitos, menos lúdicos. O objetivo seria controlar a mente de super espiões, ao violar as normas do código de Nuremberg (quando proibiu-se experimentos desse nível para efeitos militares ou de inteligência secreta ). E para testar tais métodos, doses cavalares com LSD, foram injetadas nas cobaias e muita gente morreu de uma forma trágica. Recomendo assistir o excelente filme, "The Manchurian Candidate", onde esse tema é tratado, com Frank Sinatra a atuar como o protagonista, e muito bem por sinal.

Para encerrar : em nome da "ciência", não foram apenas os pobres animais que sofreram. E nenhuma nação está livre desse ônus, onde não existem mocinhos, só bandidos
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, e republicada posteriormente no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2011.

Rock Star - Por Luiz Domingues

A história de todo artista é quase sempre a mesma : primeiro ele enlouquece ao ver artistas consagrados em ação; depois tenta imitá-los, desesperadamente, e por conseguinte, em uma etapa mais madura do seu próprio desenvolvimento, finalmente encontra o seu estilo e personalidade própria. Essa é portanto, o tema do filme norteamericano, "Rock Star", sobre um aspirante a artista muda a sua condição pessoal, repentinamente da condição de vocalista cover de uma banda tributo, para vocalista oficial da banda que ele idolatrava. O filme é inspirado na trajetória do vocalista, Tim "Ripper" Owens, que um dia entrou para o Judas Priest, ao substituir, Rob Halford. Mark Wahlberg interpreta, Chris Cole, um rapaz oriundo de Pittsburgh, que trabalha a consertar máquinas de xerox, mas é também vocalista de uma banda cover chamada, "Blood Polluttion", que faz tributo à fictícia banda : "Steel Dragon". O ambiente é o do Heavy-Metal dos anos oitenta, com todos os seus exageros visuais e sonoros, típicos daquele estilo e década.
O filme começa com esses contrastes do personagem principal, entre a vida simples em família; o trabalho maçante e as pequenas apresentações da sua banda cover, "Blood Pollution".  Chris Cole (Wahlberg ), parece ser o único a levar a sério o trabalho da sua banda cover e cobra dos companheiros a perfeição na execução das músicas do "Steel Dragon", que interpretam.

Sua namorada, Emily Poule (Jennifer Aniston - Ex-"Friends"), é a produtora da banda cover, e sua principal incentivadora. Um dia, ele recebe o telefonema do guitarrista do Steel Dragon, Curt Cuddy (interpretado por Nick Catanese), e é convidado a submeter-se a um teste para entrar na banda. Em princípio não acredita, todavia fora a verdade. A sequência a seguir é muito interessante, pois retrata o verdadeiro choque térmico que o personagem (e a namorada), sofrem ao deparar-se com o mundo mainstream. A começar pela mudança de seu nome artístico, que passou a adotar, ao chamar-se simplesmente : "Izzy", doravante.

Uma das cenas que melhor retratam esse deslumbramento é quando Chris Cole / Izzy vai posar para as suas primeiras fotos promocionais como vocalista do "Steel Dragon" e posa a rir, pois não consegue conter a sua euforia, em meio aos companheiros mais experientes, todos a seguir o estereotipo do "headbanger" padrão, a realizar a expressão facial tensa, a denotar agressividade. E no primeiro show, o ato falho desnuda o seu completo despreparo ao atuar sob um palco imenso, e assim tropeçar e protagonizar um tombo feio, que só não arruinou tudo, por que continuou a cantar, com sangramento e tudo. E por conta disso, os fãs gostam da atitude e nesse universo, tal tipo de ocorrência realmente é valorizada, certamente. Assédio; festas malucas no camarim, e farras pelos hotéis, tudo é deslumbramento e excitação para Chris Cole / Izzy, que agora canta na banda que antes, idolatrava.

Mas a pressão também começou a miná-lo. O clima na banda é opressivo, mediante cobranças e não há nenhum espaço para criar, apenas seguir as ordens do líder (o guitarrista, Kirk Cuddy - Nick Catanese), e do empresário da banda (Mats, interpretado pelo ator britânico, Timothy Spall, que interpretou o baterista da banda, Strange Fruit, no filme "Still Crazy"). Ao começar a tornar-se um "junkie & drunkie", dá mostras de decréscimo em sua performance artística e enfim percebe que tudo aquilo fora uma farsa e resolve então, providenciar uma guinada em sua vida.

O universo do Heavy-Metal oitentista não é da minha predileção, mas eu gosto bastante desse filme, por vários aspectos. Primeiro, por discutir essa questão da idolatria sob os dois lados do mesmo espelho. E também pelas boas cenas com shows; bastidores e loucuras com festas regadas a groupies, e assim retratar bem o clima de uma banda em seu auge dentro do universo mainstream.

Uma grande ideia foi recrutar músicos verdadeiros, oriundos dessa cena do Heavy-Metal, para interpretar os músicos da banda, "Steel Dragon" e também da banda cover, "Blood Pollution". Dessa forma, estão ali músicos como : Zakk Wylde; Jason Bonhan; Jeff Pilston; Nick Catanese; Blas Elias; e Brian Vander Ark. E a voz do cantor de Heavy-Metal, do personagem Chris Cole / Izzy, foi emprestada por dois vocalistas autênticos : Miljenko Matijevic e Jeff Scott Soto. Dirigido por Stephen Herek e com a trilha sonora assinada pelo guitarrista, Trevor Rabin (ex-Yes, fase oitentista), sob uma produção de 2001. Bom filme, pode assistir que é diversão garantida.

Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

sábado, 17 de março de 2012

The Grapes of Wrath (As Vinhas da Ira) - Por Luiz Domingues


O escritor norteamericano, John Steinbeck, lançou em 1939, um livro chamado, "The Grapes of Wrath" (As Vinhas da Ira), a enfocar a saga de uma família a lutar para sobreviver à grande depressão norteamericana da década de trinta. Nessa obra, retratou de forma muito comovente os anos difíceis em que o povo norteamericano sobreviveu com muitas dificuldades, graças ao grande crash da Bolsa de Valores de Nova York, no ano de 1929. Como sempre, quem mais sofreu foram as camadas mais simples da população. Pequenos fazendeiros perderam as suas terras (impossível quitar as hipotecas); operários perderam os seus empregos, com muitas fábricas falidas, comerciantes ficaram em frangalhos etc.
Foi assim que o então já consagrado diretor, John Ford, transportou para as telas essa saga de Steinbeck, em 1940. A adaptação do livro para o cinema, foi boa, na medida do possível onde leva-se em conta que o livro sempre tem muito mais detalhes, mas Ford foi bem feliz nessa adaptação do roteiro.
Ao contar com um elenco repleto por ótimos atores, Ford realizou um filme extremamente pungente, apesar da aspereza do tema e do enfoque em situações dramaticamente duras, porém reais no tocante à absoluta penúria que a depressão causou ao povo norteamericano, principalmente aos menos favorecidos.
O personagem principal chama-se : Tom Joad. Um homem rústico que cometeu um crime e ficara encarcerado por muitos anos. Doravante em liberdade, volta para a casa e depara-se com a família em situação sob penúria, com a pequena propriedade rural que possuíam, perdida, e sem perspectivas para manter o seu sustento. Sem outra alternativa, a família junta a sua parca economia e investe na compra de uma caminhão velho para a seguir, colocar-se a caminho da Califórnia, um dos únicos, senão o único estado da federação, onde a crise estava a ser suportada, graças à riqueza das fazendas produtoras de laranja; pêssego e algodão, principalmente, e por conta da indústria cinematográfica ali instalada e sob franca expansão. A viagem da família, ao cruzar vários estados, a partir de Oklahoma, é muito emocionante. Sem recursos, com o desconforto de um caminhão horroroso, e a quebrar pelo caminho, além de enfrentar algo pior, como a fome; sede e calor. Para agravar esse sofrimento, o vovô morre na estrada, por não suportar as condições insalubres dessa viagem. Logo a seguir, sucumbe a vovó, ao não aguentar a perda do marido. À medida que avançam, passam a encontrar diversas outras famílias na mesma situação miserável, a lutar desesperadamente pela sobrevivência, vindas de diversos outros estados e a sonhar com dias melhores na ensolarada, Califórnia.
Quando chegam a fronteira desse estado, já estão em meio a um inacreditável comboio formado por excluídos, oriundos de várias partes do país. De fato a depressão não foi nada fácil e essa aglomeração migratória na Califórnia, ocorreu na vida real. O volume gerado pela horda de migrantes famintos foi tanto, que o governo estadual da Califórnia montou uma triagem policial na fronteira. Para entrar no estado, seria preciso apresentar documentos para comprovar-se possuir uma residência fixa; trabalho contratado; ou uma quantia mínima em dinheiro, em mãos, para atestar ser possível manter-se pelo menos por um certo tempo. A família de Tom Joad faz todo o tipo de sacrifícios para poder ter essa chance e finalmente consegue uma colocação em uma fazenda. 
Infelizmente, muitos inescrupulosos aproveitavam-se da situação lamentável desses retirantes e oferece-lhes trabalho sob condições aviltantes, na base da escravidão, praticamente. Remunerações miseráveis foram oferecidas em contratos maliciosos, onde toda a despesa de subsistência fora cobrada mediante preços extorsivos, ao estabelecer que o trabalhador ficasse sempre a dever ao empregador, para tornar o trabalho, uma enorme exploração, veladamente. Após muitas confusões, a família consegue livrar-se dessa situação e acha uma outra fazenda onde as condições de trabalho são enfim, dignas. Mas mesmo assim, tragédias ocorridas com enchentes e incêndios, faz com que rumem para outro destino incerto. Em um desses acampamentos de trabalho, envolvem-se com gangs formadas por sabotadores e ao forçar uma uma briga, ocorre um assassinato. Com fama de ex-presidiário, claro que Tom Joad torna-se um alvo fácil. Sem saída, a família sai em fuga, mas ao verificar que seriam apanhados facilmente, Tom Joad resolve fugir sozinho, para poder fornecer uma chance melhor de sobrevivência à sua família.
O famoso discurso do personagem Tom Joad é de arrepiar : "Eu estarei nos cantos escuros. Estarei em todo lugar. Onde quer que olhe. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, eu estarei lá. Onde houver um policial surrando um sujeito, eu estarei lá. Estarei onde os homens gritam quando estão enlouquecidos. Estarei onde as crianças riem quando estão com fome e sabem que o jantar está pronto. E, quando as pessoas estiverem comendo o que plantaram e vivendo nas casas que construíram, eu também estarei lá".
O grande ator, Henry Fonda, interpretou o personagem, Tom Joad, com um olhar tão desesperançado, que realmente fica difícil imaginar outro ator de sua época, para tal interpretação. Jane Darwell; John Carradine; Russell Simpson; O.Z. Whitehead; e John Qualley, entre outros, participam desse grande filme, também. Um filme impressionante, emocionante e histórico.

sexta-feira, 16 de março de 2012

That Thing You Do : A América Reage ! - Por Luiz Domingues



No início da década de sessenta, dois grandes movimentos musicais movimentaram a América, na Era pré-psicodélica : em primeiro lugar, a British Invasion, uma onda formada por bandas britânicas, com os Beatles na dianteira e que tomaram o país de assalto, para em seguida proporcionar a reação dos yankees, com um movimento conhecido historicamente como : "American Reaction".

É nesse contexto que o filme, "That Thing You Do" atua, ao retratar a ascensão e decadência de uma banda fictícia, presumivelmente oriunda do estado da Pennsylvania, chamada : "The Wonders" (daí que no Brasil o filme ficou conhecido como : "The Wonders - O Sonho Não Acabou"). Com roteiro e direção de Tom Hanks, o filme mostra esse ambiente norteamericano e borbulhante, entre 1963 e 1964, através da emergente carreira da banda, The Wonders.

Originariamente chamada como : "The Oneders", um confuso e dúbio trocadilho, a banda apresentava-se em pequenas casas noturnas e festivais colegiais insípidos, apenas, em sua cidadezinha interiorana quando às vésperas de um festival mais importante, sofrem um revés.
Com um braço quebrado, seu baterista original, impossibilita-se para atuar em tal compromisso  e dessa forma, os demais componentes convidam um substituto às pressas, chamado : Guy "Shades" Patterson (interpretado por Tom Everett Scott). Entretanto, o destino muda a vida da banda, quando durante o festival, o novo baterista imprime um andamento acelerado e muda a batida da outrora balada insossa, "That Thing You Do", e por ter transformado o arranjo da música por pura distração de sua parte, assim confere-lhe, sem querer, um clima empolgante para a canção, ao estilo "bubblegum", a la The Beatles, portanto, a arrebatar a plateia, de uma forma instantânea. Com esse sucesso repentino, eis que a banda passa a tocar em lugares melhores, e dessa forma, logo consegue atrair um empresário que, graças aos seus pequenos contatos, coloca-os em situações vantajosas, inclusive ao tomar a dianteira para produzir um single, ainda que este fosse mal gravado, mas que faz enorme sucesso local. Dessa forma, chamam a atenção de um empresário com maior porte gerencial, que contrata-os e coloca-os a seguir, em um ritmo sob ascensão rápida e segura. 

Esse tal empresário é Mr. White (interpretado pelo próprio, Tom Hanks, que acumulou várias funções na produção desse filme), nitidamente inspirado no mítico empresário dos Beatles, Brian Epstein. É muito interessante ver a composição do personagem por Hanks, nesse sentido, com os seus trejeitos; a maneira com a qual cobra posturas da banda nos diversos aspectos para gerenciar-se uma carreira artística, tais como : no trajar; portar-se publicamente; conceder entrevistas, e lidar com todas as situações inerentes.
E na elaboração do roteiro, Hanks teve muita felicidade, pois alinhavou diversas situações engraçadas e outras nem tanto, mas reais (o despreparo dos garotos interioranos para fazer sucesso maciço, por exemplo), que trouxe diversas matizes sobre os bastidores de uma banda emergente, naquele cenário da época.

A cena em que ouvem pela primeira vez a sua música a tocar em uma emissora de rádio local,  é belíssima. A emoção prosaica desse feito inédito para a banda, emociona. E nesse ponto, começam as excursões extenuantes pelo interior, a tocar com outros artistas do elenco da mesma gravadora e a ascensão contínua e segura da banda, até participar de um filme (eis uma ótima alusão àquela safra de filmes ambientados nas praias californianas, que fez a fama de alguns atores, como : Anette Funicello; Sandra Dee e Frankie Avalon, por exemplo, e onde sempre houve cenas musicais desse tipo, com bandas de Rock), e também por ir apresentar-se em um programa de TV com repercussão nacional, que catapulta-os à condição de sucesso total (alusão ao Ed Sullivan Show).

É bonito ver a música de trabalho a subir nos "charts" (paradas de sucesso), onde lê-se o seu nome misturado às feras reais da época, como The Beatles e The Rolling Stones, por exemplo. Mas existem os conflitos também, claro.
O guitarrista / vocalista, James "Jimmy" Mattingly II (interpretado por Johnathon Schaech), é temperamental e arrogante. Por desejar arvorar-se em ser o compositor da maioria das canções da banda, quer os louros da vitória só para si, além de desprezar o amor de sua linda namorada, Faye Dolan (Liv Tyler, que mostra-se deslumbrante como uma moça de 1964, devo frisar), que por sua vez, torna-se produtora da banda, e braço direito de Mr. White.  O baixista "T.B. Player" (sem nome definido no filme, apenas conhecido por esse apelido, que significa "o baixista", interpretado por Ethan Embry), não tem firmeza de propósitos e sob uma maneira infantil, deixa a banda no auge da ascensão, para alistar-se no exército...

O guitarrista solo, Leonard "Lenny" Haize ( Steve Zahn), fica embriagado e casa-se, na calada da noite, em Las Vegas, com uma namorada ao estilo : "One Nighter". Ainda a tentar salvar o seu investimento, o empresário, Mr. White contrata um novo baixista, mas a banda já não suporta os seus problemas internos e implode.
A vida é assim mesmo, pois é muito difícil para qualquer artista ter a sorte em encontrar uma porta aberta, e muito mais difícil ainda, é manter-se dentro desse seleto hall do sucesso. "That Thing You Do" é um filme leve e delicioso para assistir-se. Retrata com muita felicidade esse período lindo da Era pré-psicodélica na América.

Com excelente figurino; direção de arte caprichada; e ótimas cenas de shows, o filme tem também um bom elenco (a bela, Charlize Theron, participa inclusive, ao interpretar a namorada do baterista, no início da história), além, é claro, da trilha ser muito boa. Tom Hanks, além de criar o roteiro; produzir; dirigir; e atuar, também compôs algumas canções da trilha, feito esse que o fez  igualar-se à Charles Chaplin, que costumava também acumular diversas funções em seus filmes.


Mesmo por ser a história de uma banda fictícia, "That Thing You Do" retrata de forma fidedigna o ambiente musical dessa época na América, em plena reação yankee ao sucesso avassalador das bandas britânicas, com os Beatles na sua sublime comissão de frente.

Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.