sexta-feira, 16 de março de 2012

That Thing You Do : A América Reage ! - Por Luiz Domingues



No início da década de sessenta, dois grandes movimentos musicais movimentaram a América na Era pré-psicodelia : em primeiro lugar, a British Invasion, uma onda de bandas britânicas com os Beatles na dianteira e que tomaram o país de assalto, para em seguida proporcionar a reação dos yankees, com um movimento conhecido historicamente como : "American Reaction".

É nesse contexto que o filme "That Thing You Do" atua, retratando a ascensão e decadência de uma banda fictícia da Pennsylvania, chamada "The Wonders" (daí no Brasil o filme ser conhecido como "The Wonders - O sonho não acabou").

Com roteiro e direção de Tom Hanks, o filme mostra esse ambiente americano entre 1963 e 1964, através da banda The Wonders.


Originariamente chamada "The Oneders", um confuso e dúbio trocadilho, a banda se apresentava em pequenas casas noturnas e festivais colegiais insípidos apenas, em sua cidadezinha interiorana quando às vésperas de um festival mais importante, sofrem um revés.
Com um braço quebrado, seu baterista se impossibilita de tocar e dessa forma, convidam um substituto às pressas, chamado Guy "Shades" Patterson (interpretado por Tom Everett Scott).

O destino muda a vida da banda quando durante o festival, o novo baterista imprime um andamento acelerado e muda a batida da balada insossa "That Thing You Do", transformando o arranjo da música, e assim lhe conferindo um clima empolgante de "bubblegum" à lá Beatles, arrebatando a plateia.

Com esse sucesso, passam a tocar em lugares melhores, e logo conseguem um empresário que os coloca em situações vantajosas, inclusive tratando de produzir um single, ainda que mal gravado, mas que faz enorme sucesso local.
 

Dessa forma, chamam a atenção de um empresário de maior porte que os contrata e os coloca num ritmo de ascensão rápida e segura. 

Esse empresário é Mr. White (interpretado pelo próprio Tom Hanks), nitidamente inspirado no mítico empresário dos Beatles, Brian Epstein.

É muito interessante ver a composição do personagem por Hanks nesse sentido, com os trejeitos, a maneira com que cobra posturas da banda no trajar, se portar, e lidar com todas as situações.

E na elaboração do roteiro, Hanks teve muita felicidade , pois alinhavou diversas situações engraçadas ou não (o despreparo de garotos interioranos para fazer sucesso maciço, por exemplo), que trouxe diversas matizes dos bastidores de uma banda emergente, naquele cenário da época.

A cena em que ouvem pela primeira vez a sua música tocando no rádio é belíssima. A emoção prosaica desse feito inédito para a banda, emociona.

E aí começam as excursões extenuantes pelo interior, tocando com outros artistas da gravadora e a ascensão contínua e segura da banda, até participar de um filme (numa alusão àquela safra de filmes ambientados nas praias californianas, que fizeram a fama de atores como Anette Funicello, Sandra Dee e Frankie Avalon, por exemplo, e onde sempre haviam cenas musicais desse tipo), e também ao irem se apresentar num programa de TV de repercussão nacional, que os catapulta à condição de sucesso total (alusão ao Ed Sullivan Show).

É bonito ver a música subindo nos "charts", onde se lê seu nome misturado às feras reais da época, como The Rolling Stones, por exemplo.

Mas existem conflitos também, claro.

O guitarrista/vocalista James "Jimmy" Mattingly II (interpretado por Johnathon Schaech), é temperamental e arrogante. 

Querendo se arvorar de ser o compositor da maioria das canções da banda, quer os louros da vitória só para si, além de desprezar o amor de sua linda namorada, Faye Dolan (Liv Tyler, deslumbrante como uma moça de 1964...), que por sua vez, se torna produtora da banda, e braço direito de Mr. White.

O baixista "T.B. Player" (sem nome definido no filme, apenas conhecido por esse apelido, que significa "o baixista", interpretado por Ethan Embry), não tem firmeza de propósitos e de maneira infantil, deixa a banda no auge da ascensão, para se alistar no exército...

O guitarrista solo, Leonard "Lenny" Haize ( Steve Zahn), fica embriagado e se casa, na calada da noite em Las Vegas.

Ainda tentando salvar seu investimento, o empresário Mr. White contrata um novo baixista, mas a banda já não suporta seus problemas internos e implode.

A vida é assim mesmo, pois é muito difícil para qualquer artista ter a sorte de encontrar uma porta aberta, e muito mais difícil ainda, é se manter dentro desse seleto hall do sucesso.
 

"That Thing You Do" é um filme leve e delicioso de se assistir. 

Retrata com muita felicidade esse período lindo da Era pré-psicodelia na América.

Com excelente figurino; direção de arte caprichada; e ótimas cenas de shows, o filme tem também um bom elenco (Charlize Theron participa, fazendo a namorada do baterista, no início), além, é claro, da trilha ser muito boa.

Tom Hanks, além de criar o roteiro; produzir; dirigir; e atuar, também compôs algumas canções da trilha, feito que o fez se igualar à Charles Chaplin, que costumava também acumular diversas funções em seus filmes.



Mesmo sendo a história de uma banda fictícia, "That Thing You Do" retrata de forma fidedigna o ambiente musical desse época na América, em plena reação yankee ao sucesso avassalador das bandas britânicas, com os Beatles na sua sublime comissão de frente.

Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

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