domingo, 11 de março de 2012

Palmeiras, 97 anos de Paixão Ítalo-Brasileira - Por Luiz Domingues

Fundada por imigrantes italianos no dia 26 de agosto de 1914, a Società Sportiva Palestra Italia nasceu com o objetivo de congregar todos os imigrantes italianos e seus descendentes numa agremiação sócio-esportiva e eventualmente cultural.

Com o futebol se tornando o carro chefe, logo se tornou uma referência esportiva para orgulhar os ítalo-brasileiros.

Inicialmente, tinha como cores oficiais, o verde; branco, e vermelho do pavilhão nacional italiano. Era portanto “tricolore” em seus primórdios.

O vermelho acabou tendo que ser deixado de lado, por conta de problemas decorrentes de pressões políticas devido à II Guerra Mundial, no momento em que o Brasil fechou apoio aos aliados, declarando assim guerra aos países do eixo, incluso a Itália.

Dessa forma, teve que forçosamente mudar de nome, passando a se chamar Sociedade Esportiva Palmeiras no ano de 1942, e ironicamente enfrentando o clube que mais forçou a barra nos bastidores para o prejudicar, se aproveitando da guerra. A resposta veio no campo : Palmeiras 3 x 1 São Paulo FC, primeiro jogo com o novo nome e final de campeonato paulista: Palmeiras nascendo campeão.

Tudo isso é história, mas não vou ficar repetindo aqui textos oficiais como se fosse um entediante trabalho escolar.

Prefiro encerrar a parte histórica e nem entrar no mérito das conquistas esportivas para falar da minha experiência pessoal com esse clube.

Foi por volta de 1968, aos oito anos de idade que alheio às pressões familiares para escolher entre o São Paulo Futebol Clube, e a Associação Portuguesa de Desportos, que me descobri palmeirense ao ver embasbacado a atuação do escrete esmeraldino, nos tapes da TV, ainda em preto e branco.

Ao ver Ademir da Guia flutuar de cabeça erguida, colocando a bola onde queria, com a sutileza de um artista plástico que pincela uma tela, senti-me arrebatado pelo conceito de um futebol arte, acadêmico e plasticamente belo.

E dessa forma, me acostumei a ver o Palmeiras sempre imprimindo esse ritmo bonito de jogar, diferente dos outros times. Se o Corinthians era o time da garra, do apelo popular e o Santos tinha a magia do super-time de Pelé, o Palmeiras era a Academia, o jogo ditado pelo conceito cerebral de uma partida de xadrez.

Em 1968, a derrota na final da Libertadores para um Estudiantes de La Plata da Argentina, muito forte, mas tecnicamente inferior à Academia verde, não chegou a doer, pois eu ainda formatava na alma de menino de 8 anos de idade, o que representava vitória e derrota, euforia e frustração.

Mas logo em 1969, em plena reformulação da velha academia, pude comemorar o meu primeiro brasileiro, não o do Palmeiras, mas o meu como torcedor.

E não poderia haver momento mais mágico para ser palmeirense adolescente do que o início dos anos setenta. Eis que surge uma nova safra de craques e uma Academia II, reforçada por Dudu e Ademir da Guia, egressos da Academia I, dos anos sessenta, e agora jogadores experientes.

Aí exerci minha identidade verde ao máximo. Subi na grade do Pacaembu para comemorar gol com o César "Maluco"; Vibrei com a classe irretocável de Luis Pereira; Voei para cabecear nas alturas com Leivinha; Respirei aliviado com as defesas elásticas de Emerson Leão; Ri dos dribles desconcertantes que o pequeno Nei dava em seus marcadores, e vibrava com a velocidade de fundista do Edu Bala.

E no banco de reservas, o melhor técnico que eu vi trabalhar, um certo Osvaldo Brandão, que teve a proeza de ser ídolo de duas torcidas rivais…

E assim fui embalado por vitórias, títulos e beleza estética de quem tratava a bola como a um instrumento musical. Maestro Ademir da Guia conduzindo essa orquestra verde.

O Brasil humilhado em 1974 pelo espantoso carrossel holandês de Rinus Michels, para a surpresa de Zagallo que alegava não conhecer aquela seleção…e metade dessa fabulosa seleção jogando no poderoso Barcelona, naquele mesmo ano…final do troféu Ramón de Carranza, e a vingança : com os mesmos 2 x 0 devolvidos e os holandeses correndo com seu carrossel atrás de Ademir da Guia, inutilmente…

E os jornalistas europeus perguntando : “Se esse camisa 10 estava na seleção, por que seu teimoso treinador não o escalou” ? É que eles não sabiam que o velho Lobo via mais méritos no Dirceu “Borboleta”…

Tempos difíceis no anos 1980, derrotas e futebol feio. Humilhações, frustrações…Deixo de amar o verde ? Ora, isso lá importa para quem ama o esmeraldino ?

Ressurreição nos anos 1990, gestão inovadora e saraivada de críticas dos rivais. Onde já se viu mudar o desenho da camisa ? O Palmeiras se vendeu…

Não demorou e todo mundo percebeu que esse era o caminho para modernizar o padrão de gestão.

Academia III ? Esquadrões; títulos, e momentos sublimes de futebol arte. Sim, eu fui testemunha in loco de muitos desses instantes de gala. Saí cantando “Mi Buenos Aires querido” do Palestra Itália, após o histórico 6 a 1 no Boca Juniors numa dessas páginas mágicas.

Mais tempos difíceis, mas o amor não muda. O sangue jorra verde.
Agora, na expectativa da nova Arena Palestra Itália, a esperança de dias melhores, time competitivo, e à altura das tradições com retomada de suas glórias.

E não poderia haver maior honraria à colônia italiana, do que a nova Arena sediar um jogo da squadra Azurra na Copa de 2014. 

Isso seria uma grande homenagem à essa colônia que tanto contribuiu para a grandeza da cidade, e do estado de São Paulo e que de tão marcante, deixou como marca indelével o seu sotaque, que tipifica inconfundivelmente o português falado em São Paulo.

Parabéns Palmeiras, pelos seus 97 anos de italianíssima identidade paulista/paulistana.
Texto publicado em 2011 no Blog Futebol Apaixonante, a convite do jornalista Thomas Lagôa, como forma de marcar o aniversário de 97 anos da Sociedade Esportiva Palmeiras, na ocasião. 

2 comentários:

  1. Parabens campeão 2016 merecido comentario de um vascaino que volta de novo em 2017

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    1. Olá, Miguel !

      Feliz com sua visita ao meu blog, convido-o a voltar mais vezes, o blog é seu !

      Como quase todo palmeirense, tenho simpatia pelo Vasco da Gama e não tenha dúvida que enxergo nesse simpático clube carioca, muitas similaridades com a história do Palmeiras e vice-versa. É tanta afinidade, que o Vasco, nos anos quarenta teve pulso firme a impedir que um clube paulista fundado por escroques e que tentava aproveitar-se do fato do Brasil ter declarado guerra às nações que formavam o eixo abriu campo para que aproveitadores como esse clube, tentassem roubar patrimônio de clubes fundados por imigrantes italianos; alemães e japonesas e nesse bojo, queria apropriar-se do Parque Antarctica. Pois o Vasco foi o clube que usou mão de ferro para impedir esse assalto e defendeu com veemência o Palmeiras.

      Torci bastante para o Vasco subir em 2016 e atuar no seu lugar de direito, que é a série A. O que eu comentei sobre o Palmeiras nesse texto de alguns anos atrás foi profético sobre a reforma do estádio ser um marco para o clube reerguer-se. Acho que o Vasco deveria adotar a mesma política, mesmo que seja uma reforma a médio/longo prazo e torcida não ter paciência. Mas se o Vasco fizer isso e com a força natural que tem, vai ser muito feliz, como o Palmeiras está sendo.

      Grande abraço e muito obrigado pelo comentário e cumprimento pelo BR-16 !!

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