segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Carlão Gaertner, Mestre do Blues-Rock Paranaense - Por Luiz Domingues




Carlos Augusto Gaertner nasceu em Curitiba, mas viveu a infância e adolescência em Porto Alegre. Começou muito cedo na música e com uma grande incentivadora. Aos seis anos de idade, sua mãe, formada em piano clássico e acordeão, o colocou nas aulas para aprender o segundo instrumento citado, mas com 120 baixos, era inconvenientemente  grande e pesado para sua estrutura física de então, desanimando-o.


Não demorou e numa sala de cinema, em pleno ano de 1956, apaixonou-se pelo Rock’n Roll, assistindo “Jailhouse Rock”, estrelado por Elvis Presley. Daí, entre pedir um violão aos pais e receber um de seu avô materno, demorou dois anos.
Nesse ínterim, mesmo não se considerando um talento nato daqueles que nascem com facilidade para a música, com ouvido preciso, suplantou todas as barreiras do aprendizado inicial com determinação férrea e seu combustível era a paixão pelo Rock.

Arrebatado pelos pioneiros cinquentistas do Rock, foi questão de lógica mergulhar nas raízes do Blues, igualmente.


Por sorte, tinha um vizinho mais velho que já tocava guitarra e lhe deu vários toques valiosos. Era Anyres Rodrigues, com quem formou suas primeiras bandas. Anyres tocou numa banda que fez barulho no sul do país, “Os Brasas”, e que radicou-se posteriormente em São Paulo.


Nessa altura, Carlos já curtia também a safra de início dos anos sessenta, pré-Beatles, com aquela onda de Rock instrumental / Surf Music, via The Shadows; The Ventures e os brasileiros do The Clevers, futuro “Os Incríveis”, e outras nessa linha.

Começou timidamente, treinando nas cordas mais graves do violão, até desenvolver-se o suficiente para encarar um baixo de fato.


Quando Anyres se mudou para São Paulo para tocar com “Os Brasas”, Carlão já estava bem mais desenvolvido no baixo e seguiu em frente, formando uma nova banda chamada “Os Frenéticos”e aí, já estava arrebatado pela onda da British Invasion, curtindo e tocando covers de bandas com The Animals; The Beatles; Gerry and the Pacemakers, entre outros expoentes dessa safra.

Mais maduro, integrou o Beat Club Company, uma banda mais técnica e com som pesado. Nessa altura, já estavam de antenas ligadas nos Rolling Stones; The Who; Steppenwolf e muitos outros nomes do Rock.


De volta a Curitiba, com vinte anos de idade, em 1968, e tocando bem, logo foi conhecendo músicos da cena paranaense.


Formou duas bandas, antes de se firmar como componente oficial da mais seminal banda de Rock paranaense, A Chave.
A famosa "casa branca" d'A Chave, o QG da banda e maior ponto contracultural de Curitiba, nos anos setenta
 
Mais que uma banda, A Chave era catalisadora do que havia de mais contracultural na cena curitibana, a começar pelo seu QG, uma casa louquíssima, que além de abrigar o estúdio próprio de ensaios da banda, um luxo inimaginável para qualquer artista brasileiro nessa época, era praticamente um mini centro cultural pulsante, com biblioteca; sala de exposição para artes plásticas; equipamento gráfico para elaborar cartazes de shows e outros materiais; laboratório para revelação fotográfica; e ponto de encontro das melhores cabeças da cidade.

Saiu até numa edição da Revista Bondinho, o relato de uma histórica visita de Gilberto Gil e sua banda à Casa Branca da Chave, em 1972.


A Chave virou lenda em Curitiba; por todo o Paraná e cresceu, indo para São Paulo. Interagiu com as grandes feras do Rock brasileiro setentista. Abriu os Secos & Molhados no auge de seu estouro ainda em 1973.

Por volta de 1974, uma figura incrível entrou na vida da banda. Estabelecida a parceria com o poeta Paulo Leminski em diversas músicas, A Chave ganhou ainda mais conteúdo em seu trabalho.


O som da banda era bem na linha do Blues-Rock setentista. Tinha peso e primava pelos riffs fortes.

Carlão logo chamou a atenção pelo seu baixo ultra seguro, com timbre grave, arrancando o ronco de seu Fender Precision, inspirado em feras como John Entwistle; Jack Bruce, Jack Casady; Rushton Moreve; Nick Saint Nicholas; Mel Schacher; Paul McCartney, mas segundo relata, tem admiração especial pelo Bill Wyman, o Stone discreto e preciso.

Outro grande momento se deu abrindo os shows de Bill Halley and His Comets, em 1975. Dali em diante, muitos shows, turnês e interação com as melhores bandas do Rock brasileiro setentista, tornaram-se rotina para A Chave.
Mas os ventos mudaram radicalmente no final dos anos setenta, e A Chave foi mais uma vítima disso, tendo que encerrar atividades em 1979, por conta da falta de oportunidades generalizadas para todos nessa época de vacas magras para o Rock.


Carlão seguiu em frente e nos anos 80, formou a banda “A Pedra”, que tocou bastante no circuito de casas noturnas de Curitiba onde interagiu com a nova safra do chamado BR-Rock 80’s, até 1986.


Dedicando-se à produção musical, Carlão ficou um bom tempo sem tocar até que em 1991, surgiu o convite para fazer um som sem compromisso, apenas curtição entre amigos. Essa seria a semente de sua nova banda, o “Bartenders”, que cresceu de forma espontânea, sem que houvesse planificação para tal.


Animados pela excepcional receptividade do público onde se apresentavam, seguiram em frente e tal trabalho tornou-se referência na cena curitibana nos anos noventa e 2000.

Com várias formações, chegou a ter figuras históricas do Rock setentista, do mesmo patamar do próprio Carlão no seu line-up, como Luiz Carlini e Franklin Paolillo.


Com sonoridade de Blues-Rock, o Bartenders soa também como Southern Rock da pesada e vale a pena ouvi-lo com atenção.


A banda parou para pitstop estratégico e planeja uma volta em grande estilo ainda em 2016.

Carlão se formou jornalista e aliada à sua experiência como músico, envolveu-se em muitos projetos ligados à música. De produtor de shows de Rock e Blues, a festivais internacionais; fez assessoria de imprensa e cicerone para artistas gringos da grandeza de Charlie Watts; Paul McCartney; Ian Gillan; The Wailers; Carl Palmer; Jethro Tull e outros.


Manteve por 12 anos um programa sobre Blues na 96 FM de Curitiba; foi colunista de jornal (Jornal Correio de Notícias) falando de Rock; foi palestrante de diversas oficinas sobre a história do Blues, inclusive apresentando ciclo de cinema sobre o tema.

Carlão tem três baixos Fender Precision, um moderno, e dois vintage (1966 e 1974), e é fã inveterado desse modelo clássico (também sou !). Seu amplificador é um Marshall II Super Bass de 100 Watts, do ano de 1976, e em estado impecável.


Na sua percepção e considerando que usa palheta para tocar, o groovy que tira de seu Precision, vem da batida de sua mão direita com a intensidade certa, mais do que o dedilhado da mão esquerda no braço do instrumento.

Na escolha de timbre ao amplificador, Carlão busca o grave predominante, mas sempre calculando a dosagem de médios e agudos em proporção ao local da apresentação, para não perder a inteligibilidade das notas em seus fraseados.


Carlão Gaertner é uma lenda do Rock e do Blues paranaense, um grande músico; agitador cultural e um dos maiores experts na história do Rock e do Blues.
Mais que isso, um verdadeiro dínamo cultural, de Curitiba para o mundo. 


Playlist básico :
A Chave – De Ponta cabeça (Full Album 1977) :






A Chave ao Vivo – 1974  (em arquivo zipado):



A Chave – Ao Vivo em 1975 (Bootleg) :






Documentário “Todo Roqueiro é Gente Fina / A História da banda A Chave :







Bartenders -  Black Whisky Full Moon :







Bartenders – Perdidos na Noite :







Bartenders – Seleção de músicas no Souncloud :



https://soundcloud.com/carl-o-gaertner/bartenders-raquel-a-chave/sets 

Matéria publicada inicialmente na Revista Bass Player Nº 59, de agosto de 2016

sábado, 17 de setembro de 2016

Ep Sol Entre Nuvens / Vento Motivo - Por Luiz Domingues


Prolífico e profícuo, são dois adjetivos que cabem bem ao Vento Motivo, um grupo de Rock que já tem uma carreira de respeito, curriculum e muitas histórias para contar.

Todavia, como se não bastassem tais predicados tão positivos, creio que o Vento Motivo tem ainda mais a oferecer e provam isso a cada lançamento que anunciam.

É o caso do seu novo EP, recém saído do forno, e denominado : “Sol Entre Nuvens”.

Começa muito bem com “Tenha Fé na Estrada”, tratando-se de uma canção com múltiplos atrativos, musicais e poéticos.  Com várias mudanças de andamento e climas, chama a atenção pelo mapa cheio de nuances e um excelente arranjo. Gostei muito do sabor County-Rock do seu início, com acordes soltos na guitarra base, acentos de baixo; bateria e teclados muito empolgantes e um delicioso backing vocals a la sixties, fazendo um “Tchu Tchu Tchu” bem Bubblegum. O refrão cai num blues vigoroso, muito bem apoiado pelo poderoso órgão Hammond, ora alternando compasso de 6/8 com 2/4, numa riqueza rítmica admirável. O solo de Marcião Gonçalves é melodioso, belíssimo e arranca suspiros, levando a música a um final épico.


Como de praxe nos trabalhos do Vento Motivo, as melodias são muito caprichadas e as letras muito sofisticadas por uma razão que não é toda banda que pode ter esse luxo, ou seja, tem um poeta em suas fileiras.
Fernando Ceah tem uma capacidade ímpar de escrever e expressar com rara poesia o cotidiano.

Não dá para não ficar empolgado quando diz coisas como : Era só mais um Bob Dylan paulistano, vagando no asfalto do cotidiano sobre rodas possantes, jogando aos porcos, diamantes"...

E num trecho adiante, fala : Se o desamor aponta o canhão, e o desarmado acaba no chão, e resolveu então fazer a sua parte,  a nobre arte de cuidar da própria vida". Tremendo recado, hein ?

E ainda tem tempo para deflagrar mais uma : "Tenha fé na estrada, não importa quem deu a partida. Quem deu a largada...não importa ganhar a corrida, o que vale é a chegada"...ou seja, uma cajadada nos pessimistas que gastam o dia inteiro na Internet publicando "mimimi".

A segunda faixa tem uma releitura que cabe bem na postura artística do Vento Motivo. Quem, senão Guilherme Arantes teve a capacidade de ser Rocker, Pop e poeta, tudo ao mesmo tempo ?
Não há como negar que Fernando Ceah tem muito dessa vibe do velho mestre e assim, a releitura encaixa-se como uma luva.

O começo em estilo Reggae é muito bem tocado e a mescla com a outra roupagem mais condizente com a versão original do Guilherme Arantes é uma boa sacada do arranjo. Gostei muito da linha de baixo e do seu timbre, e isso fica bem acentuado quando Ivan Soldi busca um andante bem engendrado. Novamente o apoio do órgão Hammond foi fundamental.

Gostei muito da batida bem criativa na caixa e da estratégica "queixada", contribuições ótimas do criativo baterista, Binho.

E mais uma vez o convidado Marcião Gonçalves brilha (e quando que ele não brilha em tudo o que faz ?), com um timbre de guitarra de tirar o fôlego no seu solo. 

Chegamos à terceira faixa, que dá título ao EP, "Sol Entre Nuvens". Com um belo violão batido, dá o ar folk muito bonito e quando a banda entra junto, fica tudo muito sixties, com aquele colorido todo trazendo o lúdico. Mesmo porque tem um efeito mezzo leslie na guitarra, e aí é como estar com Willy Wonka passeando numa fábrica de chocolate. Tudo bem que o refrão é meio oitentista, com batida de ska, e particularmente não gosto disso, mas tem o solo duplo de guitarra que busca o lado Brian May que o Marcião traz consigo e...como isso é bonito...

E Ceah sempre mandando recados fortes na sua poesia : "Uma corrente de ar, a areia molhada sob os pés descalços. Será que ainda sei discernir nossas quatro estações" ?

"Arma de Brinquedo" tem sabor de música de raiz, não só pela obviedade do acréscimo do acordeon de Thadeu Romano, mas por uma feliz conjunção de ideias bem resolvidas nesse arranjo.
Guitarras e violões passeiam em delicadas tessituras de arpejos e harmônicos muito descolados. O baixo faz glissandos muito bonitos, com bicordes e a batida da bateria é deveras inspirada, com o uso dos tambores muito bem pensados, mesclando-se com momentos de batida seca, precisa. 

A harmonia dessa canção é muito bela, oferecendo ao Ceah a oportunidade de ter criado uma melodia pop de alta qualidade. É uma canção pronta para figurar numa trilha de novela rural daquelas que fazem sucesso às 18 horas, apesar de ter um título inusitado e que contrasta com sua singeleza.

Impossível não destacar mais uma vez a poesia de Ceah. Ele começa bem forte, contrastando com a doçura da canção : "Ela atirou em mim sem nenhuma maldade, sem saber que a arma de brinquedo era de verdade"...depois entra firme na "DR" : E se eu falei o que não era para ser dito, diz qualquer coisa, que em você eu acredito"...

Mas essa música tem um defeito, sim...é tão bonita que é imperdoável que seja tão curtinha...

Fechando esse trabalho, o Vento Motivo apresenta "Nem Tanto ao Céu", um Rock mais vigoroso, quase um Hard-Rock eu diria, em alguns aspectos. Com um baixo bem agressivo e bem tocado, e vários acordes de guitarra soltos, lembrou-me o The Who em sua volúpia. E como é uma marca registrada do trabalho do Vento Motivo, as junções incomuns de partes surpreendem mais uma vez. Um refrão absolutamente festivo, com ares circenses, como se os ouvintes fossem teletransportados para um Parque de Diversões, é muito agradável. E certamente que as palmas reforçando a percussão nesse momento, ajudam nesse fator. 

Binho brilha mais uma vez com belas batidas e viradas na bateria.

Ceah canta com vigor algo mais atual do que nunca, ao enfocar os ânimos acirrados dos brigões virtuais : "Mas acabo navegando pelas redes sociais, tentando desviar do assunto que ofende mais. E quando a paciência está mais curta que o pavio, parece mais prudente abandonar esse navio"...

E vai adiante cantando : "Não importa a fortuna, não importa o vintém, Entre o certo e o errado, o esperto e o culpado. O desejo e o pecado, há todo um aprendizado. Então não compro briga por um
mísero trocado, porque nunca tem razão quem não enxerga o outro lado"... 

E chega numa conclusão sensata : "Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. As vezes faz frio no verão e também faz calor no inverno. Chame alguém pelo nome, só o amor é moderno.

"Sol Entre Nuvens" foi gravado no Estúdio Curumim de São Paulo, com Luizinho Mazzei pilotando o console da nave. A mixagem ficou a cargo do lampadinha, no estúdio "Casa do Lampadinha".
Fotos sóbrias da banda compõe o visual da capa em clicks de Marco Estrella, que capturou a banda posando numa estrada deserta, perto de uma represa e em meio à construções antigas, possivelmente em locações interioranas. E houve também o apoio de Vanessa Anchieta em algumas imagens.
Ouça acima na íntegra o novo trabalho do Vento Motivo, o EP : "Sol Entre Nuvens"

Um ótimo áudio como resultado final, mostrando a nova formação do Vento Motivo, agora como trio, com Fernando Ceah (Voz; Guitarra e Violão); Binho (Bateria e Percussão) e Ivan Soldi (Baixo).

Participaram do disco os excepcionais : Marcião Gonçalves, que tocou guitarra em todas as faixas e brilhou como de praxe; Rodrigo Hid, figura que fica até chato eu elogiar, pela nossa jornada tripla de carreiras compartilhadas, perfazendo vinte anos de parceria. Como sempre, Hid manejou o Hammond como se deve, em toda a sua glória sessenta-setentista, e o acordeon inspirado de Thadeu Romano. 

Mais um ótimo trabalho do Vento Motivo a ser espalhado ao  máximo que pudermos, em todas as brechas das nuvens, em todos os raios do sol.  

domingo, 11 de setembro de 2016

My Boyfriend's Back, Música & Filme - Por Luiz Domingues


O Rhythm and Blues, ou mais conhecido pela sua abreviatura, “R’n’B”, foi uma corruptela cunhada pela revista Billboard, nos anos 1940, para classificar um derivado dos Blues que tinha características mais comerciais, no bom sentido do termo, sendo, digamos, mais palatável ao público em geral, notadamente a audiência das pessoas brancas nos Estados Unidos.


Mais que isso, R’n’B passou a denotar um tipo de música pop de raiz negra, com forte poder dançante, mas aberta também a abraçar o romantismo de certa forma.
Mas foi a partir de meados dos anos 1950 que tal vertente ganhou força e tornando-se muito popular, explodiu nas rádios e na TV, lançando dúzias de artistas e entre eles, muitos que tornaram-se icônicos para a história da música mundial.
Do R’n’B derivou a Soul Music e o Funky, e nem vou perder tempo nesta resenha para explicar a questão do Funky que cito, ser o “verdadeiro” e não o simulacro, cujo nome foi usurpado décadas depois etc etc.


Bem, em meio à explosão dos artistas R’n’B na década de cinquenta, notabilizaram-se alguns artistas solo, cantores e cantoras, mas o formato mais usual para os artistas dessa vertente, era o de grupos vocais masculinos e femininos, variando entre trios, quartetos e quintetos, predominantemente.


Em sua maioria esmagadora, eram grupos formados por pessoas negras, mas depois da explosão do Rock’n Roll, um irmão do R’n’B e filho do Blues, igualmente, as plateias brancas haviam aderido em massa ao estilo, e claro, não demorou para aspirantes a artistas formarem seus grupos vocais nesse estilo, mas sendo formados por rapazes e moças da raça ariana.
Quando começaram a aparecer grupos vocais nessas características, formados por jovens brancos, houve também uma certa diluição, criando um tipo de R’n’B um pouquinho diferente do original, mais açucarado, pensemos assim, sendo mais pop ainda que os grupos negros. Portanto, grupos formados por jovens brancos sorridentes usando sweaters comportados, parecendo formados para apresentarem-se em festas da High School, quando não os famosos “proms”, os bailes de formatura que tem significado muito importante na cultura dos norteamericanos e tirante o horror movido a humilhação de “Carrie, a Estranha”, um Prom normalmente é o dia mais esperado por rapazes e moças adolescentes em vida escolar, por ficarem o ano todo pensando nele, com quem vão fazer par e sonhar em ser o casal consagrado como “Rei e Rainha” do baile.


Pois é nesse clima de “R’n’B de branco”, mais proeminente no finalzinho da década de cinquenta e começo dos anos sessenta, que concebeu-se a história de um grupo vocal feminino fictício chamado “The Bouffant’s” (“as toucas”, fazendo menção aos penteados exagerados e armados desse começo de década, e que quase todas as garotas americanas usavam).
Aqui, cabe salientar que o termo “fictício” é parcial, pois tudo gira em torno da reunião do trio vocal a convite de uma emissora de TV que deseja realizar um especial nostálgico sobre esse breve período da história da música americana, e contando com alguns de seus expoentes para cantar ao vivo num palco de um Night Club.


Causa uma certa estranheza portanto, pois se “The Bouffant’s” é um conjunto vocal fictício, e por conseguinte, tudo gira em torno da canção que vão apresentar nesse especial e que seria o seu principal sucesso lançado em 1962, denominado “My Boyfriend’s Back”(aliás, o título do filme), para quem acompanha a história da música pop americana, sabe que essa canção é um sucesso real, e não inventado para o filme e fez a fama de um grupo verdadeiro daquela época, chamado “The Angels”, formado por três garotas brancas.
No "still" acima, uma imagem do grupo vocal real, "The Angels", cuja música "My Boyfriend's Back" fez sucesso no início dos anos sessenta
 
Então o filme é uma biografia do “The Angels”, mesmo velada ? Pois aí é que está a confusão, pois não é o que parece, mesmo subliminarmente.


Passando a imagem de ser uma obra fictícia, não há nenhum indício de que os produtores tenham tido a intenção de mencionar o trio verdadeiro, mesmo de longe, mas apenas usaram a canção para dar mote à produção, numa interpretação livre e sim, fictícia da história.
OK, estamos diante então de uma história inventada sobre um grupo R’n’B vocal e feminino dos anos 1950/1960, mas não ambientado nessa época, e sim vendo pelo lado das artistas envelhecidas e tratando-se de um show de reunião saudosista, ao final dos anos 1980.


Portanto, a dose de paciência vai diminuindo à medida que o mote mais bacana vai diluindo-se cada vez mais, porém, entusiasta da música que sou, do R’n’B; da Black Music em geral e desse período da história (refiro-me à décadas de cinquenta e sessenta, deixo claro), arrisco assistir, porque haveria de ter alguma menção bacana, nem que fosse um flashback com um das senhoras protagonistas da história, relembrando fatos de sua juventude e da carreira do grupo (isso só ocorre e bem de leve, nos créditos iniciais do filme, infelizmente).
Com essa expectativa e esperançoso de que no mínimo a música haveria de salvar a experiência ou paciência em se perder 90 minutos assistindo, infelizmente os minúsculos lampejos desses fatores citados, não abonam o filme.


Senão vejamos : a começar pelo roteiro, o filme é permeado de clichês típicos de obras baseadas em carreiras de astros musicais. O primeiro ponto é retratar a abordagem do produtor da TV, Harry Simon (interpretado por John Sandford) a cada senhora remanescente do grupo. Ao final da década de oitenta, a realidade das três adolescentes de 1962, é completamente diferente e o que poderia render boas piadas ou drama, mais parece enredo de “Soap Operas”, os novelões insuportáveis dos americanos que chegam a ser mais bregas que as nossas novelas e até mesmo que as novelas mexicanas.
Sim, uma delas, Vicki Vine (interpretada por Judith Light), ainda canta e sobrevive da música, mas completamente decadente, se apresenta num boliche, cantando covers acompanhada de um tecladista cafona e sendo retumbantemente ignorada pela plateia de boçais que só prestam atenção no serviço de autofalante do estabelecimento, dando informações sobre o funcionamento das suas pistas. Já se fizeram inúmeros filmes abordando artistas decadentes lutando contra seus fantasmas interiores e a humilhação de estar no limbo e na miséria, muito melhores, com profundidade psicológica e poesia, caso do Calvero de Charles Chaplin em “Luzes da Ribalta” (“Limelights”), e para citar um exemplo mais moderno, “Birdman”, com a boa atuação de Michael Keaton. Mas em “My Boyfriend’s Back”, o mote é mal explorado, com bastante superficialidade e nem nos momentos que eram para ser engraçados, funcionam, com algumas piadas que no máximo, arrancam um sorriso amarelo de quem assiste.
A segunda senhora do grupo é Chris Henry (interpretada por Sandy Duncan), esta uma dona de casa, mãe de família e que encara a carreira como algo do passado, um devaneio da juventude. 

Moderada, tem os pés no chão como mãe de família sensata, mas quando recebe o apoio do marido, sente-se segura a aceitar o convite para a reunião.
E a terceira componente é Deborah McGuire (interpretada por Jill Eikenberry), esta tem vergonha de seu passado como artista, visto ser agora uma mulher de negócios bem sucedida e nesse mundo corporativo, a mentalidade é assim mesmo, ou seja, tendem a só valorizar o mundo dos negócios e só respeitam artistas se eles forem mega populares e denotam isso em dinheiro conquistado, portanto,  a auferição de sucesso que eles entendem.


Deborah é a mais relutante, pela evidência até do que descrevi acima, mas é convencida pelas colegas de que seria divertido conviverem por duas semanas, considerando os ensaios e compromissos de imprensa prévios até participarem do evento.


Até aí, ainda estamos esperando algo que remeta ao R’n’B cinquenta-sessentista, mas a atmosfera é mesma de ares oitentistas e tudo é aborrecido ao extremo. Até as menções à música antiga, são decepcionantes, visto serem retratadas pela ótica dos anos oitenta e aí que me perdoem, mas como músico, é insuportável aguentar aquele padrão de áudio típico dessa década...não dá para ouvir som de bateria com “dez toneladas” de reverber; teclados com timbres indecentes; guitarras chochas etc etc. Perdão pelo desabafo, mas se você que estiver lendo esta resenha for músico, há de entender-me...
Daí em diante, o filme prossegue nos clichês. As diferenças de outrora voltando à baila; ensaios que demonstram que fora Vicki que continuou cantando, as demais enferrujaram e isso explode quando Deborah, que era a cantora principal do trio não se dá bem nos ensaios e os impacientes produtores sugerem a substituição, com Vicki assumindo o “lead vocals” e Deborah se juntando a Chris nos “Backing Vocals”. Mais que uma troca de posições meramente pensando no desempenho vocal melhor do conjunto, isso sucinta problemas.


Escancara-se a inveja que Vicki sempre nutriu em silêncio por Deborah brilhar mais nos tempos áureos, sendo cantora principal e considerada a mais bonita pelos fãs e imprensa. E por sua vez, Deborah que não estava mesmo tão confiante nessa reunião do grupo, faz as malas de madrugada e deixa o clássico “bilhetinho”sobre a mesa, e dá-lhe novelão...


Bem, segue o curso do folhetim, com as demais desapontadas voltando para suas vidas e no caso de Vicki, lutando para retomar o seu emprego no Boliche, agregando mais humilhação por esse detalhe, inclusive.


Mas Debbie arrepende-se...e propõe voltar e cumprir o compromisso. 
Uma lavagem de roupa suja básica entre as três acontece, onde até a ponderada Chris se queixa de ter sido sempre a “bombeira” entre elas, portanto costumeiramente apaziguando as brigas e não ser devidamente reconhecida pelo seu sacrifício na época e agora também nessa reunião.
Todavia, tudo caminha para o final feliz, com a realização do show ao vivo pela TV, num Night Club.


Aí, o que restava de expectativa para haver algo realmente bacana que dignificasse o R’n’B, frustra o espectador que perdeu seu tempo esperando algo a mais, visto que nem as participações de artistas veteranos reais dessa cena de 1962, nesse gênero (The Penguins; Mary Wells; Gary Puckett; Peggy March e Gary Lewis), chega a empolgar, visto que as sonoridades são de arranjos e timbres típicos dos anos oitenta e aí o ouvido é bastante machucado (eu não tenho nada contra o efeito do “reverber” em si, mas nunca nesse patamar cavalar com o qual era usado pelos produtores musicais dessa década...falem sério senhores produtores musicais oitentistas : vocês realmente achavam “legal” essa gosma insuportável que colocavam na mixagem final das canções que produziram ?).
Enfim, além da decepção pelos arranjos e timbres a assassinar o R’n’B, o mau gosto absoluto impera na questão visual. O tal show parece um reedição do “Clube dos Artistas”, de Ayrton e Lolita Rodrigues, de tão cafona que é nos figurinos; adereços e cenários. 

Tudo bem que o americano médio tem uma mentalidade cultural estilo “SBT” (na verdade é o contrário, eu sei), elevada ao cubo, mas tudo tem limite, até para shows Kitsch em cassinos de Las Vegas...
E assim, clichê dos clichês, o final chega com o sucesso do grupo nessa empreitada, com Vicki tendo um lampejo de consciência segundos antes de entrar em cena, ao entregar o microfone para Deborah reassumir o vocal solo. E no palco, empolgam-se com a boa receptividade do público, fazem uma apresentação como nos velhos tempos e interagem entre si demonstrando estarem felizes pela reunião.


OK, é um TV Movie de baixo orçamento e concebido para ser visto na sala de recepção do dentista, num dia útil a tarde, eu sei, mas pensando em Rock Movies, ou quase, visto ser outra ambientação musical paralela mas igualmente interessante, quando soube de sua existência, é claro que interessei-me em vê-lo quando criei uma expectativa maior. De fato, na perspectiva de enfocar-se uma manifestação artística interessante de um período rico da música mundial, mesmo sob o prisma deslocado para outra época e mostrando seus artífices envelhecidos e sob outro cenário, poderia ter sido melhor explorado.


Sobra alguma coisa positiva, então ?
Sim, a música “My Boyfriend’s Back”, que dá título ao filme e justifica sua existência, é bem bacana, mas como já observei anteriormente, após ouvi-la com aquela roupagem oitentista, o melhor é fazer é correr para o You Tube e procurar ouvir a gravação original do grupo vocal, The Angels”, e esquecer aquele maldito reverber paquidérmico...


O filme foi lançado em 1989, e recebeu críticas moderadas da imprensa. Hoje em dia, muitos críticos dizem que Tom Hawks viu e analisou bem os erros dele para compor o seu “That Thing You Do”, cinco anos depois. Faz sentido, e se for verdade, o velho Hawks fez sua lição de casa direitinho, pois não há termos de comparação, visto ser seu filme, muitíssimo superior. Mesmo com a abordagem diferente, eu sei, ambientando-se em 1964, na briga entre as bandas britânicas e americanas de Rock ("British Invasion x American Reaction").
Direção de Paul Schneider, um diretor especializado em TV, com longa lista de trabalhos em seriados, como Baywatch; Beverly Hills 90210 (conhecido no Brasil como “Barrados no Baile”), L.A. Law etc. E por falar nisso, as três atrizes protagonistas são figuras carimbadas na TV americana com um curriculum enorme de seriados e programas de variedades realizados para cada uma delas.


Se recomendo ? 
Ouça acima a versão original de "My Boyfriend's Back, com The Angels


Bem, se você não estiver fazendo nada absolutamente melhor e estiver passando num canal de TV aberta, cujo monitor estiver fixado numa parede, e a recepcionista do seu dentista ainda não lhe autorizou a entrar no consultório...