quinta-feira, 18 de julho de 2019

CD Springtime / Wejah - Por Luiz Domingues


O Wejah é um grupo que foi formado nos idos de 1982, fortemente inspirado pelo Rock Progressivo setentista, sob várias vertentes e a acrescentar doses generosas dos gêneros : Jazz-Rock; Fusion e música instrumental em geral. A década de oitenta como é bem sabido, não foi nada favorável para uma manifestação artística versada por tais estéticas e pelo contrário, revelou-se hostil para os artistas, que mesmo veladamente insinuassem em seus trabalhos, tais nobres influências de um passado considerado apócrifo pelos detratores em voga, portanto, a culminar em uma dificuldade tremenda para projetar-se adequadamente. Dessa forma, a extrema contrariedade com a qual artistas dessas vertentes obtiveram para expressar-se, ganha ao olhar moderno, uma avaliação positiva ainda maior, pois a despeito da sua arte pautada pela excelência musical, o simples fato em ter tido tantas dificuldades para poder trabalhar, faz com que só possamos ter ainda mais admiração pela sua obstinação ante os obstáculos impostos. Nesses termos, o Wejah foi valente e resistiu até demais, ao construir uma carreira que durou até o início dos anos noventa. Houve uma tentativa de retomada das atividades ao final dessa década, mas não bem sucedida, infelizmente, e somente em meados dos anos 2000, a banda reuniu forças para voltar à cena, com maior desenvoltura e desde então vem a trabalhar fortemente dentro das suas convicções artísticas e estéticas. 
Eis que o seu último lançamento foi então através do CD denominado, “Springtime”, gravado em 2006 e lançado no início de 2007. E nada poderia ter sido melhor do que apontar para a perspectiva de uma florida e alvissareira primavera, após um longo inverno, não resta dúvida. Tal trabalho apresenta canções absolutamente inéditas, gravadas entre 2003 e 2006, e a contar com três diferentes formações da banda (incluso a primeira, original dos anos oitenta), sempre conduzida pelos obstinados irmãos Sanchez : Nelson e Jorge. Foi lançado como CD tradicional em 2007 e recentemente, início de 2019, o trabalho foi incorporado em diversas plataformas digitais.
Os dois primeiros álbuns do Wejah : "Renascença" (1988) e "Sendas" (1996)

Ao escutar tal obra, chama a atenção que o lado mais Fusion da influência desses artistas, não deixa que exista um peso excessivo na sua criação e isso tem o lado bom, na medida em que muitos grupos Neo Progressivos (principalmente após os anos noventa), buscam inspiração em artistas que mesclam o velho e bom Rock Progressivo setentista, com tendências pesadas, oriundas de vertentes do Heavy-Metal e particularmente, isso desagrada-me. Claro, trata-se de uma mera opinião pessoal, mas eu considero que mesmo ao analisar grupos setentistas que trabalharam com peso em suas respectivas obras e são muitos os bons exemplos nesse campo, com o King Crimson como uma referência forte, só para citar uma, eu penso que grupos mais modernos que resgataram o Rock Progressivo nos anos noventa e dois mil, mas ao acrescentar correntes oriundas do Heavy-Metal, não fizeram a leitura correta do que realmente representou o Prog Rock setentista em sua essência e nesse sentido, ao fundir com o Metal, inventaram uma receita indigesta.

Bem, não é o caso do Wejah, e como já observei, essa influência do Fusion que os seus componentes observam, tratou em não haver a menor possibilidade de existir um peso inconveniente em seu trabalho, mediante a observação de timbres e maneirismos que simplesmente não combinam adequadamente com o conceito do Prog Rock clássico. E mais um detalhe, o Wejah trabalha com uma vertente mais amena do Prog Rock em si, onde busca-se uma maior aproximação com o som mais sinfônico, em paralelo ao Soft Rock de uma maneira geral ou a trocar em miúdos, tem o lado mais a pender para o som de Vangelis, principalmente naquela fase em que este grande tecladista grego construiu um projeto com o vocalista do Yes, Jon Anderson, para situar melhor o leitor.
O Wejah em foto ao vivo, sob formação como Power Trio, por ocasião do lançamento do CD Springtime. Teatro Santos Dumont, em São Caetano do Sul / SP, no ano de 2007 


Sobre a atuação individual dos componentes no álbum, é realizada sob alto nível técnico, com muito bom gosto nas performances individuais e no tocante ao arranjo coletivo, que é bem amparado por uma ótima produção de áudio, e a incluir-se nesse bojo, o bom uso de timbres, a sobressair a opção sempre agradabilíssima em torno da escolha pelo padrão vintage. Em suma, a reforçar a ideia de que seja uma experiência prazerosa escutar tal álbum. Não trata-se de um trabalho exclusivamente instrumental, embora as canções mostrem-se quase que inteiramente construídas nesses termos. No entanto, observa-se pequenos trechos cantados em algumas faixas e embora a atenção despendida à vocalização seja menor, quando a cantoria aparece, tem uma qualidade muito grande, tanto na composição das melodias propostas, quanto na interpretação. E a opção é pelo uso do idioma inglês, e por conta desse detalhe, certamente tratou-se de uma estratégia da banda para adequar-se ao mercado internacional.
Sobre a capa do disco, a imagem usada foi a de uma paisagem cósmica, penso que uma foto obtida por um telescópio ou satélite, Sóbria, bonita e ao mesmo tempo profunda, por mostrar a amplitude do Universo e o logotipo da banda, que é muito funcional e ao mesmo tempo bem estiloso, compõe bem a imagem frontal dessa arte gráfica. Concepção e arte final do guitarrista, Nelson Sanchez. Enquanto o leitor prossegue nesta leitura, convido-o a escutar o álbum, “Springtime”, na íntegra :


https://www.youtube.com/watch?v=GiPmV5mIT_Y 

Sobre as canções em si, resta-me observar mais alguns detalhes. 
O Wejah ao vivo, como quarteto, desta feita, durante o Festival de Inverno de Paranapiacaba, em Santo André / SP, no ano de 2008

“Beginning of Life” 

Com uma introdução bem climática, a destacar-se os teclados e a presença de sussurros fantasmagóricos, este tema desenvolve-se posteriormente em torno de uma bela levada de bateria e baixo, ao dar vazão para uma sucessão de acordes bem desenhados pela guitarra. Após uma desdobrada rítmica estratégica, acontece a parte cantada. Ao final, a bateria avança sob uma sutil intenção tribal e encerra-se o tema mediante uma boa base obtida através do sintetizador e um bom solo de guitarra, mediante timbre limpo.

“First Spring Flower”

Muita boa a condução rítmica inicial, gostei muito. Depois disso, uma base intermitente do sintetizador mostrou-se muito criativa. Apreciei bastante os ricos desenhos executados pela guitarra, tudo muito bem encaixado e a seguir, um solo de piano, muito bonito. O vocal entra e depois abre caminho para um solo de guitarra. O uso do recurso amparado por onomatopeia melódica, a la George Benson, é bem interessante.

"Insanity"

Logo no começo, uma insinuação de solo de baixo, chama a atenção. O tema fica mais pesado a mostrar densidade, e assim, impressiona o arranjo a privilegiar a inclusão de uma camada de teclados, muito bem concatenada. O uso da fórmula de compasso 6/8, traz a sutileza da influência jazzística e abre espaço para um solo de piano. Sussurros são escutados ao final, para garantir uma atmosfera misteriosa e o som do piano encerra a canção com uma intervenção deveras criativa.
A formação do Wejah, como trio, e que gravou várias faixas do CD Springtime   

"Burned Out"

Canção balançada, praticamente a caracterizá-la como um R’n‘B, apresenta um bom solo ao sintetizador e posteriormente, ocorre um outro momento solo ótimo, desta feita executado ao piano elétrico. Gostei da parte toda arpejada pela guitarra, do solo posterior e da segunda voz em contraponto, ao final da música.

"North South East West"

Boa base harmônica ao sintetizador, e também o solo ameno de guitarra. Apreciei a base desdobrada para dar vazão a um solo climático. A voz bem processada com uma reverberação mais profunda, também mostrou-se criativa e a linha de bateria ficou excelente.
O Wejah ao vivo, no Parque Chico Mendes, em São Caetano do Sul / SP, no ano de 2007

"The Path"

Este tema, mostra-se bem denso, lembrou-me a canção, “Squonk” do Genesis, pela intenção. Apreciei bastante a sua sonoridade.

"Bragdah"

Talvez a música mais explicitamente influenciada pelo Jazz-Rock setentista clássico, mostra uma quebradeira rítmica memorável da parte pelos instrumentistas da banda. Gostei das convenções mais complexas, executadas com extrema habilidade.

"Box of Surprises"

Mais um tema a demonstrar destreza técnica de todos os componentes desta banda, também chamou-me a atenção um solo de baixo e a parte quebrada, onde a voz foi muito bem delineada. Gostei igualmente do solo final e dos efeitos propostos pelos teclados, a garantir uma sensação de loucura, no melhor sentido dessa expressão. 
O Wejah ao vivo no auditório da livraria Cultura, no Shopping Vila Lobos, em São Paulo, em 2008

Recomendo a audição deste álbum, assim como a discografia geral do Wejah (álbuns : "Renascença", de 1988, e "Sendas", de 1996), por tratar-se de uma banda com influências nobres em sua formação artística, a contar com ótimos instrumentistas e inspirados compositores.

Gravado no estúdio próprio da banda em São Caetano do Sul / SP, e no Pro Studio, além do apoio de outros estúdios não arrolados, entre 2003 e 2006
Técnico de som (captura); mixagem e masterização : Cassio Martin
Capa (criação e lay-out) : Nelson Sanchez
Produção Geral : Wejah

Formação do Wejah na faixa, "Insanity"

Nelson Sanchez : Guitarras

Jorge Sanchez : Voz e Baixo

Marcelo Perez : Teclados
Braulio Veiga na Bateria

Formação do Wejah nas faixas : “Beginning of Life”; “First Spring Flower”; “Bragdah” e “Box of Surprises” :

Nelson Sanchez : Guitarras

Jorge Sanchez : Baixo e Voz

Wladimir Augusto : Bateria

Formação do Wejah nas faixas : "Burned Out"; "The Path" e "North South East and West"

Nelson Sanchez : Guitarras

Jorge Sanchez : Baixo e Voz

Marcelo Perez : Teclados

Luiz Fernando “Piriquito”

Produção independente

O Wejah sente a aspereza do mercado, que sempre foi muito duro para o Rock Progressivo e neste momento de 2019, diante do quadro atual, ainda mais e apenas planeja compor novas músicas, mas sem perspectiva para lançamento ou mesmo shows ao vivo, por enquanto, no entanto, sinceramente, espero que oportunidades surjam para que esses artistas voltem a apresentar-se com maior regularidade e lançar novos trabalhos. Trata-se de um trabalho feito sob alto padrão técnico; a esbanjar criatividade e nobres propósitos. 

Para conhecer melhor o trabalho do Wejah, acesse :

Página do Weah no Facebook : 

https://www.facebook.com/wejah.progjazzrock 

Canal do You Tube : 

https://www.youtube.com/channel/UC_3elwKwmUciy9JF-3jocIw 

Álbum disponível nas plataformas digitais : Spotify; Deezer e Apple Music

Informações em sites especializados em Rock Progressivo : Progarchives; Progbrasil e outros :

https://cabezademoog.blogspot.com/2012/12/wejah-springtime-2007.html?fbclid=IwAR32tf2fUr2MpJ3cNPgjmQaL_WHBdG_o5nuvZi6MSxfkQtx1hPsTgylNpc8

http://www.progarchives.com/artist.asp?id=4296&fbclid=IwAR3FDbVc3wTHgW7As5VGjvnGZ0NB_KKSjwwQAuH   PvYKwaODRULQrBHBj64U

terça-feira, 2 de julho de 2019

CD Older Than Time / Canyon - Por Luiz Domingues

O CD “Older Than Time”, é o mais recente lançamento da excelente banda, Canyon, oriunda de São Luís, a capital do estado do Maranhão. Bem, como é público e notório, essa bela capital nordestina tem uma forte tradição em torno do Reggae e para muitos críticos musicais, é considerada um pedaço da Jamaica no Brasil, tamanha a força de tal cena ali. Entretanto, é um erro crasso estigmatizar uma cidade (e um estado), por um único estilo musical, pois é evidente que isso não é uma verdade absoluta, visto que outros segmentos são apreciados, ainda mais ao tratar-se de uma capital com vida cultural pulsante e sintonizada no pensamento cosmopolita, naturalmente. Pois o Canyon é um bom exemplo de como a cidade tem artistas sintonizados em outras escolas, pois eis aqui uma banda fortemente influenciada pelo Rock dos anos setenta, e sobretudo focada nas vertentes do Hard-Rock e Progressive Rock. Desde 2009 na estrada, já tem muitos lançamentos na sua ótima discografia e agora acrescenta o excelente álbum, “Older Than Time” em seu currículo.
Neste novo trabalho, o Canyon mantém a sua determinação em trabalhar com afinco entre essas duas vertentes citadas acima, com muita qualidade técnica; criatividade e inspiração. E também segue a cantar em inglês, uma escolha certamente a visar uma adequação ao mercado internacional, portanto trata-se de uma aspiração válida. Gostei muito do capricho da banda no tocante aos arranjos. Nada escapa, há um trabalho minucioso para dar um bom acabamento, com pontes e convenções que enriquecem o trabalho. Os timbres dos instrumentos também agradou-me bastante, a buscar o máximo da identidade vintage, algo vital para um tipo de banda que busca a sua inspiração em influências tão nobres do passado. E para completar o assunto sobre o áudio, esse álbum tem um padrão de gravação muito bom, com uma mixagem correta, onde ouve-se tudo devidamente. Sensacional saber que o baterista da banda, Ítalo Silva, foi o técnico de som na captura; mixagem e masterização, deste trabalho, ao demonstrar talento extra  e mais do que isso, saber como ninguém que som buscar nessa complexa operação técnica, em suas três etapas.

No tocante à capa, gostei bastante da ilustração frontal. Plena em simbolismo, evoca muitos signos do esoterismo; shamanismo; sabedoria ancestral e afins. Trata-se da figura de um ancião (talvez indígena pelas feições), desconstruído a lembrar vagamente uma menção ao estilo cubista, com uma caverna às suas costas, a sugerir muitas camadas e denotar a passagem do tempo. De fato, como o título da obra sugere, é mais velho que o tempo o local onde aloja-se os segredos herméticos. Em suma, uma bela ilustração para sacramentar uma temática tão grandiosa e misteriosa. Além do mais, gostei muito da sua resolução em si, rica em sua arte, com muitos detalhes nas bordas, ou seja, um trabalho muito caprichado. E tudo melhora quando toma-se conhecimento de que o responsável pela criação e lay-out desse ótimo trabalho gráfico é um componente da própria banda, no caso, Ramon Silva. Portanto, o controle total da embalagem, tanto no áudio, quanto na parte gráfica, faz do Canyon uma banda com a uma qualidade a mais, e que revela-se como algo extraordinário em termos de autossuficiência artística e operacional.

Por enquanto, o álbum existe apenas virtualmente, entretanto, a banda planeja o seu lançamento em plataforma física, em formato de CD tradicional, para breve.

Em relação às canções em si, eu tenho algo mais a acrescentar. Ouça o álbum na plataforma, “Bandcamp”, enquanto segue a ler esta resenha.

https://canyon1.bandcamp.com/album/older-than-time?fbclid=IwAR2MRI-S4ziHRPM7HK-D-6c3ofTg0eQwJ0a90sXTlF26QL78scA81e6myBY

“Fight Them”

Um belo Hard-Rock com ênfase no riff bem construído a conter peso e com elementos Prog-Rock, inclusos. Muito boa a intervenção de um solo de sintetizador, além de uma parte desdobrada da condução rítmica. Apreciei também o peso do baixo a sugerir o uso de bicordes como um recurso interessante.

“Hard Life”

O início a conter arpejos rápidos, lembrou-me bastante o trabalho do Rush em seus primeiros dias. Ótima melodia, amparada por uma base harmônica bonita. O refrão manteve o padrão, com uma fluência muito boa. Gostei da parte desdobrada e dos efeitos obtidos via sintetizador. Uma mudança brusca vem a seguir e a música caminha para um tema mais pesado, onde a linha de bateria impressiona pela condução técnica, muito boa. Eis que mais um riff muito criativo surge, e desta vez com um ar diferente, quiçá inspirado em trilha sonora para o cinema, tamanha a sua grandiloquência. E o detalhe ao final, é singelo, quando ouve-se um harmônico a sugerir o sinal sonoro que antecede recados em saguão de aeroporto.

“Sorceress”

A impressão que eu tive ao ouvir esse vigoroso Hard-Rock, foi imediata em lembrar-me do som do UFO nos anos setenta, onde a boa melodia sempre andava em sintonia com a condução vibrante e trata-se exatamente dessa prerrogativa que o Canyon fez uso nesta música.

“Sleeping Lady”

Essa é uma bela balada e a conter surpresas em seu decorrer. Começa com um emotivo solo de guitarra com a banda a estabelecer uma condução excelente e onde sobressai o bom uso dos timbres para cada instrumento. E nada melhor que uma sonoridade mais amena, onde a massa sonora mais atenuada dá margem para que preste-se uma melhor atenção em tal tipo de detalhe. A beleza dessa harmonia, muito bem amparada pela divisão rítmica, ativou a minha memória no sentido para lembrar-me do trabalho do Renaissance. Bem ao estilo Progger, a suíte evolui para apresentar um ótimo solo ao sintetizador, com apoio de um ritmo quebrado e assim vai até o final, mediante mais sutilezas rítmicas e o bom uso dos teclados.

“Iron Giant”

Apesar do Riff com teor Bluesy, temos aqui mais um tema com forte orientação Prog-Rock e certamente a lembrar em alguns aspectos o som do Gentle Giant e igualmente a buscar a identidade do Krautrock setentista. Em suma, só boas influências para redundar em uma boa resolução.

“Lunar Eclipse”

Mais uma canção a explorar muito bem o uso de teclados. Há um solo super climático, realizado com extrema sensibilidade, gostei muito.

“Older Than Time”

Há novamente, como na faixa anterior, uma certa percepção em prol do Blues-Rock. Uma parte amena sobrevém e a canção encerra-se mediante o uso de um Riff que finaliza-se, abruptamente.

“Questions No Answers”

Eis um Soft-Folk com um trabalho muito bonito dos vocais, inclusive com o uso do recurso do contraponto. Muito bom o solo de guitarra; o mesmo em relação à parte mais pesada e igualmente, o uso de uma locução com a voz bem processada, a conferir uma eloquência.

Estou feliz por verificar que o Canyon está a prosseguir com muita força em sua trajetória. Mais do que persistir, enxergo um frescor em seu trabalho, fruto naturalmente da experiência adquirida em conjunto com a qualidade individual de seus componentes e com um dado a mais, a criatividade que é uma questão de talento nato. Além de todos esses elementos, há a questão da cultura Rocker avantajada que esses rapazes possuem e assim, parece muito óbvio que fazer boa música é algo natural para quem conhece profundamente, as suas próprias influências. Sendo assim, a minha recomendação é evidente, o Canyon merece a nossa atenção; apreço e apoio, sempre.

Gravado; mixado e masterizado no Aeon Studio de São Luís / MA

Técnico de som (captura; mixagem e masterização) : Ítalo Silva

Produção : Ítalo Silva e Canyon

Capa (criação e Lay-out) : Ramon Silva

Formação do Canyon :

Ítalo Silva : Bateria

Jobson Machado (Guitarra; Teclados e Voz)

Leo Vieira (Baixo e Flauta)

Ramon Silva (Guitarra e Voz)

Para conhecer melhor o trabalho da banda, acesse :

Página do Canyon no Facebook :


E através das plataformas digitais :

Spotify; Deezer; Onerpm; Apple; Google Play e Bandcamp. 

quinta-feira, 20 de junho de 2019

CD Solar / Prognoise - Por Luiz Domingues


O Rock Progressivo, vertente tão criativa e que ajudou a elevar o Rock ao patamar de uma Art-Rock superior, foi duramente vilipendiado ao final dos anos setenta por conta de uma ação torpe, arquitetada por marqueteiros que usaram tal escola como um autêntico bode expiatório para criar uma atmosfera favorável para que um tipo de arte menor, dominasse os espaços, despoticamente. Portanto, tirante a propaganda antagonista que gerou esse paradigma errôneo e deveras injusto, a verdade é que tal vertente sublime (por conta da sua natureza tão bem amparada nas influências que teve para expressar-se), resistiu bravamente aos ataques sistemáticos, ainda que muito paulatinamente, a atuar em nichos minúsculos e praticamente invisíveis do grande público (e sobretudo de certos setores da mídia, que adotou a ideia de adorar odiá-la), atravessou os anos, 1980 e 1990, com dificuldades e já na primeira década do século XXI, demonstrou pequenos, mas firmes sinais de renascimento.

Que bom, temos uma geração jovem que nasceu sem saber que no passado, tal estilo fora tão execrado, de forma torpe e gratuita e assim, livre para pensar, o redescobriu, saiu à cata de informação para vir a conhecer os seus ótimos artífices do passado e sobretudo, nutriu vontade para formar bandas e entrar em estúdio para produzir o Rock Progressivo, aqui e agora. Pois este é o caso de uma banda oriunda de Porto Velho, a capital do estado de Rondônia, chamada : Prognoise. Formada em 2012, por um grupo de amigos e entusiastas do Rock Progressivo clássico da década de setenta, eis que mostraram talento e muita determinação em dar o seu recado, quando lançaram em 2015, o EP “Esquizóide”. Após algumas reformulações na sua formação, lançaram recentemente, em 2018, o CD “Solar”.

Trata-se de um trabalho feito com muita qualidade artística, a demonstrar claramente as ótimas influências do Rock Progressivo setentista e também ao acrescentar uma boa dose de MPB; a música erudita in natura (considere-se naturalmente que a música erudita é um dos pilares do Rock Progressivo clássico, assim como a Folk Music europeia de uma maneira geral), Jazz e o Neo-Progressivo mais contemporâneo. Em “Solar”, o Prognoise mergulha sem temores nos longos temas fatiados em suítes, um elemento tradicional dentro dessa escola e assim, demonstra não importar-se com questões mercadológicas que empurram os artistas a compor e arranjar canções mediante parcos “três minutos” de duração, para seguir o paradigma radiofônico da música Pop. Que maravilha, esses artistas estão interessados em produzir arte e não artigos descartáveis para vender no varejo dos supermercados. Banda formada por ótimos instrumentistas, que compõem e arranjam muito bem as suas canções, mediante execução vocal e instrumental em alto nível, como manda a cartilha do gênero e sobretudo, os seus componentes mostram inspiração em suas criações. No quesito das letras, discorre-se sobre questões existenciais do Ser Humano, em via de regra, a demonstrar uma preocupação em abordar questões mais profundas da natureza humana, com uma boa dose de poesia.

Sobre a capa do CD Solar, assinada pela artista gráfica, Bárbara Ugalde, o simbolismo é imediato ao mostrar um bebê em gestação, ao sugerir que está a desenvolver-se em um ventre, que na verdade representa o sol. Dá margem a várias interpretações, naturalmente, mas de uma maneira geral, faz menção à criação da vida e entenda-se tal conceito pelos aspectos micro e macro, portanto, é algo bastante amplo. Como diziam famosos Proggers setentistas brasileiros : “Tudo Foi Feito Pelo Sol”, e assim, faz todo o sentido que o Prognoise resgate tal conceito no mundo de 2019, e ao ir além, nestes tempos trevosos, precisamos mesmo da luz do sol de outrora.

A respeito do áudio, mostra-se consistente, com um bom trabalho de estúdio. Muitos timbres dos instrumentos remetem às sonoridades tradicionais observadas por grandes ícones do Rock Progressivo dos anos setenta, entretanto, há também um certo conceito moderno em alguns aspectos, a estabelecer uma média como resultado final. Sobre as faixas, quase todas mostram-se longas para honrar as tradições desse gênero e com duas mais curtas, apenas, em seu bojo. Devo acrescentar mais algumas observações sobre as canções.

Ouça abaixo, o CD “Solar” do Prognoise, enquanto continua a ler esta resenha : 


https://www.youtube.com/watch?v=N1FEJAUNUTo 

“Especulações”

Trata-se de uma canção amena, ricamente arranjada por uma camada de instrumentos (guitarras e teclados) a trabalhar com arpejos. Existe uma bela melodia solada por uma das guitarras, com o uso muito bonito do Delay.

“Incandescente”

Esta música inicia-se com um belo Riff versado pelo Hard-Rock setentista, em duo pelas guitarras e com apoio do órgão Hammond a sustentar-se com um timbre grave, muito belo. Usa-se uma fórmula de compasso não usual neste instante (7/4), com bastante criatividade. Vem a seguir uma longa convenção com um solo estabelecido por um sintetizador a evocar o velho Mini Moog, muito bonito. Eis que sob uma desdobrada rítmica, vem a parte inicial cantada, com rica harmonia a sustentar tal base. Bonitos backings vocals enriquecem bastante a beleza dessa melodia e a cozinha (baixo e bateria), mostra-se firmíssima, gostei muito. Advém uma parte adicional pesada, com ares mais modernos, mas a conter um solo feito pelos teclados, que simula o efeito de um teremim e isso produz um colorido psicodélico incrível à canção. Gostei muito do solo de guitarra. Bruscamente apresenta-se uma nova parte e a conter outro solo de guitarra. Desta feita com um balanço muito acentuado e a contar com o apoio do órgão Hammond, lembra muito o som de bandas como o Triumvirat; Trace; Omega, ou seja, só remete a exemplos edificantes, ao meu ver. Mais um trecho ocorre, desta vez com extrema doçura, a mostrar violões muito bem timbrados e tocados, além de uma insinuação ao Flute Organ. A voz flutua em meio a um ritmo agradável e pontuado por contra-solos produzidos pelo sintetizador, intercalados com guitarra. A música finaliza-se com mais uma longa convenção, com brilhantismo.
“Hanging Garden”

Esta canção inicia-se com uma harmonia bela, sob a delicadeza de uma arranjo bem engendrado, a dar vazão para que o som do violino expresse uma linda melodia introdutória. A letra, como sugere o título da canção, foi escrita em inglês. Lembrou-me pela sua singeleza, o trabalho do Genesis, em seus áureos tempos. Um pouco adiante, o som esquenta, com uma mudança de ritmo e para tal, existe mais solos de violino e guitarra, ornados por um ótimo trabalho com piano. Baixo e bateria muito bons, gostei bastante da atuação de ambos. Eis que uma soturna parte chega abruptamente e lembra bastante o caráter sombrio do King Crimson. Efeitos muito bons são acrescentados, com muita criatividade, principalmente pelos teclados. O piano sobra com uma base de sintetizador ao fundo e a voz solo dá o seu recado. A banda volta a dar peso para o grande final, a valorizar a melodia cantada, com o violino a pontuar com riqueza tal trecho e abrir o caminho para um lindo solo de guitarra, que revela-se épico, sob a ação de um looping.

“Insolação”

Sob uma estrutura quebrada, em termos rítmicos, a canção inicia-se com tal ênfase muito interessante. Entra a parte cantada com peso e é possível até encarar tal trecho como algo mais palatável aos ouvidos não acostumados ao Prog Rock, com certa característica Pop. Mas que não engane-se o leitor, pois soar Pop não significa subtrair o nível e assim, tudo é bem tocado ao extremo. Logo a suíte encaminha o ouvinte para outras sonoridades, pois uma convenção intrincada é cheia de colorido pelo arranjo e uma parte mais orientada pelo "Space-Rock" chega, mediante efeitos produzidos pelos teclados, tudo muito bonito e a garantir o direito à epifania de quem costuma mergulhar em digressões viajantes, sem nenhuma preocupação em saber quando isso acaba (e pelo contrário, a depender da situação, deseja-se mesmo é não voltar mais, se é que o leitor permite-me tal divagação). Uma parte rica em balanço, traz uma melodia muito bonita e permite ao baixo estabelecer uma linha com notas dobradas, deveras rica, gostei muito e com essa desenvoltura, também oferta a oportunidade para o baterista soltar-se. Uma surpreendente etapa bem centrada no Blues-Rock, tem um peso contundente. A suíte desemboca na parte cantada mais uma vez e sob a repetição de uma elaborada convenção, encerra a obra. Bravo !

“Singular”

Bela e singela canção a trazer um arranjo com violões e viola, muito bem concatenados. Contém um elaborado trabalho melódico, inclusive enriquecido com a presença de uma cantora convidada, Mariana Gonçalves, a trazer o timbre feminino em contraste, o que sem dúvida, garantiu um élan para a canção. Há também um bom trabalho dos teclados, com efeitos estabelecidos ao sintetizador e um singelo mellotron que encerra o trabalho.

“Não tema, apenas se deixe levar / A vida é singular”, diz um trecho da letra e em suma, creio que a síntese seja essa mesmo, em torno de não haver amarras, e assim, que jamais deixemo-nos seguir os parâmetros estabelecidos por outrem. A vida é singular, e a grande viagem é para dentro de nós mesmos, perfeito.

Recomendo o trabalho do Prognoise, certamente, e torço para que esse ótimo grupo siga em frente, com uma longa carreira adiante. O CD físico "Solar" está a venda com preço muito acessível, através da página da banda no Facebook
Gravado no Pl@y Sonora Estúdio, em 2018

Produção de Hugo Borges e Prognoise

Capa (arte e lay-out) : Bárbara Ugalde
Selo Masque - Rio de Janeiro / RJ

Prognoise :

Alessandro Amorim : Baixo e Violão

Anderson Benvindo : Teclados

Ícaro Dickow : Bateria

Victor Salles : Guitarra

Zeno Germano : Voz; Guitarra e Violão


Músicos Convidados : 
Alessandro da Cunha (Bateria em “Insolação”)

Mariana Gonçalves : Voz em “Singular”

Hercílio Santana : Viola em “Singular”

Paulo Cesar : Teclados em “Hanging Garden”

Eduardo Barros : Violino em “Hanging Garden”

Vandrin Rodrigues : Backing Vocal em “Incandescente”

Jefferson Almeida : Teclados e Efeitos em “Singular”

Para conhecer melhor o trabalho do Prognoise, acesse :

Página do Facebook :

Prognoise Pvh – Rock Progressivo

Canal do Youtube :

Prognoise Pvh Oficial

Contato direto com a banda, pelo E-mail : 

prognoisepvhoficial@gmail.com

Contato para shows :

Fones : (69) 99236-5900 ou (69) 99286-9264