domingo, 15 de março de 2020

Filme : Birth of The Beatles (O Nascimento dos Beatles ou Nasce um Sonho) - Por Luiz Domingues


Uma banda da magnitude dos Beatles, já deveria ter tido uma cinebiografia grandiosa, feita com um orçamento portentoso a garantir uma produção à altura da sua importância na história do Rock, pois a despeito de haver uma série até grande de longas e TV Movies a abordar a biografia da banda (e sob vários pontos da sua trajetória), a verdade é que embora haja tal profusão, não há nenhuma peça dessas lançadas que dignifique de fato, a importância da banda. Um dia, algum abnegado haverá por investir nessa empreitada, assim espero, mas por enquanto (escrevo esta resenha no ano de 2019), e isso abrange um longo período, visto que a banda encerrou atividades em 1970, observamos apenas a existência de algumas películas meramente razoáveis e tal classificação aplica-se a este, “Birth of the Beatles” ("Nasce um Sonho", em português), lançado em 1979. Salvo engano de minha parte, trata-se da primeira tentativa para contar a história da banda e segundo consta nos dados oficiais do grupo, foi a única em que John Lennon pode assistir em vida, visto que ele seria brutalmente assassinado em dezembro de 1980.

Neste caso, o filme teve a proposta em retratar os primeiros tempos da banda, mas não integralmente, visto que a ação do filme inicia-se em 1961, quando começou a ganhar uma pequena notoriedade em meio aos clubes noturnos da sua cidade natal, Liverpool, ao norte da Inglaterra. Sendo assim, suprimiu-se a infância dos seus componentes; o início do interesse dos rapazes pela música, de cada um individualmente; os primeiros esforços (a banda “The Quarrymen”, que foi a semente inicial de tudo) e começa a falar a partir do "Silver Beatles”, nome primordial que a banda usou). Não há o que reclamar em termos de fidedignidade da trajetória da banda, no entanto, visto que o roteiro seguiu os acontecimentos cronológicos de 1961 e 1962, principalmente, ou seja, a pequena ascensão local do grupo no âmbito de sua cidade, época em que nem sonhavam com a escalada estratosférica que teriam pouco tempo depois para dominar o planeta inteiro. Nesses termos, mostra a ingenuidade dos rapazes recém saídos da adolescência em meio aos conflitos típicos da idade e a misturar-se com os pequenos dramas pessoais e familiares e leve-se em consideração que George Harrison por ter sido o mais novo, ainda era adolescente, em tese. Daí, mostra-se um pouco da personalidade de cada um, com John Lennon a mostrar-se como o mais impetuoso, e sempre a usar do seu famoso sarcasmo para produzir deboche, em via de regra. 

Nessa fase, o núcleo duro dos “Silver Beatles” foi formado por Lennon (interpretado por Stephen MacKenna); McCartney (interpretado por Rod Culbertson) e Harrison (interpretado por John Altman), a dividir os vocais e tocar guitarras, os três, com o baixo a ser conduzido por Stuart “Stu” Sutcliffle (interpretado por David Nicholas Wilkinson), que decididamente tocava mal, sem muito entusiasmo e a sua estada na banda sustentou-se por dois pilares : por ser amigo pessoal de Lennon e pelo fato de nenhum dos demais querer tocar baixo. E um outro fato, pela questão de recrutarem um baterista chamado, Pete Best (interpretado, por Ryan Michael), que tinha uma boa técnica ao instrumento e por ser bem apessoado, despertava a atenção do público feminino, em tese. Há o contraponto nesse aspecto, visto que os Silver Beatles passam a dividir as noites em muitos clubes com uma banda rival, chamada, “Rory Storm and The Hurricanes”, e os seus componentes tornam-se amigos do baterista dessa banda rival, um rapaz que gostava de usar anéis espalhafatosos, chamado, Richard Starkey, apelidado como, “Ringo Starr (interpretado por Ray Ashcroft).

Daí em diante, mostra-se na película, a famosa oportunidade que a banda teve em fazer uma longa turnê por casas noturnas da cidade de Hamburgo, na Alemanha, já a suprimir a palavra “Silver” e assumir-se como “The Beatles”. Com méritos, o filme retrata muitas histórias boas que os rapazes viveram em meio à barra pesada de casas noturnas situadas na zona portuária, portanto, os seus familiares tiveram razão em temer por tal excursão, visto que ali os rapazes tiveram que amadurecer aceleradamente, pois aconteceu de tudo, a envolver o contato direto com a prostituição; drogas; bebedeiras; jogatina; brigas etc e tal. Porém, o aspecto da banda ter adquirido uma substância para enfrentar o sucesso mastodôntico que viria a galope, foi fundamental e isso é mencionado, pois são muitas as cenas da banda a tocar com energia e a viver histórias engraçadas. Outro fato real, o então baixista, Stu Sutcliffle, apaixonara-se por uma fotógrafa alemã, Astrid Kirshherr (interpretada por Alyson Spiro), e gradualmente colocou-se a deixar a banda, com Paul McCartney a assumir o baixo, definitivamente. Pior ainda, e por essa ninguém esperava, Stu estava doente e não sabia, pois mesmo sendo muito jovem, havia contraído um tumor cerebral. 

Apesar dessa parte mais triste, é divertida a cena em que sugere-se que Astrid fora a responsável pela criação do famoso penteado “Beatle”, que com o decorrer do tempo e advento de um maior comprimento de cabelo da parte dos rapazes, tornar-se-ia uma marca registrada do início de sua explosão midiática. No entanto, não passou muito tempo e ele, Stu, teve um derrame cerebral, portanto, esse rapaz, não estava destinado a fazer sucesso com os Beatles, certamente. Outro fator desagradável, um dia a polícia foi avisada que George Harrison era menor de idade e não teve jeito : delegacia; constrangimento e encerramento da turnê alemã para a banda. Porém, como a banda havia gravado um compacto a acompanhar o cantor, Tony Sheridan, que era inglês, porém fazia sucesso na Alemanha, eles não suspeitavam que tal gravação poderia mudar a sua vida, inteiramente. 

Ao voltar para Liverpool, a rotina com shows voltou a ocorrer nos clubes da cidade, com uma escalada de sucesso, mas um dia, o dono de uma loja de discos local, ficou intrigado ao ver que em um único dia, cinco jovens entraram em seu estabelecimento e pediram o compacto a conter a música : “My Bonnie”, com Tony Sheridan & The Beatles. Esse rapaz, chamado, Brian Epstein (interpretado por Brian Jameson), ficou interessado em descobrir o que havia por trás de tal interesse que soou-lhe súbito e decidiu ir ao Cavern Club, uma casa onde os Beatles tocavam regularmente e entusiasmou-se em formular um proposta de empresariar a banda. Desse ponto em diante, mostra-se a atuação dele em levar os rapazes para Londres e tentar a sorte nas gravadoras grandes.

Até aí, foi tudo retratado dentro da biografia (inclusive o episódio da recusa na Decca Records e outros selos, para que finalmente fechassem o acordo com a EMI), embora fique a ressalva de que certos fatos são interpretados sob a ótica parcial de Pete Best, que foi assessor da produção desse filme, portanto, a questão de sua saída, já na porta da banda fazer sucesso. Por que digo isso ? Pelo fato acintoso de que a saída de Pete Best da banda, é retratado com uma boa dose de ressentimento, a mostrar que fora uma armação nada recomendável da parte de Lennon; McCartney e Harrison, por supostamente tal trio ter nutrido ciúmes de Pete, pelo fato dele despertar a atenção das meninas, ao ser considerado o mais “galã” da banda. Talvez esse elemento possa ter pesado na vida real, mas na biografia oficial, consta o fato de que o produtor de estúdio, George Martin, não aprovou a atuação de Pete Best, ao considerá-lo um músico fraco, técnicamente, e que a sua permanência na formação da banda, colocaria em xeque a consumação do contrato com a gravadora. É um horror isso, certamente, também acho, mas as gravadoras agiam com tal mão de ferro nessa época, a controlar absolutamente tudo, portanto, mesmo que fosse (e o foi, de fato), abominável, creio que essa versão da história é mais confiável. E para corroborar tal tese, o produtor, George Martin, também não gostou de Ringo Starr, e no primeiro compacto gravado pela banda, oficialmente, com as músicas : “Love me Do” e ”Please, Please Me”, quem tocou bateria foi um músico de estúdio, chamado : Andy White. No entanto, não foi sugerido que Ringo fosse substituído e ao permanecer na formação, este fez a história aos lado dos outros três.

Então, neste filme, sob a ótica de Pete Best, houve uma reação inconformada da parte dos fãs, sobretudo do público feminino da banda, com a sua saída e a entrada de Ringo Starr, que chegou a ser hostilizado verbalmente e isso contém uma verdade implícita na vida real, mas daí a dizer que fora uma traição dos demais, por ciúmes, creio que forçou uma barra e mostrou o seu ressentimento. Compreensível que ele tenha ficado amargurado, visto que saiu no momento imediatamente anterior à explosão do grupo, e quanto mais a banda ascendeu, nos anos posteriores, não deve ter sido nada fácil para ele observar de fora e de fato, ele nunca conseguiu ter uma notoriedade com outras bandas em que tocou e nem mesmo a sub-fama adquirida por ter sido o baterista da pré-história dos Beatles, ajudou-lhe a galgar degraus.

Ao final, de uma forma acelerada, e um tanto quanto vaga, mostra-se a ascensão nacional, a espalhar-se pela Europa em uma segunda instância e quando em fevereiro de 1964, a banda chegou aos Estados Unidos e apresentou-se no famoso programa de TV, Ed Sullivan Show. Portanto, se a intenção foi focar no período 1961 / 1962, um pouco antes da fama maior começar a explodir, eu acredito que melhor teria sido encerrar o filme no momento em que conheceram George Martin, e no frame final, colocar um letreiro com os caracteres a descrever : “e o restante vocês já sabem o que ocorreu” ou “daí para frente, é a história”, ou qualquer outra frase de efeito sob esse tom. Isso por que não fez sentido mostrar apenas o começo do sucesso e de uma forma tão abrupta, sob aceleração da narrativa. Todavia, como eu já alertei, foi a mão pesada de Pete Best que deve ter insistido nesse rumo, para valorizar o seu vitimismo, e eu sinto muito em ter que dizer isso, mas não consigo imaginar outra hipótese.

Sob o ponto de vista da produção, foi como eu disse logo no início, ou seja, o filme é simples e os Beatles merecem algo muito mais grandioso. Muitos anos depois, um filme mais caprichado, pelo ponto de vista da produção (todavia não pelo seu roteiro), enfocou mais ou menos o mesmo período da história da banda, desta feita a centrar-se sob o prisma do primeiro baixista, Stuart “Stu” Sutcliffle; e a sua relação com a sua bela namorada, Astrid Kirchherr e sobre a sua morte trágica, chamado : “Back Beat”, que analisarei, igualmente). 

A parte musical, esbarrou no dilema que é fazer cinebiografias de mega astros da música, sob a má vontade das editoras que controlam a sua obra com mão de ferro, ou seja, a apresentar dificuldades intransponíveis. Nesses termos, ao não poder fazer uso de fonogramas originais e também pelo fato dos atores não possuir a desenvoltura musical suficiente para tocar ao vivo, o recurso usado foi utilizar os préstimos de uma banda cover especializada e dessas que esmeram-se para imitar até o pensamento da banda verdadeira, portanto, o áudio das partes com música ao vivo, não desaponta, é bem tocado  e contém uma energia interessante, posso afirmar, para retratar ao máximo a fúria juvenil que os Beatles possuíam nesses primórdios, ao tocar em espeluncas, principalmente no ambiente pesado da zona portuária de Hamburgo, na Alemanha. Tal banda cover creditada como responsável por gravar a trilha sonora do filme, chamava-se, “Rain”, uma canção dos Beatles, aliás, muito boa. Sobre os atores, não há ninguém muito famoso, mas todos os principais construíram carreira na TV e no cinema britânico, com maior ou menor sucesso. Há o caso de alguns que tiveram participação em outros road movies, como Gary Olsen (interpretou, Rory Storm), que participou de “The Wall”, do Pink Floyd e John Altman (que interpretou, George Harrison) e este participou de “Quadrophenia”, baseado no disco conceitual homônimo, do The Who. 
Logicamente que despertou-se a atenção dos fãs dos Beatles e teve uma boa audiência na TV, visto que tratou-se de um telemovie, isto é, um filme especialmente para a TV. E a crítica foi moderada, a elogiar o trabalho de alguns atores e a trilha sonora, mas também ao não apreciar inteiramente o roteiro, considerado confuso pela parcialidade sob o ponto de vista de Pete Best.
O diretor galês, Richard Marquand, que dirigiu "The Birth of The Beatles"


Dirigido por Richard Marquand, um galês que posteriormente chegou a dirigir filmes da franquia de Star Wars, nos Estados Unidos, sob convite de George Lucas. Foi lançado em 1979. Existe cópia em DVD, pois ainda nos anos oitenta já havia sido lançado em formato VHS, portanto, seguiu-se a tendência com a nova formatação tecnológica que adveio. Foi bastante exibido em canais da TV a cabo e é facilmente acessado no You Tube. Em suma, o filme, “Birth of The Beatles”, tem os seus méritos, dá para assistir e ter uma noção sobre tal período primordial da carreira da banda, mas fica, como quase todos os que advieram-lhe, aquém da grandiosidade artística do grupo agraciado.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Os Kurandeiros + Uncle & Friends + Caio Durazzo One Man Band + Le Royale - 15/3/2020 - Domingo / 16 Hs. - Estúdio V8 - Ipiranga - São Paulo / SP

Amigos, estarei com a minha banda, Os Kurandeiros e também participarei do grupo "Uncle & Friends" do amigo, Lincoln Baraccat, no mesmo evento ! Além dessas duas bandas, Caio Durazzo One Man Band e Le Royale, completarão a super tarde no estúdio V8, gerido pelos simpáticos amigos : Denis Gomes; Juliana Parra & Fausto Lopes, com entrada grátis.

Os Kurandeiros
Uncle & Friends
Caio Durazzo One Man Band
Le Royale


15 de março de 2020 - Domingo - 16 Horas

Estúdio V8
Rua Lino Coutinho, 516
Ipiranga
Estação Sacomã do Metrô
São Paulo - SP


Entrada Grátis !

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Filme : Permissive - Por Luiz Domingues


Em 1970, duas produções cinematográficas, oriundas da Inglaterra, foram lançadas praticamente a abordar o mesmo tema : “Groupie Girl” e “Permissive”. O mote das groupies, em relação às bandas de Rock, estava na ordem do dia e nos dois casos, a questão é abordada com a significativa atenção a abalizar a recôndita reprovação moral sobre o que representou e ainda representa, a presença dessas meninas a compor a entourage de bandas de Rock, e não é algo para espantar-se, visto que, sim, há toda uma questão a envolver a desvalorização da mulher em torno de seu uso como objeto sexual descartável, e nesses termos, entra em voga fortemente a questão do machismo; porcochauvinismo; misoginia; feminismo etc e tal. Em ambas as produções, há uma carga erótica, e no caso de “Permissive”, pesa ainda mais por mostrar-se sob uma aura mais soturna, sem dúvida alguma. Tanto, que nos dois filmes, recorreu-se a diretores e técnicos que tinham experiência em produção de filmes eróticos, embora não seja o caso explícito destas películas que assumem-se como filmes de arte e são consideradas como : “Rock Movies”, para todos os efeitos. Sobre “Groupie Girl”, eu já opinei em sua respectiva resenha e ao leitor, deixo a ressalva que basta procurar por tal texto, no índice do livro impresso tradicional, ou para quem estiver a ler na Internet, no arquivo deste meu Blog 1.

Sobre “Permissive”, a história mostra a trajetória de Suzy (interpretada por Maggie Stride), uma moça que vaga por Londres à cata de uma oportunidade e tem como única referência na capital britânica, uma amiga chamada : Fiona (vivida por Gay Singleton). Fiona é uma groupie que vive na estrada a trocar de grupos de Rock (como quase toda groupie fazia ali naquela fase de ouro do Rock britânico, no período conhecido como “Late Sixties / Early Seventies”), e naquele momento, Fiona estava na entourage do grupo, “Forever More”. Esse grupo não foi inventado como banda fictícia especialmente para o filme, e de fato existiu na vida real, embora tenha sido bastante obscuro a grosso modo e somente os Rockers muito estudiosos desse período e sobretudo os colecionadores de discos, conhecem a sua existência. Apesar de mostrar-se bastante tímida, Suzy não choca-se com o ambiente promíscuo, ao ponto de evadir-se assustada, mas claro que demora um certo tempo para acostumar-se com a rotina regada a sexo livre; drogas; bebedeiras e também pela dura realidade de uma banda de pequena proporção na estrada, a viver em hotéis de terceira categoria; tocar em pequenos clubes e a usar camarins sujos, em via de regra.
Em princípio, Suzy envolve-se mais com o baixista, Lee (na verdade, Alan Gorrie, que usou nome fictício no filme e pouco tempo depois dessa película ser lançada, deixou o “Forever More” na vida real e fundou a “Average White Band”, uma excelente banda escocesa, orientada pelo R’n’B / Soul Music). Entretanto, nenhuma “groupie” é namorada de um membro apenas da banda, e estava ali para servir a todos. Além disso, mesmo sendo uma questão consensual, a rigor, a existência de ciúmes sempre foi algo inerente, tanto em relação aos músicos da banda e digo isso em qualquer banda e não somente no caso da Forever More, neste filme, quanto em relação às groupies, em torno de eventualmente apaixonar-se por um membro da banda em específico, portanto, brigas eram costumeiras nos bastidores da vida real no meio Rocker e Jimmy Page, o mítico guitarrista do Led Zeppelin que o diga, visto ser famosa a sua satisfação em assistir as groupies da banda a brigar por causa dele. 

Então, Fiona, que sentiu-se preterida, não gostou nem um pouco em verificar que a sua outrora tímida amiga principiante, tornou-se a predileta do baixista, Lee, e também do empresário da banda, Jimmy (interpretado por Gilbert Wynne), este inclusive, a mostrar-se mais um cafetão do que um manager de banda de Rock, pela maneira com a qual lida com as groupies do Forever More, e claro, a usufruir de suas benesses sexuais, igualmente.

Então a banda sai em turnê e Suzy não participa desta vez. Ela passa a perambular por Londres, quando encontra um Hippie com o qual envolve-se (“Pogo”, interpretado por Robert D’Aubigny). Há uma curiosa cena onde ambos entram em uma igreja e o rapaz tem o impulso em subir ao púlpito e proferir um discurso inflamado. Um rapaz que estava ali dentro a meditar, sai e chama a polícia, que logo prende o rapaz, sob a suposta alegação de perturbação da ordem, mas logo a seguir, ele é liberado na delegacia. Entretanto, por uma fatalidade do destino, “Pogo” é atropelado e morre tragicamente. Suzy vê-se sozinha, novamente. 
De volta a conviver com a banda, Forever More, ela segue a rotina a entregar-se sexualmente; prestar serviços domésticos e ser maltratada, normalmente e como em “Groupie Girl”, tais sutilezas certamente são mostradas a criticar o machismo inerente. Em “Groupie Girl”, isso é mais acentuado e em “Permissive”, percebe-se que o foco, no entanto, foi buscar a mesma temática por um ângulo ligeiramente diferente, ou seja, a mostrar o sexo, mais acentuadamente, para provocar o choque como reflexão ao espectador. Tanto que o filme obteve uma classificação mais rigorosa, ao ser considerado “erótico”, até mesmo para o usuário do You Tube, que precisa estabelecer o “Login” para poder acessá-lo e confirmar dessa forma, ter mais de 18 anos de idade para assisti-lo.
Daí em diante, vem uma sucessão de cenas fortes nesse sentido, porém mescladas aos aspectos mais ligados à rotina da banda, com cenas de ensaios; shows ao vivo e gravação em estúdio, que aliás, são boas, se consideradas as condições dessa produção, para os padrões da época. E sobre a música em si, além do som da “Forever More”, vemos e ouvimos também o som de duas bandas igualmente obscuras da cena britânica de 1970, mas muito interessantes : “Titus Groan” e “Comus”. Portanto, entre as três, o som apresenta bastante qualidade, ao exibir um misto entre o Blues-Rock; Hard-Rock; Folk-Rock e o Rock Progressivo, pela vertente mais experimental, quase a esbarrar no “Space-Rock”. Portanto, bem condizente com algumas das múltiplas vertentes que estavam em voga, fortemente no Reino Unido, nessa época. Vale muito a pena assistir, também por essa questão sonora. E certamente pelo aspecto do figurino, absolutamente incrível para todos, rapazes e moças, a mostrar que o Rock foi e na verdade, a revelar-se como uma outra realidade muito distinta do que veio a tornar-se nas décadas posteriores, mediante deturpações odiosas.
Ao final da história, após brigas generalizadas, eis que Suzy encontra a sua ex-amiga, Fiona, no banheiro de um quarto de hotel, onde a banda está a evadir-se, mergulhada em meio ao seu próprio sangue, visto que cortara os seus pulsos com a intenção deliberada de não mais viver. Suzy tem uma atitude blasé em apenas olhar tal cena e fechar a porta para abandoná-la, sumariamente, enquanto ela desfalece. E naturalmente que tal metáfora tem várias conotações, ao mostrar a total efemeridade dessa vida vazia e isso refere-se tanto para Suzy, quanto para Fiona, em seu ato suicida.
Lançado em 1970, com roteiro por Jeremy Greg Dryden. Produção por Jack Shulton. “Permissive” foi dirigido por Lindsay Shonteff, um canadense radicado na Inglaterra e que notabilizou-se por assinar filmes com baixo orçamento, notadamente películas com teor erótico. “Permissive”, assim como “Groupie Girl”, teve apoio de groupies da vida real, em termos de assessoria para escrever-se o roteiro. Chocou a sociedade em sua época, 1970, naturalmente pela temática. Hoje é uma peça documental interessante para a reflexão histórica e tem o mérito em conter uma representação muito boa da atmosfera desse período, embora com uma carga deveras melancólica, por força das suas circunstâncias.

Foi lançado em versão DVD, apenas em 2010 (existe no formato Blue Ray, igualmente), e é encontrado em sites de vendas virtuais. Desconheço sobre cópias dubladas ou com legendas em português, no entanto. Porém, mesmo para quem não domine o idioma inglês perfeitamente, e sobretudo sob o sotaque e gírias britânicas da época, mesmo assim, creio que não terá problema para entender bem os diálogos. Mesmo por quê, as situações falam por si só. E existe a disponibilidade no You Tube, todavia só acessível para maiores de idade, por conta da sua classificação como filme erótico.