terça-feira, 1 de outubro de 2019

Veio a Ordem do Celular : Odeie quem Falar em Amar - Por Luiz Domingues


Tempo confuso esse em que atravessamos, final da década de dez do século XXI, quando a semiótica é desafiada frontalmente. Conceitos são subvertidos a conferir novo e inusitado significado e significância para todos os conceitos e a justificar teorias da conspiração, aliás, as mais estapafúrdias a servir a ideologia A; B ou C, como se os avanços da humanidade até então, de nada valessem e agora a usurpação pura e simples fosse o lema dos formadores de opinião a manobrar, no pior sentido bovino do termo, os destinos de milhares, quiçá milhões de seres humanos.

Pois eis que chegamos ao limiar do histrionismo máximo em favor do ego. Nunca o egocentrismo foi tão exacerbado, ou a minha impressão é ingenuamente romântica a ainda acreditar que possa haver solidariedade entre os homens ? E pior, muito pior que isso, verifica-se neste mundo atual de 2019, a completa deturpação do conceito em si, ou seja, se já amargamos a falta de solidariedade, o que dizer então quando a própria palavra “solidariedade” é demonizada ao ponto de ser atribuída e / ou atrelada a conspirações malévolas, que supostamente visam o mal da humanidade, como se servisse aos inimigos que querem dominar e massacrar a raça humana ? 

Mas alto lá, quem é que deseja dominar, exatamente ?  Seria o lado “A” que demoniza o lado “B”, ou justamente o contrário ? Não parece uma estratégia que repete-se ao longo da história ? Sabotagens e acusações mútuas; permeadas por mentiras e nestes tempos de intensa massificação de mensagens via internet e vide a hipnose coletiva que observa-se pelas ruas, em torno do uso abusivo dos Smartphones, eis o campo fértil para tal ferramenta corrosiva ser usada pelos formadores de opinião. E que não fiquem chateados os publicitários comigo, mas se a ideia foi criar técnicas e teorias para vender produtos, a justificar o progresso em torno da roda da fortuna que sustenta a sociedade de consumo e por conseguinte, o capitalismo, o fato foi que tais metodologias de massificação, que são muito sofisticadas e só avançam mais ao longo dos tempos, também passou a ser empregada por outros fins e assim, ao cair em poder de pessoas obcecadas pelo poder e /ou a usar a desculpa da manutenção do status quo dessa engrenagem que acham tão perfeita e fascinante, o sentido da solidariedade tornou-se por conseguinte, algo desprezível, abjeto como um preceito religioso atrasado, como um resquício da Idade Média ou até da antiguidade, ou como um sonho tresloucado de alguns quixotescos hippies dos anos sessenta, que sonharam e a palavra é essa mesma, ‘sonho”, a denotar que não passara de uma mera divulgação utópica, imaginar que um dia a humanidade seria regida pela total solidariedade fraternal.
Ah, a formação de opinião... a quem interessa formatar um conceito, ou destruir um deles, considerado antagônico ? Pois é, a deturpação de conceitos como ferramenta eficaz para obter-se os resultados almejados e tratar em destruir os antagonismos. Aliás, nos tempos atuais, destruir opositores tornou-se mais importante do que convencer as pessoas que as suas metas são mais benéficas para a humanidade. “Destruir”, que palavra mais terrível, mas cada vez mais reestruturada para ganhar uma outra conotação e lá vão os bovinos a compartilhar a nova ideia passada pelos formadores de opinião, a dar significado positivo para ela. Ganha admiradores; compartilhamento; mais admiradores, com alguns a inflamar-se e gesticular com regozijo ao gritá-la nas praças públicas. Destruir; odiar; eliminar quem não pensa igual. Alimentar explicações estapafúrdias a justiçar teorias da conspiração em curso, no sentido de quem acredita em solidariedade é o inimigo que visa destruir a civilização. Na contrapartida : ajudar;  nutrir compaixão; compartilhar; não alimentar o ódio, passou a ser execrado e as pessoas obedecem fielmente os comandos de seus smartphones, para avisar os seus familiares, amigos e vizinhos sobre o perigo que representa essa gente que fala sobre “amor”, pois eles sim, são conspiradores que desejam o mal da humanidade, não é mesmo ?


Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2019.

sábado, 14 de setembro de 2019

CD Preces e Tentações / Pepe Bueno & Os Estranhos - Por Luiz Domingues


Artista inquieto por natureza, o baixista; cantor e compositor, Pepe Bueno sempre portou-se sob extremo entusiasmo, desde o tempo em que esteve à frente do Tomada, uma banda que escreveu belas páginas na história do Rock brasileiro, a partir do final dos anos noventa. Com o Tomada a trabalhar com força total, Pepe achou uma brecha para lançar um álbum solo em 2008, denominado : “Nariz de Porco Não Tem Tomada”, um dito popular a provocar uma brincadeira com a sua própria banda. Alguns anos depois, eis que Pepe retornou a movimentar a sua carreira solo, quando lançou, “Eu, o Estranho”, o seu segundo álbum solo, em 2016. Desta feita, porém, a despeito da atividade do Tomada continuar com força na ocasião, o segundo disco solo trouxe uma nova possibilidade para Pepe, além de um uma simples vazão para a sua energia criativa extra-banda, ao ser exercida a contento. Isso porque tal álbum inspirou o avanço de uma carreira solo com maior ênfase e para tal, o artista batizou doravante tal trabalho como : “Pepe Bueno & Os Estranhos”. Para ler pela primeira vez ou reler a resenha que elaborei sobre o álbum anterior : “Eu, o Estranho”, eis o Link disponível em meu Blog 1 :  


Nesse ínterim, Pepe Bueno lançou diversos vídeoclips, pois entre outros atributos pessoais, ele é também um experiente editor de peças audiovisuais. Recentemente, 2019, eis que Pepe anunciou o lançamento de mais um álbum, sob a chancela, “Pepe Bueno & Os Estranhos”, e denominado : “Preces & Tentações”. Cercado por um batalhão de músicos geniais, não haveria possibilidade desse novo trabalho não atender a expectativa natural da parte de qualquer ouvinte que esteja a acompanhar a carreira solo de Pepe Bueno, à frente de seus talentosos e “estranhos” (no ótimo sentido), companheiros de jornada, ou mesmo dos trabalhos do Tomada e para ir além, ao citar esses artistas que dão-lhe o devido suporte, ao pensar-se em cada um individualmente, em face de seus trabalhos a bordo de bandas significativas e em alguns casos, algumas a revelar-se históricas.
Posto isso, cabe dizer que sim, “Preces & Tentações”, atende prontamente as expectativas geradas em torno de uma coleção de boas canções pautadas pelas melhores referências do passado nobre do Rock, a observar não apenas o aspecto em torno da estética escolhida para assim poder expressar-se, mas também através da fidedignidade da formatação musical em relação aos arranjos individuais da parte dos instrumentistas e cantores envolvidos no bojo da obra. E ao ir além, sobre a questão da temática das letras, realça-se a preocupação de Pepe e de seus Estranhos, no sentido em buscar os melhores timbres, o melhor áudio e nesse particular, arrole-se entre os “estranhos”, também a participação especial dos técnicos de gravação; mixagem e masterização do trabalho, envolvidos, indelevelmente comprometidos com as mesmas ideias artísticas.
O mesmo pode-se afirmar sobre o aparato gráfico do trabalho ao mencionar o trabalho de ilustração / lay-out da capa do álbum. Bastante provocativa, a imagem de uma freira estilizada com detalhes que sugerem traços fisionômicos reptilianos, avança sobre o conceito do realismo fantástico em uma primeira instância, no entanto, logicamente abre a possibilidade para diversas interpretações análogas. Desenho criativo, sem dúvida, também faz jus à estranheza, um conceito que inspirara o título do álbum anterior de Pepe (“Eu, o Estranho”) e por ter ficado tão forte no imaginário proposto pelo artista, batizou a sua banda de apoio, posteriormente. Criação e lay-out de Sandro Saraiva, certamente que é um cartão de visita sob o ponto de vista visual, a revelar-se atrativo para o álbum.

Sobre as canções, é preciso acrescentar mais algumas observações pertinentes. Enquanto o leitor continua a acompanhar a resenha, convido-o a escutar o álbum, na íntegra, através do link abaixo, no You Tube  :


“Respira” 

Tratada como uma vinheta, essa faixa com pequena duração é marcada fortemente pelo experimentalismo explícito. Mediante uma linha mestra proporcionada pelo baixo, no sentido de um looping, dá-se a margem para que os outros instrumentos participantes aventurem-se em voos, caso dos teclados e das guitarras em sobreposição e devidamente sustentadas por uma linha de bateria a buscar um sentido tribal. Lembra o Space-Rock da transição dos anos 1960, para a década de 1970, além do Krautrock germânico mais radical da década de setenta. Vozes a balbuciar palavras aparentemente desconexas, ajudam a manter o clima em tom da estranheza generalizada e certamente a mostrar-se como uma introdução perfeita para uma banda que observa a estranheza como o seu mote. Entretanto, isso é uma pista falsa se o ouvinte está a conhecer esse trabalho pela primeira vez, pois a seguir, o trabalho expressa na continuidade do álbum, a característica mais Pop da música convencional e com muitos méritos.
“Calma”

Trata-se de uma bela balada, com uma melodia agradabilíssima, e cuja vocalização principal foi defendida por um grande parceiro de Pepe, na figura do cantor / guitarrista e compositor, Fernando Ceah. Não consta na ficha técnica uma especificação formal e elucidativa, mas ao levar em conta que Ceah é um grande letrista, é possível que tal letra tenha sido a sua contribuição à canção, visto que ele é coautor da música junto à Pepe e também a contar com o baterista superb, Junior Muelas. O backing vocals com a palavra, “calma”, a intercalar e a comandar o refrão central, é muito bom. Tem tudo a ver com a menção feita na faixa anterior, que chama-se : “respira”, ou seja, respirar e acalmar-se talvez seja a única solução para enfrentarmos a loucura diária imposta-nos em torno das agruras da sociedade pautada pelo mega consumo, e assim criada para justificar a preocupação em ter que honrar os boletos que mandam-nos diariamente em nossas respectivas residências. Em suma, só resta mesmo ao cidadão comum, buscar acalmar-se para que não sucumba ao colapso nervoso total. Na parte musical, é adorável o uso de bases com farto uso da caixa Leslie. Contra-solos inspirados de guitarra, pincelam a canção a colori-la muito bem. A levada da cozinha é flutuante. O cowbell inserido como detalhe percussivo, segue essa ideia da simplicidade, mas é na singeleza que tais sutilezas realçam-se com muita felicidade. Uma parte inspirada no Hard-Rock é muito bonita, com peso, mas não mostra-se desmesurado, ao manter-se melódico, portanto. O apoio do órgão Hammond também é discreto, mas muito eficaz.

“E com fé eu vou... das seis às seis eu tenho meta a cumprir... calma... calma... calma”
“Esconderijo”

Eis aqui um canção a conter um sentido R’n’B, bem forte, por investir em uma ótima melodia. Lembrou-me bastante o trabalho do grupo britânico, Faces, no início dos anos setenta, mas claro, essa colocação é uma mera impressão pessoal de minha parte, e portanto não significa que Pepe Bueno & Os Estranhos tiveram tal inspiração exatamente como eu intuí. Sob um instrumental excelente, dá-se a margem para que Pepe a cante com desenvoltura e coloque à disposição do ouvinte, o seu bom baixo, com tranquilidade, igualmente.

“Vida”

É interessante o seu início a mostrar-se bluesy, com o piano e o baixo a mantê-la amena, sob uma batida marcada pelos tambores, predominantemente, na bateria. O solo de guitarra é muito melódico e ao mesmo tempo encorpado pelo excelente trabalho de áudio a garantir-lhe um timbre memorável. Excelente também a participação dos teclados, inclusive a apresentar a inserção do mellotron, um tipo de timbre ultra 1960 / 1970, e que sempre enriquece sobremaneira qualquer trabalho com tal intenção em demarcar as influências do melhor do Rock.
“Último Dia de Verão“

Ótimo trabalho com violões, mesclados com as guitarras. Evoca-se a riqueza musical do Southern Rock, sem dúvida. Mediante o uso dos teclados com muita propriedade; a conter uma ótima linha de baixo e sob uma melodia muito boa, eis aqui, uma canção muito boa em todos os quesitos.
“Cá, Entre Nós”

Uma balada Bluesy, lenta e introspectiva, e que contém novamente um aparato instrumental de primeira linha. Teclados; guitarras; violão; baixo e bateria em perfeita sintonia, ofertam em sintonia, uma amálgama perfeita para a melodia vocalizada fluir e narrar uma história de amor, para citar logradouros paulistanos, ou seja, a conter uma urbanidade perfeita.

“Não Muda Mais” (Você é uma Maluca)

Conduzida pela voz rasgada do cantor / guitarrista, Xande Saraiva, trata-se de um Blues-Rock vigoroso, com ótima instrumentação. Tem muito a ver com os primórdios da carreira do Tomada, portanto, é uma raiz natural de Pepe Bueno a mostrar-se sempre presente em sua obra, que bom. 
Uma novidade interessante, no release do álbum, é mencionada a existência de três faixas adicionais, que serão disponibilizadas a posteriori, quando o álbum for lançado em formato físico, em CD tradicional. Trata-se de : “Tempo, Um Mundo Diferente”; “África” e a releitura de uma canção de Guilherme Arantes, “Estranho”. Este álbum foi produzido em vários estúdios, daí a existência de vários endereços na ficha técnica.

Eis então um novo álbum de Pepe Bueno & Os Estranhos a mostrar uma continuidade sólida em relação ao trabalho anterior, e que eu recomendo, certamente.

Gravado nos estúdios : Orra Meu; Carlini’s Studio; Casa 88 e Curumim, de São Paulo / SP e também no estúdio Área 13 de São José do Rio Preto / SP

Técnicos de gravação (captura) : Marcello Schevano; Gustavo Barcellos; Rafael Magno; Gabriel Martini; Roy Carlini; Fernando Ceah; Claudio “Moko” Costa e Alberto Sabella
Mixagem : Pepe Bueno e Gabriel Martini
Masterização : Renato Copolli
Capa (Arte-final e Lay-Out) : Sandro Saraiva
Fotos : Cristina Piratininga Jatobá e Marcelo Creelece
Produção Geral : Pepe Bueno
Selo : Curumim
Pepe Bueno & Os Estranhos
Pepe Bueno : Baixo; Voz; Guitarra; Violão e Lap Steel
Pi Malandrino : Guitarra
Alberto Sabella : Teclados e Trutuka (um instrumento de sopro)
Junior Muelas : Bateria e Percussão
Xande Saraiva : Guitarra e Voz
Roy Carlini : Guitarra
Rodrigo Hid : Teclados
Caio Lobo : Voz
Marcello Schevano : Guitarra
Gabriel Martini : Bateria
Claudio “Moko” Costa : Guitarra
Chico Marques : Voz
Fernando Ceah : Voz

Para conhecer melhor o trabalho de Pepe Bueno & Os Estranhos, acesse :

Multi Link para escutar o álbum em diversas plataformas digitais : 



Contato direto com Pepe Bueno via E-mail : 
peperockista@gmail.com 

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Site oficial de Pepe Bueno :