quarta-feira, 15 de maio de 2024

CD: Iron Man is Dead/Anarca - Por Luiz Domingues


Grupo de Rock com destaque na cena brasileira, o "Anarca
" foi fundado em 1979, porém as suas raízes remontam a um passado mais longínquo, em torno dos esforços empreendidos pelo seu idealizador, o guitarrista, tecladista, cantor e compositor, Wagner, popularmente conhecido como: Wagner Anarca.

A paixão pelo Rock nasceu cedo para ele, ainda no decorrer dos anos sessenta, com os olhos e ouvidos grudados no monitor da velha TV em preto e branco a assistir e apreciar as jovens tardes de domingo, através do histórico programa de TV, "Jovem Guarda". 

E ao mesmo tempo, o talento para o desenho se mostrava visível, na medida em que tudo o que pequeno Wagner absorvia culturalmente, expressava de imediato nas folhas de papel em branco, devidamente registrados na forma de ilustrações que ele criava e pelas quais impressionava os adultos por conta da sua habilidade precoce.

Já na adolescência, o estopim final para que ele mergulhasse no mundo da música veio da sua ida aos shows de Rock que foram abundantes nos anos setenta e de onde ele descobriu e se apaixonou por uma banda em específico, o Made in Brazil.

Inspirado na saga dos irmãos Vecchione, eis que Wagner e um grande amigo que ele arregimentou por conta da total identificação em torno dos mesmos ideais do Rock, fundaram uma banda, enfim, a qual batizaram como "Opção", mas que infelizmente não ultrapassou a fase inicial dos ensaios preliminares de construção do material. A seguir, a dupla Rocker montou outro grupo e este empreendeu voos maiores, ao fazer shows pelo circuito estudantil, este a atender pelo título de: "Shock". 

No entanto, esse companheiro de luta montou outra banda e neste caso, falo sobre o saudoso, Lucio Zapparoli, que fundou o "Santa Gang" e Wagner, por sua vez, montou a banda que o marcaria para sempre, a partir de 1979, o "Anarca". A trilhar caminhos diferentes, os dois amigos brilharam a bordo dessas bandas ao longo dos anos posteriores.

Já com o Anarca sedimentado e famoso na cena, eis que a banda cometeu uma tremenda ousadia para os padrões da época, quando lançou um LP duplo ao vivo, que gerou furor pela produção tão avantajada (o Anarca também houvera lançado um compacto). 

A banda tocou muito, colecionou muitas alegrias na carreira e angariou um público entusiasmado pela sua obra, mas eis que um dia, Wagner decidiu trocar de ares e se mudou para os Estados Unidos. Lá, ele conheceu músicos norte-americanos com os quais se entrosou muito bem e rapidamente montou uma banda, o "God's Gift", com a qual lançou dois discos, e tocou bastante.

A arte do desenho seguiu firme em paralelo para Wagner Anarca e não apenas para ilustrar as artes para as capas de discos e cartazes promocionais de shows, mas a render uma quantidade grande de livros publicados com a sua arte ilustrativa, com muita qualidade.

Muitos discos solo advieram, até que a ideia de reativar a Santa Gang de Lucio Zapparoli surgiu como uma possibilidade concreta em 2019, mediante a presença decisiva de Wagner a participar ativamente desse processo. Essa história está contada com mais detalhes em outra resenha que eu preparei, justamente para repercutir o lançamento desse disco, cuja produção ficara a cargo de Wagner Anarca, além da sua brilhante participação como guitarrista, logicamente. 

Para quem não leu, fica o convite então, para tomar contato mais aprofundado com tal obra, através do meu Blog 1:

http://luiz-domingues.blogspot.com/2023/02/cd-lucio-zapparoli-tributosanta-gang.html

No entanto, eis que de forma súbita e muito triste, o Lucio nos deixou, infelizmente, e esse projeto não teve mais andamento por conseguinte.

O tempo passou a atenuar a ferida pela perda do amigo e foi quando o Wagner anunciou uma nova obra do Anarca, gravada nos Estados Unidos e recheada de grandes músicos convidados entre brasileiros e norte-americanos, a se tratar de um rol de artistas talentosos e também amigos de longa data dele (e alguns deles, amigos meus em comum, devo acrescentar).

Vitaminado com muitos bônus a representar as diversas fases da carreira de Wagner Anarca, além das músicas inéditas apresentadas, são muitas as surpresas sonoras oferecidas e a abranger gravações dos anos oitenta até os anos 2020, portanto este álbum traçou um apanhado geral não somente sobre o Anarca enquanto banda, como da persona de Wagner Anarca através de seus muitos trabalhos bem feitos com outras bandas e sob a condução de sua carreira solo, igualmente. 

Com capricho no áudio e na apresentação gráfica, ou seja, duas das especialidades de Wagner, o CD Iron Man is Dead revela um apanhado de Rocks, blues e baladas sob diversas matizes, muito bem executados e com estratégica separação do material de forma bem didática em ordem cronológica decrescente.

Em suma, trata-se de um álbum bem robusto no quesito musical e ricamente ilustrado, inclusive a apresentar diversas páginas de encarte, com muitas fotos dos músicos envolvidos, fotos informais dos artistas e a discografia e bibliografia completa como catálogo, da obra de Wagner

Sobre as canções, tenho mais algumas observações para acrescentar. Conforme eu mencionei anteriormente, as primeiras canções representam então o Anarca revisto dos anos 2020, através de cinco músicas com identidade moderna dentro do campo do Hard-Rock e do Heavy Metal, algumas até com certa dose de experimentalismo, influência de "Doom Metal" e outras vertentes mais contemporâneas do mundo do Rock pesado. 

Para tal missão, ele convocou um especialista, na figura de Wagner Geronimo, vocalista de Heavy Metal brasileiro, famoso no Brasil por seu trabalho com a banda: "Máscara de Ferro" nos anos oitenta e radicado nos Estados Unidos há muitos anos. Também a contar com os ótimos trabalhos do ótimo baterista, Beto Salaberry, e do multi-instrumentista norte-americano, Brian Harelik, com esse quarteto o Anarca atual mostrou o seu lado mais pesado (Pat Scanlon também participou a cantar em uma faixa.

Eis as faixas dessa fase representadas no álbum:
1)
Iron Man is Dead
2)
Fast Track
3)
Sell out Rick
4)
I Will Forever
5)
Leave it Alone

Daí em diante, o álbum mostra as faixas a representar outros trabalhos feitos pelo Wagner Anarca. Por exemplo, a faixa número seis mostra a participação dele como convidado da "Opera-Rock" composta por nosso amigo em comum, o baixista e compositor, Claudio Cruz, chamada: "O Renascer dos Tempos" ou também conhecida como "Musical Ópera Rock", que inclusive eu também fui convidado a participar e trabalho esse do qual eu pude gravar uma outra faixa.

No caso, a participação dele se deu com a música: "Carmen" neste álbum produzido pelo Claudio Cruz e que foi alojada como a sexta faixa do CD Iron Man is Dead.

A seguir, o disco apresenta um conjunto de canções produzidas em 2018, a mostrar um lado mais Rock'n' Roll, Blues-Rock e Country-Rock, tudo muito bem tocado ao extremo, através das faixas:

7) Tears of Rain
8)
Won't you by me (Mercedes Benz?)
9)
Tribute MIB (homenagem ao Made in Brazil)
10)
My Friend (está no álbum CD "Lucio Zapparoli Tributo/Santa Gang")
11)
Pode Esperar
12)
Blues dor Brian (também está no álbum CD "Lucio Zapparoli Tributo/Santa Gang")

Uma boa mostra do trabalho que Wagner desenvolveu com a banda norte-americana, "God's Gift" vem a seguir, a exibir Hard-Rock com forte teor Pop midiático e a conter ecos do movimento grunge dos anos noventa. São faixas coletadas de 1997 a 1999, muito bem executadas por seus componentes.

13) Fire in the Hole
14)
A Little Paradise
15)
All Your Love

A faixa 16 mostra a canção "Sonho Perfeito", cantada em português, gravada em 1990, a conter um som bem característico do Hard-Rock Pop brasileiro da década de oitenta, a me lembrar inclusive o som praticado por uma banda contemporânea do Anarca, a se tratar do "Platina".

Uma canção instrumental, na qual Wagner toca todos os instrumentos e a mostrar doses graúdas de experimentalismo, é a de número 17, intitulada: "Stephaniee's Song"

Uma ótima nova para os fãs mais antigos do Anarca, eis que as faixas 18 e 19, são duas músicas do velho Anarca dos anos oitenta, sob performances ao vivo muito boas e a retratar a boa forma que a banda continha em suas apresentações. São as faixas: "Exposição" e "Contraste".

E para encerrar o álbum, a faixa: "Cartoon" é um trabalho de teclados a conter muitos efeitos sonoros e certamente a destacar a produção gráfica de Wagner como um grande desenhista que ele é.

Em suma, o disco está recheado de boas atrações, é eclético por visitar inúmeras tendências, algumas delas até dispares entre si, os músicos participantes são ótimos em todas as fases retratadas e por fim, o próprio Wagner Anarca brilha intensamente a tocar guitarra, teclados, harmônica e a cantar, além do trabalho de composição, elaboração de arranjos e produção geral.

O disco tem uma apresentação visual excelente e impressiona por tal apuro, além de conter o catálogo completo da discografia e bibliografia de Wagner Anarca e o material é extenso.

Eu, Luiz Domingues) a receber das mãos do músico e ativista cultural, Dalam Junior, a cópia do álbum "Iron Man is Dead" ofertada pelo Wagner Anarca e cuja missão de trazer diretamente dos Estados Unidos coube ao nosso amigo em comum, Dalam, que me entregou o disco em 7 de dezembro de 2023, na estação Klabin do metrô de São Paulo. Click (selfie), acervo e cortesia: Dalam Junior

Para a sua audição, somente existe (por enquanto), em termos físicos como CD tradicional. Talvez seja alojado nas plataformas Streaming e YouTube mais para a frente.

Para encerrar, eu recomendo a audição desse trabalho, certamente, e parabenizo o artista pela qualidade da obra e aliás, da carreira toda como um todo, o que aliás, é bem representado neste álbum. 

Ficha técnica:
CD Iron Man is Dead
Gravado ao vivo e também em estúdio sob diversas fases e circunstâncias de 1986 a 2023.

Wagner Anarca: Guitarra, voz, efeitos de voz, harmônica, bateria e teclados (todas as faixas)
Wagner Geronimo: Voz (faixas 1 a 4)
Beto Sallaberry:  Bateria (faixas 1 a 5)
Paul Scanlon: Voz (faixa 5)
Brian Harelik: Baixo, guitarra, bateria e teclados (faixas 1 a  6, 10, 11 e 12)
Dan O'Brien: Guitarra, baixo e bateria (faixas, 7,8 e 9)
Lucio Zapparoli (in memoriam): Voz (faixas 10,11 e 12)
Ricardo Kako: Bateria (faixas 10 e 11)
Junior: Bateria (faixa 12)
Derek J. Labor: Guitarra e voz (faixas 13, 14 e 15)
Paul Thomas: Baixo e voz (faixas 13, 14 e 15)
Steve Zingo: Bateria (faixa 13)
Willy Anido: Bateria (faixas 14 e 15)
Ulisses Rocha: Voz (faixa 16)
Fabio Xepa: Bateria (faixas 16, 18 e 19)
Rogério GG: Baixo (faixa 16)
Sérgio Testa: Baixo (faixa 18)
William Kusdra: Baixo (faixa 19)

Para conhecer melhor o trabalho de Wagner Anarca, e banda Anarca, acesse:

Anarca - Discogs:
https://www.discogs.com/pt_BR/artist/1791492-Anarca

Anarca no Blog "Toca do Shark", do comunicador, Alexandre Quadros (o qual agradeço inclusive, pois dessa entrevista que ele publicou com o Wagner, eu extraí informações importantes para elaborar a minha resenha)  

http://tocadoshark.blogspot.com/2014/03/wagner-anarca-um-dos-herois-do-som.html

Canal de YouTube de Wagner Anarca:

https://www.youtube.com/channel/UCdtArQwvc-wtUqY0PJf4K9w  

Wagner Anarca - Spotify:
https://open.spotify.com/intl-pt/artist/07tqg0R3CNLQyYujZqg9ng 

Anarca Site:
anarca.com

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Livro: 70 poemas sem nome/Marcos Mamuth - Por Luiz Domingues

Cena noturna: sob meia-luz, um músico está a tocar guitarra. Em cima da mesa há um caderno com uma caneta esferográfica jogada sobre ele e também uma xícara de café a exalar o seu vapor perfumado que se espalha pelo ar. A todo instante o guitarrista interrompe a sua execução para escrever frases pontuais no caderno. 

Ele toma um gole de café e volta a tocar. O som é o Blues e as interrupções constantes são para anotar frases que brotam na sua cabeça e ele não pode perdê-las. E assim, como um bom compositor, ele sabe bem que as ideias surgem e escapam sob uma velocidade absurda. Por isso, não se importa com as constantes interrupções que são feitas por um bom propósito.

Então ele olha pela janela e vê a grande cidade toda iluminada, com aquela movimentação frenética que lhe é peculiar, suspira e volta a tocar guitarra. Se empolga e abandona a harmonia com a qual cantarolava uma melodia que estava a criar e faz um solo cheio de sentimento. A imagem da cidade notívaga o inspirara.

A seguir, ele guarda a guitarra no suporte do instrumento e com a caneta em punho se coloca a escrever com muita volúpia, pois também escreve poesia, isto é, trata-se de um escritor de mão cheia e dessa forma, se inspira para compor canções, mas a música também o inspira a escrever poesia. A retroalimentação do artista total que busca inspiração de todos os lados e simplesmente cria a sua arte a expressar tudo o que sente, ouve e vê ao seu redor. 

Eis aí trabalho do poeta e do compositor musical, que simplesmente observa e sente a vida, para repassar aos seus leitores e ouvintes a sua interpretação sob o manto da arte.

É exatamente o que faz Marcos Mamuth, como um grande guitarrista versado pelo Blues e pelo Rock em linhas gerais, mas eclético, sempre pronto a usar de suas múltiplas influências para visitar outras vertentes ao compor e tocar a sua boa música e também quando escreve a sua poesia plena de imagens fortes, a evocar a urbanidade refletida nas relações humanas em meio às suas contradições e neuroses, mas também desvelar a candura dos momentos bons sob vários aspectos do cotidiano de todos nós.

Na primeira foto, Marcos Mamuth em ação no palco. Na segunda, da esquerda para a direita: Carlinhos Machado, Marcos Mamuth e Ayrton Mugnaini Junior, "Los Interessantes Hombres Sin Nombres". Clicks de Ivani Albuquerque

Como músico, Marcos Mamuth é um guitarrista sensacional, com destacada atuação como compositor. Ao lado de bandas ("Los Interessantes Hombres Sin Nombres", por exemplo) ou na carreira solo, mediante uma boa obra lançada em disco, ele faz a guitarra chorar e assim nos convida também à reflexão de suas letras com alto teor poético, contida nas suas canções.

Como escritor, ele se mostra direto, tantos nas navalhadas na carne a la Plinio Marcos, quanto nas imagens mais doces a descrever o encanto de acompanhar com incrível carinho paternal o nascimento e criação de sua filha pela qual devota um amor incondicional.
Como professor universitário e psicólogo na formação acadêmica,
Mamuth transpassa a alma humana em busca do conhecimento de si mesmo.

E tudo isso se reflete através de suas músicas e poesias, com enorme desenvoltura, sinceridade e beleza na escolha das palavras e das notas musicais que decide usar.

Posto isso, falo mais detidamente agora sobre o livro que ele lançou no limiar de 2023, denominado: "70 poemas sem nome". De fato são setenta poemas e nenhum deles contém um título formal, apenas a se apresentar sob a numeração, pura e simplesmente.

Tal decisão do autor não se trata de uma predisposição aleatória de sua parte. Os poemas seguem uma linha tênue e quase a sugerir a continuidade de uma construção bem delineada para seguir alguns temas em separado, porém unidos sob outros aspectos.

Nesses termos, muitos poemas (ou quase todos), são bem curtos, a exercer o poder da síntese. Outros, mais extensos, porém, se mostram a denotar o predomínio do exercício da assertividade para dar o recado.

Versos fortes abundam a obra. "Poeta burocrata das oito às dezessete horas que toca guitarra" a revelar a sua própria condição de artista das notas musicais e das palavras escritas, que trabalha formalmente como professor universitário mediante a rigidez do horário escolar.
"
Óculos bizarros de lentes entristecidas" ele diz para justificar as mazelas que vê ao seu redor em meio à sociedade construída com tanta rudeza a se gerar a miséria geral. O artista é sempre o ser humano mais sensível que enxerga o mundo sob o prisma real.

Veja um poema abaixo, o designado como número 8:

"Novamente, a praia e os seus dizeres
Caminhávamos,
mãos entrelaçadas,
brevemente.
Atrás de nós,
estendia-se a procissão dos esquecidos.
Ainda não havia o fogo pleno
em todas as suas nuances maduras
de odores,
dores
e sensações.
A paixão queimava-me de forma terna, doce.
(Era preciso começar lentamente até que a carne se habituasse a esses
sofreres.
)"

O amor tem espaço generoso na criação do poeta. Observa-se no livro um conjunto de poemas muito intensos para falar do assunto e sob várias matizes. Dessa forma, da ternura à angústia, dos afagos à ausência do carinho, o assunto é esmiuçado por poemas fortemente inspirados pelas sensações corpóreas, mas também pelas entrelinhas que os relacionamentos carregam, geralmente imersos em mistérios insondáveis, pois quem entende as mulheres (?), pensamos assim, nós os homens. E claro, na contrapartida as mulheres tendem a nos subestimar quando afirmam que somos óbvios...

Nesses termos, o poema de número 15, dá a dimensão de como o amor também pode ser complicado, mesmo que seja intenso, na visão do poeta:

"Te amar sempre foi assim,
meu demônio aveludado:
deito e rolo
todas as noites
em lençóis de arame
farpad
o".

E o cotidiano está igualmente presente na visão do poeta, sempre a enxergar beleza nas ações, das pueris às grandiosas. Veja o poema de número 42, ao tratar de questões dessa monta:

(Para Aneth)

"A tua poesia é nua,
Cumadi.
Mostras a alma
enquanto serves ao leitor
café,
pão de queijo
e bolo de fubá.
Mostras teus versos,
e também as curvas
da tua estrada
(corpo
pele,
cabelos)
percorrida
a pé,
em lombo de burro,
de bicicleta.
De todo jeito e maneira.
Menos de carro.
"De carro não tem graça",
dirias entre o sorriso discreto
e o olhar cotidiano
das imensidões
"…

Urbano por natureza, em algumas poesias o autor deixa algumas imagens mais ácidas, é bem verdade. Faz parte, a vida nas cidades de pedra tem essa rudeza implícita sob algumas nuances. Isso sem contar que o lirismo mórbido de Augusto dos Anjos se faz presente em alguns versos. Não posso afirmar ter sido uma influência direta sobre o autor, portanto, que fique a ressalva de que se trata de uma mera impressão pessoal de minha parte. Veja que interessante a poesia de número 43:

"
Com o lirismo possível,
entre trágicas profecias,
ameaças invisíveis
e prenúncios bíblicos de findos tempos,
sobrevivo.
O tórax,
apertado,
entristecido,
abriga um coração cauteloso
e pulmões covardes.
Minhas mãos se retesam
e ardem:
com o lirismo possível,
escavo a alma em busca de alguma coragem oculta.
Encontros escurecidos,
túnel no fim da luz.
Para onde conduz
esse lirismo possível com o qual caminho pela avenida semideserta?
Felizmente, ainda resta a canção,
embora cansado
o refrão.
Um único braço silencioso agora me acolhe:
seis cordas frias aquecendo a noite morta,
exilada da brisa fresca.
Sete vidas tem o blues,
sete encruzilhadas e Exus.
Cada um deles benze minha fronte
com todo o lirismo possível.
E só.
Nada mais ou menos.
do que o lirismo possível.
Porque é o tempo da Peste.
Homens alucinados cavalgam bestas antes renegadas que finalmente ganharam os campos.
Caso as velas se rasguem
e naufraguemos em rios de sangue e pus
façamos jus
ao lirismo possível.
É nosso escudo.
Exaustos,
Sim.
Mas não mudos.
A difícil missão de buscar entender o ser humano, sobretudo sobre si mesmo. Veja no poema de número quarenta e nove:
Cada um sabe
de seus temores,
de suas dores,
de seus contágios,
e desfechos
trágicos.
Cada um sabe de si,
ou pelo menos deveria saber.
Cada um vive
(ou finge viver)
suas distâncias e isolamentos
e constrói seus próprios muros
de ressentimentos.
Cada um é ausência do outro
na medida exata
do coração despedaçado.
Cada um é seu próprio pecado
e salvação.
Cada um é sim
e não
ou simplesmente o oposto.
Cada um sente sozinho
o gosto
da própria solidão.
Nada de novo
neste final
de verão
".

E a alta filosofia? Sabe aquela busca do sentido da vida através das perguntas clichê que ouvimos nos programas de TV a cabo? Quem somos nós? De onde viemos e para onde vamos? Pois é, a crise existencial que deveria estimular a consciência de todos, mas na prática isso não ocorre pois a maioria só pensa nos boletos, ou seja, é mais desesperador viver neste mundo para quem pensa além, caso dos poetas e dos músicos, ou seja, Mamuth vive esse dilema em dose dupla!

Mamuth insinua a sua insatisfação sobre os rumos da humanidade. Nesse aspecto, deve existir algo maior que as preocupações prosaicas que geram insônia na maioria. Leia o ótimo poema cinquenta um e reflita:

"
Esperemos aqui mesmo,
poetas
e tolos!
Não é hora
de partir.
Há de vir
algo
ou alguém
que nos tire do chão.
A cadeira do dentista,
a ascensorista,
um piloto de avião.
Há de haver
algum alento,
um pouco de ilusão
e encantamento
na carne dura
onde fulgura
nosso pálido
dia a dia.
(Não fui eu quem inventou a Poesia.
Foi ela quem me pariu.
E à revelia.)

Eis que o autor homenageia um artista como ele e que enxergara muito na frente, mesmo tendo vivido cem anos atrás. Pois o poema cinquenta e seis é dedicado ao grande Mário de Andrade.

(para Mário de Andrade)

"Debaixo dos lençóis,
tua mão
a me ensinar
o tamanho
das imensidões.
Manso
e sem intenções,
eu cabia inteiro
no teu olhar.
O nome disso
era amar.
(Verbo intempestivo)
"

Marcos Mamuth ao vivo a tocar o Blues com maestria! Fonte: Internet

E o Blues se pronuncia nessa configuração toda. Blues é sentimento à flor da pele, é raiz primordial, é expressão pura do mais profundo âmago humano e no caso, é uma especialidade de Mamuth enquanto músico. Não basta tocar o Blues, não basta compor o Blues, para o artista Mamuth, o Blues também merece a poesia (e vice-versa).  Leia sobre essa menção expressa na poesia de número sessenta:

"
Estávamos a sós,
ao pé da escada.
O crepúsculo da cidade ainda não era tão cinzento
e triste.
Risos,
vozes.
Epiderme em alvorada.
Tempo.
Há anos venho seguindo teus passos errantes.
Tanto,
que os meus próprios são, agora,
pouca coisa.
Mas existe o blues para esses momentos.
Felizmente,
 existe
 o
 blues
".

E por que não questionar a própria poesia? Não é o papel do artista também contestar? Leia com atenção a poesia de número sessenta e um:

"
Para que serve um poema?
Para nada.
Há de haver no mundo entes que não sirvam para nada.
Há de haver o desrespeito à boa ordem causal materialista.
Há de haver o artista
das palavra ditas entre linhas.
As leitoras,
meninas apaixonadas,
expiram estrelinhas
e choram gotas de orvalho;
olhinhos virados,
sonhando acordadas
com seus príncipes secretos
e desencantados.
(Doces meninas
abraçadas aos travesseiros
com desejos eternos,
tão passageiros…)
Há de haver sonetos,
dos requintados
aos obsoletos.
Caso contrário,
a vida fica demasiadamente pedra,
e a rudeza do real se encrava nos dias
para não partir jamais
".

Auto crítica ou auto análise? Não nos esqueçamos que o poeta também é psicólogo. Ele trata os outros, ele busca se entender e se curar e como professor, ensina os aspirantes a psicólogos a se tornarem profissionais capazes de curar pessoas.

Daí a buscar no seu interior muitas respostas, mediante questionamentos e constatações foi um exercício de fácil conclusão dada a sua capacitação pessoal como profissional e professor. Leia tal reflexão através da poesia de número sessenta e três:

(Para o autor deste livro)

"Era isso
meu tempo de viço:
Os verões passando,
(fugindo em segredo)
e eu me escondendo
em meu próprio medo.
O amor tinha-me pouco apreço
Era assim.
Daí,
fui feliz em mim,
me namorei
(fui todas as meninas
que inventei,
todas as bocas
que me beijei).
Depois,
os anos passaram.
Já era tarde.
Mas antes as tardes do que nunca!
E mesmo que ardas,
garoto de tristes olhos cravejados de esperas....
Mesmo que te esfaqueiem pelas costas,
que te abandonem,
entediadas e indispostas,
as ninfas de janeiro,
eu ainda te espero
(sempre e por inteiro)
naquele mesmo banco de pedra,
menino tristonho...
menino-quimera,
menino-memória.
Carne do meu karma,
Cicatriz da minha história
".

Que estado de beatitude é poder chegar em um ponto no qual chegamos à conclusão de que somos plenamente felizes e cabe a pergunta: o que precisamos para chegar nesse ponto? Pois para o poeta, Marcos Mamuth, a felicidade é escrever poesias cheias de imagens ricas, tocar Blues na sua guitarra a mirar a Lua cheia das noites de sexta-feira, entremeadas pelos bons goles de um bom café bem quente e observar os meandros do ser humano, como poucos enxergam. Leia a poesia de número setenta, a última que fecha a obra:

"Não há lar
ou porto que me acolha;
apenas mar,
areia
e salgados segredos
de sereias.
Não há bar
ou conforto que me espere;
apenas ar
rarefeito
e sagrados sonhos
desfeitos.
O passado não me deixa só:
memórias da praia chegam
em ventos volúveis
e línguas de maresia.
Mesmo assim, a tarde é bela;
existem amigos,
blues
e poesia.
É o bastante.
Estou em mim
".  

Por fim, deixo a minha impressão pessoal sobre o livro, no sentido de que a sua leitura muito me agradou. Vislumbrei diversas nuances na poesia de Marcos Mamuth, conforme já pude elencar anteriormente, a me convencer de que no caso desse artista, as suas qualificações se misturam. Suas poesias são musicais, suas músicas contém muita poesia e o psicólogo que analisa as entrelinhas do ser humano, colabora muito para que o artista atue nos dois campos com muito conteúdo para criar suas poesias e letras de canções.

Recomendo muito a leitura do livro: "70 poemas sem nome" de Marcos Mamuth por tudo o que observei e impressões essas que eu tenho certeza, o leitor vai identificar de pronto e certamente achar outras particularidades contidas na obra.

Abaixo, eis o release do autor (publicado no livro):

"Marcos Mamuth é também (des)conhecido como Marcos Alberto Taddeo Cipullo. Nasceu em São Paulo, no bairro da Mooca, um dia depois da morte do cantor Nat King Cole.

Guitarrista e compositor desde 1979. Escritor desde 1986. Psicólogo desde 1988. Professor universitário desde 1993; a partir de 2008, na Universidade Federal de São Paulo (Campus Baixada Santista).
Poeta desde sempre
".

Leia também no meu Blog 1, a resenha que eu escrevi sobre o CD "Turbulência" do guitarrista, cantor e compositor, Marcos Mamuth.
Eis o link para acessar a resenha:

http://luiz-domingues.blogspot.com/2021/07/cd-turbulenciamarcos-mamuth-por-luiz.html

Ficha técnica:
Marcos Mamuth – autor
Eduardo Dieb – Edição e capa
Fotografia – acervo do autor
Árvore Digital Editora SP/SP
www.arvoredigitaleditora.com.br
Publicado em abril de 2022
1ª edição
ISBN – 978-65-00-41870-5

Para conhecer melhor o trabalho artístico de Marcos Mamuth, acesse:

Site:
https://mmamuth.wixsite.com/mamuth

Canal do YouTube:
https://www.youtube.com/channel/UCgHSLLEHvzObq6sUuh9yTYA/featured

O álbum "Turbulência" também disponível no YouTube:
https://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_lB3KnOFPKYud7IhWBhj7aYrMMWldd_T08&feature=share

Instagram:
@marcosmamuth

Facebook:
https://www.facebook.com/marcos.mamuth

segunda-feira, 15 de abril de 2024

CD: Travel to the Northern Lands (Live in USA)/Stringbreaker & The Stuffbreakers - Por Luiz Domingues

Banda vigorosa e da qual eu já tive o prazer de resenhar três álbuns de estúdio anteriores lançados por ela, eis que chegou às minhas mãos um trabalho ao vivo do "Stringbreaker and the Stuffbreakers", gravado em meio a uma longa turnê cumprida nos Estados Unidos, através de muitas cidades dos estados de Ohio, New Jersey e também em Nova York, durante o mês de agosto de 2019.

Somente pelo fato de uma banda brasileira de Rock, versada por tradições setentistas e a adotar a linha instrumental como forma de expressão, ter feito uma turnê tão bacana, já seria um feito e tanto, mas conhecedor do trabalho dessa banda e sobretudo por ser um admirador confesso de sua forma exuberante, eu tinha certeza de que representaria muito bem o nosso Rock tupiniquim por lá e não haveria nenhuma hipótese de haver qualquer disposição em contrário.

Bingo...ao escutar o álbum, a constatação óbvia para a minha percepção pessoal não apenas se confirmou, como trouxe acréscimo, no sentido de que a performance da banda ao vivo contém o elemento da adrenalina que sai por todos os poros de qualquer alto falante que o ouvinte usar para degustar tal trabalho.

Mediante aquele clima de disco ao vivo, esse registro mantém a certeira carga de andamento de cada canção a fazer uso de um pouco mais de aceleração, o que é sensacional para qualquer disco ao vivo que se preze, ou seja, a imprimir a devida dose de adrenalina do fator "ao vivo" na performance e o trio solta a mão com uma garra incrível, a lembrar os bons tempos de Beck; Bogert & Appice e Cream, só para citar dois exemplos dentre os grandes, que detinham na performance ao vivo o seu maior trunfo e certamente que o Stringbreaker & the Stuffbreakers segue essa cartilha com grande desenvoltura.

Sobre o áudio, ele é excelente no sentido de que foi capturado através de um sinal "LR" sem maiores requintes na captura inicial, portanto, soa como um "bootleg", porém, o tratamento de pré-produção que recebeu foi sensacional, no sentido de garantir haver um padrão excelente ao se considerar essa circunstância especial da sua captura inicial de gravação. Mais do que isso, dá para ouvir tudo com ótima percepção dos timbres dos instrumentos, portanto, é aquele tipo de "bootleg" de luxo como se diz entre os colecionadores.

Fica sim aquela sensação de reverber de grande amplitude em alguns momentos, e os cortes bem justos entre algumas faixas denota que a mixagem teve que operar verdadeiros "milagres" como trabalho de pós-produção para coibir ruídos indesejáveis e afins, e por isso também merece os parabéns pelo esmero.

Sobre a capa do disco, "Travel to the Northern Lands" (Live in USA), gostei muito da sua boa ideia elaborada ao mostrar a águia, símbolo daquela nação a voar com a sua bandeira ao fundo e em seu bico a carregar um detalhe contido na ilustração da gravata que segura um tijolo, ou seja, desenho que simboliza o álbum: "Brick in a Tie" lançado pela banda em 2019.

Abro parêntese para convidar os leitores para que leiam também as resenhas sobre alguns dos álbuns anteriores lançados pelo Stringbreaker & the Stuffbreakers que eu preparei e publiquei no meu Blog 1:

Sobre o primeiro disco, homônimo:
http://luiz-domingues.blogspot.com/2015/07/stringbreaker-and-stuffbreakers-por.html

Sobre o CD Rebreaker
http://luiz-domingues.blogspot.com/2018/11/cd-rebreaker-stringbreaker.html

Sobre o CD Brick in a Tie:
http://luiz-domingues.blogspot.com/2019/05/cd-brick-in-tie-stringbreaker.html

A respeito das canções apresentadas no disco, como já tive a oportunidade de analisar quase todas ao longo de resenhas anteriores pelo fato de tais peças constarem nos álbuns de estúdio, não cabe repetição de análise nesse aspecto. 

Por se tratar de versões ao vivo de tais peças, o que vale a pena acrescentar é na verdade algo que eu já mencionei anteriormente nesta mesma resenha, ou seja, a extrema boa forma da banda ao se apresentar ao vivo com perfeição e claro, a acrescentar aquela empolgação ao vivo que é vital e neste caso, mediante um grau de energia muito grande.

Para escutar esse trabalho na íntegra, o leitor/ouvinte pode acionar a plataforma Spotify:

https://open.spotify.com/intl-pt/album/18IpxPhWEHOhICHxUNcxof?flow_ctx=960e8ef6-bafb-4da2-9e9a-14f3857d8754%3A1705743343

Eis o repertório contido no álbum:
1) Acts of desperate men
2) Groove party
3) Eventide
4) Travel at the southern lands
5) The long and short of it
6) Stuttering five (Mike's song)
7) A 8ª música mais triste do mundo
8) Lenny (Stevie Ray Vaughan tribute)
9) Área 78
10) Tuxedo run over
11) St. Patrick aerostat
12) Under two color sky
13) Unwearing

Para encerrar, eis mais um ótimo trabalho perpetrado por essa excelente banda e desta feita a nos apresentar um apanhado muito bom de como soa ao vivo, a manter a sua extrema qualidade como uma praxe e a acrescentar a energia ao vivo muito intensa.

Ficha técnica:
CD "Travel to the Northern Lands" (Live in USA) - Stringbreaker & the Stuffbreakers
Guilherme Spilack: Guitarra
Dilson Siud: Baixo
Sérgio Ciccone: Bateria
Gravado ao vivo entre 8 e  31 de agosto de 2019 em cidades dos estados de Iowa, New Jersey e Nova York
Arte de capa: Ricardo Bancalero
Produção da tour nos Estados Unidos: Mike Lemke
Apoio especial em Nova York: Silent Brew Records
Técnico de Mixagem e masterização: Guilherme Spilack
Produção geral: Stringbreaker & the Suffbreakers


Para conhecer ainda mais o trabalho da banda, acesse:

Entrevista específica sobre o disco "Travel to the Northern Lands" (Live in USA), concedida ao Blog 2120: 

http://furia2112.blogspot.com/2019/11/entrevista-stringbreaker-stuffbreakers.html

Canal do You Tube:
https://www.youtube.com/channel/UC3mWA2SwUoApaKsXe4tPRKg

Página do Facebook:
https://www.facebook.com/StringBreakerRock/

Site:
http://www.stringbreakerrock.com/?fbclid=IwAR2sFoYm56rgqQKnEGq_jLv_o9LDD8OzMF2VD6_xOHHK_VX-MFigNnfbuYM

Contato direto com a banda:
info@stringbreakerrock.com

sábado, 30 de março de 2024

Livro: Os Zeppelins nos Céus do Brasil/Cristiano Rocha Affonso da Costa - Por Luiz Domingues

Uma parte importante da história da aviação brasileira e pode-se afirmar, também mundial, é pouco conhecida, a se tratar da implantação da primeira linha aérea transoceânica do mundo, que ligou o Brasil e a Alemanha, na década de trinta.

Parece algo inacreditável, mas sim, isso ocorreu principalmente entre 1930 e 1937, com os voos a se tornarem regulares entre as duas nações, através do uso dos dirigíveis, ou como popularmente se tornou mais conhecido como denominação: os "Zeppelins".

Essa lacuna a ignorar um fato tão relevante da história e seus múltiplos desdobramentos, precisava de um estudo profundo e este livro, "Os Zeppelins nos céus do Brasil" veio para suprir inteiramente tal tarefa. Escrito por Cristiano Rocha Affonso da Costa, um autor que contém tarimba como escritor de muitos livros extremamente bem escritos e além de tudo, se destaca pela sua atuação no campo da história e geografia, como um pesquisador muito minucioso.

Portanto, através de suas páginas ricamente ilustradas, recheadas de informações técnicas e culturais a abordar os inúmeros aspectos que cercam tal atuação dos "Zepellins", o texto foi escrito de uma maneira magnífica, e assim a provocar muitas reflexões ao leitor, ou seja, somos induzidos a levar em conta inúmeros aspectos correlatos, tais como: ao pensarmos na parte técnica dessa engenharia aérea, por exemplo, que avanço incrível foi proporcionado por tamanho empreendimento. 

Sob o ponto de vista socioeconômico, a revolução que foi para um país pobre do terceiro mundo ter esse elo de incrível modernidade para os padrões da época é algo notável. E os desdobramentos sociopolíticos advindos do fato de que tal rota também se tornou um trunfo da propaganda nazista e a criar vínculos com seus simpatizantes no Brasil e nas nações vizinhas sul-americanas no decorrer de tal década, foi inevitável.

O uso civil e militar é analisado, assim como os efeitos culturais advindos, que mexeu com o imaginário brasileiro da época e isso é visto em reportagens publicadas por órgãos de imprensa, ilustradas em profusão ao longo do livro.

A parte estritamente técnica é esmiuçada de uma forma impressionante. São dezenas de notas de página a denotar que a bibliografia consultada foi gigantesca.

Tudo é explicado, da invenção dos dirigíveis ao seu funcionamento propriamente dito e muito bem amparado por uma vastíssima carga de dados, ou seja, o leitor vai se sentir plenamente satisfeito ao se deparar com uma leitura tão bem embasada.

Em termos de aeronave comercial, é impressionante o grau de conforto (até requinte, eu diria), que os tais dirigíveis detinham e tudo isso é amplamente relatado em detalhes.

E a diferença entre os modelos "Graf Zeppelin" e o "Hindenburg?" Está tudo esmiuçado ali!

É verdade que a banda de Rock britânica, "Led Zeppelin" foi ameaçada de ser processada por herdeiros do Conde Zeppelin, o patriarca do dirigível Zeppelin? Sim, uma neta do Conde ficou furiosa ao receber a notícia que o nome da sua família batizara uma banda de Rock e tal passagem com muitos detalhes é narrada no livro.

Aliás, cabe destacar que entre tantos atributos, o autor é também um grande músico e estudioso da história do Rock, portanto, há a grande possibilidade dele escrever obras sobre o Rock em um futuro não muito distante e não tenho dúvida que serão livros muito bem escritos e embasados.

E a parte mais voltada para o impacto dessa linha aérea sobre o Brasil, é muito fascinante. Mediante fotos incríveis que o autor pesquisou, inclusive oriundos de remotos acervos familiares que ele encontrou em meio aos descendentes de pessoas que fotografaram os "Zeppelins" pelos céus do Brasil, posso afirmar que são fotos de tirar o fôlego pelo seu caráter histórico.

Se no padrão da época uma viagem regular de navio da Alemanha para o Brasil durava entre 15 a 21 dias a depender das condições climáticas enfrentadas em alto mar, com os dirigíveis esse prazo se reduziu a uma média de três dias e meio, então é possível imaginar o quão foi importante para os dois países tal avanço tecnológico nos transportes intercontinentais, no sentido de que no sul do Brasil (principalmente em Santa Catarina) e na Argentina, as colônias alemãs eram bem grandes. Portanto, tal rota se tornou uma prioridade como transporte de pessoas, cargas e na ação prática como agente de correio.

Há relatos prosaicos a dar conta de pessoas reunidas nas ruas para admirar a passagem dos bólidos enormes e acenar freneticamente para que a sua tripulação se sentisse agraciada e isso demonstra o grau de fascínio com o qual tais acontecimentos ocorreram na ocasião.

Um capítulo foi dedicado para narrar a destruição do dirigível Hindenburg em 6 de maio de 1937. Um acidente muito traumático e que suscitou uma polêmica sobre a viabilidade e segurança de tais aeronaves. Claro, a aviação tradicional havia evoluído muito e tinha o seu interesse em dominar completamente os céus doravante.

Há também muitas curiosidades mais amenas, como as fotos com montagem a atribuir feitos impossíveis aos dirigíveis, e o relato sobre como era a técnica de decolagem e sobretudo da aterrissagem, a se valer de uma atracação semelhante de certa maneira ao padrão náutico mais antigo, mediante cordas gigantes içadas, ou seja, dado muito interessante.

E por fim, um pequeno apanhado pós era dos dirigíveis é colocado, para encerrar a obra com chave de ouro.

Na prática, é um livro técnico, mas o leitor comum e leigo (meu caso, por exemplo) haverá de gostar muito da obra, pois a linguagem é acessível e o conteúdo tem aquele espírito delicioso de um almanaque a conter muitos dados, sim, mas descritos de uma forma lúdica.

E sim, as muitas ilustrações contidas são interessantíssimas e despertarão no leitor, eu tenho certeza pois tive essa sensação ao lê-lo, uma sensação de curiosidade e admiração por tal assunto.
O acabamento gráfico do livro, aliás, é muito bonito, com capa dura e a conter uma ilustração belíssima.

Em suma, mesmo que a aviação não seja um assunto do total interesse do leitor desta resenha, eu recomendo bastante a obra, pois tenho certeza que vai apreciar muito essa abordagem de uma história pouco falada no Brasil e que agora, mediante tal livro, tem enfim um estudo minucioso sobre o assunto e escrito de uma forma leve, apesar de ser um livro repleto de dados precisos.

Leia também no meu Blog a resenha que preparei para uma outra obra do mesmo autor: "Negociação de crises e reféns".

Eis o link para acessar:
http://luiz-domingues.blogspot.com/2019/03/negociacao-de-crises-e-refens-cristiano.html

Ficha técnica:
Livro: "Os Zeppelins nos Céus do Brasil" (uma visão sobre as viagens ao sul do país e o nazismo no pré-segunda guerra mundial)
Autor: Cristiano Rocha Affonso da Costa
Prefácio: Saulo Adami
Preparação de texto: Heidi Gisele Borges
Revisão: Heidi Gisele Borges, Marcelo Amado e Ronald Monteiro
Arte da capa: Victória Costa
Editora Estronho
Apoio: Matilda Produções
Lançamento: 2020