quarta-feira, 17 de abril de 2019

Os Kurandeiros - 19/4/2019 - Sexta-Feira - 21 Horas - Santa Sede Rock Bar - Tucuruvi - São Paulo / SP


Os Kurandeiros


19 de abril de 2019 – Feriado - Sexta-Feira - 21 Horas


Santa Sede Rock Bar
Avenida Luiz Dumont Villares, 2104
Tucuruvi
Estação Parada Inglesa do Metrô
São Paulo - SP

Os Kurandeiros :
Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria e Voz
Luiz Domingues : Baixo

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Livro : Tatuagem (Histórias de uma Geração na Estrada) / Joel Macedo - Por Luiz Domingues


No seu auge, o movimento hippie ganhara uma proporção tamanha, que deu a impressão que tornara-se inexorável a sua consolidação por completo. Sem conotação ideológica formal, mostrara-se fora de qualquer tipo de movimentação política a pender para a esquerda, embora alguns incautos tenham tentado impor-lhe a pecha, justamente por não engolir a ideia de fraternidade e compartilhamento total, não por imposição igualitária forçada, mas simplesmente por exercer na prática, um ideário de vida & comportamento muito próximo das ideias de Jesus Cristo e também de Siddartha Gautama, além de seguir muitos preceitos do hinduísmo brahmânico, via Krishna. E tudo isso, sem ter nada a ver com preceitos religiosos formais em torno de uma seita ou coisa que o valha, isto é, a ideia em construir um mundo utópico, versado por paz & amor, e fraternidade total entre os seres humanos, de uma forma espontânea. Que perdoem-me os que demonizam a palavra “compartilhar”, ao atribuir-lhe conotação marxista sob uma interpretação superficial ou por influência mal intencionada de outrem, mas em essência, isso é o sentido mais puro da mensagem crística, ou pura Raja Yoga, no sentido Suddha, para quem estuda o esoterismo cristão na mais profunda interpretação dos ensinamentos de Jesus Cristo ou da tradição indiana, via Mahabharata. Quixotesco para a maioria e assustador para as autoridades governamentais sob qualquer orientação ideológica, inclusive as totalitárias esquerdistas, o que levou-se em conta ali foi aniquilar o sonho, não com a truculência declarada e / ou explícita, mas a minar por outros meios essa euforia jovem em torno da desobediência civil em escala geométrica, a usar meios sutis em termos de utilizar a mídia para formatar opinião pública em repúdio, a ridicularizar a contracultura por todos os meios e vilipendiar os excessos hedonistas e sim, mea culpa, houve muito abuso de uma grande parte da garotada que só embarcou no dito “desbunde”, por questões meramente egoístas, não há como negar e nem considero isso uma mácula por extensão, a diminuir o movimento.

Mas enquanto durou, o sonho hippie foi intenso e proporcionou imenso avanço, em muitas áreas. Questões como o vegetarianismo; ecologia sustentável; crítica voraz ao consumo; reciclagem do lixo e materiais em geral; respeito aos animais; igualdade racial e também entre os gêneros; críticas às manipulações e ações de condicionamentos perpetradas por poderosas corporações e/ ou governamentais e / ou religiosas e a contrapartida em torno de pensar-se em uma vida mais natural, além do apreço total pela arte & cultura, foram pilares naturais que vieram no bojo do movimento. Tão forte foi o seu legado, que muitas dessas questões, apesar das ações negativas criadas pelos seus detratores no afã para ridicularizá-las, floresceram, apesar da aridez gerada por tais inimigos desses ideais nas décadas que advieram ao processo de diluição do movimento. Não é preciso descrever que muitas pautas dessas que citei acima, estão em voga nos dias atuais, a confirmar que, sim, os hippies tinham razão em muitos aspectos, apesar da sua propalada ingenuidade quixotesca.

Portanto, vejo com alegria que nos dias atuais, ao chegarmos próximos dos anos vinte do século XXI, a contracultura hippie dos anos 1960, venha a ser revisitada com força, a buscar-se mais do que um entendimento do que foi aquele movimento espontâneo e libertário, mas a revisitá-lo com um sentido muito especial em termos de revitalização. Dentro desse contexto, não foi à toa que temos observado o lançamento de diversas obras literárias; lançamento de documentários e relançamentos de filmes de época, (alguns esquecidos e devidamente recuperados), além da óbvia efeméride em torno do cinquentenário da realização do Festival de Woodstock, 1969 / 2019. Reviver o espírito sessentista, é muito mais que um mero lampejo nostálgico, mas faz-se mister como uma necessidade premente em termos de fortalecimento dos ideais. Nesses termos, quando vejo o jornalista, Bento Araújo, causar furor com os dois volumes de sua obra : “Lindo Sonho Delirante”, a exibir dois vastos compêndios sobre discos psicodélicos lançados no Brasil entre os anos 1960 e 1970; não surpreendo-me pelo interesse gerado, assim como o celebrado, Paulo Coelho, finalmente ao deixar o seu berço esplêndido, onde locupletou-se como uma espécie de “mago gourmet” da elite, e abordar enfim a sua visão sobre o furacão do desbunde, onde foi testemunha ocular ao lado de Raul Seixas (falo sobre o seu recente livro, chamado : “Hippie”); assim como também nos últimos estertores de sua vida, o filósofo, Luiz Carlos Maciel ter preparado um livro (ainda não editado), a defender a tese em que o filósofo alemão, Martin Heidegger, teve influência na formatação dos ideais hippies, tanto quanto Herbert Marcuse e também por deixar como epitáfio, uma série de vídeo-aulas com o seu “Anti-Curso” de filosofia e contracultura, enfim, são muitos os sinais.          

Informe-se sobre o curso póstumo de Luiz Carlos Maciel, através desse link abaixo :


E entre tais sinais significativos, um dos mais eloquentes pelos quais tive o prazer de ter contato direto, foi através do livro : “Tatuagem” (Histórias de Uma Geração na Estrada), de autoria do jornalista / escritor e tradutor, Joel Macedo. Autor do aclamado “Albatroz”, outra obra seminal, a descrever a sua experiência dentro do epicentro da contracultura, Joel lançou “Tatuagem” em 1971, originariamente. Agora, em 2019, lança enfim a esperada segunda edição, com algum material adicional.

Para quem não sabe, mas precisa saber, Joel é um jornalista cultural com larga experiência e foi membro atuante do jornal alternativo, “Presença”, bem no início dos anos 1970 e posteriormente, foi da equipe de redação do jornal “Rolling Stone”, em sua histórica edição brasileira, nos idos de 1972 e 1973. Mais que um jornalista muito bem informado e antenado, Joel foi uma testemunha da história contracultural, pois viveu na América do Norte e na Europa no auge do movimento, ao percorrer muitas trilhas usuais dos hippies por diversos países, incluso as clássicas peregrinações realizadas pelos freaks por toda a Europa em direção ao Oriente Médio e Ásia, onde buscava-se a essência espiritual do movimento, notadamente em localidades como : Índia; Nepal e Tibet.

Diante dessa experiência de vida inigualável, Joel acumulou histórias; vivências; muitas reflexões e por ter a qualidade de ser um jornalista arguto e igualmente possuir o talento de um escritor que redige com sentido poético, o seu estilo de redação é absolutamente cativante e rico em entrelinhas. Nesses termos, “Tatuagem” é muito mais que um bom livro de reminiscências acumuladas, mas na verdade trata-se de um painel multifacetado a mostrar-nos com muita fidedignidade, diversas nuances por ele observadas in loco, a proporcionar-nos a rara oportunidade para que possamos sentir o que ele sentiu, literalmente, em suas andanças pela América do Norte; Europa; África; Oriente Médio; Ásia e pelo próprio Brasil, pois o livro contém histórias sobre o Rio de Janeiro dos Hippies, na Praça General Osório em Ipanema etc e tal.

Em meio a contos psicodélicos; um pouco de crônica e entrevistas que conduziu, Joel Macedo retratou diversos aspectos muito interessantes das suas observações colhidas dentro da efervescência época. É notável como o subliminar foi capturado de uma forma muito feliz. Por exemplo, em “O Cossaco”, a sua percepção sobre os hippies britânicos a transitar pelos bairros de Londres, quando cita lugares “cool” da dita “Swingin London” sessentista, faz com que andemos juntos com ele e os personagens citados, por Portobello Road; Earl’s Court e outros pontos, porém, o mais emblemático aforismo, que não quis sair da minha mente, assim que o li, foi : “Be Gentle With People”, algo proferido por uma personagem. Forte, profético; mântrico... pois é, uma pérola em forma de chave para construir-se um mundo melhor, ou seja, ao que soa piegas para os insensíveis, eis uma das essências do que foi o movimento, ao decretar : “seja gentil com as pessoas”.

Em outras crônicas e pode-se afirmar que existe a formatação de mini contos, eis que Joel apresenta mais particularidades efervescentes. O sentido mais libertário  em questão, quando em conversação com um freak, Joel perguntou-lhe sobre as preocupações prementes do cotidiano, como por exemplo a luta pela sobrevivência e garantia dos confortos básicos, como manter uma habitação, algo muito trivial e a resposta foi sempre a mesma da parte do rapaz, ou seja : -“O que tem que pintar, pinta”. Parece simplória a resposta e certamente irresponsável, se analisada à luz dos parâmetros da sociedade ocidental tradicional, por denotar loucura desmedida ou um completo sinal de indolência de quem simplesmente não quer trabalhar e “ganhar” dinheiro, mas revela no aspecto subliminar, uma completa confiança na providência natural a denotar que por mais tresloucado que pareça ser, o âmago desse pensamento é transcendental por excelência, ou seja, a questão pueril da vida não pode sobrepujar o nosso foco em buscar o sentido real da existência. Portanto, um pensamento profundo, que talvez o freak que o verbalizou, não tenha percebido a sua real magnitude, no calor da conversa, mas Joel foi arguto em captar e colocar no livro, com maestria.

Outra história impressionante, é a de uma garota paulistana que largou a boa vida materialista de sua família abastada e mandou-se munida de mochila para morar em Amsterdã, com o namorado Rocker e viver cada dia como se fosse o último. Fato comum nesses anos, tanto que a música : “She’s Leaving Home” dos Beatles, trata com propriedade sobre o assunto, o fato é que muitas meninas abandonaram a vida burguesa para buscar a liberdade. Neste caso, o mergulho de cabeça nas drogas foi enfocado, e não há o que mascarar, ou seja, nem todo mundo buscou preceitos filosóficos ou espirituais, mas simplesmente entregou-se ao hedonismo puro e simples, não há como esconder-se que isso ocorreu para muitos e foi o caso dessa menina de São Paulo, que gostava de debochar da sociedade, ao enviar recados para o seu pai, a dar conta de suas loucuras vividas na capital holandesa.

E por falar em “Bad Trip”, tal assunto não é evitado, para edulcorar a narrativa somente em aspectos edificantes. Por exemplo, dois contos tratam do assunto. Em um deles, há uma manifestação existencialista explícita da parte de quem está completamente desacreditado de tudo e de todos, ao traçar um discurso que remete ao pensamento a versar entre algo entre as ideias de Jean Paul Sartre e Augusto dos Anjos, digamos assim, e em outro, uma vivência ruim revela-se na verdade uma experiência paranormal impressionante. De fato, a sensibilidade vibracional muda conforme o estado alterado de consciência. Carlos Castañeda; Ken Kesey e Tim Leary que o digam. 

É muita significativa uma entrevista que Joel fez com um Hippie, em 1968, nas ruas de San Francisco. Impressionante o sentido do raciocínio do rapaz ao imaginar o futuro como uno, sem divisões. E ainda a citar o filósofo, Herbert Marcuse, esse rapaz previu a falta de sentido revolucionário do movimento, pelo viés político, enquanto apenas revolucionário em torno dos costumes e pensamento, além de discorrer sobre a diferença entre os hippies e outros movimentos mais politizados e beligerantes, tais como o Black Panther. Desconcertante em sua lógica que soava ilógica aos seguidores dos parâmetros tradicionais, quando perguntado se deixara a sua casa, respondeu tacitamente : “minha casa são as ruas da Califórnia”. 
Tal sentimento em torno do total desprendimento de regras, amplifica-se mais tarde em outro conto, quando em contato com hippies oriundos de diversos países, em pleno solo do Afeganistão, Joel ouviu de um outro hippie, uma bela dissertação sobre o planeta ser "a casa de todos". Portanto a demolir o conceito materialista sobre territórios; pátria e nacionalidades : “-sou um cidadão do Mundo”, foi a síntese do que esse freak elucubrou. Além disso, são muitas as passagens surpreendentes sobre o contato com a natureza; dormir a céu aberto, olhar e prestar atenção nas estrelas; no mar; nas árvores. E também o contato amistoso, certas vezes, com pessoas teoricamente contrárias ao movimento, ao estabelecer uma relação humana muito interessante, pelo aspecto do improvável (caso dos policiais espanhóis, e estes ainda sob a égide pesada do senhor Franco).

Por fim, um capítulo tenso, vivido no Rio de Janeiro, em 1970, onde o contraditório foi testado a ferro e fogo. Não foi nada fácil falar em Paz & Amor para pessoas avessas a tais ditames. Esse capítulo provoca um nó na garganta, certamente e também surpreende ao fazer uma revelação que nem todo mundo sabe, mas foi um fato, a respeito da formatação do crime organizado em contato com pessoas politizadas, ao denotar um tiro no pé do sistema. E tal situação nada tem a ver com os Hippies, devo limpar a barra dos cabeludos...

O livro apresenta muitas citações a bandas de Rock notórias ou obscuras; músicas e artistas antenados da MPB mais hippie e fala também nas entrelinhas sobre usos e costumes, como por exemplo ao citar os famosos casacos feitos no Marrocos e não foi por acaso que o guitarrista dos Rolling Stones, Brian Jones, os adorava e claro, o significado emblemático do uso de cabelos longos por parte dos rapazes, como um símbolo, que tornou-se epidêmico, praticamente a denotar ser algo iniciático.

Leitura obrigatória para quem simpatiza com o movimento Hippie; contracultura; Rock sessentista; Flower Power; pensamento libertário em favor do ideal fraternal e sobretudo, para quem busca menos materialismo e mais essência na vida, este livro só tem um defeito : é curto demais. Cabe acrescentar muito mais conteúdo e assim fica a minha torcida para uma eventual terceira edição aumentada ou o lançamento de mais volumes, o quanto antes. Este planeta precisa urgentemente de menos ganância materialista e mais sentido fraternal imaterial. Paz absoluta e amor, sem dúvida alguma.
A ilustração que compõe a capa do livro é sóbria, mas funcional ao trazer o emblema de uma bússola e a insinuação de um viajante a segui-la, com o Pico do Himalaia a vista. Mais que sinalizar o instrumento que aponta a direção ao viajante, é óbvia a alusão ao buscador da verdade de si mesmo, em sua jornada anterior à cata de respostas. Sobre a a ilustração, trata-se de um trabalho de Gabriel Fonseca. O trabalho de editoração e diagramação ficou por conta de Vitor Coelho e a revisão a cargo de Ana Karina. Assistência editorial de Julia Macedo. Lançado pela editora jMf (Joel Macedo & Família). 

Recomendo a leitura de “Tatuagem”, um impressionante relato sobre alguém que viveu e absorveu muito bem o que representou o desbunde contracultural dos anos 1960, com prolongamento até meados dos anos 1970, e cuja raiz gerou ramificações que atinge-nos nos dias atuais. Como o autor enfatiza em suas palestras e eu já tive o prazer de participar de sua explanação em uma delas, “resistir” é uma necessidade premente.           

“Tatuagem” pode ser adquirido diretamente com o autor, através de sua página específica no Facebook :

https://www.facebook.com/tatuagemhistoriasdeuma/