sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A Hard Day's Night, o Filme - Por Luiz Domingues



Em 1963, os Beatles estavam a todo vapor usufruindo de sua fama que mal dava seus primeiros passos, mas já demonstrava que seria algo fora do comum.


Por volta de outubro desse ano, uma proposta, em meio a tantas outras esfuziantes, chegou à mesa de seu empresário, o astuto Brian Epstein, e veio a calhar para estimular ainda mais o sucesso da banda. Era da parte do famoso estúdio de cinema, United Artists, dos Estados Unidos, propondo a produção de um filme com os rapazes.
                      O empresário dos Beatles, Brian Epstein

Isso aconteceu quatro meses antes da 1ª excursão que Epstein estava programando para os rapazes na América, além da aparição que estava sendo agendada no programa de variedades de Ed Sullivan, um comunicador norteamericano mega popular, cuja audiência era mastodôntica, assistido por milhões de famílias naquele país, todos os domingos.


Sendo assim, se o Reino Unido já vivia a histeria da Beatlemania e isso estava espalhando-se rapidamente pelo restante da Europa, com tais ações sendo marcadas na América, faltava um triz para a banda estourar mundialmente, e de fato, foi o que ocorreu a seguir.
Claro que Epstein aceitou a proposta e rapidamente a produção foi sendo alinhavada a toque de caixa.


Há de se considerar que viviam a loucura das turnês exaustivas, nadando de braçada no sucesso em clima de avalanche e o tempo todo intercalando a maratona de shows e viagens, com os trabalhos de estúdio, visto que naqueles primeiros instantes lançavam músicas novas a cada dois ou três meses, visto ser estratégia das gravadoras na época, lançar singles sistematicamente entre os LP’s oficiais, alimentando o mercado sempre com novidades, além de manter a banda na briga pelos “charts” (paradas de sucessos), das músicas mais executadas nas rádios e discos mais vendidos.
Mas jovens que eram, acumular filmagens em meio à esse frenesi, não era nada demais e assim, a nova missão estava aceita.

Sobre a produção, a United Artists sabia que lidava com artistas britânicos e a dinâmica tinha que ser outra, diferente do espírito yankee. Foram sábios portanto, a reunir produtores associados e escolher um diretor acostumado a lidar com a fleuma britânica.


Para início de conversa, havia um representante da United Artists para o Reino Unido, chamado George Orstein, que rapidamente incumbiu o produtor Walter Shenson de encabeçar o trabalho. Shenson era bastante experiente em fazer essa ponte entre britânicos e norteamericanos, tendo vendido anteriormente produções do Reino Unido à América.
O diretor norteamericano, mas muito atuante na Inglaterra nas décadas de 1950 e 1960, Richard Lester

Foi Shenson inclusive que abordou e negociou com o empresário dos Beatles, Epstein, e inteligentemente deu espaço para que este e os próprios componentes da banda pudessem opinar sobre a produção e até sugerir nomes para compor a equipe de trabalho.

Foi aí que chegou-se ao nome de Richard Lester, um diretor norteamericano, mas que já estava radicado na Inglaterra desde a metade dos anos cinquenta e havia feito vários trabalhos na terra da Rainha.


Por que Lester ? 


Os quatro Beatles adoravam uma série de TV, cujo diretor era Lester e que se chamava “The Goon Show”, que era uma comédia tipicamente britânica, com humor sarcástico e que tinha entre seus protagonistas, o genial Peter Sellers. Tal programa era na verdade uma adaptação do que já faziam no rádio, portanto, era mega popular na Inglaterra, há muitos anos.

O elenco de comediantes do programa The Goon Show, que migrou da Rádio (BBC), para a TV. Peter Sellers é o que está na parte de cima da foto
 
John Lennon, principalmente, adorava os “Goonies” e muito do seu temperamento ácido, com humor sarcástico, tinha muito a ver com o tipo de humor que ali se praticava, aliás, tipo de humor bem britânico. Para muitos críticos, os “Goonies” são pais do Monty Phyton, a genial trupe de humor britânica que explodiria no final dos anos sessenta.
Enfim, Lennon e seus companheiros curtiram a ideia de ter Richard Lester na direção e assim ele foi contratado.


Outra figura chave nessa produção, foi Alun Owen, que tornou-se o roteirista do filme. Epstein e os rapazes também o sugeriram por sua fama de conhecer bem o espírito britânico e especificamente a alma de Liverpool, cidade deles.


Filmes com astros do Rock ou com motivações Rockers, não eram novidade em 1963/1964, mas havia a preocupação em não copiar o modelo, principalmente dos filmes de Elvis Presley, visto serem motivações completamente diferentes e um fato era cabal, Elvis havia adquirido com a prática, traquejo de ator e os quatro Beatles nem cogitavam tentar aventurar-se nesse campo.


Portanto, surgiu a ideia de fazer um filme que fosse camuflado como documentário, misturando ficção, com atores de apoio e ao mesmo tempo retratando a rotina dos artistas, em meio aos seus compromissos habituais com gravações, shows ao vivo e intervenções de divulgação, notadamente programas de TV.
Outra questão importante, explorar ao máximo a histeria que se formava ao redor dos rapazes, não só retratando a Beatlemania pelo seu aspecto positivo do sucesso galopante, mas também o lado ruim disso, com o aspecto humano sendo sacrificado, visto que não podiam mais andar na rua livremente, sem que houvesse uma convulsão frenética por conta de fãs ensandecidas, sendo uma espécie de preço caro que a fama lhes cobrava.


As filmagens ocorreram entre março e abril de 1964, ou seja, logo após voltarem consagrados da América e aumentando sua fama ainda mais, numa proporção inimaginável. Foram seis semanas de filmagens e intercalando com os shows que não paravam, inclusive com escala em Paris. 

Usaram os estúdios Twickenwam de Londres (onde inúmeros filmes famosos do cinema britânico foram feitos), além de locações de rua, que imagino, devem ter sido dificílimas pela questão da fama dos Beatles e já li declarações de Richard Lester dizendo que adorava aquela balburdia para trabalhar. 
Sobre o filme em si, o roteiro é bem simples. Mostra os Beatles saindo de Liverpool para Londres, usando trem, e na capital inglesa, o objetivo era a participação da banda tocando ao vivo num programa de TV. Ou seja, nada muito diferente da rotina dos rapazes, enfrentando o cotidiano massacrante de um artista em franca ascensão na carreira.


O toque de confusão a justificar o filme como metade ficção e não apenas um documentário realista, ficou calcado nas “gags” de humor perpetradas pelas situações criadas ao longo desse dia longo, que culminaria na noite dura de um dia difícil (A Hard Day’s Night)...
Portanto, a ideia dos rapazes correndo para fugir de multidões de fãs, não era nada diferente da vida normal que estavam tendo e as inúmeras situações bizarras que enfrentavam para driblar a perseguição, eram hilárias é bem verdade, mas também tratavam-se de artifícios que usavam para tal finalidade na vida real.


Dessa forma, sair e entrar em carros freneticamente para despistar as meninas tresloucadas ou usar disfarces bizarros, fazia parte da rotina na vida real deles naquele instante, mas tornaram-se ótimas ideias para se usar no filme, no melhor sentido do humor pastelão. Há quem diga que lembra o estilo de humor dos primórdios do cinema mudo e tem um certo sentido nisso.

Logo que chegam ao trem, são muitas as cenas ambientadas nas cabines, carro restaurante etc. Ali, com menos ação e mais diálogos, o efeito “Goonies” se faz presente, com piadas sarcásticas, mostrando os rapazes como jovens irreverentes, mas com uma certa altivez, um deboche a la Oscar Wilde, digamos assim.


Estão acompanhados de dois assessores, um “roadie”(para quem não sabe, “roadie” é a designação para funcionários que trabalham para artistas musicais e que cuidam de seus instrumentos e equipamentos), interpretado por Norman Rossington; e um produtor de TV, interpretado por Victor Spinneti. O ator Kenneth Haigh fez o produtor do programa onde os Beatles se apresentam ao final da película.
Paul McCartney e o ator Wilfred Bambell, que interpretou seu avô trapaceiro no filme

Mas o personagem mais maluco nesse elenco de apoio, foi o do ator, Wilfred Bambell, que fez o suposto avô de Paul McCartney, que viajou junto à banda e tratou de criar confusões múltiplas ao longo da jornada, reforçando em muito o sentido de humor no filme.
Logo no trem eles tocam, como a simular um ensaio otimizando o tempo perdido sobre os trilhos. Ali justificando o mote primordial do filme, os Beatles atacam com “I Shoud Have no Better”.
No trem, algumas fãs estão presentes, e entre elas, Patricia Boyd, conhecida pelo apelido Patty, que dois anos depois  casaria-se com George Harrison. Em sua homenagem, Harrison comporia anos depois, uma das mais lindas canções dos Beatles, “Something”.
 
Outra curiosidade nas cenas do filme, um jovem adolescente ali atuando como figurante desconhecido, se tornaria alguns anos depois, um dos bateristas mais sensacionais do Rock britânico, um certo Phil Collins, baterista do Genesis, uma das maiores bandas de Rock progressivo dos anos setenta e que também ficaria famoso nos anos oitenta, por se lançar como cantor pop em carreira solo de muito sucesso.

Confusões em quartos de hotéis; o avô de Paul McCartney “causando”em rodadas de carteados e os Beatles tocam “Don’t Bother Me”, significativo ao dizer que “não me aborreça”, quando milhões de pessoas corriam atrás deles para lhes arrancar as vestes...e também “All my Loving”. Daí em diante participam de um cocktail de “press conference”, uma das obrigações mais massacrantes que músicos tem que enfrentar quando ficam famosos, ou seja, as famosas “coletivas de imprensa”.


Nesse aspecto, Richard Lester foi esperto ao dar vazão aos sarcasmos propostos pelo roteirista Alun Owen, e num ritmo ágil e inovador para a época, editou os quatro Beatles respondendo perguntas maçantes dos jornalistas, de forma desconcertante. São famosas as frases que depois do filme, se tornaram jargões entre os Beatlemaníacos. Por exemplo, quando perguntam à George Harrison sobre como qualificaria seu corte de cabelo (e o comprimento dos cabelos era algo que chocava a sociedade da época, acostumada com o padrão militarizado dos cortes curtos para homens, desde meados do século XIX), e este lhe responde cinicamente : “Arthur”.


Outra boa, foi quando perguntam à John Lennon como ele viu os Estados Unidos e ele responde, virei à direita depois de passar a Groelândia...
E talvez a mais famosa, embora quem não seja britânico e não conheça a cultura Rocker, não a entenda plenamente. Uma repórter pergunta para Ringo Starr se ele se considerava um Mod ou um Rocker e ele responde de forma bizarra, “Sou um Mocker”, misturando os dois conceitos. Explicando rapidamente, a Inglaterra vivia o auge do movimento “Mod” naquele instante. Em linhas gerais, sem alongar-me, os Mods eram jovens ultra nacionalistas que odiavam os Rockers, a quem acusavam de serem “americanizados”. Portanto, só curtiam bandas britânicas e tinham seu modo de se vestir e portar baseados nesse nacionalismo exacerbado. 


Tocam “If I Fell” no estúdio de TV e mais confusões vão sendo geradas nos bastidores, principalmente pelo avô de Paul.
Quando soa “Can’t Buy me Love”, uma sucessão de cenas com os quatro fazendo maluquices ao ar livre, tornaram-se icônicas nos anos sessenta. Muitas bandas repetiram tal tipo de cena em promos feitos para a TV. Vistas com rigor, mostram bastante ingenuidade aos olhos atuais, mas, pensando que foram concebidas há mais de cinquenta anos atrás, dá-se o desconto devido de ser uma outra época. 

 
George Harrison é confundido com um ator nos bastidores e todos brincam com barbas postiças e figurinos que acham nos camarins, denotando uma molecagem irreverente para os padrões da época. Enquanto isso, o ardiloso “avô” de Paul acha material fotográfico da banda e passa a falsificar autógrafos dos componentes da banda, com o intuito de vendê-los mais caros do que o normal aos fãs. Ronaldo Golias na pele do personagem “Bronco Dinossauro” teria feito o mesmo, certamente.


Tocam “And I Love Her”, uma balada belíssima e sim, com uma latinidade explícita, sendo quase um bolero.
Quando chegam ao estúdio novamente, um grupo de dança ensaia uma coreografia ao som de “I’m Happy Just to Dance With You”, numa versão jazzística e orquestrada, que surpreende pela beleza. Mal haviam iniciado escalada de sucesso e já eram referência para rearranjos interessantes de suas canções por parte de outros músicos...e isso era só o começo.
Uma cena que eu adoro, é a escapada de Ringo Starr, ao se disfarçar e andar incólume pelas ruas. Chega a ser poético e ouso dizer, parecem cenas de filmes do diretor Tony Richardson, a retratar o cotidiano de personagens simples do povo, a dita classe operária, aqueles ingleses mais rudes, trabalhadores de fábricas, com sotaque cockney, vida dura e cuja única diversão além das bebedeiras, é frequentar estádios de futebol aos domingos e cantar “You’ll Never Walk Alone”, mesmo se seu time estiver perdendo o jogo.


Ringo brinca com moleques de rua, joga pedras no rio, deita e fica olhando a paisagem...caramba, um Beatle humano, igualzinho a qualquer um de nós, grande “Ringão”, nosso amigo...
Claro, a cena se prolonga e para voltar o ritmo de humor e frenesi, Ringo se mete em confusão e vai preso. Hilário o policial anotando numa caderneta as supostas esquisitices que observou no narigudo cabeludo.


Nesse ínterim, o avô de Paul é preso na mesma delegacia, acusado de vender material de propaganda da banda com falsos autógrafos, o que era verdade, visto ser um velhinho larápio.
Se achavam haver influência de filmes mudos das décadas de dez e vinte, agora isso escancara-se, com os demais Beatles invadindo a delegacia para libertar Ringo e o avô, desesperados pois estava em cima da hora para a apresentação derradeira da noite na TV, desta feita com público. Essa cena lembra muito “Comedy Capers”.
Dali em diante, os Beatles tocam várias canções e Richard Lester soube captar as expressões das fãs, quase histéricas, significando sua leitura labial a pronunciar com volúpia assustadora os nomes dos quatro membros da banda. Chega a ser impressionante notar tal frenesi que inclusive foi muito comentado por críticos na época, em resenhas publicadas nos principais jornais britânicos. No “set list” desse momento do filme, executam “Tell me Why”, If I Fell (desta vez mais eletrizada com guitarras); “I Should Have Know Better (de novo, também); She Loves You e “A Hard Day’s Night” fecha a sequência e o filme.


Gosto bastante da fotografia em PB (assinada por Gilbert Taylor), com bastante contraste. É muito “sixties”, tem a ver com o então “novo” cinema  britânico que já citei anteriormente quando falei de Tony Richardson e tem a ver também com a Nouvelle Vague francesa, sem dúvida alguma.
Falando das músicas em si, o som dessa fase dos Beatles era permeado pelo Rock’n Roll em estado bruto e com total influência do Rock cinquentista americano e daí, vinha por tabela a raiz do Blues, naturalmente. Mas havia também muita influência do R’n’B, também americanizado, além de ritmos britânicos como Jambalaya e Skiffle, bem populares nos anos cinquenta na Inglaterra e que certamente os influenciaram. Doses generosas de música Folk em geral e o cancioneiro britânico e europeu também faziam parte dessa receita, além de uma surpreendente latinidade de viés sulamericano, visto haver uma pitada de bolero nesse bolo.


E para fechar, o Pop Rock típico dessa metade de década de sessenta era chamado de “Bubblegum”, ou seja, música com refrães “pegajosos” que literalmente eram concebidas para grudarem na memória das pessoas, provocando-lhes vontade de cantarola-las, assovia-las etc. E nesse quesito, os Beatles tiveram a felicidade de criar músicas muito eficazes nessa fase inicial da carreira, ajudando a alavancar sua fama. Sem esse impulso inicial tão certeiro, talvez sem a fama que ganharam, não houvessem tido a oportunidade de ter a segunda fase na carreira, quando após 1966 tornaram-se também artistas muito mais profundos e legaram-nos uma obra mais robusta, com consistência suficiente para eternizá-los na história do Rock e da música em geral.

Sobre essa última música e que tem título homônimo ao filme, foi através de uma inspiração de Ringo Starr que surgiu a ideia primordial para a canção e creio, definiu o mote para o filme. De fato, “a noite de um dia duro” caiu como uma luva para roteirizar um filme permeado por um dia inteiro na rotina dos Beatles, e com muita ação, música e humor.
E foi providencial também, pois até surgir a canção, a ideia era que o filme se chamasse “Beatlemania”. Não teria sido uma má ideia em princípio, mas acredito que “A Hard Day’s Night caiu bem melhor, dando-lhe um sentido mais artístico e tirando o aspecto meramente documental que o outro título poderia sugerir.


Então, quando o filme foi lançado em Londres, em julho de 1964, foi um estouro tão grande, que só fez aumentar a avalanche que a banda já causava pela explosão radiofônica de suas músicas, o barulho da imprensa, a gritaria das fãs etc etc.
Seis canções foram compostas especialmente para o filme, mas para rechear o LP, outras foram inclusas, e assim, o LP “A Hard Day’s Night extrapolou a ideia de ser uma trilha de filme apenas, entrando para a discografia da banda como um álbum oficial.
O lançamento do filme foi um estrondo em Londres, com a avant première tendo a princesa Margaret na plateia.


Em Liverpool, a cidade dos rapazes, cem mil pessoas fizeram um cortejo até o aeroporto para recebê-los, além da homenagem oficial prestada pelo prefeito da cidade.


1964 e boom !! 
Os Beatles não eram mais objeto da Beatlemania só entre os jovens ingleses, mas eram fenômeno mundial consolidado e o filme foi apenas mais uma pedra de gelo a descer montanha abaixo, porque a avalanche tinha várias motivações para ter ocorrido e não uma só.

Um ano depois, e a parceria entre Beatles e Richard Lester seria feliz mais uma vez, mas essa outra história eu conto em outra resenha. 


Logo mais, falo sobre uma situação de perigo em que eles se envolveram, quando soltaram o grito de...Socorro !!

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Os Kurandeiros - 19/8/2016 - Sexta / 21 H. - Feeling Music Bar - Vila Mariana - São Paulo /SP

Os Kurandeiros

19 de agosto de 2016

Sexta-Feira  -  21:00 Horas

Feeling Music Bar

Rua Domingos de Morais, 1739

Vila Mariana

Próximo da Estação Vila Mariana do Metrô

São Paulo  -  SP

Ingresso : R$ 20,00

Atenção : Show Pocket dos Kurandeiros em noite compartilhada com muitas outras bandas, em clima de festival.

Os Kurandeiros :

Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria e Voz
Luiz Domingues : Baixo

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Pedro Baldanza, Baixista Técnico e Guerreiro - Por Luiz Domingues



Nascido em Gravataí, no Rio Grande do Sul, Pedro Baldanza começou a estudar música e tocar baixo em específico, ainda criança. Já na metade dos anos sessenta, tocava em bailes e festas na região metropolitana de Porto Alegre, com desenvoltura.


Mudou-se para São Paulo ao final da década de sessenta e aí conheceu muita gente em início de carreira, caso do núcleo primordial dos Novos Baianos, que ainda não havia formatado a banda por inteiro e assim, a banda “Enigmas”, onde Pedrão era baixista, acompanhou os Novos Baianos em suas primeiras apresentações em 1969, como grupo de apoio.


Mas os Novos Baianos se mudaram-se para o Rio, e lá se tornaram de fato uma banda completa e claro, isso é uma outra história.


Depois disso, Walter Franco entrou na sua vida, e a proposta de um trabalho muito experimental só enriqueceu ainda mais a sua bagagem musical que já era grande nessa altura.


Se virando entre trabalhos paralelos, Pedrão foi convidado a iniciar um trabalho com Manito, o genial multiinstrumentista, ex-Incríveis, que articulava uma banda de bailes, com a intenção de ganhar dinheiro somente, sem pretensões artísticas mais acentuadas no campo de uma carreira autoral.
Manito mudou de ideia quando viu o material autoral que Pedrão Baldanza tinha em mãos, fruto da parceria com o baterista Pedrinho”Batera”, e com apoio intelectual de Paulinho Machado, vulgo “Capitão Foguete”, um jornalista antenado  nos rumos da contracultura sessentista, e que muito contribuiu na elaboração das letras. Tal grupo se chamaria “Bloco Cabala”, mas com Manito entrando no time, tudo convergiu positivamente para a banda mudar o rumo, e aí nasceu o Som Nosso de Cada Dia.


Banda vital na história do Rock Brasileiro e mais detidamente no nicho do Rock Progressivo, o Som Nosso de Cada Dia marcou época, fez história e deixou legado.


Abrindo os shows do Alice Cooper em 1974, no Brasil, não só impressionou os técnicos americanos da equipe de Alice Cooper, como conseguiu a rara reação de ser muito aplaudido pelo público, e digo rara, pois brasileiro tende a não valorizar artistas nacionais em comparação aos internacionais, infelizmente. 
Ainda em 1974, a banda lança seu primeiro álbum, denominado “Snegs”. Disco espetacular, apesar das inúmeras dificuldades que a banda enfrentou para gravá-lo, figura no panteão dos melhores álbuns da história do Rock brasileiro, pela obra e excelência da execução dos seus componentes, a despeito de qualquer consideração negativa por conta do seu áudio prejudicado pela falta de recursos.


Pelo contrário, por ser uma banda “cascuda” pela sua tenacidade, e altamente técnica, a precariedade do áudio desse álbum acaba sendo uma prova cabal de que o talento e a capacidade superam dificuldades,  e contrasta com discos absolutamente impecáveis sob o ponto de vista do áudio, com produção cara, porém com material artístico bisonho, como muitos que inundam o panorama mainstream da atualidade. 
Pedrão Baldanza era o frontman da banda, não só tocando seu baixo de forma soberba, mas cantando a maioria das músicas do Som Nosso e daí, no imaginário dos fãs, incluso eu, era inevitável não compará-lo à baixistas internacionais com tal postura, como Greg Lake e John Wetton entre outros.


Apesar dos shows lotados e do carinho dos fãs, o Rock brasileiro setentista não era midiático, como ocorreu com a safra oitentista, e seu apelo pop. Portanto, o som sofisticado do Som Nosso de Cada Dia não era para a grande massa e chegou num ponto onde a cúpula da gravadora onde estavam, vetou o lançamento do segundo disco, onde um lado teria uma suíte progressiva, considerada anticomercial. Claro, para essa gente, música é “produto” a ser colocado em gôndola de supermercado e a palavra “arte’ não tem registro...
Engavetado em 1975, tal álbum foi reaproveitado posteriormente, mas de forma parcial, visto que só as músicas mais curtas do lado “B”, figuraram num novo disco lançado em 1977, sem nome oficial, com as palavras “Som Nosso” na capa, mas que informalmente é conhecido entre os fãs pela alcunha de “Sábado e Domingo”.


O motivo desse apelido é que no Lado “A”, as canções novas eram pura Black Music, com a banda soando como James Brown; Sly and the Family Stone, ou Parliament / Funkadelic, explicitamente, e no lado “B”, o velho Som Nosso comparecia com o Prog Rock que o consagrara.


Pressão da gravadora para que acompanhassem a “onda Disco” em voga naquele momento de fim de anos setenta. Contudo, a banda curtia e muito a Black Music e tal sonoridade foi absorvida de uma forma absurdamente bem. Com mais músicos agregando-se à formação, a banda ganhou guitarrista (o grande e saudoso, Egídio Conde), naipe de metais e percussão, soando encorpada e se tornando uma banda híbrida, tocando Funky  como bandas negras americanas da maior qualidade, mas não deixando a peteca cair nos temas progressivos.


Tempos difíceis, a banda não conseguiu superar a maré adversa de final de década e encerrou atividades.
Pedrão se mandou para o Rio, onde a MPB pop das gravadoras majors, ia bem e se tornou um dos baixistas mais solicitados para gravações. São centenas de gravações realizadas em discos importantes, fora a atuação como side-man  ao vivo.


Trabalhou com João Donato; Marina Lima; Zizi Possi; Erasmo Carlos; Chico Buarque; Gal Costa; Elis Regina; Ney Matogrosso; Fafá de Belém etc etc.


Mas foi com Sá & Guarabyra o seu trabalho mais longevo como side man, levando seu baixo classudo, seguro e bem timbrado para abrilhantar o Rock rural da dupla e até do trio histórico, quando Zé Rodrix voltou à ativa com os companheiros, mas por curto tempo, devido à sua morte repentina e muito sentida.

Paralelamente, Pedrão comandou uma volta do Som Nosso em 1994, e causou furor entre saudosistas fãs, incluso eu, que assisti esse emocionante momento. Mas com a perda em seguida do baterista Pedrinho “Batera”, o projeto da volta engavetou-se, uma pena.

Entre trabalhos paralelos e gravações, Pedrão fez parte de uma banda nova chamada “Mahabanda”, com proposta de trazer de volta a poesia à linha de frente do Rock nacional, mas o trabalho não foi muito compreendido em linhas gerais.


Mais uma volta do Som Nosso, agora mais longeva, com muita dignidade, apesar da ausência de Pedrinho, mas o destino castigou mais uma vez o astral da banda e dessa vez levou Manito embora para o lado de lá, e mais uma vez desanimou o Pedrão.

Nos últimos tempos, Pedrão continua sendo um side man dos mais solicitados, mas não desiste da música autoral e com seu “Pedro Baldanza Trio”, vem criando novidades e isso é sempre bem vindo, de sua parte.


Pedro Baldanza, vulgo Pedrão, é um dos maiores baixistas da história do Rock Brasileiro. Versátil; eclético; técnico, e guerreiro ao extremo, é um exemplo como músico e tenacidade em viver de música num país adverso para artistas, em geral.



Ouça quatro momentos da carreira do Pedrão, abaixo :


Som Nosso de Cada Dia   -  Snegs :


Som Nosso de Cada Dia  -  Sábado e Domingo :


Ao vivo com Sá; Rodrix & Guarabyra 2009 :


Pedro Baldanza Trio – Ao Vivo – 2014 :

Matéria publicada inicialmente na edição nº 57, da Revista Bass Player, de junho de 2016.