sábado, 8 de julho de 2017

Marcenaria (1º Álbum) - Por Luiz Domingues



Os tempos atuais são tão desoladores no âmbito cultural em geral no Brasil e no mundo, que chega a causar estupefação que ainda haja artista que empenhe-se em perpetrar obras com substância artística inquestionável e nesse caso, agrega-se um fator a mais a enaltecer-se : a incrível resiliência que demonstra ter, com tal determinação.


É o caso do sexteto “Marcenaria”, que produz um som de extrema complexidade e baseado num caldeirão tão vasto de boas e diferentes influências, que torna o seu trabalho, um verdadeiro exemplo de que ficar nos lamentos pelas redes sociais, em nada ajuda-nos a vencer a guerra contra o baixo astral do show business dominado por gente deliberadamente comprometida com a subcultura, anticultura e afins. O negócio é dar apoio a quem está trabalhando firme, mesmo sem respaldo algum dos grandes meios de comunicação e mesmo assim, mostrando seu valor, que é muito grande, caso dessa banda. Ecléticos e polivalentes, os componentes do Marcenaria são todos multi instrumentistas com extrema destreza nos muitos instrumentos que tocam, cada um, e diga-se de passagem, eles também mantém trabalhos paralelos com outras bandas de carreira (o ótimo “Cosmo Drah”, é um exemplo) e trabalham como side man de artistas importantes.

Neste seu primeiro trabalho fonográfico, o Marcenaria transborda sua musicalidade riquíssima em todas as faixas, fazendo uma amálgama forte entre a urbanidade, e as tradições rurais do Brasil. As músicas interligam-se, sem que no entanto o disco seja assumidamente conceitual ou no formato “ópera”, mas simplesmente a conexão existe e tudo é reforçado pelo apoio de um esmerado trabalho gráfico que mescla o conceito “Comics” ou História em Quadrinhos, melhor dizendo. Não trata-se de nenhuma novidade estética, muitos artistas já usaram desse expediente anteriormente, basta uma rápida consulta aos registros na história do Rock, contudo, não vejo mal algum em reutilizar-se o mesmo recurso e basta usar de criatividade para deixar a marca pessoal, e é o que acontece nesse trabalho, com ilustrações de qualidade e texto amarrado inteligentemente, usando as letras das canções.

Sobre o nível instrumental dos componentes, qualidade das canções e sofisticação dos arranjos, sob esses parâmetros citados, é altíssimo. Não surpreendeu-me em nada, já esperava por isso quando recebi o disco em mãos, e como se não bastasse tal fato, ainda fazem vocalizações em harmonia muito sofisticadas, ou seja, algo muito fora do padrão do que ouve-se no mundo mainstream das emissoras de rádio FM ou na televisão e devo observar, ainda bem ! Os rapazes não estão nem aí para os padrões da música pasteurizada que os marqueteiros determinam que o povo vá ouvir. Maravilha, a preocupação é fazer arte e eles cumprem seu objetivo com galhardia e devo acrescentar, hombridade artística.

Sobre as faixas, são 12 canções muito intensas, apresentando sofisticação musical ímpar, belas harmonias; além de melodias e letras buscando signos do folk brasileiro (entenda isso pelo sentido amplo do termo “Folk”), misturando à urbanidade / modernidade das grandes metrópoles.

Em “Intro”, as convenções com acentos mostram força logo no início. Gostei muito das trocas de ritmos e fórmulas de compasso, mostrando destreza instrumental. A brasilidade evocada é nítida e lembrou-me bastante os bons momentos do “Som Imaginário” de Wagner Tiso & Cia., de outrora. Hermeto Pascoal creio que também encaixar-se-ia como influência. Vocais em harmonia muito bonitos e o som de viola caipira passeando com os sopros intermitentes, são muito ricos. E fora o fato de que frases agressivas executadas por guitarra, baixo e bateria, com instrumentos de sopros cortando tudo em passeios assim, são puro Prog Rock, na tradição de bandas como o "Gong" e "Van Der Graaf Generator", entre outras que usavam tal prerrogativa, certamente 

A faixa seguinte, “Meio Tom Acima do Chão” tem muita inspiração na dita psicodelia nordestina dos anos setenta. Não obstante o fato de evocar Lula Cortes, tem elementos sofisticados que muito lembram o Jazz fusion brasuca de Egberto Gismonti, pleno de brasilidades e virtuosismo. As intervenções de sopros são belas ao extremo, garantindo um colorido ininterrupto, como se uma revoada monumental de pássaros coloridos passasse pela janela enquanto ouvimos a faixa. Gostei muito de um solo de guitarra ao estilo “backwards” que é executado sobre uma batida tribal e linha de baixo num “looping” meio caribenho. E o parte final vai para a quebradeira total (ótimo !). Chamou-me a atenção um trecho da letra : 

“Lei de Newton, debaixo da castanheira, um banzeiro na minha cabeça... as vezes pareço andar meio tom acima do chão”...


Acho que uma imagem assim espelha bem a proposta da banda em buscar a poética das raízes, sob o viés da amálgama urbana.

Em “Guarânia”, trata-se de fato de desse gênero musical sulamericano / paraguaio / guarany, mas claro, sob uma sofisticação instrumental que a faz mais parecer uma música do "Jethro Tull", tamanha a profusão de detalhes e pegada Progger Rock. Gostei muito do solo de flauta, executado por Claudia Rivera, uma instrumentista convidada especial da banda.

E a letra / linha melódica e também interpretação, eu diria, tem uma lembrança forte do trabalho do Zé Rodrix, a meu ver, bem daqueles discos solo dele dos anos setenta, que se o leitor nunca ouviu, conclamo-o a procurá-los no You Tube. É aquele toque de urbanidade que o saudoso Rodrix tão bem sabia dar no seu recado e o Marcenaria parece ter recuperado, ainda bem.

A faixa “Vire o Disco !” tem na sua proposta uma crítica ácida, mas muito pertinente à inércia da atual juventude. Todo mundo com olhos e dedinhos que não desgrudam dos celulares, mas de conteúdo bom que tal interação sócio tecnológica poder-se-ia resultar, nada, absolutamente nada !! E nesse deserto de ideias, chega a ser indecente termos tanta tecnologia disponível para que a imensa maioria fique hipnotizada por futilidades múltiplas. Portanto, a metáfora proposta pela letra é muito boa, ao utilizar a imagem do velho disco de vinil e sua inevitável necessidade gerada de obrigar o ouvinte a vira-lo na pick up, a cada término de lado executado.


“É hora de virar o disco, esse lado já se acabou. Levante o corpo do sofá e o braço da vitrola”.


Muito boa a mensagem, faça alguma coisa edificante, senhor "abduzido" das redes sociais...

Musicalmente, essa faixa fez lembrar-me bastante o som da banda Prog Rock brasileira dos anos setenta, “Terreno Baldio”, pela mescla de virtuosismo instrumental "Progger", com brasilidades. Sopros e violas caipiras passeiam o tempo todo.

A faixa seguinte, “O Trem” tem um sabor Blues, todavia pelo viés de um “quase” reggae. A proposta da letra lembrou-me o Zé Ramalho de seus mais inspirados trabalhos e um solo de guitarra, de arrepiar, trouxe o elemento Rock com muita força.

Bruxismo”, tem fortes elementos do Jazz-Fusion, lembrando-me inicialmente o trabalho do “Weather Report”, mas como a pegada dos rapazes é de Rockers, acredito que soe mais Jazz-Rock, algo na linha do “Soft Machine”. Admirável a quebradeira ao longo das mudanças bruscas no tema. Tem algo de experimental bem na tradição dos compositores malditos da MPB setentista, bem naquela predisposição nonsense de artistas como Tom Zé; Jards Macalé & Walter Franco, com direito a intervenções de vozes e risadas. Muito bom, meninos, sabemos desde os anos setenta que loucura pouca é bobagem.




Teste de Viola” é um tema instrumental e parece que o “Captain Beyond” foi tocar com violeiros caipiras, tamanho o peso Hard-Rock (em alguns trechos) e uma tremenda performance da viola. Um longo interlúdio, pleno de climas dá espaço para os solos.


Fusa Roceira” tem uma base harmônica bastante sofisticada, com ótimos vocais em harmonia, percussão criativa e lembrou-me bastante os primeiros trabalhos do Alceu Valença, quando este era menos “pop” e mais instigante como artista, eu diria. As intervenções de guitarra ao final, lembraram-me o som cerebral de Robert Fripp e gostei muito do final épico, que despertou-me a lembrança da sofisticação do “Wishbone Ash”. Bacana o piano, incluso.


“Pessoas de alumínio e cobre, presas de jacaré e pedra. Só para descobrir. Mais um ponto do encerado pra eu arrochar. Mais um ponto do mistério pra eu descobrir”...


Uma letra que deixa bem clara a dicotomia da visão da vida moderna, pelo viés da sabedoria caipira. A pensar-se...

A canção “Chuva”, traz efeitos muito interessantes no seu início. Gostei da onomatopeia que fez-me recordar de uma linhagem melódica da MPB, que simplesmente não existe mais e até meados dos anos 1960, era ouvida em profusão no rádio e na TV. Gostei bastante da linha de bateria e baixo, com um sentido de preenchimento de espaços muito criativo. Fora as múltiplas convenções super técnicas. Tem climas jazzísticos acentuados, igualmente.


Na canção “Rinha de Galo”, a proposta é aparentemente mais regional, com acordeon, mas o Marcenaria não abre mão de seu esmero instrumental e logo entram elementos experimentais diversos. Gostei muito de uma desdobrada proeminente, e logo a seguir, um solo de guitarra ultra anos sessenta, que dá a impressão que Randy California ou Jorma Kaukonen foram trazidos por uma máquina do tempo, direto do palco do Fillmore West, de San Francisco em 1968, para o estúdio. Muito legal. Ótimas as convenções finais e com o belo solo de sax, dobrado.

Na faixa seguinte, “Camping de Noel”, é muito clara a semelhança com os trabalhos mais experimentais / psicodélicos dos primeiros discos dos Mutantes, com direito à robustez dos arranjos do maestro, Rogério Duprat. Mais uma vez, as vozes fazem um belo trabalho em harmonia.


A última canção do álbum tem um título conclusivo : ...”Mas no Final”..., uma ideia interessante, sem dúvida em dar ao ouvinte, um norte do que pretendem, com a obra. Na letra, fala-se :


“Olhou para si, olhou para o céu. E se pôs a lembrar tudo o que aconteceu quando então saiu de si em sua Marcenaria”...


Muito bacana dar essa opção para que o ouvinte faça de sua auto reflexão um mergulho, cada qual em sua “marcenaria”, ou seja, sua própria vida. Pela metáfora da oficina e das ferramentas todas à disposição para a livre manipulação e criação de seu caminho / obra / vida.


Sobre a sonoridade dessa canção, soa como um baião bastante sofisticado e com elementos no arranjo que muito recordou-me o som do “Ave Sangria”, uma banda nordestina dos anos setenta, infelizmente pouco citada, mas muito relevante. O final da canção tem mais uma vez um sabor “Van Der Graaf Generator”, muito bonito, a meu ver.

O Marcenaria é formado por Anderson Ziemmer (voz; guitarra; clarinete e percussão); Augusto Miranda (voz; guitarra; viola caipira; violão e flauta transversal); Bruno Costa (sax soprano e tenor); David Forell (voz e bateria); Elton Amorim (baixo; violão; acordeon; piano e viola caipira); Paulo Costa (voz; clarinete baixo; clarinete soprano; sax tenor e percussão).


Além da versatilidade da banda, ainda convidaram músicos para colaborar, casos de Claudia Rivera (Flauta Transversal); Clara Andrade (percussão) e Renato Amorim (guitarra).

Gravado no estúdio X, com Giorgio Karatchuk na operação do áudio; Thiago Nacif na mixagem e André Ferraz na masterização. Criação e lay out final de capa e encarte por Augusto Mendonça. Produção executiva por Marcelo Spindola Bacha. Selo : Melômano / Rock Company.



No cômputo geral, trata-se de um álbum com excelente áudio; é moderno, com pressão e definição, mas apresentando timbres bastante próximos de uma sonoridade mais “vintage” (viva !!). A qualidade musical da banda impressiona muito, tanto no nível instrumental quanto vocal, além da elaboração de arranjos sofisticados e letras com poética muito além da pasmaceira pasteurizada da música mainstream dos tempos atuais de 2017.

Contato direto com a banda, via E-mail : 


O Site oficial da banda :

https://www.bandamarcenaria.com

Eis abaixo, o álbum na íntegra para o leitor conhecer esse trabalho :

O Link do álbum na íntegra, no You Tube :

Facebook :

https://www.youtube.com/watch?v=7ab_px8fAOY



quarta-feira, 5 de julho de 2017

Os Kurandeiros - 8/7/2017 - Sábado / 16:00 Hs. - Rockers Self Garage - Saúde - São Paulo / SP



Os Kurandeiros


8 de julho de 2017 - Sábado - 16:00 Horas


Rockers Self Garage

Rua General Chagas Santos, 607

Bairro da Saúde

Estação Saúde do Metrô

São Paulo - SP


Os Kurandeiros :
Kim Kehl - Guitarra
Carlinhos Machado - Bateria e Voz
Luiz Domingues - Baixo

sábado, 17 de junho de 2017

Ars Imitatur Vitae... o Limite Humano - Por Luiz Domingues




O cinema, sem dúvida, glamorizou atores e atrizes tornando-os mega celebridades, muito acima do que outros artistas jamais houveram sido anteriormente, salvo algumas exceções pontuais do mundo da música; teatro & dança e da literatura, ainda que em escala muito mais branda, devido aos meios de comunicação absolutamente mais modestos à disposição, antes do advento do fascínio gerado pela tela grande.

Naturalmente que uma indústria paralela cresceu em volta, explorando tal furor. A imprensa escrita criou meios, os mais variados para aproveitar tal modismo e ao mesmo tempo tal ação tratou de retroalimentar o fenômeno, potencializando-o de forma incalculável. Departamentos específicos foram criados nas redações dos jornais, para cobrir o cinema e revistas surgiram aos montes, especializadas, abrindo caminho para todo o tipo de cobertura e plataforma, indo parar até nos álbuns de figurinhas; nas histórias em quadrinhos;  e na própria literatura que enxergou no cinema um filão e este em contrapartida muito alimentou-se dos livros, estabelecendo uma relação direta no sentido de usar romances; contos; crônicas; poesia; ensaios e biografias para adaptar em filmes.

Com todo esse crescimento, foi mais do que natural que na linha de frente dessa cadeia de ultra exposição em escala gigantesca, os atores tornassem-se celebridades admiradas, aliás mais do que isso, adoradas, literalmente, gerando expectativas. Naturalmente que a imagem criada no imaginário popular poder-se-ia quebrar a qualquer momento, mediante a suscetibilidade às intempéries humanas e inerentes de tais artistas envolvendo todo o tipo de sortilégios que acometem qualquer ser humano e aí, não fazendo-se de rogados, os jornalistas foram atrás também da espetacularização da miséria humana, repercutindo ao máximo os desvios de conduta; fragilidades, segredos pessoais e sim, a “fofoca” gera muito interesse e por conseguinte, dinheiro. Surgiram as publicações especulativas e logo o rádio seguiu a tendência, usando seu espaço no dial para tratar desse tipo de discussão e claro, com o surgimento da TV, isso aumentou ainda mais.

Os grandes astros & estrelas do cinema foram envelhecendo e tirante tragédias pontuais com a ocorrência de acidentes; violência urbana ocasional e doenças súbitas, que ceifaram alguns ainda em idade jovem e / ou mediana, a maioria foi deixando-nos por morte natural mediante o avançar da idade. Foi por volta das décadas de setenta e oitenta que uma enxurrada de mortes em grande profusão, de tais celebridades chocou os fãs, gerando a impressão de que tais perdas fossem surpreendentes, como uma espécie de coincidência, talvez uma “maldição”, sinal apocalíptico ou coisa que o valha. Todavia, o que ocorreu na verdade, foi apenas a decorrência do curso natural do limite humano e sendo assim, tais artistas foram deixando-nos apenas por ostentarem uma faixa etária mais ou menos equânime e nesse caso, nada havia de surpreendente, mas apenas sucumbiram à normalidade da vida.


O tempo avançou e outras super celebridades surgiram, não só do meio artístico, mas de outras áreas também. Gente ligada ao esporte, atletas principalmente, alçaram-se a um patamar olímpico, com o perdão do trocadilho. E por conseguinte, pessoas dos mais variados campos da sociedade, notadamente políticos, que inclusive passaram a usar o marketing cada vez mais para suas campanhas eleitorais etc. E com o surgimento da Internet, o que já era enorme, amplificou-se muito mais, portanto, a sensação de grandiosidade das notícias e leve-se em conta a rede de boatos e mentiras deslavadas, também ganhou uma proporção inimaginável. Para o bem e para o mal, a super repercussão das notícias, verdadeiras ou falsas, norteiam a imaginação da opinião pública mundial, na atualidade. 

Causou furor em 2016 e de certa forma estendendo-se ao dias atuais de 2017, a escalada vertiginosa de óbitos ocorridos entre Rock Stars, alguns de proeminência mundial. Muitas pessoas comentam que tal efeito dominó caracterizou uma onda de azar pela grande quantidade de perdas num curto espaço de tempo, mas a lógica do raciocínio é a mesma que fora observada quando muitos astros do cinema das décadas de vinte a quarenta, principalmente, deixaram-nos tempos atrás, ou seja, muitas pessoas na mesma faixa etária, envelhecendo e falecendo mais ou menos na mesma época. A mesma ressalva observa-se sobre casos pontuais de mortes ocorridas por outros motivos, mas na prática, a realidade é que a geração de Rockers das décadas de cinquenta e sessenta, principalmente, atingiu uma faixa etária que coloca-os como septuagenários a nonagenários em média e assim, é mais do que natural que deixem-nos. Chato, claro que queríamos contar com eles aqui, sempre jovens e exercendo sua genialidade artística a influenciar-nos, mas ninguém está acima do limite humano, nem mesmo os gênios e assim, resta-nos a resignação, ainda que sofrida e o consolo de que a tecnologia preserva-nos sua arte através de material de áudio & vídeo principalmente, e temos a internet como manancial livre (ao menos por enquanto), para a exploração de todo o tipo de pesquisa envolvendo-os.

“Ars Imitatur Vitae”, sim... a arte imita a vida, somos mortais e temos a nossa limitação, não tem outro jeito.


Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2017.