sábado, 14 de setembro de 2019

CD Preces e Tentações / Pepe Bueno & Os Estranhos - Por Luiz Domingues


Artista inquieto por natureza, o baixista; cantor e compositor, Pepe Bueno sempre portou-se sob extremo entusiasmo, desde o tempo em que esteve à frente do Tomada, uma banda que escreveu belas páginas na história do Rock brasileiro, a partir do final dos anos noventa. Com o Tomada a trabalhar com força total, Pepe achou uma brecha para lançar um álbum solo em 2008, denominado : “Nariz de Porco Não Tem Tomada”, um dito popular a provocar uma brincadeira com a sua própria banda. Alguns anos depois, eis que Pepe retornou a movimentar a sua carreira solo, quando lançou, “Eu, o Estranho”, o seu segundo álbum solo, em 2016. Desta feita, porém, a despeito da atividade do Tomada continuar com força na ocasião, o segundo disco solo trouxe uma nova possibilidade para Pepe, além de um uma simples vazão para a sua energia criativa extra-banda, ao ser exercida a contento. Isso porque tal álbum inspirou o avanço de uma carreira solo com maior ênfase e para tal, o artista batizou doravante tal trabalho como : “Pepe Bueno & Os Estranhos”. Para ler pela primeira vez ou reler a resenha que elaborei sobre o álbum anterior : “Eu, o Estranho”, eis o Link disponível em meu Blog 1 :  


Nesse ínterim, Pepe Bueno lançou diversos vídeoclips, pois entre outros atributos pessoais, ele é também um experiente editor de peças audiovisuais. Recentemente, 2019, eis que Pepe anunciou o lançamento de mais um álbum, sob a chancela, “Pepe Bueno & Os Estranhos”, e denominado : “Preces & Tentações”. Cercado por um batalhão de músicos geniais, não haveria possibilidade desse novo trabalho não atender a expectativa natural da parte de qualquer ouvinte que esteja a acompanhar a carreira solo de Pepe Bueno, à frente de seus talentosos e “estranhos” (no ótimo sentido), companheiros de jornada, ou mesmo dos trabalhos do Tomada e para ir além, ao citar esses artistas que dão-lhe o devido suporte, ao pensar-se em cada um individualmente, em face de seus trabalhos a bordo de bandas significativas e em alguns casos, algumas a revelar-se históricas.
Posto isso, cabe dizer que sim, “Preces & Tentações”, atende prontamente as expectativas geradas em torno de uma coleção de boas canções pautadas pelas melhores referências do passado nobre do Rock, a observar não apenas o aspecto em torno da estética escolhida para assim poder expressar-se, mas também através da fidedignidade da formatação musical em relação aos arranjos individuais da parte dos instrumentistas e cantores envolvidos no bojo da obra. E ao ir além, sobre a questão da temática das letras, realça-se a preocupação de Pepe e de seus Estranhos, no sentido em buscar os melhores timbres, o melhor áudio e nesse particular, arrole-se entre os “estranhos”, também a participação especial dos técnicos de gravação; mixagem e masterização do trabalho, envolvidos, indelevelmente comprometidos com as mesmas ideias artísticas.
O mesmo pode-se afirmar sobre o aparato gráfico do trabalho ao mencionar o trabalho de ilustração / lay-out da capa do álbum. Bastante provocativa, a imagem de uma freira estilizada com detalhes que sugerem traços fisionômicos reptilianos, avança sobre o conceito do realismo fantástico em uma primeira instância, no entanto, logicamente abre a possibilidade para diversas interpretações análogas. Desenho criativo, sem dúvida, também faz jus à estranheza, um conceito que inspirara o título do álbum anterior de Pepe (“Eu, o Estranho”) e por ter ficado tão forte no imaginário proposto pelo artista, batizou a sua banda de apoio, posteriormente. Criação e lay-out de Sandro Saraiva, certamente que é um cartão de visita sob o ponto de vista visual, a revelar-se atrativo para o álbum.

Sobre as canções, é preciso acrescentar mais algumas observações pertinentes. Enquanto o leitor continua a acompanhar a resenha, convido-o a escutar o álbum, na íntegra, através do link abaixo, no You Tube  :


“Respira” 

Tratada como uma vinheta, essa faixa com pequena duração é marcada fortemente pelo experimentalismo explícito. Mediante uma linha mestra proporcionada pelo baixo, no sentido de um looping, dá-se a margem para que os outros instrumentos participantes aventurem-se em voos, caso dos teclados e das guitarras em sobreposição e devidamente sustentadas por uma linha de bateria a buscar um sentido tribal. Lembra o Space-Rock da transição dos anos 1960, para a década de 1970, além do Krautrock germânico mais radical da década de setenta. Vozes a balbuciar palavras aparentemente desconexas, ajudam a manter o clima em tom da estranheza generalizada e certamente a mostrar-se como uma introdução perfeita para uma banda que observa a estranheza como o seu mote. Entretanto, isso é uma pista falsa se o ouvinte está a conhecer esse trabalho pela primeira vez, pois a seguir, o trabalho expressa na continuidade do álbum, a característica mais Pop da música convencional e com muitos méritos.
“Calma”

Trata-se de uma bela balada, com uma melodia agradabilíssima, e cuja vocalização principal foi defendida por um grande parceiro de Pepe, na figura do cantor / guitarrista e compositor, Fernando Ceah. Não consta na ficha técnica uma especificação formal e elucidativa, mas ao levar em conta que Ceah é um grande letrista, é possível que tal letra tenha sido a sua contribuição à canção, visto que ele é coautor da música junto à Pepe e também a contar com o baterista superb, Junior Muelas. O backing vocals com a palavra, “calma”, a intercalar e a comandar o refrão central, é muito bom. Tem tudo a ver com a menção feita na faixa anterior, que chama-se : “respira”, ou seja, respirar e acalmar-se talvez seja a única solução para enfrentarmos a loucura diária imposta-nos em torno das agruras da sociedade pautada pelo mega consumo, e assim criada para justificar a preocupação em ter que honrar os boletos que mandam-nos diariamente em nossas respectivas residências. Em suma, só resta mesmo ao cidadão comum, buscar acalmar-se para que não sucumba ao colapso nervoso total. Na parte musical, é adorável o uso de bases com farto uso da caixa Leslie. Contra-solos inspirados de guitarra, pincelam a canção a colori-la muito bem. A levada da cozinha é flutuante. O cowbell inserido como detalhe percussivo, segue essa ideia da simplicidade, mas é na singeleza que tais sutilezas realçam-se com muita felicidade. Uma parte inspirada no Hard-Rock é muito bonita, com peso, mas não mostra-se desmesurado, ao manter-se melódico, portanto. O apoio do órgão Hammond também é discreto, mas muito eficaz.

“E com fé eu vou... das seis às seis eu tenho meta a cumprir... calma... calma... calma”
“Esconderijo”

Eis aqui um canção a conter um sentido R’n’B, bem forte, por investir em uma ótima melodia. Lembrou-me bastante o trabalho do grupo britânico, Faces, no início dos anos setenta, mas claro, essa colocação é uma mera impressão pessoal de minha parte, e portanto não significa que Pepe Bueno & Os Estranhos tiveram tal inspiração exatamente como eu intuí. Sob um instrumental excelente, dá-se a margem para que Pepe a cante com desenvoltura e coloque à disposição do ouvinte, o seu bom baixo, com tranquilidade, igualmente.

“Vida”

É interessante o seu início a mostrar-se bluesy, com o piano e o baixo a mantê-la amena, sob uma batida marcada pelos tambores, predominantemente, na bateria. O solo de guitarra é muito melódico e ao mesmo tempo encorpado pelo excelente trabalho de áudio a garantir-lhe um timbre memorável. Excelente também a participação dos teclados, inclusive a apresentar a inserção do mellotron, um tipo de timbre ultra 1960 / 1970, e que sempre enriquece sobremaneira qualquer trabalho com tal intenção em demarcar as influências do melhor do Rock.
“Último Dia de Verão“

Ótimo trabalho com violões, mesclados com as guitarras. Evoca-se a riqueza musical do Southern Rock, sem dúvida. Mediante o uso dos teclados com muita propriedade; a conter uma ótima linha de baixo e sob uma melodia muito boa, eis aqui, uma canção muito boa em todos os quesitos.
“Cá, Entre Nós”

Uma balada Bluesy, lenta e introspectiva, e que contém novamente um aparato instrumental de primeira linha. Teclados; guitarras; violão; baixo e bateria em perfeita sintonia, ofertam em sintonia, uma amálgama perfeita para a melodia vocalizada fluir e narrar uma história de amor, para citar logradouros paulistanos, ou seja, a conter uma urbanidade perfeita.

“Não Muda Mais” (Você é uma Maluca)

Conduzida pela voz rasgada do cantor / guitarrista, Xande Saraiva, trata-se de um Blues-Rock vigoroso, com ótima instrumentação. Tem muito a ver com os primórdios da carreira do Tomada, portanto, é uma raiz natural de Pepe Bueno a mostrar-se sempre presente em sua obra, que bom. 
Uma novidade interessante, no release do álbum, é mencionada a existência de três faixas adicionais, que serão disponibilizadas a posteriori, quando o álbum for lançado em formato físico, em CD tradicional. Trata-se de : “Tempo, Um Mundo Diferente”; “África” e a releitura de uma canção de Guilherme Arantes, “Estranho”. Este álbum foi produzido em vários estúdios, daí a existência de vários endereços na ficha técnica.

Eis então um novo álbum de Pepe Bueno & Os Estranhos a mostrar uma continuidade sólida em relação ao trabalho anterior, e que eu recomendo, certamente.

Gravado nos estúdios : Orra Meu; Carlini’s Studio; Casa 88 e Curumim, de São Paulo / SP e também no estúdio Área 13 de São José do Rio Preto / SP

Técnicos de gravação (captura) : Marcello Schevano; Gustavo Barcellos; Rafael Magno; Gabriel Martini; Roy Carlini; Fernando Ceah; Claudio “Moko” Costa e Alberto Sabella
Mixagem : Pepe Bueno e Gabriel Martini
Masterização : Renato Copolli
Capa (Arte-final e Lay-Out) : Sandro Saraiva
Fotos : Cristina Piratininga Jatobá e Marcelo Creelece
Produção Geral : Pepe Bueno
Selo : Curumim
Pepe Bueno & Os Estranhos
Pepe Bueno : Baixo; Voz; Guitarra; Violão e Lap Steel
Pi Malandrino : Guitarra
Alberto Sabella : Teclados e Trutuka (um instrumento de sopro)
Junior Muelas : Bateria e Percussão
Xande Saraiva : Guitarra e Voz
Roy Carlini : Guitarra
Rodrigo Hid : Teclados
Caio Lobo : Voz
Marcello Schevano : Guitarra
Gabriel Martini : Bateria
Claudio “Moko” Costa : Guitarra
Chico Marques : Voz
Fernando Ceah : Voz

Para conhecer melhor o trabalho de Pepe Bueno & Os Estranhos, acesse :

Multi Link para escutar o álbum em diversas plataformas digitais : 



Contato direto com Pepe Bueno via E-mail : 
peperockista@gmail.com 

Página de Pepe Bueno no Facebook :  


Site oficial de Pepe Bueno : 


sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Os Kurandeiros - 14/9/2019 - Sábado / 14 às 22 Horas - Crazy Rock Fest - Boteco Dona Jurema - Moema - São Paulo / SP

Os Kurandeiros

14 de Setembro de 2019  -  Sábado  -  Das 14 às 22 Horas

Crazy Rock Fest

Boteco Dona Jurema
Avenida Jurema, 90
Moema
Estação Moema do Metrô
São Paulo  -  SP

Participação das bandas : 
King Bird
Javali
Living Louder

Apoio : 
Programa Só Brasuca - Webradio Crazy Rock
Produção : Julio Cesar Souza

Os Kurandeiros :
Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria e Voz
Phill Rendeiro : Guitarra e Voz
Luiz Domingues : Baixo

domingo, 25 de agosto de 2019

CD Pálido Ponto Azul / Gepetos - Por Luiz Domingues


É sempre muito animador conhecer e difundir o trabalho de um grupo de Rock formado por artistas jovens, que propõe-se a apresentar a sua criação autoral e inédita, amparada por influências nobres, não apenas no aspecto restritamente musical, mas em outros campos do âmbito cultural em geral e no caso específico desta banda, a envolver até a filosofia, conforme explicarei a seguir.

“Pálido Ponto Azul” é o terceiro álbum do Gepetos, para reforçar a boa saga iniciada com “Gepetos” de 2012 e “Tudo Lá”, de 2013. Nesse ínterim, o Gepetos lançou também um DVD em 2015 (Ao Vivo ?), basicamente a retratar a sua vitoriosa turnê realizada por diversos países sulamericanos, e a incluir inúmeros festivais realizados principalmente nos estados do sul do Brasil. Em tempo, a banda nasceu no município de Ouro, em Santa Catarina e posteriormente estabeleceu a sua base na cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul e também ostentou um outro nome, anteriormente : “Almas Brasucas”, antes de mudar o seu título para “Gepetos”.

A sonoridade da banda é construída por múltiplas influências, a destacar-se o Rock de uma maneira ampla, em termos de vertentes, mas claramente mais a pender para a escola do Rock Progressivo setentista e por conseguinte a observar o apreço natural ao Prog-Folk,  como uma tendência inerente e logicamente a expandir para o Folk de uma forma geral, além do Jazz; a boa MPB  sessenta / setentista e uma boa dose de experimentalismo, e entenda-se tal caráter experimental a originar-se sob prismas diferentes, ou seja, tanto pelo viés do Rock Progressivo (e notadamente a esbarrar na escola germânica do Krautrock setentista), mas também ao pensar-se em escolas do Jazz experimental, oriundas do Fusion e a acrescentar o experimentalismo acadêmico, dentro do espectro da música erudita. Em suma, com tantas influências boas, aliado à técnica e criatividade de seus componentes, o resultado sonoro apresentado pelo Gepetos, não poderia ser diferente, ou seja, a demonstrar uma excelente obra.
                     O filósofo indiano, Jiddu Krishnamurti


Para reforçar o trabalho, há o aspecto do texto e sobretudo a realçar-se a intenção dos seus componentes em buscar uma linha de pensamento no tocante às letras que usam, ao evocar reflexões profundas e para tanto, inclusive, o grupo usa como referência explícita, a obra de um pensador do quilate de Jiddu Krishnamurti (1895 - 1986), que foi um destacado filósofo indiano e cuja obra é inquestionável sobre o aspecto supra materialista, ou seja, a dimensão de suas ideias metafísicas e absolutamente baseadas em uma visão transcendental e libertária, é mais do que edificante, pois aponta para o futuro da humanidade, assim espero. Em suma, se o Gepeto escreveu as letras das suas músicas a basear-se no pensamento desse grande mestre, isso só pode ser considerado como um adendo poderoso ao seu trabalho.
Sobre o CD “Pálido Ponto Azul”, trata-se de uma Opera Rock, a expressar tais conflitos e dilemas da humanidade, principalmente em termos atuais, ante a constatação que o mundo de uma forma geral sofre por conta de uma agenda obscurantista a apontar para o retrocesso, portanto, a constituir-se de uma preocupação premente, daí a oportuna abordagem do assunto, por uma acertada escolha da parte dos componentes do Gepetos. Em termos musicais, a banda brilha ao exibir uma musicalidade muito forte, mediante técnica; criatividade nos arranjos e também no esmero em exibir um padrão de áudio bastante condizente com a sua arte.

No tocante à capa e contracapa, o CD mostra a imagem de uma silhueta de um homem a observar a imensidão cósmica, mas sob uma visão diferente, ao ter o planeta Terra como a imagem maior (na verdade, gigantesca), ou seja, ao colocar-se em um posição equidistante. Nesses termos, demarca a ideia de um distanciamento crítico a analisar a humanidade com a devida isenção filosófica, uma proposta de Krishnamurti, diga-se de passagem. E claro, também faz jus ao título do disco, visto que o pálido ponto azul dá a devida dimensão à falta de humildade da parte de quem acredita que a vida, no sentido amplo do termo, resume-se em um ínfimo ponto azul, imperceptível no âmago do cosmos. Na contracapa, a imagem de um outro corpo celeste, com diversas figuras geométricas sobrepostas alude à presença da ciência, quero crer, como uma metáfora do conhecimento, e por conta dessa sutileza, reforça-se o conceito. Há também em destacar-se que o título : “Pálido Ponto Azul” é igualmente o nome de um livro do escritor e astrônomo, Carl Sagan, portanto, é óbvia a predisposição da banda em pensar a vida sob o aspecto macro do cosmos. Enfim, o conjunto da obra visual revela-se muito bonito e este trabalho foi assinado pelo artista gráfico, Daniel Confortin, também conhecido pela alcunha : “Don Konfas”.

Cabe aprofundar um pouco mais sobre as músicas que são apresentadas neste trabalho, o CD “Pálido Ponto Azul”, a seguir, e para reforçar a experiência do leitor, convido-o a escutar o álbum na íntegra, através deste link direto do Google Play :




“Abertura”

Tema de abertura, do álbum, literalmente, mostra um tema instrumental com a presença de uma bela camada harmônica proporcionada por uma massa com teclados; guitarra; baixo e bateria. É muito interessante a utilização de timbres a simular sintetizadores setentistas, como o Mini Moog e um solo dissonante e muito bonito, oriundo de um vibrafone.
"Estávamos a Dizer"

A construção da melodia dessa canção, é muito fora do padrão da música Pop convencional e por isso mesmo, mostra-se com uma nuance a observar uma criatividade ímpar, em meu entender. Lembrou-me, especificamente a mencionar a parte melódica, o trabalho do Grupo Rumo (banda paulistana essa, que atuou com maior desenvoltura ao final dos anos setenta e início dos oitenta), a explorar uma MPB vanguardista que não detinha nenhum receio em incorporar elementos experimentais em sua obra. É o mesmo caso aqui, visto que a métrica em termos de divisão rítmica, não obedece a normalidade da música Pop convencional. Outro ponto tão interessante quanto, a letra é uma transcrição literal de um pensamento do filósofo, Jiddu Krishnamurti, extraído de um de seus inúmeros discursos proferidos como palestras, ao longo da sua trajetória, portanto, ao não constituir-se de um poema, visto que certamente que Krishnamurti nunca foi um poeta, mas um filósofo, soa muito ousada a inserção dessa reflexão, adaptada para ser escutada como uma poesia musicada, no entanto sem conter nenhuma característica ideal para tal finalidade. Em resumo, a solução melódica para adaptar tais frases, foi a mais criativa possível. Na parte instrumental, destaca-se o bom uso dos teclados. Em alguns momentos iniciais, há uma intenção praticamente “new age” na observação da harmonia ser conduzida por teclados com ares etéreos. Gostei da percussão; da presença da flauta e do vibrafone a dar um toque jazzístico. Advém partes mais pesadas, muito interessante, no decorrer da música. Sobre a letra, é preciso destacar a fala de Krishnamurti, ao mostrar-se atual e contundente ao propor um choque de consciência :

"Estávamos a dizer o quão importante é trazer para a mente humana, a revolução radical. Essa crise é uma crise de consciência. Uma crise que não pode mais aceitar as antigas normas, os velhos padrões, as antigas tradições. E considerando o que o mundo é hoje, com toda a miséria, conflito, brutalidade destrutiva, agressão, e assim por diante, o homem é o mesmo de antes. Ainda é bruto, violento, agressivo, acumulador, competitivo, e construiu uma sociedade nesses termos"

“Mas Dizem que Ele Vai Voltar”

Eis aqui uma canção super balançada e que em certas circunstâncias lembra bastante a vertente do Samba-Rock, algo popular e interessante que ocorreu com proeminência nos anos setenta e defendida por artistas como o Trio Mocotó, por exemplo (que aliás, era sensacional). Gostei bastante da condução proposta pela cozinha da banda (baixo e bateria), a produzir uma deliciosa “malemolência”, para usarmos uma palavra bem difundida nos anos setenta, digamos assim. O apoio da percussão mostrou-se providencial para seguir a tendência escolhida pela banda, como mote em seu arranjo.
“O Olho da Consciência”

Essa canção emenda-se à anterior e com essa fusão claramente a mostrar-se proposital. Há uma sequência na proposta do balanço rítmico, o que produz uma sensação dançante bastante convidativa. Uma guitarra a solar quase que intermitentemente e com um timbre  sujo a evocar o efeito do Fuzz, é sensacional. Vem direto dos anos sessenta para incorporar a influência de Jimi Hendrix ao som do Gepetos. Uma transição brusca na metade da canção, abre caminho para uma transformação radical a trazer um baião nordestino e que avança sobre um riff tipicamente pesado, no calor do Hard-Rock. Sob um looping a repetir tal riff pesado e intercalado por efeitos proporcionados pelos sintetizadores, ocorre um solo louquíssimo ao vibrafone, ou seja, uma salada improvável de influências aparentemente dispares entre si, no entanto, o Gepetos teve a proeza em fazer desses ingredientes, uma iguaria.

“O Porém de uma Troca”

Canção forte, com uma harmonia soturna e muito bonita. Mais uma vez há um excelente trabalho de teclados super setentistas e também em relação à flauta, que traz um colorido todo especial com a sua doçura a contrastar com a atmosfera lúgubre proposta pela harmonia da canção.
“A Conclusão Foi Decretada”

Outra canção que vem emendada à anterior e a estabelecer uma fusão tipicamente operística, eis que esta apresenta um violão muito bem tocado a produzir um arpejo quebrado e que oferece uma base perfeita para as intervenções da flauta e do vibrafone, para que construa-se uma polimelodia. A interpretação vocal lembra bastante o trabalho de compositores da MPB setentista e ousados como Jards Macalé; João Bosco e Tom Zé, ou seja, trabalha-se pelo caminho não usual da música comercial tradicional. E devo acrescentar que a melodia apresenta uma beleza singular. Ao seu final há uma transição radical para um tema mais centrado no Prog Rock, com teclados; bateria; percussão e um ótimo solo de baixo, bastante melódico, a explorar bem as possibilidades da harmonia.
“Ela Mesma Pensa”

Pois o início desta canção é exatamente o final da faixa anterior a reforçar o conceito da fusão. “Ela Mesma Pensa” tem um balanço muito grande, parece um R’n’B daqueles bem Funkeados, absolutamente setentistas e que cabiam bem em trilhas sonoras feitas para filmes com tendência ao estilo “Blaxpoitation”. A percussão e a guitarra ajudam muito a canção a produzir o molho swingado e claro, torna-se um convite natural para que o baixo e a bateria passeiem bem. Mais uma vez há a porção rica pelo uso de teclados com timbres setentistas acentuados. E a conter igualmente, um solo de órgão Hammond, sob um acelerado Blues-Rock, quase no limite do Hard-Rock, que mostra-se excelente.

“Me Falam em Te Matar”

A frase do baixo e que comanda a intenção da música, é bem intrigante a lembrar trilha de cinema para filmes de suspense. Com essa condução e mediante os bons efeitos dos teclados e da guitarra, a tensão fica garantida a lembrar bandas Prog Rock setentistas que trabalhavam bem com esse tipo de atmosfera lúgubre, casos do King Crimson e do Van Der Graaf Generator, só a citar duas. A melodia cantada tem uma certa lembrança do trabalho de Arrigo Barnabé, o que faz sentido para o tipo de abordagem dessa canção.
“Grande Final”

Eis aqui uma reprodução levemente modificada da canção : “O Olho da Consciência” e também a fazer um elo como o primeiro tema do disco, “Abertura”. A ideia é certamente concluir o raciocínio da obra como um todo, em torno da sua mensagem filosófica. O efeito do teclado com um acorde a repetir-se em delay infinito, leva ao espiral, ao “oito” infinito, portanto à imensidão de onde em um pálido ponto infinito e azul, estamos a viver e sonhar. 

Em síntese, trata-se de um ótimo trabalho executado por uma banda que já está na estrada há algum tempo, mas pode ser considerada ainda jovem e capaz em oferecer-nos muito mais trabalhos interessantes como este, “Pálido Ponto Azul”, portanto, que assim cumpra-se !

Gravado no Estúdio Café com Leite em Passo Fundo / RS, no inverno de 2017
Técnico de Som (captura) : Evandro Lazzaroto
Capa (Lay-Out e Arte Final) : Daniel Confortin (“Don Konfas”)
Arranjos e Produção Geral : Maikon Varela
Selo / Gravadora : 180

Formação do Gepetos neste álbum :
Maikon Varela : Voz; Teclados; Flautas; Violões; Guitarra; Cavaquinho, Vibrafone e Percussão
Yuri de Paula : Baixo; Guitarra; Violão e Percussão
João Ritzel : Bateria; Vibrafone e Percussão

Para conhecer melhor o trabalho do Gepetos, acesse :

Página da banda no FACEBOOK :


Multi Link para ouvir o álbum : “Pálido Ponto Azul” do Gepetos, em sete plataformas musicais : 


Página da banda no SOUND CLOUD :


Página da banda no canal do Youtube :


Página da banda no Site Toque no Brasil : 


Site do Selo 180 :