segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Jesus Christ Superstar - Por Luiz Domingues


Andrew Lloyd Weber e Tim Rice conheceram-se em Londres, nos anos sessenta. Como dupla, começaram a escrever canções e sua ideia original fora apenas vendê-las à cantores e bandas Pop como o Herman's Hermits, por exemplo. Mas foi uma oportunidade ocasional e totalmente amadora que levou-os para um outro direcionamento artístico, ao fazê-los enveredar pelo caminho dos musicais teatrais.

A pedidos, montaram um pequeno musical a ser exibido por crianças de uma escola suburbana de Londres. Criaram então, "Joseph", uma obra a retratar a saga bíblica do escravo hebreu, que tornou-se um protegido do Faraó do Egito, por decifrar seus sonhos, no cativeiro em que padecia. Daí, foi um salto para Tim Rice que escrevia letras e textos, ter a ideia de escrever algo maior, ainda que basear-se no espectro bíblico, novamente.

Segundo Rice, desde criança ele questionava a história oficial de Jesus Cristo, não por duvidar, mas por achar estranho não dar-se crédito a outras visões, como a de Judas Iscariotes e Pôncio Pilatos, por exemplo.

Para seguir essa determinação, propôs a Lloyd-Weber que ambos começassem a trabalhar nesse tema e dessa forma, é que foram a ser compostas as primeiras canções desse libreto novo.

A palavra, "Superstar", surgiu ao acaso. Rice estava a ver um anúncio do novo álbum do cantor Pop ,Tom Jones, onde a legenda dizia :"Tom Jones, o Superstar n° 1". E o conceito reforçou-se quando várias pessoas próximas à ele, disseram-lhe que aquilo tinha um "quê" de Andy Warhol. Em princípio, não pensavam em montagem teatral, por achar inviável produzir cenários caros e recrutar um elenco enorme a necessitar da presença de atores / cantores e músicos. Com alguns contatos que possuíam no meio musical / fonográfico, produziram um compacto inicial com a música, "Superstar", cantada por Murray Head, ao final de 1970.

O compacto não foi nem percebido na Inglaterra, mas fez enorme sucesso em mercados impensáveis para a dupla, como o Brasil, por exemplo e na Holanda, tornou-se um hino "gay", por mais bizarro que isso possa parecer... com esse sucesso inesperado, animaram-se a gravar o álbum duplo com todas as músicas da peça, e finalmente montaram-na, em Londres.

Com a entrada em cena do empresário, David Land (por incrível que pareça, este sem grande experiência musical e pasmem... ele era empresário dos Harlem Globetrotters, aquela trupe de jogadores de basquete / malabaristas ), a peça abriu caminho para cruzar o oceano Atlântico e ir parar na Broadway e dali, alavancou-se verdadeiramente ao sucesso e entrou para a história. E ao contratar o diretor, Tom O'Horgan, que dirigia a peça teatral, "Hair", com enorme sucesso, sedimentou-se enfim, o caminho para o êxito.

No disco oficial da montagem, a voz de Ian Gillan, a interpretar Jesus, é marcante. Na época, Gillan estava no auge de sua forma como vocalista, à frente do Deep Purple, e sua presença certamente agregou um enorme séquito de seus fãs e da sua banda, para a peça. E o álbum oficial da Ópera-Rock, estourou em 1971, quando chegou ao topo das paradas inglesa e norteamericana. 

Em 1973, o diretor de cinema, Norman Jewison, lançou Jesus Christ Superstar em versão cinematográfica e no celuloide, obteve um grande êxito. As locações dividiram-se entre cenários reais, israelenses e estúdios norteamericanos.


Norman queria Ian Gillan para interpretar, Jesus, no filme, mas este recusou a oferta, por estar em turnê com o Deep Purple (a tour do LP Machine Head, coroada com o lançamento do LP Made in Japan, ao vivo, logo a seguir).  E além do mais, Ian Gillan era um vocalista de Rock e sem experiência como ator. Os produtores cogitaram então dois atores que eram músicos, também, casos de Michael Dolenz (ex- baterista do "The Monkees") e David Cassidy (ator-cantor que fora ídolo dos adolescentes, graças ao seriado de TV : "The Partridge Family", ou em português, "A Família Dó-Ré-Mi"), mas Jewison acabou por contratar, Ted Neeley.


O filme fez enorme sucesso, ao reproduzir de forma fidedigna o espírito do libreto original, ou seja, a ideia de Tim Rice em "desdemonizar" as figuras de Judas Iscariots e Pôncio Pilatos, por retratá-los como apenas pessoas comuns que estiveram atônitas com os reais propósitos de Jesus Cristo, sob o ponto-de-vista político e não como agentes demoníacos. A estética hippie e anacrônica da paixão de Cristo, chocou a Igreja e outros setores religiosos e dessa forma, houve inúmeras tentativas de cerceamento do espetáculo. Na África do Sul, por exemplo, a peça foi proibida. 

No Brasil, assim como "Hair", a montagem foi imediata. A tradução do texto ficou a cargo de Vinicius de Moraes e para interpretar Jesus Cristo, convocou-se o ator, Antonio Fagundes e posteriormente, o eclético e saudoso, Eduardo Conde (que também encenou, "The Rock Horror Show").

Lembro-me inclusive, de um bizarro "debate" ocorrido na TV, especificamente no programa da apresentadora popular, Hebe Camargo, em 1971, com conservadores presentes a mostrar indignação, incluso um bispo da Igreja Católica, a atacar veementemente a produção da peça no Brasil, ou seja, o normal para a mentalidade provinciana e conservadora da época.
Diversas montagens sucederam-se posteriormente, em vários países do mundo. Uma montagem recente na América (2011),  contou com o vocalista da banda, "Hard-Rock" (também conhecida como Hard-Farofa), oitentista Skid Row, Sebastian Bach, como Jesus. Essa produção deve ter gasto muita verba com cabeleireiro e maquiadores no camarim...

Um novo filme foi feito em 2000, mas os produtores optaram por uma estética visual mais "modernosa", a inspirar-se em Sci-Fi, e assim deixou o caráter Hippie, original do libreto, de lado. Apesar disso, não é ruim, a contar com bons atores e cantores, mas na dúvida, fique com o original de 1973, onde Ted Neeley; Yvonne Elliman, e Carl Anderson, dão show de vocalização / interpretação.

Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

Mais Cartilhas, Mais Deslizes - Por Luiz Domingues


Como se não bastasse a polêmica a envolver a cartilha que o MEC aprovou, onde o ensino do português com erros gramaticais é tolerado sob alegações estapafúrdias, eis que o Ministério brinda-nos com mais aberrações. Ganhou manchetes nos últimos dias a cartilha que o MEC havia aprovado e a presidente Dilma Roussef vetou no seu último estertor, onde faz-se apologia ao homossexualismo e seria destinada às crianças e adolescentes do ensino fundamental.

Que a homofobia deve ser extirpada, não resta dúvida. Nenhum cidadão deve ser discriminado pela sua opção sexual. Pessoas a ser violentamente atacadas e humilhadas pelas ruas, por conta de suas opções sexuais, não tem cabimento, na mesma medida de outros tipos de discriminações, tais como, por questões que envolvam preconceito contra raças, classes sociais; ideologia política; religião e por quê não (?), até clube de futebol. E é bom salientar também que a "heterofobia" deve ser combatida na mesma medida, e antes que acusem-me de ser politicamente incorreto ou revanchista, sim, isso existe, também. Vamos partir do princípio de que em uma sociedade democrática e plural, todo cidadão tem que ter sua integridade física e psicológica preservada. Isso é ponto pacífico.

Agora, daí a lançar uma cartilha oficial, que estimule o homossexualismo como uma bandeira, tem uma grande diferença. E esse foi o erro do MEC, ao dar carta branca para que uma ONG comandada por militantes gays produzisse o material, comprometido com essa visão de "causa" que eles tem sobre a homossexualidade.
A pressão exercida por grupos religiosos, notadamente a Igreja Católica e as diversas denominações evangélicas, foi determinante para fazer a presidente Dilma, recuar.  Mesmo ao não compactuar com essa posição dogmática das religiões cristãs e seus padrões moralistas medievais, no caso dos católicos e da antiguidade judaica, para os evangélicos, eu posiciono-me contra a cartilha por ter esse caráter subliminar em apologia e nesse caso, a cartilha não cumpre o seu dever de combater o preconceito, mas faz propaganda de algo que não deve ser institucionalizado como padrão, mas ser meramente optativo e sob fórum íntimo de cada cidadão. Contudo, o MEC está a esmerar-se em produzir barbaridades pedagógicas e não parou por aí. Mais uma cartilha absurda foi aprovada e distribuída, desta feita em escolas rurais e certamente por isso, não despertou tanto a atenção da mídia e da opinião pública.



A cartilha em questão, chamou-se: "Coleção Escola Ativa". Trata-se de uma cartilha de matemática, onde curiosos resultados de operações básicas, são registrados como corretos, de uma forma incompreensível para nós, pobres mortais cartesianos... quando simples operações de subtração apresentam esses resultados : 10 -7 = 4 ou 16 - 8 = 6, alguém pode explicar o sentido desse tipo de pedagogia ?  Por favor não venham contra argumentar como críticos de arte, modernos, com aquelas explicações ao estilo, "indie" sobre desconstrução, neo-isso, pós-aquilo, niilismo, fim da lógica e outras baboseiras supostamente avantgarde, pois diante de fatos, não há argumentos e nesse caso, subverter a lógica da aritmética parece mais uma imbecilidade a serviço do retrocesso educacional neste país.
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2011.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Hair, Deixe a Luz do Sol Brilhar - Por Luiz Domingues

Quando a Lua estiver na sétima casa e Júpiter alinhar-se com Marte... 

Essa conjunção planetária, que representa o estopim para a entrada da Era de Aquário nos ditames da astrologia, inspirou uma geração a buscar respostas advindas das estrelas, a provocar um turbilhão de mudanças que explodiram na década de 1960, tendo como resultado imediato, um libelo pela liberdade sob o sentido de fraternidade e uma rara euforia generalizada em torno de ideais considerados utópicos pelos céticos de plantão, como meta para quebrar-se a velha ordenação civilizatória, construída ao longo de milênios sob paradigmas fechados no egoísmo absoluto, portanto a gerar um esforço em prol de um único significado. Divação meramente filosófica ? Vamos entender o que motivou a criação de um espetáculo teatral, nesses termos. 

James Rado e Gerome Ragni eram dois atores que conheceram-se em 1964. Ao somar as suas experiências teatrais, notaram que tinham em comum a perspicácia para observar a sociedade com lentes sutis e assim enxergar novas tendências. Por volta de 1967, ao caminhar pelas ruas do East Village, em New York, Rado e Ragni perceberam que o emergente movimento hippie representava mais que um modismo passageiro em torno de rapazes a usar longos cabelos e a trajar roupas coloridas, pois perceberam uma enorme gama de significados contraculturais a explodir pelas ruas, através de uma força epidêmica, e diante dessa realidade, uniram-se para escrever uma peça teatral, a retratar esse momento único que pairava no ar.

Pois então, entraram em contato com o compositor, Galt MacDermot, e este gostou da sinopse apresentada e assim, trabalhou intensamente na composição das canções. Nasceu aí, a primeira "Ópera Rock Tribal" ou como falavam, eles mesmos, "The Tribal Love Rock American Musical".
Sem dinheiro, nem patrocinadores em vista, procuraram um pequeno empresário teatral, com o qual associaram-se, chamado, Joseph Papp, que era proprietário do desconhecido teatro, "Public Theater", onde encenaram a peça pela primeira vez, em 23 de outubro de 1967. 

Nesses primeiros tempos, as apresentações contavam com pouca divulgação, portanto a contar com um diminuto público e os relatos dão conta de reações negativas por parte do público. Pessoas tampavam os ouvidos a reclamar do volume perpetrado pela banda de Rock que fornecia o suporte instrumental à peça, e  chocavam-se com aquele bando de hippies no palco, em meio à sua mensagem cheia de afrontas ao establishment. 

Mas a sorte de Rado e Ragni mudou quando em uma dessas primeiras apresentações no Public Theater, um sujeito chamado, Michael Butler, estava presente na plateia a assistir e para a sorte deles, mostrara-se fascinado pela história; músicas e força da mensagem.
Milionário; apaixonado por teatro e entusiasmado pelo espetáculo, dispôs-se a associar-se nessa produção, ao empregar seu dinheiro e prestígio social, para alavancar a peça. Sua primeira ação como produtor, foi transferir a peça para um palco mais categorizado. Sendo assim, a produção deslocou-se para o Biltimore Theater, no circuito da Broadway e a primeira apresentação na nova casa, deu-se em fevereiro de 1968.
Nessa altura dos acontecimentos, Butler não mediu esforços para profissionalizar o espetáculo, ao trazer o experiente produtor associado, Bertrand Castelli, e a presença do diretor, Tom O'Horgan. 
E com esse salto, a peça explodiu, ao tornar-se rapidamente, no espetáculo mais comentado de New York em 1968. Personalidades muito importantes começaram a frequentar as cadeiras do teatro e o caráter "cool" que a peça adquiriu, ficara cada vez mais acentuado. Por outro lado, da mesma forma que artisticamente, revelava-se como um estouro, havia as reações contrárias, da parte dos retrógrados. Ameaças de boicote por parte das autoridades e perseguições da ordem pública, tornaram-se constantes.
O produtor, Michael Butler, chegou a contratar um advogado para ficar de plantão toda noite na coxia do teatro, e com U$ 10.000 na pasta, para eventualmente pagar fianças, caso a polícia viesse com mandado de prisão para atores ou membros da produção. 

Logo que explodiu, "Hair" ganhou a atenção do sisudo periódico, New York Times e seu crítico teatral, Clive Barnes, publicou a seguinte crítica :
"Boas referências são feitas aos benefícios expansivos das drogas; a homossexualidade não é desaprovada.

Uma das letras, fala de práticas sexuais misteriosas, mais familiares às páginas do Kama Sutra do que nas páginas do New York Times. Bem, vocês foram avisados...e a propósito, eles também distribuem flores." 

No tocante à parte musical em si, o LP a conter a trilha do espetáculo, com todas as canções, subiu rapidamente ao topo dos charts (paradas de sucesso), para chegar ao primeiro posto e ao considerarmos ter sido uma época em que o nível musical proporcionado por grandes artistas em voga foi altíssimo, nem preciso estender-me nessa explicação / comparação, quero crer. As músicas, belíssimas, e munidas por letras muito fortes, caíram no gosto popular, com vida própria, assegurada fora da peça. Dessa forma, outros artistas interessaram-se em gravá-las, a aumentar ainda mais a sua repercussão.

Um desses artistas que regravou canções da trilha de "Hair", foi o quinteto vocal, orientado pelo Soul / R'n'B, "Fifth Dimension", que fez uma excelente interpretação de duas músicas, curiosamente a primeira e a última do espetáculo, ao lançá-las em um compacto simples, a conter então : "Aquarius" e "Let the Sunshine in". Logo a seguir, a banda, "Cowsills", lançou sua versão da música homônima, "Hair", com direito a um promo para a TV, com seus membros a exibir cabeleiras enormes. O cantor pop, Oliver, lançou a seguir sua versão para a balada : "Good Morning Starshine" e o "Three Dog Night", lançou "Easy to be Hard".
O LP oficial da versão teatral, ganhou o prêmio Grammy, como melhor do ano, em 1969. 

Uma bela definição sobre o que representara "Hair", ocorre quando pensamos que o conceito das pessoas a  unir-se amar-se, incondicionalmente, sem ter nada a ver com diferenças raciais; culturais e tudo mais, foi a captura daquele momento mágico, onde por um instante inédito na história da humanidade, permitiu-se sonhar com um mundo fraterno. Talvez só tenha comparação com as pregações de Jesus Cristo em torno do mesmo ideal, mas mesmo assim, dá-se o desconto de ser mais uma pregação de um profeta e infelizmente não tendo muito eco imediato para quem o escutou, portanto, euforia mesmo em proporção coletiva, só mesmo em meio àqueles sonhadores cabeludos da década de sessenta. Arrolo abaixo, algumas curiosidades sobre o espetáculo teatral, "Hair" :
 

1) Figura forte do presidente Nixon, o secretário de estado, Henry Kissinger foi assistir e achou uma maravilha, mesmo sendo ele, um elemento chave de um governo regido por um partido muito conservador e apoiador contumaz da causa pela manutenção da famigerada guerra do Vietnã, um dos maiores focos antagônicos ao libelo da paz, proposto em "Hair"...

2) Os astronautas,James Lovell e John Swigert, que participaram da Missão Espacial da Apollo 13, em 1970, e quase morreram no espaço (na década de 1990, Tom Hanks protagonizou um filme a respeito e sobre tal episódio foi onde saiu a emblemática frase : "Houston, nós temos problemas"), foram assistir e causaram manchetes no dia seguinte, pelo fato de ambos ter abandonado o teatro, revoltados com o que consideraram "antipatriótica" a essência do espetáculo.

3) Quando o ator, Lamont Washington, faleceu vitimado por um incêndio, o produtor Michael Butler recusou-se a desmarcar uma matinê no dia de seu enterro. O elenco revoltou-se ao recusar trabalhar naquela tarde, mas Butler endureceu, ao ameaçá-los todos, de demissão. Os atores negros recusaram-se a trabalhar, mesmo diante da ameaça de demissão sumária e o espetáculo foi encenado só pelos brancos que quebraram a greve, pressionados por Butler. Com esse fato, começou a ruir a relação boa que tinham com Butler e dali em diante, nunca mais o clima foi igual nos bastidores. E ele, Michael Butler, acusado por insensibilidade e tirania, alegou que era praxe do teatro, jamais parar, mesmo em caso de morte...

4) Gerome Ragni, o autor e principal ator, queria sempre agregar novidades. Certa vez, sem avisar ninguém, nem mesmo o diretor, Tom O'Horgan, resolveu testar uma nova entrada em cena, ao vir inteiramente nu, da rua, e assim entrar pela frente do teatro, em meio ao público.
Não contente com isso, realizou em um outro dia, o mesmo artifício, porém, a  ostentar uma flor, introduzida em seu orifício anal. Isso foi a gota d'água para Michael Butler o demitir sumariamente, e também a James Rado, o outro ator e coautor da peça, que solidarizara-se com Ragni. Esse ato entrou para a história do teatro americano, pois nunca antes um produtor havia demitido dois atores principais e que fossem os próprios autores da peça !

Dias depois, persuadido pelos outros atores e pelo diretor, recontratou-os...

5) Mais que um elenco, eles consideravam-se uma "tribo". Até hoje, qualquer ator que tenha participado de "Hair" é conhecido como "Membro da Tribo".

6) Certa vez em Acapulco, México, a polícia prendeu todo o elenco e produtores, ao alegar subversão e atentado aos "bons costumes", que certamente devem ter ofendido o povo azteca e devoto de Nossa Senhora de Guadalupe... 

7) Em uma certa apresentação em Boston / Massachusetts, políticos locais processaram a produção, ao alegar que na cena em que um hippie chora a morte do personagem, George Berger, na guerra do Vietnã, enxugara as suas lágrimas na bandeira norteamericana, e aquilo fora considerada uma afronta. Na Suprema Corte, os juízes deram ganho de causa à produção, ao assegurar-lhes o livre direito da expressão e o processo foi arquivado.

8) O cantor, Meat Loaf, que anos mais tarde tornar-se-ia um astro do Rock, foi membro da tribo entre 1970 & 1972.
 
Sua contratação foi das mais curiosas. Ele era manobrista na porta do teatro e como tinha visual hippie, com cabelo pela cintura, foi convidado a fazer um teste e aceito, imediatamente, pois já tinha seus dotes vocais bem desenvolvidos, naturalmente. Aliás, James Rado e Gerome Ragni costumavam abordar hippies que achavam interessantes pelas ruas, e assim convidar-lhes para testes, sempre prontos a renovar o elenco, ou melhor, a tribo... 

9) A cantora, Donna Summer, que ao final dos anos 1970, tornou-se uma estrela da Discothèque, foi membro da tribo na montagem alemã. Ficou cinco anos no elenco, a emprestar a sua potente voz e interpretação. Mesmo caso das cantoras do grupo Pop sueco, "ABBA", que estiveram na montagem sueca ao início dos anos 1970. Na Holanda, a banda de Rock Progressivo, Focus, acrescida com outros músicos de apoio, foi a banda base, da montagem holandesa.
10) A última apresentação oficial, com a tribo original e Michael Butler e Tom O'Horgan no comando, ocorreu em 1°de julho de 1972. De 1967 até essa última encenação, foram 1750 encenações registradas.

11) Em 1976, os direitos da peça foram vendidos ao diretor de cinema, o tcheco, Milos Forman, que lentamente começou daí a elaborar a pré-produção para a versão cinematográfica. Passou o ano de 1977 praticamente inteiro, a realizar testes com atores.

Uma garota novaiorquina com origem italiana e completamente desconhecida, foi recusada no teste de Milos Forman, que a considerou inexpressiva, uma tal de Madonna Ciccone...
 

O cantor / guitarrista e compositor, Bruce Sprinsgteen, foi convidado a fazer teste para interpretar o personagem, George Berger, mas recusou prontamente ao alegar o óbvio : não era um ator, ou seja, foi uma sábia decisão de sua parte... 

Ainda a falar sobre o filme, ele foi produzido em 1978 e lançado em 1979. A crítica até que foi boa, mas o fracasso de público foi evidente. Nesse caso, são cabíveis algumas considerações em relação ao filme :
 

1) Ele demorou demais para ser lançado. Ao só vender seus direitos em 1976, Rado e Ragni cometeram um erro de avaliação, pois toda a euforia do Flower Power sessentista, já havia diluído-se. Pior ainda, foi Forman em sua lentidão, pois quando o lançou, em 1979, o ambiente mostrava-se completamente desfavorável ao ideal hippie, e pelo contrário, muito hostil, pois por uma lado a Disco Music abriu o caminho para uma nova geração de Yuppies, pessoas sob mentalidade anti-hippie e totalmente pró-establishement e pelo outro, a mentalidade do niilismo punk que explodira em 1977, enraizou um sentimento de repúdio à tudo o que "Hair" pregava. Portanto, o filme foi muito mal lançado. 
2) Assim que vendeu-se os direitos, Rado e Ragni prontificaram-se a elaborar um roteiro com a adaptação para o cinema. Milos Forman recusou-o e mesmo com várias tentativas para modificações propostas pelos autores originais da peça, Forman recusou definitivamente tal pressão da parte deles, ao alegar ser uma adaptação que quase o induzia a filmar a apresentação teatral e cinema era uma outra realidade (pela questão meramente técnica do que seja elaborar um roteiro para cinema, Forman tinha razão e deve ter sido essa a premissa em que baseou-se para ignorar o clamor de Rado & Ragni). De fato, o argumento dele teve sentido, mas por outro lado, a verdade é que o filme diluiu e muito o espírito original da peça. Portanto, se você viu o filme, pode achá-lo bom, mas tenha a certeza que a peça era muito melhor.

3) Rado e Ragni ficaram ainda mais enfurecidos ao saber que Forman nem cogitava usá-los como atores nos papéis que interpretaram por tantos anos no teatro. Dessa forma, ambos romperam com o diretor e recusaram-se doravante, a apoiar o filme. 


4) A atriz Beverly D'Angelo foi a única no elenco do filme, que houvera sido membro da tribo no teatro, onde encenou por anos, a peça.

5) O ator, Treat Williams, estourou com o filme e tornou-se um bom profissional, bastante requisitado para filmes e séries de TV, aliás, até hoje. Treat é um admirador confesso de Gerome Ragni e sempre considerou, abertamente que o "George Berger" deveria ter sido feito por Ragni, no filme.

6) A minha experiência pessoal com o filme é engraçada. Arrumei ingresso para a pré-estreia e quando a luz de serviço acendeu-se na sala de cinema, ao final da exibição, eu era o único cabeludo no recinto... definitivamente, 1979, não foi um bom ano para esse filme ter sido lançado. 

"Hair" teve inúmeras montagens franqueadas ao longo do planeta. No Brasil, cabe acrescentar que também foi um marco e causou muita polêmica, ainda mais ao considerar-se que estávamos em plena fase de endurecimento do regime militar, logo após a introdução do AI-5, em dezembro de 1968.

O produtor teatral, Ademar Guerra, teve a ousadia em produzir o espetáculo, em pleno ano de 1969. O teatro Aquário, localizado no bairro da Bela Vista (também conhecido como "Bexiga"), em São Paulo, foi o palco dessa montagem histórica.

O ator / produtor, Altair Lima, foi o produtor artístico da montagem e no elenco, jovens atores como Nuno Leal Maia; Sonia Braga; Edyr Duque (futuramente tornar-se-ia membro d'As Frenéticas); José Luis Penna (futuramente membro da banda de Rock, "Papa Poluição", parceiro de Belchior e há anos na política, já tendo sido inclusive, presidente nacional do Partido Verde); Armando Bogus; Denis Carvalho; Bibi Vogel; Antonio Pitanga e Ney Latorraca entre outros, além das já experientes Ariclê Perez, Aracy Balabanian e do próprio, Altair Lima.

Inacreditável a habilidade de Ademar Guerra e Altair Lima ao convencer os censores, aquelas pessoas dotadas por mentes preocupadas em manter tradições rígidas, a liberar a peça, inclusive com a polêmica cena do nu coletivo do elenco, ao final do primeiro ato.

A única restrição imposta pelos senhores censores, foi a de que os atores deveriam ficar imóveis nessa cena, com uma faixa a tapar as genitálias e os seios da mulheres, além da luz ficar obrigada a estabelecer um "fade out" (apagar-se paulatinamente), até apagar-se completamente.


Apesar da pressão exercida pelos órgãos repressores a serviço da ditadura, a peça foi um estrondo de sucesso, a repetir o élan alcançado pela montagem norteamericana. Tal montagem entrou para a história do teatro brasileiro e também tornou-se um marco para os apreciadores da contracultura sessentista, certamente. 

Altair Lima remontou a peça em 1978, e dessa vez eu pude assistir, enfim, no alto de meus 18 anos de idade.  Encontrei um amigo na porta do teatro Procópio Ferreira, na Rua Augusta, em São Paulo, e ele profetizou: "Te dou dez cruzeiros, se você aguentar dez minutos da peça. Está uma droga essa montagem". Entrei e assisti. Infelizmente, ele teve razão, pois o espetáculo não tinha vida, mostrava-se insosso, com um elenco fraco; uma banda a economizar nos arranjos, e assim burocraticamente; figurino a tentar "modernizar-se" ao deixar a estética hippie de lado, e até pelo supremo sacrilégio em mudar a sinopse, pois o mote em torno da guerra do Vietnã foi mudado, no afã para enquadrar-se à realidade de 1978, portanto, falava-se sobre o conflito insípido da Nicarágua em voga naquele instante, ao tentar atualizar a linguagem... e eu perdi dez cruzeiros naquela noite...
Soube de outras versões encenadas esporadicamente ao longo dos anos, mas ouvi dizer que essa mais moderna, que fora montada no Rio de Janeiro e São Paulo, em 2010, honrou a tradição desse grande musical. 

Gerome Ragni, um dos autores e ator principal na montagem clássica, e que interpretava o hippie, George Berger, faleceu em 1991, vítima de câncer.
Para encerrar, deixo o depoimento do ator, Andre De Shields, que foi membro da tribo entre 1969 / 1970 :
"Hair era vivo, um estado de consciência, um estado de ser".



E deixe a luz do sol entrar em seus coração...

Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.