segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Jesus Christ Superstar - Por Luiz Domingues


Andrew Lloyd Weber e Tim Rice se conheceram em Londres nos anos sessenta. Como dupla, começaram a escrever canções e sua ideia original era apenas vendê-las à cantores e bandas pop como Herman's Hermits, por exemplo.
 
Mas foi uma oportunidade ocasional e totalmente amadora que os levou para outro direcionamento artístico, fazendo-os enveredar pelo caminho dos musicais teatrais.

A pedidos, montaram um pequeno musical a ser exibido por crianças de uma escola suburbana de Londres. Criaram então, "Joseph", uma obra retratando a saga bíblica do escravo hebreu no cativeiro dos egípcios.

Daí, foi um pulo para Tim Rice que escrevia letras e textos, ter a ideia de escrever algo maior, ainda que baseando-se no espectro bíblico.


Segundo Rice, desde criança ele questionava a história oficial de Jesus Cristo, não por duvidar, mas por achar estranho não se dar crédito a outras visões, como a de Judas Iscariotes e Pôncio Pilatos, por exemplo.

Seguindo essa determinação, propôs a Lloyd-Weber começarem a trabalhar nesse tema e foram sendo compostas as primeiras canções.

A palavra "Superstar" surgiu ao acaso. 

Rice estava vendo um anúncio do novo álbum do cantor Pop Tom Jones, onde a legenda dizia:"Tom Jones, o superstar n° 1". E o conceito se reforçou quando várias pessoas próximas à ele, lhe disseram que aquilo tinha um "quê" de Andy Warhol.

Em princípio, não pensavam em montagem teatral, por acharem inviável produzir cenários caros e recrutar um elenco enorme de atores/cantores. Com alguns contatos que tinham no meio musical/fonográfico, produziram um compacto inicial com a música "Superstar", cantada por Murray Head, no final de 1970.


O compacto passou batido na Inglaterra, mas fez enorme sucesso em mercados impensáveis para a dupla, como o Brasil, por exemplo e na Holanda, virou um hino "gay", por mais bizarro que possa parecer...

Com esse sucesso inesperado, se animaram a gravar o álbum duplo com todas as músicas da peça, e finalmente a montaram em Londres.


Com a entrada em cena do empresário David Land (por incrível que pareça, sem grande experiência musical e pasmem...empresário dos Harlem Globetrotters, aquela trupe de jogadores de basquete/malabaristas ), a peça abriu caminho para cruzar o oceano Atlântico e ir parar na Broadway e dali, alavancar-se ao sucesso e entrar para a história.

E ao contratarem o diretor Tom O'Horgan, que dirigia "Hair"com enorme sucesso, sedimentaram o caminho para o êxito.

No disco oficial, a voz de Ian Gillan, interpretando Jesus é marcante. Na época, Gillan estava no auge de sua forma à frente do Deep Purple, agregando um séquito de fãs dele para a peça. E o álbum oficial da ópera-Rock estourou em 1971, chegando ao topo das paradas inglesa e americana.

Em 1973, o diretor de cinema Norman Jewison lançou Jesus Christ Superstar no celuloide, com grande êxito. As locações se dividiram entre cenários reais israelenses e estúdios americanos.



Norman queria Ian Gillan para interpretar Jesus no filme, mas este recusou a oferta, por estar em tour com o Deep Purple (a tour do LP Machine Head, coroada com o lançamento do LP Made in Japan, ao vivo). 

Os produtores cogitaram Michael Dolenz (ex- baterista do The Monkees) e David Cassidy (ator-cantor que era ídolo teen graças ao seriado de TV: "The Partridge Family", ou em português, "A Família Dó-Ré-Mi"), mas Jewison acabou contratando Ted Neeley.


O filme fez enorme sucesso, reproduzindo de forma fidedigna o espírito do libreto original, ou seja, a ideia de Tim Rice em desdemonizar as figuras de Judas e Pilatos, mas retratá-los como apenas pessoas comuns que estavam atônitas com os reais propósitos de Jesus, sob o ponto-de-vista político.
 
A estética hippie e anacrônica da paixão de Cristo, chocou a Igreja e outros setores religiosos e houveram inúmeras tentativas de cerceamento. 

Na África do Sul, por exemplo, a peça foi proibida.

No Brasil, assim como "Hair", a montagem foi imediata. 

A tradução do texto ficou a cargo de Vinicius de Moraes e interpretando Jesus, Antonio Fagundes e posteriormente, o eclético e saudoso, Eduardo Conde (que também encenou "The Rock Horror Show").

Lembro-me de um bizarro "debate" no programa da Hebe Camargo em 1971, com conservadores, incluso um bispo católico, atacando veementemente a produção da peça no Brasil, ou seja, o normal para a mentalidade provinciana e direitista da época.
Diversas montagens se sucederam posteriormente em vários países do mundo. Uma recente na América contou com o vocalista da banda "Hard-Farofa" oitentista Skid Row, Sebastian Bach, como Jesus. Essa produção deve ter gasto muito com cabeleireiro e maquiadores no camarim...

Um novo filme foi feito em 2000, mas os produtores optaram por uma estética visual mais "modernosa", inspirando-se em Sci-Fi, e deixaram o caráter Hippie original de lado. Apesar disso, não é ruim, contando com bons atores e cantores, mas na dúvida, fique com o original de 1973, onde Ted Neeley; Yvonne Elliman, e Carl Anderson, dão show de vocalização/interpretação.

Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

2 comentários:

  1. Olá! Sou fã ardoroso dessa ópera-rock. Assisti às montagens brasileiras - creio que era com o Conde - e, apesar das versões fracas do Vinícius, era um belo espetáculo. Assisto, às vezes, ao filme de 1973. Seu texto esclareceu detalhes que eu não conhecia, obrigado. Um abraço.
    Auro Lúcio - São Francisco Xavier/SP

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  2. Meu caro Auro Lúcio, fiquei imensamente feliz com o seu comentário, pois é um prazer saber que assistiu a montagem brasileira dos anos setenta. Muito obrigado pela atenção e carinho ao postar seu comentário.

    Abraço !

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