segunda-feira, 30 de abril de 2012

Zachariah, Rock no Velho Oeste - Por Luiz Domingues

Um dos filmes mais inusitados a envolver o Rock, produzidos no início dos anos setenta, foi "Zachariah", de 1971, sob produção e direção de George Englund. Isso por que ele foi concebido como um "Western", com todos os clichês típicos desse gênero clássico, mas com a inserção de bandas de Rock, sob a sua absoluta eletricidade do século XX, ao forçar um anacronismo surreal. E como se não bastasse isso, o roteiro foi baseado no mote filosófico da obra, "Siddhartha", do romancista alemão, Hermann Hesse. Como conciliar conceitos tão díspares, e almejar atingir alguma audiência ? Pois nessa questão, George Englund parece não ter preocupado-se, realmente. O filme gira em torno dos personagens, Zachariah (John Rubinstein, filho do pianista erudito, Arthur Rubinstein), e Mathew (Don Johnson, muitos anos antes de ficar famoso pela série de TV, Miami Vice).


Eles são amigos e através de uma confusão gerada em um saloon, Zachariah mata um homem, mesmo que fosse, em princípio, uma novidade para ele, que revelava-se um mero aspirante a pistoleiro, até aquele momento de sua vida. Passam então a envolver-se em assaltos a bancos e outras ocorrências criminosas por conta das circunstâncias. A Gang dos ladrões de bancos com a qual associam-se, é simplesmente formada pelos componentes do "Country Joe and the Fish", uma das bandas mais loucas da cena psicodélica norteamericana, dos anos sessenta. Portanto, imagine então vê-los como bandidos do velho oeste e a intercalar os seus assaltos com shows de Rock, ao usar carruagens como palco para tocando instrumentos elétricos e plugados em tomadas, em uma época em que não existia energia elétrica. Licença poética ou loucura extrema ? As duas alternativas anteriores, certamente. Outra participação Rocker, ocorre com a aparição da "James Gang", que também aparece, capitaneada pelo seu grande guitarrista, Joe Walsh.
O produtor do filme queria contratar o baterista do Cream, Ginger Baker, para protagonizar o personagem, Zachariah, ou seja, a caracterizar uma suprema loucura que o superb baterista recusou, ao abrir vaga para John Rubinstein, que era ator de ofício, pelo menos. Outra participação musical muito interessante, foi a do baterista, Elvin Jones (que tocou com Charles Mingus; Miles Davis; John Coltrane e outros monstros desse quilate), e que tratava-se de uma super fera do mundo do Jazz. Elvin Jones faz um solo de bateria no filme, absolutamente espetacular. 

White Lightnin', é outra banda que comparece no filme. Em um dado momento, os amigos, Zachariah e Matthew, desentendem-se por causa de Belle Star (interpretada por Pat Quinn), uma linda mulher, e dona de um bordel.  
Está armado o clima para o supremo clichê do gênero : o duelo, com todos os planos e contraplanos que tem direito, ao focar em close nos dedos nos gatilhos; respiração ofegante dos duelistas; olhares; suor a escorrer pelo rosto e blocos formados por feno, a voar em câmera lenta etc.  Ah... como é bom assistir um "Bang-Bang" na sessão coruja...

Contudo, o diretor optou por um desfecho que certamente o diretor, Franco Zeffirelli teria optado, ou seja, digamos algo mais... esvoaçante. A crítica abominou, por considerar essa mistura de conceitos, uma insanidade. Nenhum crítico de cinema levou a sério. Fãs da literatura holística de Hermann Hesse, acharam quase um escárnio atribuir "Siddartha" como influência do roteiro e os Rockers preferiam ver Country Joe and the Fish, ou James Gang, a tocar em palcos bem equipados, ao invés de carroças do velho oeste.


 
Pessoalmente, assisti esse filme pela primeira vez em 1979 (tardiamente, portanto), por incrível que pareça, e não através de uma exibição em um cine-clube, como o Bijou, que eu frequentava nos anos setenta, em São Paulo, e sala de cinema essa que costumava exibir filmes obscuros como esse, mas foi na programação da TV, mesmo que eu assisti. Foi exibido na extinta TV Tupi, sob uma semana temática com filmes sobre o Rock e o movimento Hippie. Ainda recordo-me sobre a resenha desdenhosa que o jornal, "Folha de São Paulo", publicou no dia dessa exibição, em seu caderno sobre as atrações da TV, ao afirmar algo do gênero : "Bang-Bang de Hippies e pauleira numa boa, sacou" ? Enfim, o desdém destilado, dispensa considerações de minha parte.

Nunca mais soube de outra exibição na TV, nem mesmo em canais a cabo.   Ainda no elenco de apoio, é bom ressaltar as presenças de : Dick Van Patten, e a banda New York Rock Ensemble, que aparece a tocar no Cabaret de Belle Star.
Apesar de reconhecer que George Englund exagerou na confusão de ideias que tentou alinhavar, o filme tem seus méritos, nem que seja apenas pelas apresentações musicais. A ideia em inserir conceitos extraídos de um livro emblemático do autor, Hermann Hesse, no entanto, acho que diluiu-se, pois o ambiente rústico do Western, não seria propício para abordar-se libertação via iluminação espiritual; ecologia sustentável, ou vegetarianismo, temas holisticamente colocados em sua literatura. Se essa foi a primeira intenção de Englund, como produtor e diretor, aí sim, receio que tenha falhado. Entretanto, se tudo isso for relevado, o filme passa como uma opção de diversão, pura e simplesmente e vale bastante pela parte musical.
Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Millbrook, o Mergulho de Tim Leary - Por Luiz Domingues


Em 1962, a relação do professor, Timothy Leary, com seu empregador, a Universidade de Harvard, atingiu níveis insustentáveis. Em primeiro lugar, ele fora informado que as suas pesquisas estavam a ser investigadas pela CIA. Além disso, internamente, o corpo docente estava farto em receber reclamações oriundas dos país dos alunos (invariavelmente pessoas proeminentes da sociedade norteamericana e com ligações estreitas com o poder), ao prestar queixa, no sentido de que seus filhos haviam ingerido doses com LSD, em sala de aula, como parte dos estudos propostos no curso ministrado pelo professor, Leary. Fora isso, houve a suspeita de que muitos outros alunos que não faziam parte do grupo, estavam a infiltrar-se para tomar a droga com objetivo recreativo. Cabe lembrar que nessa época, essa substância ainda não era ilegal, portanto, não cabia nenhuma intervenção policial incriminatória no caso. Todavia, a gota d'água foi uma entrevista que Leary concedeu à revista Playboy, quando referiu-se ironicamente à substância que pesquisava, como "um poderoso afrodisíaco". Ao aproveitar-se de um período onde Leary esteve fora das atividades acadêmicas, no início de 1963, a universidade tomou a atitude em demiti-lo, e na sua esteira, também o fez com o professor, Richard Alpert, igualmente envolvido nas experiências.

Então, foram ambos para o México, contudo, foram surpreendidos com uma sumária expulsão do país, algo bastante sintomático e a revelar-se um dos inúmeros boicotes velados que sofreriam dali em diante.  Foi quando surgiu a oportunidade para usar-se uma mansão privada, para que pudessem dar prosseguimento em seus experimentos, chamada : "Millbrook House", cujo proprietário era o milionário e mecenas, William Hitchcock. Ali, Tim Leary e Richard Alpert intensificaram seus estudos e doravante já estavam profundamente influenciados por ideias alternativas, oriundas de diversas fontes e não exatamente do mundo acadêmico, para mesclar-se à luz da ciência oficial. O livro Tibetano dos Mortos habitara o imaginário dos pesquisadores (em 1964, lançaram o livro : "The Psychedelic Experience, ao traçar um paralelo entre os dois conceitos).

Leary declarou anos depois, que nesse período, ele considerava-se "um verdadeiro antropólogo do século XXI, a pesquisar em meio às trevas do século XX". Ao extrapolar as fronteiras da psicologia em si, acreditava estar a criar ali, uma espécie de novo paganismo, através da completa expansão mental.

Muitas pessoas uniram-se à experiência de Millbrook, ao participar das sessões de estudos. Leary comandava experimentos sensoriais os mais diversos, com música; dança; meditação; observações no ambiente externo e em contato com a natureza; observação das estrelas; além de investigar empiricamente, diversos rituais pagãos. As observações de Tim Leary e Richard Alpert, levavam em conta aspectos da física de Einstein à quântica, à psicologia; redefinição de palavras (semiótica, incluso), como "neurose" em termos etnológicos; relacionamento entre as alterações de espaço / tempo etc.

Segundo relatou em sua autobiografia, chamada : "Flashbacks", por tratar-se de uma pesquisa independente, os recursos foram providos do próprio bolso dos pesquisadores ou mediante pequenas doações da parte de simpatizantes. Muitos jornalistas; pesquisadores e artistas simpatizantes, visitaram Millbrook. E também houve uma constrangedora visita de dois representantes da FDA, a agência norteamericana do controle farmacêutico, onde tais agentes comportaram-se como capangas mafiosos a estabelecer ameaças, mediante bravatas.
E como capítulo final nessa estada na mansão de Millbrook, Tim Leary casou-se com a jovem, Nanete Leary, em meio a uma cerimônia filmada como curta-metragem, pelo excelente documentarista, D.A. Pennebacker (Monterey Pop Festival'67; Don't Look Back; Ziggy Stardust etc). Esse filme recebeu o título como : "Wedding at Millbrook" (existe um título alternativo, chamado, "You're Nobody Till Somebody Loves You").  A banda de Miles Davis (sem a presença do genial trompetista), fez a trilha sonora da festa e o jazzista superb, Charles Mingus, foi o orador da cerimônia, ao fazer um sermão sobre a instituição do matrimônio.

Esse curta-metragem chegou a ser exibido no circuito de cinemas de arte na América, e é considerado um documento muito importante da história da contracultura nos anos sessenta. Dali em diante, Tim Leary seria mitificado pelos Hippies, ao torná-lo o inimigo n°1 do governo Nixon. Angariou muita simpatia da parte de artistas famosos, e passou por momentos de dificuldades pessoais, extremas, ao ser perseguido e preso. Mas estes são outros aspectos a ser analisados em uma outra ocasião...

Matéria publicada especialmente para o Blog Psychedelic Girl, e republicado no Site / Blog Orra Meu, ambas em 2011.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Compre, Compre, Compre... Carros - Por Luiz Domingues

Em qualquer turbulência econômica que esboce uma crise à vista, o governo corre para socorrer os bancos e a indústria automobilística, à frente de qualquer outro setor da sociedade. Isso não depende de tendência ideológica, ou seja, pouco importa se o governo é orientado por ideais direitistas ou esquerdistas. É prioridade para ambos, pois considera-se que tais fatores são prioritários para evitar-se um mal maior na economia geral. Se você for dono de uma escola, cinema ou de um mercado de bairro, é melhor que disponha de suas reservas pessoais, pois não receberá ajuda para levantar-se e salvar o seu empreendimento, em caso de crise aguda.

Da parte dos bancos, é bem óbvio o comprometimento que políticos tem, basta pensar nas suas vultuosas campanhas eleitorais etc. Posso incluir um terceiro setor, o das grandes empreiteiras e sua sanha por obras públicas (Copa do Mundo e Olimpíada à vista e tem muita obra "boa" para pensar-se, não é mesmo ?). Mas e a indústria automobilística ? A desculpa na ponta da língua, usada por qualquer governante, é a questão social, que supostamente desequilibrar-se-ia. Se param de fabricar automóveis, quantos empregos diretos e indiretos podem ser comprometidos ?

Quantas centenas de milhares de famílias entrariam em apuros se não fabricassem-se mais automóveis ? Isso sem contar o setor de autopeças; a colossal indústria petrolífera; os gigantes dos pneumáticos etc. Será que uma redução dessa loucura em torno da produção em massa, realmente causaria esse desequilíbrio social, sempre usado como desculpa ? Pois a contrapartida dessa produção absurda, cobra-nos uma conta gigantesca. Segundo dados que li na mídia recentemente (fonte : O Estado de São Paulo), a expectativa da indústria é vender 3,7 milhões de carros até o final de 2011.

Ora, é sabido que o trânsito está completamente caótico nas grandes e médias cidades. Os índices da poluição, cada vez piores; o aumento da violência em torno dos roubos aos automóveis, são alarmantes; acidentes perpetrados pelos bêbados irresponsáveis, cada vez mais acentuados etc. O preço cobrado para a aquisição de um carros, deveria ser muito menor, proporcional ao incentivo consumista, mas pelo contrário, são extorsivos, a começar pela absurda carga tributária, o que caracteriza não uma contradição estratégica, mas, mera exploração predatória, mesmo. Para manter um carro, é preciso preparar o bolso para pagar em dia as altas taxas. Para manter-se a documentação em dia, é preciso ter uma carteira recheada. Fora o verdadeiro gargalo das restrições : para estacionar-se nas ruas, é preciso pagar uma fortuna, pois as prefeituras transformaram as ruas em seu estacionamento particular, com o advento da dita, "zona azul" e mediante outros dispositivos arrecadatórios. Por exemplo, em cada esquina, um agente de trânsito trabalha o dia inteiro com um grosso talão de multas, que preenche com uma volúpia sem igual. E como a ação policial deixa a desejar na questão dos assaltos, não dá para ficar sem o caríssimo seguro particular, não é mesmo ?

O país pretende consolidar-se como uma potência petrolífera, mas nem cogita-se um repasse à população, pois o preço dos combustíveis, aqui praticado, é dos mais caros do planeta, como se não houvesse uma só gota de petróleo, saída de nosso território. E mais um dado visível e triste nessa equação viciada : investimentos em transporte público, são feitos sob passos de tartaruga, certamente em comunhão com a indústria automobilística que deseja apenas vender os seus produtos e com transporte público deficiente, estimula-se a ideia das pessoas comprar seus carros particulares, correto ? A pessoa entra em um ônibus, ou vagão de metrô ultralotado, chega fatigada ao seu local de trabalho e assim, é levada a raciocinar que é melhor ficar presa no trânsito infernal, mas sentada no seu carrinho particular, munido com ar condicionado e a ouvir música, a ficar espremida como uma sardinha em um veículo público, e ironicamente, parada no mesmo trânsito engarrafado...

Resumo da ópera : está do jeito que eles querem ! Compre um carro, compre um carro e compre um carro...

Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica em 2011, e republicada no Site / Blog Orra Meu, em 2012  

sábado, 21 de abril de 2012

The Train - Por Luiz Domingues


Entre tantas atrocidades perpetradas pelos nazistas, durante a segunda Guerra Mundial, existe a denúncia por conta das pilhagens e demais crimes de natureza civil, e nada a ver com a conduta ética de guerra, assegurada por tratados internacionais. Nesse cenário permeado por abusos, muito falou-se do roubo de obras de arte, e foi nesse contexto que situou-se o filme: "The Train", lançado em 1964. A trama gira em torno dos momentos finais da ocupação imposta pelos nazistas, na França, entretanto em seus momentos finais, no ano de 1944. É sabido na vida real, que de fato, muitos comboios com trens foram usados para a retirada de tropas, armas e munição, mas sabe-se igualmente, que havia muito material roubado, a caracterizar um crime de guerra. Dessa forma, "The Train" trata disso, ao retratar a obsessão de um oficial nazista, o Coronel Von Waldhein, vivido por Paul Scofield, em conduzir um trem recheado com obras de arte, a escapulir o mais rápido possível da França.

A curadora do museu Jeu de Paume, entra em contato rapidamente com a resistência francesa que passa a elaborar diversas ações de sabotagem, ao visar retardar ao máximo essa partida do trem. Nesse momento, entra em cena a figura do chefe de estação, Paul Labiche, protagonizado por Burt Lancaster. Em princípio, um ferroviário rude e um pouco alheio à questão da guerra, mas que logo inflama-se ao testemunhar o seu colega, o maquinista, Papa Boule (Michel Simon), ser executado brutalmente após ser flagrado em um ato de sabotagem.
Com Labiche a assumir o comando da locomotiva, mais ações de sabotagem transcorrem até o desfecho, onde as obras são recuperadas e o oficial nazista morre, após um confronto direto e eletrizante com Labiche (Lancaster), ao evocar cenas que movimentam bem a ação, para um filme de guerra, mas não ambientado no front de batalha. O filme deveria ter sido conduzido por Arthur Penn, mas por conta de certos desentendimentos com os produtores, promoveu-se uma ruptura inevitável, após duas semanas com os trabalhos das filmagens em curso, apenas, e dessa forma, John Frankenheimer assumiu a direção. O nome de Arthur Penn é creditado como codiretor, mas o trabalho foi mesmo de John Frankenheimer.

Com fotografia em preto e branco, o contraste ajudou a realçar a aspereza do ambiente da estação ferroviária, a dramaticidade da situação e de certa forma a firmar um ponto de contradição com o objeto do roubo em si, com toda a beleza das obras de arte e sua profusão de cores; traços & expressão.
O fato de Burt Lancaster ser famoso por seus atributos acrobáticos, o ajudou certamente a compor o personagem, que deveria ser retratado ao pendurar-se, literalmente na locomotiva, nos vagões etc. A história foi baseada em fatos reais, com a diferença de que na história oficial, o trem em questão nunca saiu dos arredores de Paris, pois a resistência francesa agiu rapidamente e promoveu ações de sabotagem, muito eficazes. No filme, ele põe-se a avançar, para realçar as sabotagens com maior ênfase.
 

Ainda no elenco, ótimos atores a ser mencionados : Jeanne Moreau; Suzanne Flon; Wolfgang Preiss; Albert Rémy, entre outros. Como fã do diretor, John Frankenheimer que sou, gosto muito desse filme e o recomendo, naturalmente.
Resenha publicada anteriormente na Revista Eletrônica, Cinema Paradiso, em sua edição de número291, no ano de 2011

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A Place in The Sun (Um Lugar ao Sol) - Por Luiz Domingues

O mote : "rapaz pobre & moça rica, apaixonados" (ou vice-versa), é o moto perpétuo dos folhetins que são exibidos na TV brasileira, todas as noites há cerca de sessenta anos, ininterruptamente, sob a alcunha de "novelas". Esse tema, nas mãos dos produtores de TV, causa náuseas aos estômagos mais delicados, mas nas mãos de um diretor de cinema chamado, George Stevens, tornou-se arte ! Baseado no romance, "An American Tragedy", de Theodore Dreiser, o filme de Stevens conta a história de um rapaz pobre e sem ambições maiores, que envolve-se em uma situação familiar como incauto, e não só modifica a sua vida, mas também a de outras pessoas próximas, pelo choque social, ante as diferenças notórias.

Produção de 1951, denominada : "A Place in the Sun" ("Um Lugar ao Sol", em português), deu a oportunidade para que Stevens explorasse com maestria, todo o talento do ator, Montgomery Clift, ao salientar o contraste do rapaz pobre e tímido, sem saber portar-se diante de seus parentes ricos e esnobes. Para incrementar, explorou também o inferno do personagem, atormentado por sua origem puritana, plena em penitência e culpa. George Eastman (Montgomey Clift), é um rapaz humilde que só pensa em arrumar um emprego fixo e honesto, com o único intuito em manter-se dignamente e auxiliar a sua mãe, uma senhora que dedica a vida ao "Exército da Salvação", instituição sob cunho evangélico, cujo mote é praticar a caridade. Ao empregar-se no império industrial de seu tio milionário, George aceita passivamente ser colocado sob uma posição inferior, como um operário simples, bem longe dos escritórios finos de seu tio e primos, membros da diretoria.

Então, dentro de sua rotina operária, conhece uma moça (Alice Tripp, interpretada pela ótima, Shelley Winters), no ambiente de trabalho, e envolvem-se, emocionalmente. Sob um deslize do casal, ela engravida. Ele poderia ter casado-se e ao assumir a paternidade, e seguir o rumo previsível de sua vida simples, ao tornar-se um pai de família, e assim trabalhar por trinta anos na fábrica, resignado em viver modestamente, como qualquer rapaz de sua classe social, mas outro evento inesperado, mudou tudo. Mesmo ao não pertencer à classe social de seus parentes, aceitou o convite para uma reunião familiar e aí... bingo, conhece  a bela, Angela Vickers (Elizabeth Taylor). E convenhamos, quem não apaixonar-se-ia pela personagem angelical, interpretada por Liz Taylor, ainda com ares adolescentes ?
Que dramalhão !  Se tal texto chegasse às mãos das emissoras de TV brasileiras, fatalmente cairia na vala comum do roteiro típico, ou seja, um melado piegas com direito à nauseabundo tema musical, e objeto certeiro para a discussão animada nos salões de beleza, mas Stevens tratou em colocar essência, ao descartar o melado da pieguice. E de que forma ? Na exploração da angústia desesperada do personagem, George Eastman, que só aumenta quando em um acidente, vê morrer a moça que engravidara e que o pressionava a casar-se com ela, já a ostentar um abdômen saliente. Muito conveniente, não é mesmo ?
Aparentemente, tratou-se de um acidente, entretanto, fica a dubiedade no ar : foi uma fatalidade mesmo, ou no fundo, ele premeditou essa situação, ao vislumbrar livrar-se do "problema", que aniquilaria completamente o seu sonho utópico em casar-se com a linda moça rica ? Esse foi de fato o grande mérito de George Stevens, pois esse enfoque no interior atormentado do personagem, George Eastman, aliado à pitada com thriller psicológico, afastou o ranço folhetinesco.

E para coroar a intenção, ao final, aconteceu que... bem, apesar de ser um filme lançado em 1951, não vou estragar a surpresa para os jovens que nunca o assistiram. Eis aí um filme que eu recomendo, entre tantos da filmografia do grande diretor, George Eastman.
Resenha publicada inicialmente em uma comunidade chamada : "George Eastman", na extinta Rede Social Orkut, como tópico, ao propor uma discussão sobre esse filme em específico, e aberto por eu mesmo, em 2010.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Two of Us, Quase a Volta - Por Luiz Domingues



Em 1976, o produtor musical, Sid Bernstein, fez uma oferta pública e milionária para que os Beatles reunissem-se para um único concerto a ser realizado em Londres, com a renda toda revertida à caridade. É óbvio que essa proposta jogada ao vento causou um rebuliço, com a onda de boatos a correr o mundo afora. Separadamente, cada componente da banda, rejeitou a proposta, mas a euforia gerada por essa expectativa foi enorme. Na mesma época, o programa de TV, Saturday Night Live, muito popular nos Estados Unidos, e baseado no humor, fez uma brincadeira sobre essa boataria, com o apresentador, Lorne Michaels, ao visar ridicularizar a proposta em torno de milhões de dólares oferecida por Sid Bersntein, fez uma outra proposta, ao oferecer U$ 3000, se os componentes dos Beatles fossem naquela noite aos estúdios da NBC, em Nova York, e tocassem ao vivo, no programa.

Vinte e dois milhões de pessoas assistiam aquele programa humorístico naquela noite e o que Lorne Michaels não poderia imaginar foi que entre essas pessoas, John Lennon e Paul McCartney estavam entre elas. Como assim ?

Naquela noite, a aproveitar a estada na cidade de New York, Paul e Linda McCartney foram visitar o casal John Lennon e Yoko Ono, no apartamento em que viviam, no famoso Edifício Dakota. Ao assistir a palhaçada na TV, cogitaram ir ao estúdio para entrar no espírito da brincadeira, mas desistiram logo a seguir, pois certamente causariam ainda mais especulações sobre o assunto da "volta" dos Beatles.

É baseado nesse encontro real entre Lennon e McCartney, nesse dia 24 de abril de 1976, que foi produzido o filme : "Two of Us", mais uma produção da VH1, em sua série, "Movies That Rock" (já comentei sobre o filme, "Sweetwater, a True Rock History", anteriormente, em matéria escrita para o Blog do Juma e republicada aqui no meu Blog 1, e que foi a primeira produção cinebiográfica da parte dessa emissora).

 
O filme dirigido por Michael Lindsay-Hogg, usou a licença poética mais que a realidade, a explorar outros aspectos desse encontro. Para início de conversa, suprimiu a presença das respectivas esposas, para focar na ideia dos dois a encontrar-se após anos de separação e ressentimentos ainda presentes para ambos. No filme, Paul resolve visitar John, fortuitamente, em um dia livre dos seus compromissos com o Wings (sua banda na ocasião), que excursionava e estava em temporada no Madison Square Garden, famosa arena na cidade, habituada a abrigar shows de Rock. Recebido friamente por seu velho amigo de Liverpool, esboça estar arrependido rapidamente por ter forçado a visita, tamanha a aspereza com a qual é recebido.
Em 1976, Lennon estava absorto em outros interesses, de fato em sua vida real, pois desde a virada de 1975, ele entrara em uma fase de desconstrução de si mesmo, ao fugir da inerência de sua fama e negar a sua condição como um "Rock Star". Nessa fase, ele desejava a todo custo manter uma vida normal, como um homem comum, longe de sua condição como estrela do Rock, mundialmente famoso, ao isolar-se em seu apartamento, e dessa forma, estava encantado em ser apenas um "dono-de-casa", e cuidar de seu filho, recém nascido. Quanto ao McCartney, ele estava no auge da fama de uma segunda banda bem sucedida no pós-Beatles (Wings), e a aproveitar o fato dessa banda estar a obter sucesso por seus méritos, sem usar o repertório dos Beatles para ter o ser êxito comercial. No filme, o gelo entre os dois passa a quebrar, quando o Lennon percebe que estava a ser turrão demais e assim, ao esquecer as suas mágoas enraizadas, relembra em McCartney, o amigo adolescente com quem dividiu sonhos e expectativas por anos a fio, no passado.

Ao apreciar falar sobre reminiscências em comum dos seus tempos pueris, vividos na adolescência em Liverpool, entram em climas muito lúdicos, como ao sair para caminhar pelo Central Park e aproveitar para andar como pessoas comuns, entrar em um café e não ser incomodados por fãs inconvenientes etc (mesmo assim, não conseguem isso, em sua totalidade, é claro...). Mas o clima azeda quando não percebem o limite desse resgate na amizade estremecida, quando Paul empolga-se e vai buscar um violão na limusine que o aguardava na rua. Esse é o momento do filme, onde qualquer Beatlemaníaco tem taquicardia, pois a pergunta é óbvia : será que a dupla mais bem sucedida da história do Rock, vai voltar a trabalhar junta ? Será, será ? Mas ao voltar para o apartamento, flagra Lennon a conversar com Yoko Ono ao telefone e percebe claramente que não havia mais clima algum pata tocar. Na vida real, é sabido que após o jantar muito amistoso ocorrido nesse sábado, McCartney voltou no domingo, ao Edifício Dakota com um violão em mãos e disposto a tocar com seu amigo, mas este não o recebeu, ao dispensá-lo pelo interfone do prédio, ao dizer-lhe : -"não estamos mais em 1956, Paul. Se quiser visitar-me, tenha a bondade em telefonar antes, para avisar-me"...
O filme foi produzido com a intenção deliberada em discutir o tema, "amizade", sobretudo. Com isso, os produtores e o diretor não preocuparam-se em retratar a história real, mas sim, criar uma história em torno desse tema. E dessa forma, os atores não foram escolhidos por ser muito parecidos fisicamente, porém mais pela sua capacidade em interpretar essa gama de sentimentos envolvidos no espectro da amizade. Aidan Quinn interpretou, Paul McCartney, e Jared Harris, fez John Lennon. A fotografia é muito boa, em tons pastéis, propositalmente a evocar uma implícita melancolia, que eu diria, adequada para retratar a situação. Os diálogos são muito bons, com o show de sarcasmo do Lennon, que tinha de fato essa característica tipicamente britânica em sua personalidade, em contraponto ao cartesianismo conformado da parte de McCartney, o que corresponde também à sua postura na vida real. O filme agradou em cheio aos Beatlemaníacos, mesmo com muitas licenças poéticas e deixa no ar aquela deliciosa pergunta, nunca respondida : eles realmente poderiam ter acertado-se e promovido um retorno dos Beatles, ainda que sob uma única noite, em 1976 ?
Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, e republicada no Site / Blog Orra Meu, ambas em 2011.

domingo, 15 de abril de 2012

Sete Bilhões de Bocas Famintas - Por Luiz Domingues


Recentemente, a mídia alardeou o nascimento de um bebê que foi arrolado como o ser humano de número : sete bilhões, no planeta.
É fato concreto que a aceleração no processo demográfico, iniciou-se principalmente a partir do incremento da revolução industrial, em meados do século XVIII.
O economista britânico, Thomas Malthus, desenvolveu sua famosa teoria nessa época, ao dar conta do crescimento geométrico da população, não acompanhar o crescimento aritmético dos recursos materiais para supri-la, em termos de alimentos e água potável, isso para falar nas necessidades mais prementes. Isso é o básico, claro, mas sob uma análise mais realista e adaptada ao século XXI, sabemos que somente tais itens não suprem as necessidades de sete bilhões de pessoas.
A questão do equilíbrio econômico é muito preocupante, haja vista as convulsões sociais que temos observado (já falei sobre esse tema em matérias anteriores, como, "A Ocupação dos Insatisfeitos", por exemplo). A insatisfação pelo colapso do capitalismo (o socialismo, então, já ruiu faz tempo...), está a chegar no seu limite máximo de tolerância, mas a perspectiva em torno de sua eventual derrocada, é sombria, pois não trata-se de derrotar Wall Street como derrubou-se o comunismo simbolicamente, através da queda do muro de Berlim, em 1989. Não é tão simples assim.
A grande questão é : como alimentar e hidratar sete bilhões de pessoas ? Como cuidar para que haja meios de subsistência; empregos; sustentabilidade para esse contingente absurdo ? Isso sem contar no seu bojo, outras necessidades a ser supridas. Além da comida e da água potável, existem outras tantas questões, como por exemplo : moradia digna; saneamento básico; serviços públicos eficientes; diminuição dos índices poluentes; reciclagem; coibição de desperdício; saúde pública; erradicação de doenças e epidemias; lazer para não enlouquecer essa gente toda; esportes para que gastem sadiamente a energia e claro, educação, arte & cultura asseguradas...

Como garantir isso para sete bilhões de pessoas, se nunca na história da humanidade isso foi possível em ser provido e com um contingente humano muito menor (em 1959, havia três bilhões de seres humanos a respirar neste planeta...) ? Em tempos de tanta tomada de consciência em torno da ecologia; reciclagem e processos a envolver conceitos de sustentabilidade (sem contar na luta contra a poluição), será que ninguém coloca na pauta do dia a questão do controle da fertilidade ? Ou seria algo politicamente incorreto para ventilar-se ?
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2011.

sábado, 14 de abril de 2012

Kim Kehl & Os Kurandeiros - Dia 14 de abril em Santo André / SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros
Dia 14 de abril  - Sábado  - 22:00 h
Central Rock Bar
Av. José Antonio de Almeida Amazonas, 596
Santo André  -  SP
Banda de abertura : Capitão Bourbon

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Grace of My Heart - Por Luiz Domingues

Ao final da década de quarenta, a revista Billboard cunhou o rótulo : "Rhythm and Blues", ou  também conhecido pela abreviatura, "R'n'B', para designar um novo derivado do Blues, que havia fundido-se a estilos jazzisticos, tais como o Jump Blues; Swing, e Hard Bop. Ao final dos anos cinquenta, o R'n'B tornara-se extremamente popular na América, ao ter alçado para adquirir o seu quinhão de estrelato, grupos vocais negros, dotados com extrema qualidade musical. Entretanto, sob uma Era pré-Beatles e pré-Folk (pelo "boom" da vertente baseada nas "Protest Songs"), as gravadoras mantinham ainda o hábito em contratar compositores fixos, para alimentar tais grupos com material a ser gravado, pois os seus intérpretes nem sonhavam em compor as suas próprias canções.Inúmeros compositores talentosos começaram as suas carreiras nessas condições, ao final dos anos cinquenta, casos de Carole King e Gerry Goffin, que formavam um casal de compositores profissionais, contratados por uma gravadora.
É nesse contexto que gira a história do filme : "Grace of My Heart", de Allison Anders, lançado em 1995. Assim como a película, "The Rose" (de 1980), nunca explicitou ser a biografia de Janis Joplin, "Grace of My Heart" também não autoproclamou-se a biografia oficial de Carole King, mas as semelhanças e insinuações com o vida e obra dessa grande artista, não dão margem para dúvida de que na verdade,foi essa a sua intenção.

A personagem, Edna Buxton (ILLeana Douglas), é uma garota rica, herdeira de um império industrial criado por seu pai, mas sonha em ser cantora. Participa de um teste para uma gravadora e passa, mas logo percebem que ela também tem talento como compositora e pianista. Então, o produtor, Joel Milner (John Turturro), a contrata e sua carreira passa a subir, como compositora de sucesso a alimentar grupos vocais e cantores solo. E por sugestão de Joel Milner, passa então a usar o nome artístico como : "Denise Waverly".


Denise envolve-se emocionalmente com outro compositor, Howard Laszatt (Eic Stoltz), e ambos vão trabalhar juntos. Após alguns sucessos conquistados por ambos, o casamento rui, pela infedelidade contumaz da parte de seu marido, Howard, e ela vai embora com a filha do casal. Os tempos mudam e ao chegar a metade dos anos sessenta, a "British Invasion", aquela safra composta por bandas de Rock oriundas do Reino Unido, praticamente sepulta a figura tradicional do compositor de aluguel nas gravadoras norteamericanas. Pois com o sucesso dos Beatles e de outras bandas inglesas, e a seguir  com as norteamericanas, igualmente, a nova tendência no mercado foi o próprio compositor lançar-se como intérprete, a tocar e cantar as suas próprias músicas. O mesmo fenômeno estava a acontecer com os artistas egressos da música Folk norteamericana, com Bob Dylan e Joan Baez, em sua comissão de frente. Denise conhece então o compositor e vocalista de uma banda orientada pela vertente da Surf-Music, muito famosa, que envolta na lisergia do emergente movimento Hippie, quer produzi-la, ao usar todo o experimentalismo típico dessa Era. Eles envolvem-se a formar um casal e decidem ir morar juntos em uma comunidade Hippie. Todavia, ele exagera nas drogas alucinógenas, e sob um momento marcado pela insanidade, eis que entra no mar a caminhar e delirar, e o inevitável ocorre, ao afogar-se. No entanto, isso não caracterizou um suicídio, propriamente dito, mas na verdade, fora um ato de loucura, mesmo. Abalada com essa perda, e com três filhos para criar, ela reencontra o seu primeiro produtor, Joel Milner, e finalmente lança o seu primeiro álbum solo, no início dos anos setenta, a conter lindas canções, sob a força de letras expressivas; e sob uma interpretação, notável... o LP em questão, recebe o seguinte título  : "Grace of My Heart", o nome do próprio filme, e então, torna-se inevitável não associá-lo ao LP "Tapestry", obra de Carole King na vida real, lançado em 1971, como o seu debut como artista solo e considerado uma pequena obra-prima



As coincidências com a biografia de Carole King são muitas, a começar pelo LP que citei acima. Realmente, Carole King e seu primeiro marido, Gerry Goffin, trabalharam no edifício Brill de New York, onde vários compositores ocupavam escritórios e criavam canções em expediente comercial. O personagem, Joel Milner (John Turturro), foi inspirado em dois produtores famosíssimos dessa fase ocorrido no período entre os anos cinquenta, e os setenta : Phill Spector e Don Kirshner. The Shirelles; Everly Brothers e outros grupos de R'n'B, reais, foram retratados através dos grupos fictícios, mostrados no filme. O personagem, John Phillips (Matt Dillon), foi claramente inspirado no baixista / pianista e compositor dos Beach Boys, Brian Wilson. Brian está vivo nos dias atuais, apesar de bastante sequelado pelo uso de drogas pesadas, mas seu irmão, Dennis Wilson (o baterista dos Beach Boys), realmente morreu afogado. Contudo, a licença poética para caminhar em direção ao mar, foi uma clara referência ao filme : "A Star is Born" ("Nasce uma Estrela"), quando o personagem, Norman Mainer, deprimido pelo sucesso de sua mulher, que é uma atriz em ascendência, em detrimento de sua decadência como ator, faz com que ele cometa o suicídio, ao entrar passivamente no mar, para não voltar mais.

A trilha sonora de "Grace of My Heart", foi composta essencialmente por Burt Bacharah e Elvis Costello, com algum reforço de outros compositores, Joni Mitchell, por exemplo. Ou seja, é classe A, sem ressalvas. A produção ficou a cargo de Ruth Charny; Daniel Hassid, e um certo Martin Scorsese. Gosto do filme por ele acompanhar, mesmo que veladamente, três fases importantes na carreira de Carole King, e por conter ótimos atores envolvidos; boa direção de arte, e ótimas canções. Recomendo, pois retrata uma época rica da história da música norteamericana, sob alcance mundial.
Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011