quarta-feira, 18 de abril de 2012

Two of Us, Quase a Volta - Por Luiz Domingues




Em 1976, o produtor musical, Sid Bernstein fez uma oferta pública e milionária para que os Beatles se reunissem num único concerto a ser realizado em Londres, com a renda toda revertida à caridade.

É óbvio que essa proposta jogada ao vento causou um rebuliço, com a onda de boatos correndo o mundo afora.

Separadamente, cada ex-Beatle rejeitou a proposta, mas a euforia gerada por essa expectativa foi enorme. 

Na mesma época, o programa de TV, Saturday Night Live, muito popular nos Estados Unidos, e baseado no humor, fez uma brincadeira sobre essa boataria, com o apresentador Lorne Michaels ridicularizando a proposta de milhões de dólares de Sid Bersntein e oferecendo U$ 3000, se os Beatles fossem naquela noite aos estúdios da NBV em Nova York, e tocassem ao vivo.

22 milhões de pessoas assistiam aquele programa humorístico naquela noite e o que Lorne Michaels não sonhava é que entre essas pessoas, John Lennon e Paul McCartney estavam entre elas.

Naquela noite, aproveitando a estada na cidade de New York, Paul e Linda foram visitar o casal John e Yoko, no apartamento em que viviam no Edifício Dakota.

Vendo a palhaçada na TV, cogitaram ir ao estúdio para entrar no espírito da brincadeira, mas desistiram, pois certamente causariam ainda mais especulações sobre o assunto da "volta" dos Beatles.

É baseado nesse encontro real de Lennon e McCartney, nesse dia 24 de abril de 1976, que foi produzido o filme "Two of Us", mais uma produção da VH1, em sua série, "Movies That Rock" (já comentei sobre o filme "Sweetwater, a True Rock History", anteriormente, em matéria escrita para o Blog do Juma e republicada aqui no meu Blog 1, e que foi a primeira produção cinebiográfica deles).
 

 
O filme dirigido por Michael Lindsay-Hogg, usou a licença poética mais que a realidade, explorando outros aspectos desse encontro.

Para início de conversa, suprimiu a presença das respectivas esposas, focando na ideia dos dois se encontrando após anos de separação e ressentimentos ainda presentes para ambos.

No filme, Paul resolve visitar John fortuitamente, nim day-off dos seus compromissos com o Wings (sua banda na ocasião), que excursionava e fariam shows no Madison Square Garden.

Recebido friamente por seu velho amigo de Liverpool, chega a se arrepender rapidamente por ter forçado a visita, tamanha a aspereza com a qual é recebido.

Em 1976, Lennon estava noutra...de fato, na vida real, desde a virada de 1975, ele entrou numa fase de desconstrução de si mesmo.

Queria a todo custo levar uma vida normal de um homem comum, longe de sua condição de estrela do Rock, mundialmente famoso e isolando-se no seu apartamento, estava encantado em ser apenas um "dono-de-casa", e cuidar de seu filho recém nascido.

Já McCartney, estava no auge da fama de uma segunda banda bem sucedida no pós-Beatles (Wings), e curtindo o fato dessa banda estar fazendo sucesso por seus méritos, sem usar o repertório dos Beatles para ter sucesso comercial.

No filme, o gelo vai quebrando, quando o Lennon percebe que estava sendo turrão demais e esquecendo de suas mágoas, enxerga em McCartney, o amigo adolescente com quem dividiu sonhos e expectativas por anos a fio.

Curtindo reminiscências, entram em climas muito lúdicos, como ao sair para caminhar pelo Central Park e aproveitarem para andar como pessoas comuns, entrar num café e não serem incomodados por fãs inconvenientes etc (mesmo assim, não conseguem isso, 100%, claro...).

O clima azeda quando não percebendo o limite desse resgate na amizade estremecida, Paul empolga-se e vai buscar um violão na limusine que o aguardava.

Esse é o momento do filme, onde qualquer Beatlemaníaco tem taquicardia, pois a pergunta é óbvia : será que a dupla mais bem sucedida da história do Rock, vai voltar a trabalhar junta ? Será, será ?

Mas ao voltar ao apartamento, flagra Lennon conversando com Yoko ao telefone e percebe claramente que não havia mais clima algum...

Na vida real, é sabido que após o jantar muito amistoso no sábado, McCartney voltou no domingo ao Edifício Dakota com um violão em mãos e disposto a tocar com seu amigo, mas este não o recebeu, dispensando-o pelo interfone do prédio, lhe dizendo : "não estamos mais em 1956, Paul. Se quiser me visitar, tenha a bondade de me telefonar antes, avisando-me"...
O filme foi produzido com a intenção deliberada de investir na questão da discussão do tema "amizade", sobretudo. Com isso, os produtores e o diretor não se preocuparam em retratar a história real, mas sim, criar uma história em torno desse tema.

E sendo assim, os atores não foram escolhidos por serem muito parecidos , fisicamente, porém mais pela sua capacidade de interpretar essa gama de sentimentos envolvidos no espectro da amizade.

Aidan Quinn interpretou Paul McCartney, e Jared Harris fez John Lennon.

A fotografia é muito boa, em tons pastéis, trazendo uma quase implícita melancolia, que eu diria, proposital.

Os diálogos são muito bons, com o show de sarcasmo do Lennon, que tinha de fato essa característica tipicamente britãnica em contraponto ao cartesianismo quase inconformado de McCartney, o que corresponde também à vida real. 

O filme agradou em cheio aos Beatlemaníacos, mesmo com muitas licenças poéticas e deixa no ar aquela deliciosa pergunta, nunca respondida : eles realmente poderiam ter se acertado e promovido um retorno dos Beatles, ainda que numa única noite em 1976 ?

 
Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, e republicada no Site/Blog Orra Meu, ambas em 2011.

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