segunda-feira, 30 de abril de 2012

Zachariah, Rock no Velho Oeste - Por Luiz Domingues

Um dos filmes mais loucos produzidos no início dos anos setenta, foi "Zachariah", de 1971, sob produção e direção de George Englund.

Isso porque ele foi concebido como um western, com todos os clichês típicos desse gênero clássico, mas com a inserção de bandas de Rock elétricas do século XX, num anacronismo surreal. E como se não bastasse isso, o roteiro foi baseado no mote filosófico da obra "Siddhartha" do romancista alemão, Hermann Hesse.

Como conciliar conceitos tão díspares, e agradar a audiência ?

Nessa questão, George Englund parece não ter se preocupado, realmente.

O filme gira em torno dos personagens Zachariah (John Rubinstein, filho do pianista erudito, Arthur Rubinstein)m e Mathew (Don Johnson, muitos anos antes de ficar famoso pela série de TV, Miami Vice).


Eles são amigos e através de uma confusão gerada num saloon, Zachariah mata um homem, mesmo sendo em princípio uma novidade para ele, que era mero aspirante a pistoleiro.

Passam então a se envolver em assaltos a bancos e outras ocorrências criminosas por conta das circunstâncias. 

A gang de ladrões de bancos com a qual se associam, é simplesmente o Country Joe and the Fish, uma das bandas mais loucas da cena psicodélica dos anos sessenta.

Imagine então vê-los como bandidos do velho oeste e intercalando assaltos com shows de Rock, usando carruagens como palco e tocando instrumentos elétricos plugados em tomadas, numa época em que não existia energia elétrica...  

Outra participação Rocker é da James gang, que também aparece, capiteaneada pelo seu grande guitarrista, Joe Walsh.
O produtor do filme queria contratar o baterista do Cream, Ginger Baker, para protagonizar Zachariah, suprema loucura que o superb baterista recusou, abrindo vaga para John Rubinstein, que era ator de ofício, pelo menos.

Outra participação musical muito legal, foi do baterista Elvin Jones, que tocou na banda do saxofonista, John Coltrane, ferissima do mundo do Jazz. Elvin Jones faz um solo de bateria no filme, espetacular. 

White Lightnin', é outra banda que comparece no filme.

Num dado momento, os amigos Zachariah e Matthew se desentendem por causa de Belle Star (interpretada por Pat Quinn), uma linda mulher, e dona do bordel.  
Está armado o clima para o supremo clichê do gênero : o duelo, com todos os planos e contraplanos que se tem direito, focando dedos nos gatilhos; respiração ofegante; olhares; suor escorrendo; sol escaldante, e blocos de feno voando etc

Ah...como é bom ver um "bang-bang" na sessão coruja...

Contudo, o diretor optou por um desfecho que certamente Franco Zeffirelli teria feito, ou seja, digamos mais...esvoaçante.

A crítica caiu de pau, por considerar essa mistureba toda, uma insanidade. Nenhum crítico de cinema levou a sério.

Fãs da literatura holística de Hermann Hesse, acharam quase um escárnio atribuir "Siddartha" como influência do roteiro e Rockers preferiam ver Country Joe and the Fish, ou James Gang, tocando em palcos bem equipados, ao invés de carroças do velho oeste.


 
Pessoalmente, assisti esse filme pela primeira vez em 1979, por incrível que pareça, não num cine-clube como o Bijou, que eu frequentava nos anos setenta aqui em São Paulo, e costumava passar filmes obscuros como esse, mas na TV.

Foi exibido na extinta TV Tupi, numa semana temática de filmes sobre Rock e movimento Hippie. Ainda me lembro da resenha desdenhosa que o o jornal "Folha de São Paulo" publicou no dia dessa exibição, dizendo algo do gênero : "Bang-Bang de Hippies e pauleira numa boa, sacou" ?

Nunca mais soube de outra exibição na TV, nem mesmo em canais a cabo. 

Ainda no elenco de apoio, Dick Van Patten, e a banda New York Rock Ensemble, que aparece tocando no Cabaret de Belle Star.
Apesar de reconhecer que George Englund exagerou na salada de ideias que tentou alinhavar, o filme tem seus méritos, nem que seja pelas apresentações musicais.

A ideia de inserir conceitos dos livros de Hermann Hesse no entanto, acho que se diluiu pois o ambiente rústico do Western, não é propício para se falar em "paz & amor"; ecologia sustentável, ou vegetarianismo, holisticamente colocados na sua literatura.

Se essa foi a primeira intenção de Englund como produtor e diretor, aí sim, receio que tenha falhado.

Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Recomendo que assista, Al ! Filme doido e muito divertido.

      Obrigado por ler e comentar !!

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