sexta-feira, 2 de março de 2012

A Voz do Brasil, a Vez de Acabar - Por Luiz Domingues

Criado em em 22 de julho de 1935, pelo sr. Armando Campos, esse programa radiofônico tinha o intuito de ser o porta-voz do governo Getúlio Vargas. 


Inicialmente chamado de "Programa Nacional", mudou de nome para "Hora do Brasil" a partir de 1938 e nesse mesmo ano, passou a ser obrigatório em todas as estações de rádio do território nacional. Ainda em 1938, convencionou-se seu horário às 19:00 h, horário da capital federal, Rio de Janeiro naquela época e Brasília a partir de 1960.

O objetivo era claro, desde o seu início, ou seja, enaltecer as realizações de Getúlio Vargas e ser seu espaço populista e demagógico de manifestação. Isso sem contar a parte supostamente cultural, onde quase todas as músicas executadas, enalteciam o "baixinho".

Sobreviveu ao fim da Era Vargas e prosseguiu nos momentos de calmaria relativa entre o seu suicídio e o golpe militar de 1964 quando daí, encontrou terreno fértil para se manter fiel ao seu compromisso de fazer um jornalismo chapa-branca . 


Desde 1962, havia ampliado o seu horário, com a segunda meia hora se destinando a cobrir o poder legislativo.

A partir de 1971, por determinação do presidente Médici, mudou novamente de nome, passando a se chamar : "A Voz do Brasil".

No meio dos anos noventa, diversas emissoras entraram na justiça e amparados por liminares, ganharam o direito de transmitirem esse programa obrigatório, a partir do horário que desejassem.
Com isso, tiveram enfim a liberdade de usarem o horário das 19:00 h, considerado nobre no meio radiofônico, para transmitirem seus programas de melhor audiência e dessa forma poderem explorar melhor suas possibilidades comerciais com patrocinadores.
Infelizmente, as liminares foram sendo caçadas e praticamente foi restabelecida a rotina obrigatória, causando enormes prejuízos às estações.

Feito esse preâmbulo histórico, cabem algumas considerações : A ideia de ter um programa radiofônico onde os três poderes possam se manifestar e mostrar seus trabalhos à população é boa. 


Transparência nas relações dos órgãos que regulam a sociedade é salutar e democrático, em tese.

O problema da Voz do Brasil é que já nasceu mal intencionada. Sob a desculpa nobre da prestação de contas ao povo, sempre se revelou ao contrário, um mero agente da propaganda de Getúlio. 

Essa ideia não era original, vide o trabalho massificante realizado pelo Ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Sr. Joseph Goebbels.

Com essa propaganda enaltecedora, disfarçada de jornalismo prestativo, Getúlio manipulou por anos a opinião pública. Essa cartilha continuou sendo seguida à risca, serviu muito à ditadura militar de 1964 e foi seguindo na pós-abertura.
 

O PT, que tanto combateu tais práticas quando era oposição, gostou do veículo...e não há meio desse tipo de uso ser interrompido ou no mínimo, modificado.

Outra questão a ser levantada, é o prejuízo que causa às emissoras. 


Alguém pode usar o argumento das concessões, mas alto lá : 

Independente disso, são empresas comerciais e não é nada justo, serem obrigadas a largar mão de um horário considerado nobre, onde deixam de faturar com a publicidade. Para quem não sabe, no meio radiofônico é considerado nobre o horário ente 17:00 e 20:00 h, justamente por ser o horário do rush onde milhões de motoristas tem no rádio, uma companhia ou um aliado com informações sobre as condições do trânsito.


E mais um ponto : Estamos chegando ao final de 2011, e com a tecnologia nas comunicações caminhando em progressão geométrica, faz algum sentido essa obrigatoriedade ? 

O cidadão realmente interessado em acompanhar o ritmo de trabalho do governo, parlamentos e judiciário, não tem outros meios de obter tal acompanhamento ? 

Não existem canais específicos na TV a cabo, para cada órgão ? 

Hoje em dia, pode-se acompanhar as sessões parlamentares das três instâncias, o andamento dos trabalhos no Supremo Tribunal Federal e as ações do executivo em tais veículos, 24 horas por dia.

A internet então, tem um enorme manancial de opções, nem preciso enumerar.

Encerrando, penso que a cidadania tem que ser respeitada a todo custo. É um direito do cidadão ter informações sobre o andamento das contas e ações realizadas pelo governo, mas essa opção não pode ter caráter de dever por parte das emissoras. Esse tipo de obrigatoriedade é uma prática arbitrária, retrógrada e incompatível com o exercício pleno de uma democracia moderna, onde pretendemos chegar.

Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, e posteriormente relançado no Blog Pedro da Veiga, em 2011.

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