terça-feira, 6 de março de 2012

Still Crazy, Uma Chama Imortal... - Por Luiz Domingues



Imagine uma banda de Rock setentista com qualidade técnica, talento e num bom momento na carreira, no auge da década de 1970.

Imagine que esteja a um ponto de deslanchar na carreira, e mesmo tendo problemas internos, perde o bom da história por um acidente metereológico...

Essa é a história da banda fictícia "Strange Fruit", retratada no ótimo longa-metragem "Still Crzy", batizado de "Ainda Muito Loucos", na versão brasileira.

O filme começa com o Strange Fruit tocando em 1977, no Wisbech Rock Festival do Reino Unido.

No momento em que vão iniciar a sua apresentação, um raio atinge o palco e queima todo o equipamento. Furiosos, saem do palco e a banda encerra atividades.

Corte brusco, e agora, vinte anos depois, o tecladista do Strange Fruit (Tony Costello, interpretado por Stephen Rea), vende preservativos em lojas de conveniência.

É reconhecido fortuitamente por um dos organizadores do lendário festival onde o Strange Fruit viveu seu infortnúnio, e ele lhe diz que vai acontecer uma nova edição do tal festival, e gostaria que o Strange Fruit participasse novamente.

Essa proposta acende uma luz na cabeça do veterano tecladista, e daí, passa então a rastrear os antigos companheiros para promover uma reunião da banda.

O baixista, Les Wickers (interpretado por Jimmy Nail), agora é um pai de família e trabalha como carpinteiro.Em princípio, resiste à ideia de voltar, mas logo percebe que poderia ser a chance de um resgate. É bonita a cena dele pensativo, abrindo o case de seu baixo, que não toca há muitos anos. 

Logo aparece a figura de Karen (interpretada por Julie Aubrey), ex-namorada de Brian, o guitarrista da banda que era irmão de Keith Lovell, o primeiro vocalista, que morrera por excesso com as drogas ainda nos anos setenta. Agora, trabalhando como gerente de um grande hotel, percebe a oportunidade e se insere no contexto, como produtora dessa nova fase da banda. 

O próximo a ser encontrado, é o baterista Reano Baggot (interpretado por Timothy Spall, muito conhecido por suas participações nos filmes de Harry Potter). Ele é agora cuida de uma pequena propriedade rural, mas vive atormentado, pois deve uma fortuna ao fisco britânico e teme a presença de uma estranha mulher que julga ser fiscal do governo. Beano, não pensa duas vezes, portanto, para largar suas ferramentas rurais e voltar às baquetas do Strange Fruit.
E o vocalista Ray Simms (interpretando por Bill Nighy, famoso por ser o vampiro líder da trilogia : "Underground"), vive do aluguel de sua mansão para festas particulares, ainda tentando viver como um Rock Star, e dizendo estar gravando um disco solo, que na verdade não passa de uma mentira.

Como não conseguem encontrar o guitarrista Brian Lovell, pois descobrem que ele se mudou para os Estados Unidos e doou todos os seus bens para a caridade, presumem que também esteja morto.

O último elemento a seguir é o ex-roadie, Hughie (interpretado pelo ator / comediante e músico, Billy Connoly), que se torna um faz tudo na volta do Strange Fruit, como roadie; road manager, e técnico de som.

Com a ausência do mítico guitarrista Brian Lovell, o vocalista Ray Simms assume a guitarra, mas logo no primeiro ensaio, percebem que ele está enferrujado.

Resolvem então colocar um músico jovem para suprir a vaga, e após vários testes, contratam Lucas Shand (interpretado por Hans Matheson).

Daí, sucedem-se cenas tragicômicas da volta do Strange Fruit aos palcos.

O choque de ter que começar do zero para preparar a banda para o festival, talvez seja a melhor parte do filme.

Tocam em espeluncas vazias; são maltratados por tribos modernas que os rejeitam como veteranos setentistas, são desdenhados por bandas "hypadas" e horrorosas de estética moderna; explodem ressentimentos antigos entre os membros etc. Mas também vão acumulando pequenas vitórias, e como membros de uma boa banda setentista que são, acabam interpretando como "sinais" místicos que os levam para frente.

Fãs jovens que nem eram nascidos nos anos setenta, vão aparecendo e animando os veteranos músicos.
Numa virada da história, descobrem que o antigo guitarrista Brian Lovell (interpretado por Bruce Robinson), não estava morto, mas recluso numa clínica de recuperação de viciados em drogas.

E no final, a banda toca enfim no grande festival para uma plateia imensa e o guitarrista Brian Lovell, aparece de surpresa para se reunir à banda. 

O diretor Brian Gibson (Diretor de Billion Dollar Bubble; Poltergeist II; Tina etc), soube explorar em diversos sketches alinhavados, um panorama divertido e comovente de uma banda veterana, lutando para vencer adversidades anacrônicas, e sobretudo frustrações pessoais de homens de meia-idade, amargurados pelo fracasso pregresso.

Além desse contraponto entre o drama e a comédia, tem cenas belíssimas plasticamente, também. Uma lembrança da banda ainda jovem, como se fosse um promo da época, remete ao Pink Floyd da fase Syd Barrett. É linda a atmosfera psicodélica nela contida.

Uma cena tragicômica é a do vocalista do Strange Fruit, deprimido por estar completando 50 anos de idade, e após se drogar, sair andando a esmo numa rua sob o frio de inverno europeu, e nem perceber que com suas pesadas botas de plataforma, furou o gelo de um lago e quase morre afogado.

Por ocasião do lançamento do filme em 1998, o ator Bill Nighy, que interpretou o vocalista Ray Simms, chegou a declarar que se inspirou em David Coverdale para compor o seu personagem.

Rumores não confirmados, deram conta de que a banda Strange Fruit era inspirada no Uriah Heep.


Ao longo do filme, várias referências Rockers são evocadas. Membros do Strange Fruit citam bandas setentistas com quem teriam tocado.

A trilha sonora é muito boa e o som do Strange Fruit se situa entre o psicodélico quase prog (Procol Harum; The Move), e o Hard Rock bem melódico do Uriah Heep; Lucifer's Friend, Bad Company etc.

Boa produção; ambientação de shows; fotografia; direção de arte; figurinos e muito bom elenco de atores de boa safra britânica dos anos noventa.

É um bom filme para rir, mas também para se emocionar. E serve para pensar nessa bobagem que certos jornalistas e críticos insistem em fomentar sobre o caráter "datado" deste ou daquele artista.

Música é atemporal e só um quesito importa para lhe conceder a imortalidade : se sua obra, lhe toca o coração !
 
Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

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