domingo, 12 de agosto de 2012

O Marechal da Vitória - Por Luiz Domingues


Quem costuma frequentar o estádio do Pacaembu, tende a não prestar atenção em dois detalhes : 

Primeiro, o nome da praça que lhe serve de boulevard e acesso à sua entrada principal, recebe o nome de Charles Miller, o introdutor do futebol no Brasil e em São Paulo, especificamente.


Outro detalhe, é o nome oficial do estádio, "Paulo Machado de Carvalho". Seria um político ? Um empresário ? Dirigente de futebol talvez ?

Para quem não sabe, Paulo Machado de Carvalho foi um grande empreendedor no ramo das comunicações e sim, foi dirigente de futebol, e em momentos importantes de grandes conquistas esportivas brasileiras.

Nascido em São Paulo, no dia 9 de novembro de 1901, formou-se em direito, mas foi a partir do início dos anos trinta que exerceu a sua real vocação, envolvendo-se diretamente com o mundo das comunicações, ao fundar a Rádio Record de São Paulo.
Em 1944, ampliou seu negócio, adquirindo a Rádio Panamericana de São Paulo e paulatinamente foi adquirindo outras emissoras, formando uma poderosa rede de comunicações.

Investindo pesado na modernização das transmissões esportivas, foi ele quem criou a figura do repórter de campo, colocado atrás das metas e auxiliando o locutor e o comentarista, com observações mais precisas sobre as jogadas mais agudas e entrevistando jogadores e treinadores nos momentos que antecedem as partidas, intervalo e final de jogos.
Quando a TV foi fundada no Brasil, acalentou o sonho de expandir a sua organização, e três anos depois de ver a TV Tupi em funcionamento, colocou no ar enfim, a sua própria estação. Surgia então a TV Record de São Paulo.

Era oficialmente a terceira estação a operar na cidade de São Paulo, estabelecendo concorrência sadia com as já existentes TV Tupi e TV Paulista e de maneira incisiva, foi fortalecendo-se rapidamente, para ainda nos anos cinquenta, alcançar um patamar de audiência espetacular, calcada em uma programação excelente.


Logo no início dos anos sessenta, a Record tornou-se a principal emissora do país, e sua programação baseada em música; esportes; jornalismo, e entretenimento, era notável. Não é preciso falar muito, pois os exemplos falam por si só, haja vista programas do nível de "O Fino da Bossa"; os concorridos festivais de MPB; a "Jovem Guarda" (particularmente, acho a "Jovem Guarda" discutível, mas não é o caso de considerações estéticas aqui, e sim a importância e o impacto inegável do programa), etc.
Ainda nos anos sessenta, em 1965 para ser preciso, a Rádio Panamericana foi repaginada, e passou a ser conhecida como "Jovem Pan", alcançando audiências espetaculares.

Paulo Machado de Carvalho era um esportista, e com a experiência adquirida como dirigente do São Paulo da Floresta, clube extinto ainda nos anos trinta, embrenhou-se entre a dita cartolagem do futebol.
Muito amigo do então presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos, antiga encarnação da atual CBF, Confederação Brasileira de Futebol), o sr. João Havelange, recebeu convite deste para ser o chefe da delegação brasileira na Copa do Mundo de 1958, que seria realizada na Suécia.

Extremamente paternalista e supersticioso, era adorado pelos jogadores, que no entanto, não o poupavam de brincadeiras no tocante às suas manias, baseadas na superstição e no seu fervoroso catolicismo.
Uma delas, era o uso do indefectível terno marrom, em todos os dias de jogos oficiais.

O prosaico Mané Garrincha era um dos que mais brincavam e se divertia com as manias do chefe, respeitosamente, sem dúvida.
Segundo se conta oficiosamente, no dia da grande final da Copa do Mundo de 1958, como chefe da delegação, ele foi à reunião onde se decidiria qual seleção teria que abrir mão de usar seu fardamento oficial, visto que Brasil e Suécia chegaram à decisão e ambas as seleções, usam tradicionalmente, camisas amarelas e calções azuis.

O Brasil ficou designado a usar o seu uniforme n° 2, com camisa azul e calção branco, e o Dr. Paulo ficou abalado com essa decisão, não sabendo o que dizer aos jogadores no vestiário.
Foi aí que teve a genial sacada de entrar aos gritos no vestiário, e demonstrando uma descabida euforia de véspera, dizer aos jogadores que havia tido um sonho, e que nele, Nossa Senhora de Aparecida lhe dissera que o Brasil venceria se usasse a camisa azul, da cor de seu manto, e dessa maneira, a decisão do Brasil usar de fato a camisa azul, era a confirmação da vitória.

Pelé em diversas ocasiões já afirmou não se lembrar desse fato, mas acabou virando uma lenda e/ou folclore.
Prefiro pensar que o Brasil venceu por 5 x 2, porque tinha um time superior, com as presenças de Garrincha; Didi; Gilmar; Zito; Mazola; Djalma Santos, e Nilton Santos entre outros grandes jogadores, além de um garoto até aí desconhecido, de apenas 17 anos de idade, mas capaz de desequilibrar, chamado Edson, que atendia por um estranho apelido de :"Pelé".

Depois dessa retumbante vitória onde o Brasil passou a ser notado no mapa, Paulo Machado de Carvalho recebeu o apelido de "Marechal da Vitória".

E seguindo a ordem natural, foi novamente convidado a chefiar a delegação brasileira, na Copa do Mundo subsequente, em 1962, no Chile, onde o mesmo terno marrom voltou a ser usado, e certamente gerando um manancial de piadas. Mas a superstição do chefe triunfou de novo, com o Brasil sagrando-se Bi-Campeão Mundial.
Daí em diante, chegou a ser vice-presidente da Federação Paulista de Futebol, e sempre ligado ao São Paulo F.C. como conselheiro e dirigente.

Infelizmente, assistiu sem poder reverter o quadro, a decadência da TV Record a partir de meados dos anos 70, com sua família sendo obrigada a vender a estação para esses religiosos que a dominam de 1990, até hoje.

A rádio Jovem Pan também já não lhe pertencia mais, desde 1973, vendida à família Amaral, dona até hoje, também.
No ano de 1992, o Dr. Paulo nos deixou, infelizmente.

Acho que agora, depois de ler esta matéria, quando você for ao Pacaembu, saberá quem foi Paulo Machado de Carvalho, o Marechal da Vitória.


Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012

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