sábado, 4 de agosto de 2012

Singles, No Calor do Grunge - Por Luiz Domingues


Quando Cameron Crowe resolveu filmar "Singles", o movimento "Grunge" de Seattle / Estados Unidos, ainda não havia explodido, e recebido a notoriedade que atingiria pouco tempo depois.
 
Era para ser uma comédia romântica tão somente, e por acaso ambientada numa circunstância onde alguns personagens tinham ligação com a música, mas providencialmente a ascensão de tal cena musical viria a calhar, conforme explicarei a seguir.

No início, era uma história centrada em alguns amigos que moravam num condomínio, e suas idas e vindas nos relacionamentos afetivos.

Um dos personagens, era Cliff Poncier, interpretado por Matt Dillon, que é componente de uma banda de Rock, e sonha com o estrelato. Sua namorada é Janet Livermore (Bridget Fonda), uma garçonete.
O outro casal é formado por Steve Dunne (Campbell Scott) e Linda Powell (Kyra Sedgwick).

Nada aconteceria de excepcional no filme que justificasse um maior interesse do que geralmente um espectador de sessão da tarde lhe devotasse, mas o filme acabou ganhando atrativos posteriormente, de forma quase acidental.
O primeiro fato : quando foi filmado, no final de 1989, a cena do Grunge ainda não havia explodido. Portanto, a presença de bandas reais como Soundgarden; Alice in Chains; e Pearl Jam, não tinha nenhum apelo comercial em princípio.

Mas o filme atrasou e quando foi lançado em 1992, tudo havia mudado. O movimento explodiu de tal forma, que os produtores trataram logo de lançá-lo.
A despeito do maior expoente do movimento grunge não estar no filme (o Nirvana, de Kurt Cobain), criou-se a expectativa no público de que era um filme falando da cena grunge de Seattle, com uma história de amor à tiracolo, quando na verdade, era justamente o contrário.

O segundo fato, foi no sucesso inesperado que o filme causou. Com isso, despertou o interesse de executivos da TV que convidaram Cameron Crowe a produzir a história como série.
Ele não topou, mas eles levaram adiante o projeto e transformando-o substancialmente, saindo de cena a conexão com a música e ficando só a ideia de amigos de vinte e poucos anos vivendo no mesmo condomínio, entre aventuras românticas e confusões engraçadas. Surgiu então, "Friends", um dos maiores sucessos da TV americana, de todos os tempos.

Há de se ressaltar também a presença de vários atores importantes fazendo pontas (Victor Garber; Eric Stoltz; Paul Giamatti, e até uma rara aparição do diretor Tim Burton).
O figurino usado pelo personagem vivido por Matt Dillon, era proveniente do guarda-roupa pessoal do baixista do Pearl Jam. Mais realismo, impossível.

A banda fictícia do personagem Cliff Poncier, é na verdade o Pearl Jam. No filme, a banda se chama "Citizen Dick" e segundo o Camerom Crowe, Citizen foi homenagem ao filme "Citizen Kane" e o "Dick", bem...deixa para lá, prefiro não traduzir...
No Brasil o filme também chegou aos cinemas no final de 1992, e com a aura de ser um filme sobre o movimento grunge. Lembro-me de tê-lo assistido numa noite de novembro de 1992, e ver vários músicos da cena noventista paulistana, e influenciados pelo grunge, que era o grito da moda à época, na mesma sessão em que fui assistir.
Na cena em que o personagem Cliff Poncier visita o túmulo real de Jimi Hendrix em Seattle, alguns gritinhos ecoaram pela sala de cinema. Pensei comigo : ainda resta alguma esperança, sabem ou imaginam quem foi Jimi Hendrix...
Mas o Cameron Crowe demoraria ainda alguns anos para acertar a mão e fazer "Almost Famous", este sim um filme explícito sobre o Rock setentista e autobiográfico ao enfocar sua própria vida antes de se tornar diretor de cinema, quando era crítico de Rock, da Revista Rolling Stone.


Dá para ver "Singles", desde que você o assista desprovido de qualquer expectativa mais aprofundada e sabendo se tratar de uma comédia romântica água-com-açúcar, ao estilo "Sessão da Tarde", ou se for muito fã do movimento grunge de Seattle, do início dos anos noventa.

Nesse último caso, vista a sua camisa de flanela, uma bermuda bem puída, e bon voyage...
Matéria publicada inicialmente na Rádio/Blog do Juma, em 2012

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