domingo, 24 de junho de 2012

Chappaqua - Por Luiz Domingues

Conrad Rooks era um menino americano privilegiado, pois apesar de ter nascido em 1934, sua família não sentia os efeitos da grande depressão, direto na pele.

Aliás, era pelo fato de sua família vender produtos para a pele, que nasceu num berço de ouro, pois era filho de Russell Rooks, um dos donos da indústria de cosméticos, Avon.

Mesmo tendo um futuro delineado como herdeiro e possível executivo da indústria, desde cedo interessou-se por cultura; literatura, cinema e música principalmente.
Influenciado fortemente pelos escritores e poetas da geração Beat, assim que chegou à idade adulta, caiu na estrada como sugeria Kerouac, e respaldado pelo bolso cheio, ficou anos perambulando por países exóticos da Ásia, absorvendo cultura e afins.
Mas também cometeu abusos nessa vida de beatnick e ainda muito jovem, já tinha dependência de álcool e drogas.

Dessa maneira, foi parar numa clínica de reabilitação em Zurique, na Suíça, onde submeteu-se à um tratamento de sonoterapia, que segundo ficou registrado, curou-o dos vícios.

Contudo, nada disso mudou seus interesses primordiais e de novo apto para a vida social, voltou à Ásia, onde chegou a morar em Nova Déli, India e Pattaya, Tailândia.

Em 1972, sua produção e direção em "Siddhartha" (adaptação do romance de Hermann Hesse) para o cinema, fez sucesso no circuito de cinema de arte, mas não havia sido sua primeira incursão no mundo da sétima arte.

Isso porque em 1966, lançou "Chappaqua", um dilacerante filme lisérgico, baseado em suas experiências pessoais com as drogas e principalmente em relação à sua internação.

O filme centra-se nessa internação e as crises de abstinência, os chamados "cold turkeys", onde Rooks usou e abusou da lisergia, criando cenas muito perturbadoras.
A história segue o personagem Russell Harwick (interpretado pelo próprio Conrad Rooks), que é internado à revelia e chega amarrado e em crise, numa clínica de Paris.
Daí em diante, realidade e alucinação se misturam, com cenas de intensa lisergia vividas na localidade de Chappaqua, intercalando-se ao tratamento em Paris.

Cabe lembrar que Chappaqua é uma pequena localidade no Estado de Nova York e era uma antiga aldeia indígena.


Figuras louquíssimas aparecem. Ravi Shankar como "Sun God", tocando sua cítara maravilhosa; o grande escritor Beat em pessoa, William Burroughs (interpretando "Opium Jones"), que dispensa comentários; O jazzista Ornette Coleman como "Peyote Eater"; o guru indiano Swami Satchidananda, fazendo "The Guru" e o poeta Beat, Allen Ginsberg, como "Messiah", além do ator Jean-Louis Barrault, fazendo o "Doutor Benoit", entre outras participações.


Conrad Rooks misturou suas influências num grande caldeirão, pois a percepção sobre o mundo das drogas tem várias conotações paralelas no filme. Quer pelo viés da Beat Generation, quer pelo emergente movimento Hippie que borbulhava à época de seu lançamento do filme.
Era o encontro entre o libertário pensamento de não enquadramento no sistema, caindo na estrada da vida regado à jazz e anfetaminas, mesclando-se à lisergia com pretensão de expansão das fronteiras da mente, culminando no enfoque místico e espiritualizado através da milenar cultura indiana e induzida pela cítara mágica de Ravi Shankar.

Ganhou o premio do júri do Festival de Veneza em 1966, além de se tornar um item cultuado entre colecionadores e apreciadores da contracultura.


A ideia original de Conrad Rooks para a trilha sonora, era o jazz de Ornette Coleman. Isso lhe foi encomendado, de fato. Ornette compôs uma bela suíte chamada "Suite Chappaqua", mas Rooks acabou não a utilizando na edição final, onde predominou o som da cítara de Ravi Shankar. 

A banda de Rock "The Fugs", também aparece no filme. Era uma banda cujo trabalho era calcado fortemente no deboche, em suas letras. Inclusive existem relatórios da CIA onde The Fugs é tão citado quanto o The Doors, no quesito "periculosidade" ao sistema.

"Chappaqua" não é um filme de roteiro tradicional com começo, meio e fim. É difícil de ser digerido e eu não recomendo assisti-lo junto de sua avó na sala de estar da família, embora pensando bem, se considerarmos que estamos em 2012, uma avó hoje em dia pode ter sido jovem nos anos sessenta, e vai saber se ela não curtirá mais que você ?

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