sexta-feira, 8 de junho de 2012

Saboteur : Hitchcock e a Teoria da Conspiração - Por Luiz Domingues



Alfred Hitchcock era mais um diretor europeu recrutado pela indústria norte-americana em meio a tantos outros no final dos anos trinta. Já tinha feito quatro filmes em sua fase americana quando chegou neste quinto, trazendo de volta um tema que seria sua outra vertente forte além dos thrillers policiais : Os ditos filmes de espionagem, calcados em teoria da conspiração.

Numa primeira etapa, seguindo a tendência que já trazia de trabalhos seus anteriores feitos na Inglaterra, enfocando ações nazistas e depois, com o avançar dos anos, a bipolarização capitalismo-comunismo e a Guerra Fria.

Trata-se portanto de "Saboteur" (O Sabotador, em português),de 1942, o quinto filme de sua fase americana e embora menos citado pelos fãs e críticos em geral, de muita qualidade.
Tema recorrente no imaginário do velho Al, a questão da "teoria da conspiração" sempre lhe rendeu grandes e instigantes trabalhos. No início e voltando até à sua fase britânica anterior, Hitchcock sempre enfocou a alta espionagem e os meandros das ramificações nazistas.

Em "Saboteur", Hitchcock não só enfocou a existência de uma rede de simpatizantes nazistas promovendo ações de sabotagem dentro dos Estados Unidos, como usou outro elemento típico de sua cinematografia, ou seja, a questão do homem comum e inocente que se envolve por acaso nesse turbilhão de acontecimentos e passa a ser perseguido por tudo e por todos.
Nesse caso, Barry Kane (Robert Cummings) é o cidadão comum, simples operário de um estaleiro que é confundido com o verdadeiro sabotador, "Fry" (Norman Lloyd) e se vê às voltas com a perseguição da polícia e do FBI.

Para provar a sua inocência,  vai atrás de uma pista, um envelope que "Fry" deixou cair do bolso, contendo um endereço de um rancho no interior. Esse lugar aprazível é de propriedade de Charles Tobin  (Otto Krugger), que é um respeitável e próspero cidadão. Contudo, é um dos cabeças da organização secreta de sabotadores pró-nazismo.
Dessa forma, passa a ser perseguido também pelos subversivos, acuando-se contra tudo e todos.

No meio do caminho, é acolhido por um homem idoso e recluso que vive num chalé isolado. Mesmo sendo cego, é extremamente observador e bondoso, percebendo que Kane está algemado e sente que sofre uma perseguição injusta. 

Eis que chega a bela sobrinha do idoso, Patricia "Pat" Martin (Priscilla Lane) e a pedido de seu tio, dá-lhe carona para tentar tirá-lo do perigo. Mas ela não acredita na história e o julga um reles criminoso comum com uma estória absurda de teoria da conspiração

Passam juntos por inúmeros apuros, incluso uma batida policial em meio à uma trupe circense que os acobertou.


Chega um momento porém, onde ela se convence de que a história era verdadeira e vão parar juntos numa festa da alta sociedade, onde a maioria das pessoas, faz parte desse grupo proscrito de sabotadores nazistas. 

O filme ganha grandes momentos de ação e pelo menos duas menções subliminares ao cinema dos anos 30:

I) A presença do idoso cego e bondoso que ajuda o personagem de Cummings,é claramente inspirada no Frankenstein clássico e;

2) A presença dos simpáticos membros do circo que o acobertam, remete à "Freaks", de Tod Browning. 
  
A cena final é épica, com o verdadeiro sabotador encurralado na estátua da Liberdade em Nova York e se trata de uma impressionante sequência de tomadas ousadas para os padrões dos anos 1940, em termos técnicos.

Hitchcock repetiria essa ideia em "North by Northest", anos depois, no Monte Rushmore, outro ícone americano.

Como fã incondicional de Hitchcock que sou, coloco-me naquele rol de apreciadores que gosta até dos filmes mais fracos. Em se tratando do velho Al, os mais fracos são eufemisticamente, apenas não geniais...

Não é o caso de Saboteur, em minha opinião, mas o fato é que os críticos e os fãs em geral, não o citam entre os principais, como mereceria. 
Apesar de não figurar entre os mais badalados da filmografia do mestre, "Saboteur" é uma excelente obra, cheio de ação, teoria da conspiração, traições e reviravoltas espetaculares.

E tecnicamente é um filme notável pelos efeitos especiais. Em se considerando ser uma produção de 1942, tem efeitos ousados, como os atos de sabotagens realizados pelos agentes nazistas e sobretudo a cena final onde o personagem "Fry" é encurralado na estátua da Liberdade.

Já cheguei a ver até um documentário específico falando sobre a realização dessa sequência final, com depoimentos de técnicos envolvidos, do ator Norman Lloyd, já idoso e diversas fotos de making off, story boarding etc.

Recomendo "Saboteur", sem nenhuma reserva.
Resenha publicada inicialmente numa comunidade Alfred Hitchcock na extinta Rede Social, Orkut, como tópico aberto por eu mesmo, Luiz Domingues, enfocando o filme "Saboteur", em 2010.

4 comentários:

  1. Muito o post e o filme. Aliás, estou numa semana Hitchcock. Ontem mesmo assisti Psycho (pela quarta vez). Vi o Sabotador na década de 90.
    Abraço

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    1. Muito legal a sua participação, Cesar ! Hitchcock cai bem sempre.

      Abraço verde !

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  2. Não vi ainda e agora quero muito ver!!!
    Adoro os filmes Hitchcock, sempre com personagens e tramas super intrigantes, cheias de detalhes bem trabalhados, como a ironia paradoxal de um cego que é extremamente observador, e o fato de ele estar encurralado numa estátua que é chamada estátua da liberdade, super simbólico!!!

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    1. Oi, Fernanda !

      Recomendo com louvor, Saboteur. Os filmes de Hitchcock tradicionalmente eram ricos em detalhes,exigindo do espectador, muita atenção nas entrelinhas.

      Adorei as suas duas observações : Primeiro, de fato a ironia do cego que enxerga a alma, é uma sensacional agulhada que o mestre deu no paradigma do homem comum cartesiano. E segundo, o radical nazista encurralado na estátua da Liberdade, representou o paradoxo das lutas ideológicas. Qual o sistema ideal, se ambos lutavam por algo que os conduziria supostamente à liberdade ? Brilhantes as suas observações !!

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