quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Capitão Bourbon / CD Terra em Transe - Por Luiz Domingues



Em tempos de tanta dispersão, pulverização de informações e completa desconexão com as raízes, é de admirar-se quando encontramos artistas jovens que buscam fontes nobres do passado para inspirar seus trabalhos na atualidade. A banda "Capitão Bourbon" vai por esse caminho sem parcimônia, mas sobretudo sem medo do julgamento de quem não suporta artistas que não sigam a moda, mas o som que vem do coração. Portanto, os rapazes seguem em frente e mais do que isso, não esperam acontecer, mas fazem acontecer, gravando seus álbuns, produzindo shows e abrindo frentes onde é possível tocar e se não for, esforçam-se para que o show aconteça assim mesmo. Ou seja, um amor a arte que não se vê mais hoje em dia e portanto, esses artistas resgatam até o sentido perdido de uma visão macro da cultura, o que é notável.


Tendo lançado um EP em 2013, a banda lança agora o seu primeiro CD oficial, trazendo sonoridades provenientes da década de sessenta, tais como a psicodelia, passeando pelo Acid Rock, acrescido de um forte apelo baseado no Blues Rock daquela década, igualmente. Chamado “Terra em Transe”, tem esse título inspirado declaradamente no filme homônimo de Glauber Rocha, e certamente buscam o mesmo sentido libertário contido na obra do saudoso e genial cineasta baiano, ao imprimir ideias fortes, tanto expressas pela música, quanto na parte do texto, via letras. Com metragem longa, o álbum apresenta 13 faixas, todas muito interessantes e sob uma roupagem crua, com um Power Trio básico com baixo; guitarra & bateria, mas tendo apoio de teclados em algumas faixas, além de pontuais participações de músicos convidados fazendo a parte de sopros, com Saxofone e Trompete. Todavia, na maior parte do tempo, predomina o Power Trio base em ação, e não fazendo uso de overdubs, mas tocando de forma crua, como se fosse ao vivo, com o baixo segurando sozinho, sem apoio harmônico, quando na hora de solos de guitarra e claro que isso traz uma verdade implícita no trabalho, dispensando maquiagens de estúdio, algo tão usual na música pop da atualidade. Portanto, mais um ato de fé no Rock da parte dessa banda, a ser admirado.

A formação atual do Capitão Bourbon, ao vivo na casa de espetáculos, Mercado Pirata, em Balneário Camboriú / SC, com uma ligeira modificação no time em relação aos que gravaram o disco. Da esquerda para a direita : Eduardo Osmedio (baixo e voz); Fábio Batista (bateria e voz) e Vander Bourbon (guitarra e voz). Click de Vinicius Oliveira

Falando sobre as faixas, o disco abre com a canção homônima ao título do álbum, “Terra em Transe”, que entra com um riff de forte vocação Blues-Rock, lembrando muito o som de grandes feras dessa vertente ao final dos anos sessenta. Poderia citar vários que passaram-me pela cabeça, e sabedor que tais influências são de fato as mesmas dos rapazes, creio que pensamos igual nesse sentido. Gostei do solo; linha de baixo & bateria e a voz de Vander Bourbon tem uma certa similaridade em termos de timbre, com o grande Luiz Carlos Porto. 
Vander Bourbon, mentor de toda essa loucura, em ação, ao vivo no Mercado Pirata de Balneário Camboriú / SC. Click de Vinicius Oliveira

Na segunda faixa, chamada "Segunda-Feira", a aposta na psicodelia sessentista é total, com a louca inclusão do trompete pelo músico convidado, Reinaldo Soares, fazendo intervenções nonsense. Outra intervenção muito feliz dá-se com uma linha de piano elétrico nada usual e cuja estranheza é muito criativa, gostei muito. Numa parte adiante, a banda engrena uma passagem em 6/8 com um órgão ao estilo “Farfisa”, agudo, “muito sixties”. Gostei do som seco do baixo, sem sustain, também evocando aquela sonoridade da década de sessenta. Vander canta coisas como :   

“Segunda Feira, o trânsito passa e você indo de bobeira, trocou as dúvidas por suas certezas, e vem a próxima Segunda-Feira”...   


“Quebre as Regras”, apresenta o som do baixo do ótimo, Eduardo Osmedio, bem na frente e com peso, gostei muito. Outra vez o baterista Uly Nogueira intervém tocando teclados muito bem. Ouvindo aquele som de órgão, é impossível não lembrar-se dos Doors, mas também do Iron Butterfly e outras tantas bandas daquela década maravilhosa. Gostei muito dos vocais de apoio com intenções onomatopaicas muito boas.

O ótimo baixista, Eduardo Osmedio, ao vivo com o Capitão Bourbon no Mercado Pirata de Balneário Camboriú / SC. Click de Vinicius Oliveira

Bluesman” é isso o que o título sugere, ou seja, um blues rasgado, cuja harmonia lembra a tradição de um clássico como “Key to Highway”, portanto, claro que é deveras agradável. Gostei do peso, com aquela sujeira Rocker no solo ardido, e uma cozinha pontuando com várias sutilezas na divisão rítmica, num arranjo muito feliz. A letra é bastante poética, falando do sonho de um artista em ser um “bluesman” e evocando os signos típicos dessa escola, falando em estações de trem, ambientação rural inspiradora etc. Como é bom ver um artista a resgatar as raízes e o Blues, tão esquecido pelos pseudo Rockers das últimas décadas, é reverenciado como se deve nessa canção, ou seja, como célula primordial de tudo que adveio na história do (bom) Rock.



“O Preço da Loucura” fala dessa outra conexão perdida no Rock, com bastante propriedade. De fato, perdemos a loucura faz tempo no Rock e tal elemento sempre foi primordial como uma espécie de fator surpresa, trazendo o toque inusitado, o diferencial, o insólito... Sendo assim, se enxergarmos a loucura como um tipo de alimento em desuso, seria como descobrir um livro de receitas precioso e esquecido num baú encontrado no fundo do mar. Hora boa portanto para voltar à tona. Gostei da intensidade da base da guitarra em contraponto com o órgão. Tal faixa é uma viagem no tempo, como se estivéssemos vendo uma banda no palco do Whisky a Go Go de Los Angeles, num delírio psicodélico em 1967. E não podia faltar o sutil toque a la Arnaldo Baptista, numa intervenção vocal de louco (ou Loki), literalmente. Muito bom.

O competente baterista Fábio Batista, em ação com o Capitão Bourbon no Mercado Pirata de Balneário Camboriú / SC. Click de Vinicius Oliveira

“Ulysses Perdido” é um Rock’n Roll rasgado. Tem muito do Rock brasileiro setentista em muitos aspectos, fazendo todo mundo botar os “Ya-Yás” para fora.


“Alma Perdida” lembra bastante os Blues clássicos dos primeiros álbuns do Led Zeppelin, com peso e sentimento mesclados. Gostei muito da guitarra, tanto na base quanto solos, com timbres marcantes, muito bom gosto nos desenhos criados e nessa faixa tem um solo duplo aberto no pan do stereo, uma rara intervenção de overdubing. Tem apoio de órgão e lembra “Since I’ve Been Loving You” do grande Zepelim de Chumbo. A interpretação vocal de Vander assemelha-se bem ao estilo do vocalista Nasi, quando este enveredou pelo universo do Blues, com seu combo : “Nasi & Os Irmãos do Blues”. Em suma, um Blues perfeito em todos os quesitos.


Em “Elixir do Amor”, a oitava faixa, o vibrato usado por Vander na guitarra, é sensacional, remetendo à canção “Crimson & Clover” do grupo “Tommy James & The Shondells”, direto dos anos sessenta (viva !). Tal canção é pop, passeando pelo Bubblegum daquela década, com resvalo na Jovem Guarda e a letra que parece romântica numa primeira audição, é na verdade uma ode à loucura, tal como o sonho lindo e delirante do cantor / compositor, Fábio, digamos assim.



“Oráculo Blues” é mais um blues peso pesado. Parece que estamos ouvindo o Rory Gallagher tocando com o "Taste" no Festival da Ilha de Wight, em 1970, ou seja, que (ins)piração !


A décima faixa é uma releitura de uma canção do mítico / místico, Raul Seixas (que por sua vez inspirou-se numa canção do Little Richard para a compô-la com outra letra, tratando-se de “Slippin’ and Slidin” em sua estrutura melódica e harmônica). Chamada “Não Fosse o Cabral”, dada a coincidência de sobrenome do nosso descobridor com um ex-político / presidiário bastante criticado da atualidade, parece ser até uma canção composta hoje em dia. Mas não foi, e infelizmente mostra que o Brasil padece do mesmo mal, faz séculos e haja “Lava Jato” para dar jeito nisso, se é que vai dar... sobre o arranjo da música, gostei de tudo, vocalizações malucas com sentido onomatopaico, além do órgão e um saxofone insano, que ajudou a imprimir uma pitada do som do “Gong” nessa história. Bem, nesta altura, Raulzito e o Daevid Allen devem estar em altas confabulações com Aleister Crowley, lá do outro lado, com certeza.


“Carandiru Blues” é um blues de raiz, semi acústico, e com letra áspera, falando de desilusão, erros cometidos e melancolia sob cárcere privado, mas apesar dessa atmosfera lúgubre, tem beleza poética na desolação, com certeza.


“Sombras da Noite”, é uma canção densa, com peso, certo sabor Acid Rock, com um pé no Blues e belo arranjo. Vander nessa interpretação lembrou-me o vocal exasperante de Arthur Brown e a sonoridade da banda, com certa aproximação com o som de Alice Cooper (referindo-me aos seus primeiros dois discos, com bastante experimentalismo).



A última faixa, sem título, é na verdade uma vinheta, curta, provavelmente uma Jam de improviso que fizeram no estúdio e foi gravada e acrescentada, porque ficou legal. Essa espontaneidade marcada pelo imponderável é também um recurso perdido no tempo, que a banda resgata, portanto, mais uma ação salutar. Parece o "Ten Years After" tocando no Marquee de Londres, trafegando entre o Rock’n Roll; Blues e com certo sabor de Jazz, através de um baixo andante ao estilo do Leo Lyons, a dar o suporte para Alvin Lee poder voar de helicóptero, enfim...


Esse disco foi gravado no estúdio “Corações de Pedra” de São Paulo, durante 2015 e 2016. Existe duas artes para a capa / contracapa, porque planejam no futuro, lançar também em bolacha de vinil. Bela arte psicodélico assinada por Uly Nogueira.

A formação do Capitão Bourbon no disco foi a seguinte :

Vander Bourbon : Guitarra e Voz

Eduardo Osmedio : Baixo

Uly Nogueira : Bateria; Voz & Teclados


É bom ressalvar que Eduardo Osmedio e Uly Nogueira também mantém outros projetos musicais, entre os quais as excelentes bandas, “Os Haxinins”, "Os Subterrâneos" e outros, que vem a ser outros grupos fortemente identificados com a estética dos anos sessenta, sob várias vertentes e que fazem parte portanto, da mesma confraria a que o Capitão Bourbon pertence. Uly gravou o disco e o produziu, mostrando grande versatilidade, mas não fixou-se como componente, cedendo a vaga de baterista para Fábio Batista.


Uly também chama a atenção por ter gravado os teclados do disco, capturado bem a essência da década de sessenta, buscando timbres fidedignos e belas referências, as quais já citei quando comentei as faixas individualmente. E como se não bastasse tudo isso, ainda é o responsável pela arte e lay-out final da capa, portanto, trata-se de um artista e produtor musical completo, e com belíssimas influências em sua formação pessoal. Uma raridade nos dias atuais.


Excelentes as participações dos músicos convidados. Tanto Reinaldo Soares (trompete), quanto Fabio Bizarria (saxofone), trouxeram colorido ao disco e mais que isso, uma porção de loucura a mais, sendo assim, uma contribuição fantástica.


Em síntese, o Capitão Bourbon com seu CD “Terra em Transe”, honrou o cinema de Glauber Rocha no qual inspirou-se para produzir seu trabalho, trazendo sentido libertário, mediante signos de loucura inerentes e imprescindíveis a arrancar-nos dos anos e anos em que fomos obrigados a viver, sob um mundo de plástico a compactuar com um estilo de vida “pegue e pague”, sem contestar nada, e principalmente sem loucura alguma, portanto, extremamente chato. Que bom que alguém faça-nos aludir a um tempo onde houve sopro criativo, com gritos de liberdade a ecoar por todos os lados, num bombardeio de cores e magia, sob a doce psicodelia de outrora.



Eis o álbum na íntegra para a audição do leitor :



Para obter mais informações sobre o trabalho do Capitão Bourbon, acesse :


Facebook :




Soundcloud :
https://soundcloud.com/apitaoourbonficial 

Nenhum comentário:

Postar um comentário