quinta-feira, 23 de novembro de 2017

The Blues Riders / CD Domador de Tempestades - Por Luiz Domingues



The Blues Riders Band é um grupo que eu admiro há anos pela sua luta incansável. Perseverante, a banda iniciou atividades no ano de 1994, e vem lutando com uma tenacidade incrível, completamente alheia aos modismos trôpegos que passaram e passam, centrada em sua escola tradicionalista incólume, isto é, versada pelo bom e velho Blues-Rock. Todavia, tem também no bojo do trabalho, bastante influência do Hard-Rock setentista, nítido pelo seu arsenal de riffs e sobretudo pelas resoluções melódicas estabelecidas em suas canções, logicamente baseada no potencial vocal disponível em suas linhas, sendo isso um trunfo, é claro. E como se não bastassem tais atributos musicais, trata-se de um grupo formado por grandes pessoas e sei que isso destoa um pouco do espírito técnico de uma análise tradicional feita numa resenha de disco, mas eu acho que conta sim, porque acredito que isso reflete-se no resultado artístico perpetrado pelo grupo em sua obra. Tanto que eu sempre falo em ocasiões sociais e informais, que acho os Blues Riders uma boa banda formada por boas pessoas, isso é um fato.

“Domador de Tempestades” é o terceiro álbum oficial de sua discografia. Antes, já havia lançado : “Blues Riders na Cidade do Rock” (2000) e “A Sagrada Seita do Rock’n’Roll” (2009). Se na prática a banda permanece fiel ao seu estilo, trata-se outrossim de um álbum trazendo elementos diferentes a agregar, como o próprio Hard Rock já citado e também o Pop, via baladas, e boas por sinal.

Logo de início, antes mesmo de apertar o “play” para ouvir o trabalho, a temática proposta pelo álbum (e bem expressa na sua bela arte gráfica), chama a atenção. O “domador de tempestade”, em questão, evoca muitas coisas, indo da magia pura e simples, mas passando pela arte circense / ilusionismo e certamente também pela metáfora forte, que vem a denotar poder e controle, sendo um convite muito interessante para todo o tipo de reflexão sob diversos ângulos, indo do campo sócio/comportamental à política e esta por sua vez, abrindo um campo enorme para especulações múltiplas, indo desde a crítica aberta à política rasteira praticada pelos partidos políticos brasileiros à geopolítica internacional, mais ampla e sofisticada. E logicamente passando pela manipulação de informações e formação de opinião pública, trusts e monopólios secretos e escusos, etc etc. Aliás, consta no encarte do álbum, uma divertida frase de efeito, com bom humor é claro, mas que revela nas entrelinhas tal abordagem sutil, porém profunda da parte da banda, ao afirmar : “nenhum animal foi maltratado durante as gravações. Este disco respeita as normas internacionais anti- corrupção, anti-trust e anti-ferrugem”. E que fique a vontade o ouvinte / leitor a buscar suas próprias conclusões.

Falando da música, propriamente dita, o disco foi gravado pela sua formação clássica, após mudanças pontuais ocorridas no passado, portanto, reunir a formação mais estável, também pode ser considerado como um ponto positivo a mais, trazendo um sentido de entrosamento considerável. O áudio do disco mostra-se ardido, com um ganho extra de frequências agudas, naturalmente fruto do processo final de acabamento, onde a masterização imprime mais agudo ou grave, numa camada final como resultado final.

A produção, operação de gravação (captura), mixagem e masterização ficou a cargo de Edu Marron. A fama de Morron no meio é grande, pois é sabido que trata-se de um músico excelente (inclusive tocou teclados e guitarra como convidado no álbum), tendo muita capacidade como técnico de som / produtor musical e não obstante tudo isso, ainda revela-se um designer gráfico de muita qualidade, porque a concepção e arte-final / lay-out da capa e encarte, assim como as fotos da banda, são inteiramente de sua responsabilidade também.

Por falar em capa, a concepção de uma floresta sob o lusco fusco do entardecer e a imagem do personagem do domador de tempestades, caracterizado como um mago a dominar os elementos da natureza, ficou excelente. O baixista da banda, Álvaro Sobral posou interpretando tal personagem e ficou muito convincente a imagem, a trazer a ideia do poder do personagem em questão. O encarte é rico com informações e contendo todas as letras, portanto, fiquei bastante impressionado, positivamente, com a arte gráfica que acompanha o álbum.

The Blues Riders em ação. Da esquerda para a direita, na linha de frente : Áureo Alessandri; Augusto Marques e Álvaro Sobral. Atrás, na bateria : Marcos Kontis. Click de Kacau Leão 
Falando sobre as faixas, o disco abre com “No Céu e na Lama”. Trata-se de um Rock’n Roll acelerado e tradicional, bem na tradição do trabalho pregresso da banda. A banda soa como o “Made in Brazil” em seus melhores dias. Tem um piano muito bom executado pelo ótimo convidado, Edu Marron, a trazer-nos a volúpia do mestre Jerry Lee Lewis. Gostei do timbre do baixo do bom, Álvaro Sobral e o vocal de Augusto Marques, a voz oficial da banda, é muito firme, lembrando e muito o timbre e extensão avantajada que o saudoso Percy Weiss apresentava. Um dado interessante a mais, a presença da cantora convidada, Juliana Kontis, irmã do baterista Marcos Kontis, trazendo sua bela voz para compor backing vocals com teor feminino e bem afinados. Experiente, Juliana atua na noite paulistana cantando MPB com desenvoltura, portanto, mostrou uma participação ótima nessa faixa.

“Eu Estou Chegando”, a segunda canção, tem um solo muito bom, da parte do guitarrista Áureo Alessandri, com aquela ardência que já mencionei anteriormente, quando falei do áudio, inclusive. Há de destacar-se também a providencial intervenção do órgão Hammond e uma excelente participação do saxofonista convidado, Bangla, que é um dos músicos de Rock mais requisitados em São Paulo e no Brasil.   

“Tara”, pelo seu título, sugere uma temática pesada, quiçá polêmica. No entanto, a forma pela qual a letra desenvolveu-se, tratou de amenizar quaisquer expectativas mais maliciosas, visto que o enfoque poético e praticamente romântico, surpreende. Sobre a sonoridade, gostei do início com baixo e bateria apenas, deixando soar notas longas e onde dá para apreciar bem o timbre de seus respectivos instrumentos, aspecto que não é muito valorizado pelo ouvinte padrão, mas é digno de nota em minha opinião. O Riff de guitarra é ótimo e mesmo levado em torno do Blues-Rock mais clássico, tem um certo peso Hard, extra. Lembrou-me bastante o trabalho do “Nazareth”, uma banda escocesa setentista, não muito reverenciada geralmente, mas muito valorosa em meu entender. Apreciei uma bela desdobrada no decorrer da música e o arranjo bacana quando ao final deixou sobrar a bateria segura do bom Marcos Kontis, e a gaita, esta executada pelo vocalista / guitarrista, Augusto Marques, que notabiliza-se também por tocar bem tal instrumento.

A quinta faixa, “O Domador de Tempestades”, mostra no título a sutileza da inclusão do artigo “o” a diferenciar do nome do álbum, Todavia, indo muito além, a canção tem muitos atrativos musicais e poéticos, e não só pela curiosidade ortográfica citada. Faz uso do recurso de uma introdução contendo um áudio externo como efeito de sonoplastia, ao utilizar a sonoridade natural de um Parque de Diversões lotado, com a presença de um realejo, incluso. 
             The Blues Riders ao vivo ! Foto : Leandro Almeida
 
Quando a banda entra em ação de fato, a música mostra-se como uma bela balada, com muito capricho nos detalhes inseridos pelo seu arranjo. Por exemplo, a presença de uma flauta muito inspiradora a trazer docilidade, pontuando com frases quase o tempo todo, e executada por Mag Vieira. Gostei muito de alguns trechos onde uma guitarra soa com uma carga de vibrato acintosa, trazendo um efeito espetacular. Em linhas gerais, lembrou-me muito o som do “Moody Blues”, com aquela sofisticação delicada, ao estilo do Soft Rock britânico de início de década de setenta. A letra traz uma série de referências ao universo circense, contendo versos bem estruturados e rimados, a lembrar a escola do romantismo na poesia, ao estilo de Gonçalves Dias. Veja um verso abaixo, como exemplo :


“E como um rio que salta no infinito / no fundo a solidão afogada / palavras nos vales, de minh’alma / deixando a voz embargada”

Na faixa seguinte, “O Acaso”, o Hard-Rock de bandas como o “Uriah Heep” e “Ufo”, são influências que detectei pelo uso muito feliz do lap steel (Thank you, Ken Hensley !), e pelo Riff mais acelerado (danke, Michael Schenker !). Apreciei o timbre do baixo, muito bom e das belas linhas executadas pelo bom baixista Álvaro Sobral, que seguindo a imagem que interpretou na capa do disco, de fato comandou a tempestade, aqui. Três músicos da pesada contribuíram bem para abrilhantar a faixa. Douglas Numakura pilotou o Lap Steel; Tiago Claro fez o primeiro solo de guitarra e Rubens Gióia, o segundo. Sobre o Rubens, eu sou mega suspeito para elogiá-lo, pela nossa amizade e companheirismo na Chave do Sol, banda que modéstia a parte, deixou seu legado e presença garantida na história do Rock brasuca e claro que isso orgulha-me. Analisando seu solo especificamente, é tão marcante o seu estilo pessoal que mesmo sendo relativamente curto, é inconfundível a sua presença.

A sétima faixa, “Um Dia por Vez” tem um riff sensacional que se por um aspecto é bem característico da escola do Blues Rock, tem um sabor Jazzy, delicioso, pois a inclusão do trompete do músico convidado, Alexandre Gutierrez, tratou de levar a banda para uma sonoridade muito próxima de bandas como o “Chicago”; “Cold Blood” e “Blood; Sweat & Tears”e outras nessa sonoridade. Para reforçar o peso, a presença sempre providencial do órgão Hammond, sempre uma garantia de ornar bem e um belo solo de trompete.

Vem a seguir, a faixa, “Espírito de Aventura”. Aqui a sonoridade do áudio sugere timbres mais modernos. Lembrou-me o som mais atual do “ZZ Top”, ou seja, mantendo aquela pegada tradicional do Blues-Rock texano, mas trazendo um elemento pop, sutil. É uma autêntica “road song”. E também tem um som de saxofone a pontuar a canção, desta feita executado pelo músico convidado, Mag Vieira. Eis um verso significativo a reforçar tal ideia :


“Um brinde ao destino / eu deixei minha marca / um brinde ao destino / estou voltando p’ra casa”

“O Rei da Ilusão” mostra o baixo fazendo uma frase em looping e com um belo timbre. Uma guitarra a usar o efeito da caixa Leslie, é muito agradável. O som tem um balanço funkeado bem legal, fazendo-me recordar o som do “Trapeze” e mais uma vez a gaita esperta de Augusto Marques traz seu charme ao som da banda.

Ouça o disco na íntegra (assim como os anteriores dos Blues Riders), no espetacular portal “Nave dos Deuses”, um arquivo impressionante a serviço do Rock brasileiro e capitaneado pelo agitador cultural, José André :



Discos físicos disponíveis para venda nos shows da banda, e na loja Aqualung, tradicional na Galeria do Rock, no centro de São Paulo.

Gravado; mixado e masterizado no estúdio “A Nave”, de São Paulo, entre abril e dezembro de 2015.

Técnico de som e produção : Edu Marron

Co-produção : Áureo Alessandri e Álvaro Sobral

Capa e encarte (concepção; lay-out e arte-final) : Edu Marron

Fotos : Edu Marron

Formação da banda nesse álbum :

Augusto Marques - Guitarra; Voz solo e Gaita

Áureo Alessandri - Guitarra; violão e Backing vocals

Álvaro Sobral - Baixo; Baixo Acústico e Backing Vocals

Marcos Kontis - Bateria e Percussão


Músicos convidados :

Edu Marron - Teclados (em todas as faixas onde aparecem) e Guitarra (“No Céu e no Inferno” e “Um Dia por Vez”)

Juliana Kontis - Voz (“No Céu e na Lama”)

Alexandre Gutierrez - Trompete (“Um Dia por Vez”)

Douglas Numakura - Lap Steel (“O Acaso”)

Tiago Claro - Guitarra (1º solo em “O Acaso”)

Rubens Gióia - Guitarra (2º solo em “O Acaso”)

Mag Vieira - Flauta Transversal (“O Domador de Tempestades”) e Saxofone Alto (“Espírito de Aventura”)

Octavio Bangla - Saxofone (“Estou Chegando”)

           The Blues Riders ao vivo ! Click de Bolívia & Cátia

É isso, eis aí um disco realizado por uma banda muito honesta, fiel aos seus princípios, feito com qualidade e trazendo atrativos interessantes a somar no cômputo geral. Recomendo a sua audição, certamente.


Para conhecer mais sobre a banda, consulte os endereços abaixo :


Página na Rede Social Facebook



Contato direto com a banda :
Blues.riders.oficial@gmail.com

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