Mais um
filme lançado na enorme safra de Rock Movies ao final dos anos cinquenta, “Let’s
Rock” ao menos buscou algum tipo de diferencial em seu mote, ao contrário da
imensa maioria dos seus pares, que não preocupou-se muito em ser original no tocante
à trama central para buscar alinhavar uma história. No entanto, que não se engane
o leitor, pois o mote em questão não foi nada revolucionário para que pudesse
apresentar um roteiro instigante, aliás longe disso. A questão em específico
para este filme, deu-se com a perspectiva de um artista que luta contra o Rock,
em via de regra.
Outros filmes contemporâneos haviam inserido em sua trama a
ideia de pessoas a adotar tal tipo de posição, no entanto a tratar-se de cidadãos
comuns e invariavelmente conservadores, preocupados com a perda do controle
sobre os costumes adotados por seus filhos e netos, ou autoridades movidas por
motivações semelhantes, mas em “Let’s Rock”, o que ocorreu foi a observação de um
ponto de vista ligeiramente diferente, a mostrar um outro lado da contrariedade
que o Rock’n’ Roll também gerou.
Falo a
respeito de artistas tradicionais que sentiram-se incomodados com as mudanças
no panorama musical ao longo da segunda metade dos anos cinquenta em diante e
por perder espaço, lutaram contra a instauração de uma nova ordem musical, a
usar de argumentos e expedientes não muito respeitosos, em uma clara sinalização
de contrariedade, como se fosse mais fácil evitar que uma nova ordem estética surgisse,
a tentar entender o teor das novidades e quiçá, buscar uma adequação aos novos
ventos que sopravam no show business.
Bem, tal tipo de sentimento da parte de
artistas que recusam-se a abrir caminho para o novo e pelo contrário, sentem-se
ameaçados em ter que sair de sua zona de conforto, é um fenômeno que ocorre o
tempo todo. Não restringe-se ao mercado do universo Pop, pois remonta a outros
tempos bem mais antigos. No entanto, pelo fator da aceleração dos avanços da
tecnologia, principalmente no campo das comunicações, tal rapidez cada vez
maior a abranger o alcance da informação, trouxe em seu bojo a oportunidade
para que os modismos também acompanhassem tal frenesi e nesses termos, a
percepção no mundo cinquentista, alcançou praticamente a defasagem da mudança
comportamental em uma década.
Nesses termos, a ambientação dos anos cinquenta ganhou
muito rapidamente uma outra orientação completamente diferente em relação à década
anterior, anos quarenta, que por sua vez, não fora muito distinta das
décadas de vinte e trinta. Em suma, o tempo parecia passar de uma forma bem
mais lenta anteriormente, e as transformações culturais decorrentes, costumavam
consumar-se entre uma geração e outra, ou seja, um período entre vinte e cinco &
trinta anos, para que algo muito diferente surgisse. Entretanto, a aceleração
contínua de tais mudanças e sobretudo a percepção das pessoas nesse sentido,
mudara e assim, mediante o advento dos fenômenos do Rock’n’Roll, o cinema a
enfocar gangues formadas por jovens em torno de motos & carros e a literatura
advinda da Beat Generation, sobretudo, moldou a percepção que a juventude
começara a comportar-se de uma maneira diferente em relação às expectativas inerentes
e decorrentes da mentalidade arraigada da parte dos adultos conservadores.
É nesse
sentido que o filme, “Let’s Rock”, trabalha a sua história, a partir da visão
de um artista que sente-se incomodado com a onda do Rock’n’Roll a assaltar a
produção na indústria fonográfica, mídia e show business de uma forma geral, na
ambientação cinquentista. Ao invés de tentar compreender a nova estética, ele não
abre mão em manter o seu estilo antiquado e pelo contrário, adota a estratégia
antipática em lutar conta o Rock’n’ Roll, sob a errônea avaliação de que possa
suplantá-lo e que por uma mera questão de tempo, ao acreditar que tal modismo
cairia e rapidamente ele recuperaria por conseguinte, o seu espaço perdido e
continuaria a fazer sucesso com as suas baladas obsoletas. O que faltou-lhe
como percepção, ou antevisão nesse momento, foi que o Rock’n’ Roll chegara ao
mercado não apenas como um mero modismo, mas muito pelo contrário, estava a
sedimentar-se como uma instituição e na condição de uma nova raiz hegemônica,
teria diversas ramificações a nascer de seu tronco, para mostrar posteriormente
modificações múltiplas, porém sem abalar a sua estratificação como um pilar,
tal como o Jazz e o Blues também houveram estabelecido-se e a deixar claro que
o Jazz e o Rock, foram ambos, na verdade, derivados do tronco primordial do
Blues.
Muito bem,
essa é a história de Tommy Adane (interpretado por Julius La Rosa), que
inconformado com a crescente escalada do Rock’n Roll, tem como meta destruí-lo
de uma forma bastante imprudente, ao considerar que os jovens vão preferir as
suas canções antiquadas, arranjadas mediante o uso de orquestrações rococó e
sobretudo defendidas por um tipo de interpretação ultrapassada ao demonstrar
uma grandiloquência completamente fora do padrão versado pela raiz do Blues, ou
seja o pilar básico do então novo estilo: Rock’n’ Roll.
Ele luta nesse
sentido, mas frustra-se à medida em que observa que as suas canções já não
encontram eco entre os jovens que estão enlouquecidos pela nova estética do
Rock’n’ Roll. A sua namorada, Kathy Abbott (interpretada por Phyllis Newman),
tenta convencê-lo a não lutar contra a nova estética e seus artífices, mas
conservador, ele não atende aos seus apelos, inicialmente. Charlie
(interpretado por Conrad Janis), que é o seu empresário, também tenta demovê-lo
da luta inglória contra o inevitável, mas apenas ao final do filme isso ocorre
de fato, mediante a conversão de Tommy em favor do Rock’n’ Roll, quando ele
canta a música: “Crazy, Crazy Party”,
um Rock sensacional.
E o filme encerra-se com os jovens a assediá-lo com
pedidos para autógrafos e com a devida resiliência da parte da sua namorada que
não incomoda-se com o seu namorado envolto perante a presença de mulheres
jovens, porém ao contrário, mostra-se feliz por saber que ele acertara a sua estratégia,
enfim, ao parar de lutar contra o Rock’n’ Roll, e inserira-se em seu contexto,
ao modernizar-se como artista. Ou como diz o ditado: “se não consegue vencer o
inimigo, junte-se a ele”.
Nesse
ínterim, houve espaço para uma encenação bem leve em torno de alguns
desencontros com a sua namorada, com direito até a uma cena em que ele sai
propositalmente com outra mulher na frente da namorada para demarcar um sinal
de contrariedade, mas desiste da moça ao cair na realidade e tudo volta ao
normal, portanto não houve tempo para explorar o conflito. A garota insinuante
dessa cena, e cujo personagem foi designado apenas como uma “Pickup Girl”, foi interpretada
por Joy Harmon.
Naturalmente
que os números musicais exibidos por outros artistas intercalam-se, geralmente
sob o subterfúgio em aproveitar-se a ambientação de estúdios de programas de TV,
mas há também até a ocorrência de externas, incluso um número ocorrido em meio
a um parque público com a filmagem natural a luz do dia. E nesse rol de artistas,
observa-se a presença de: Paul Anka, Danny and The Juniors, Roy Hamilton, Wink
Martindale, a ótica cantora, Della Resse, que muitos anos mais tarde, ficaria
famosa também como atriz, inclusive a atuar em seriados de TV, The Royal Teens (a contar com Bob Gaudio) e
The Tyrones.
Ou seja, um elenco espetacular de artistas cinquentistas. Destaca-se
inclusive a presença da canção: “Short Shorts”, que fez estrondoso sucesso
radiofônico na época, a conter uma letra insípida, todavia carregada por um
tipo de malícia sexista/machista a enaltecer as pernas torneadas das meninas,
valorizadas pelo uso de tal tipo de vestimenta bem curta aos padrões da época,
digamos assim.
Ainda a
falar sobre a música, cabe mencionar que o ator, Julius La Rosa também foi
cantor na vida real. O seu estilo era parecido com a personagem que defendeu,
ao trabalhar mais detidamente com o cancioneiro orientado para a estética mais
antiquada, mas ele também gravou material mais contemporâneo, como por exemplo
em 1970, quando lançou o single com a versão da canção: Where Do I Go”, que
faz parte do musical teatral, Hair”. Tudo bem que a sua versão, quase em
arranjo “Bossa Nova”, fica longe da proposta da canção original composta para a
peça em questão, mas é uma boa interpretação, não resta dúvida, pois ele foi um
bom cantor.
Este filme
foi escrito por Hal Hackady e dirigido e produzido por Harry Foster e lançado
em junho de 1958. A crítica massacrou o filme, tanto pela ideia em ridicularizar-se
uma estética em detrimento de outra, como pela produção em si, que realmente
como mera peça cinematográfica, é fraquíssima, sou obrigado a concordar. As
atuações como atores de Julius e Phyllis, foram consideradas amadoras e o filme
considerado um mero “promo” de gravadora para divulgar os seus artistas
musicais.
Mais uma vez eu concordo com a avaliação, entretanto, ao contrário
dos críticos da época, é preciso salientar que à luz de décadas passadas, este
filme (assim como os seus muitos outros pares cinquentistas, feitos com pouco
orçamento), ganhou a relevância arqueológica, digamos assim, no sentido expresso
de que tornou-se uma peça importante enquanto documento valioso sobre a
história do Rock. Portanto, ao pensar-se nesses termos, toda a crítica técnica observada
na época, tornou-se irrelevante.
Particularmente, no entanto, a minha visão
clama pelo equilíbrio, ou seja, a buscar um balanço entre as duas visões mais
extremas. Nesse sentido, eu prefiro manter o respeito absoluto ao filme, pela
sua importância histórica adquirida, naturalmente, e ao mesmo tempo, reservo-me
o direito de manter uma observação crítica e realista da obra, mesmo ao
compreender perfeitamente as suas dificuldades gerenciais à época e assim, tolerar
mas não deixar por observar os seus pontos fracos.
Como a
maioria desses filmes produzidos sob baixo orçamento na década de cinquenta, “Let’s
Rock” foi bastante exibido na TV aberta durante a década de sessenta e a partir
dos anos oitenta e noventa, inseriu-se em mostras temáticas sobre o Rock’n’
Roll da década de cinquenta, em canais da TV a cabo. Existe a sua versão em DVD
para a aquisição em lojas e sites para vendas do gênero e encontra-se disponibilizado
para ser assistido na íntegra e gratuitamente no YouTube.
Como última observação, não posso deixar de
mencionar que o título do filme, a mostrar-se sucinto; objetivo e ao mesmo
tempo sonoro, é um dos melhores já criados para designar um Rock Movie, em
todos os tempos. Portanto, a despeito de ser em linhas gerais uma obra fraca,
tem em seu título um ponto notável em seu favor. É a melhor atitude a ser
tomada por um Rocker, então, sem mais a acrescentar... Let’s Rock!
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz, Câmera & Rock'n' Roll" e está presente no seu volume III, com a leitura disponibilizada a partir da página 380.