sábado, 17 de janeiro de 2015

Nutopia, onde todos somos livres !! - Por Luiz Domingues



A primeira fase da carreira dos Beatles, foi marcada pela explosão da Beatlemania, e certamente que é muito efusiva, embora numa análise fria, não possa ser considerada revolucionária pela música; conteúdo das letras, tampouco arranjos musicais inovadores ou performance instrumental e vocal deslumbrante.


Calma, leitor, pois com isso não estou afirmando que não gosto dos álbuns iniciais, e da fase dos terninhos e cabelos considerados longos para os padrões da época, mas bem curtos pelo que veio depois no cenário do Rock.



Pelo contrário, gosto bastante desses álbuns iniciais, contendo Rock’n Roll in natura; doses maciças de R’n’B; Soul music; baladas; pop bubblegum, e que tais.
Mas inegavelmente, foi a partir da segunda fase da banda, no pós-1966 que a excelência musical tornou os Beatles, a mais revolucionária banda do mundo, justificando o posto que já tinha alcançado como a mais famosa e considerando que a fama nem sempre é argumento irrefutável de qualidade artística.



Nessa metamorfose criativa que alcançaram após o lançamento dos álbuns Rubber Soul e Revolver, a loucura ganhou carta branca nos estúdios Abbey Road e sabiamente, o produtor George Martin abriu sua mente e embarcou junto nesse conceito de experimentação artística total, dando vazão para que a banda lançasse seus melhores álbuns doravante, fazendo e entrando na história.


Dentro desse contexto, John Lennon mergulhou de cabeça no processo criativo total e mais que isso, tomou consciência de seu poder influenciador como ídolo de alcance mundial.
Influenciado por Yoko Ono, uma artista plástica avantgarde, e pouco interessada na efemeridade da fama pop, Lennon deu vazão ao seu lado sociopolítico e tornou-se um ativista, metendo a bronca no trombone, e usando sua fama para defender a causa da paz; pelo fim das guerras; da exploração e da fome no mundo.


Sua voz nos Beatles já enveredara para esse caminho do ativismo antistablishment, mas foi na carreira solo que deu uma “voadora” no peito da caretice do mundo, dominado pelos interesses escusos, da mesquinharia e da truculência da geopolítica bélica, a favor de corporações e massacrando as pessoas, visando o dinheiro, pura e simplesmente.
Claro que comprou uma briga e tanto com os poderosos de plantão. Tornou-se o inimigo público número 1 dos Estados Unidos, incomodando pelo simples fato de pregar a paz e criticar a estupidez da Guerra do Vietnã.



O governo Nixon não mediu esforços para deportá-lo, usando todo o tipo de esforço jurídico para negar-lhe o Green Card, que lhe garantiria a residência naquele país, usando como argumento um fichamento ocorrido na Inglaterra por posse de maconha, ainda nos anos sessenta.
Não sou apologista das drogas, contudo, contesto veementemente um julgamento moral pífio dessa natureza, no sentido de que consumir marijuana era execrável no padrão de moralidade dessa gente, mas jogar bombas Napalm sobre crianças e idosos indefesos, “tudo bem”...enfim...


O FBI e a CIA o grampearam e o perseguiram de todas as formas. Claro que outras agências internacionais coalizadas com o serviço secreto americano ficaram de olho nele, também.


Destemidamente, seguiu em frente, lançando seus álbuns solo, plenos de canções com forte teor de militância.


A canção “Imagine”, por exemplo, soa piegas para alguns, mas tem em seus versos, uma aula de supraconsciência.
Um mundo sem fronteiras, sem diferenciações, onde todos são iguais, aponta para uma sociedade livre do egoísmo e das mesquinharias materialistas.


Mas o ideal hippie da fraternidade total entre os homens incomodava/incomoda as corporações. Para essas pessoas que só pensam no dinheiro, e pouco se lixam para o estrago que causam por conta de sua sanha, Lennon e seus sonhos de fraternidade e paz, tornou-se um empecilho.
Ridicularizá-lo teria sido um caminho, mas ídolo mundial que era, certamente que uma campanha, ainda que velada, poderia surtir efeito contrário, martirizando-o e assim os marketeiros do mal evitaram tal procedimento, pelo menos num primeiro instante.


Foi quando Lennon teve uma sacada genial, e para ironizar o imbróglio que o governo americano havia criado para negar-lhe o Green Card, e ter assim elementos para expulsá-lo dos Estados Unidos, anunciou um manifesto, criando um país fictício chamado : “Nutopia”.


Esse neologismo por ele criado, era a junção das palavras “New” (novo/nova), com “Utopia”.
Esse estado era assumidamente fictício em termos territoriais, mas se apresentava como um estado supostamente oficial, pleiteando reconhecimento internacional e nesses termos, seriam considerados cidadãos de “Nutopia” , todas as pessoas que compactuassem com seus ideais de liberdade, paz e fraternidade total.


Bastando estar de acordo com tais preceitos, qualquer pessoa poderia ser considerada uma cidadã de “Nutopia” , e mais que isso, “embaixador(a)” daquele país.


Seguindo esse raciocínio, Lennon apelou para o governo americano, a “imunidade diplomática”, num ato de rebeldia e tapa de luva de pelica aos que o perseguiam.
Lançado o manifesto em 1° de abril de 1973, para ironizar o dia da mentira, tinha em seu texto original os seguintes dizeres :


We announce the birth of a conceptual country, NUTOPIA. Citizenship of the country can be obtained by declaration of your awareness of NUTOPIA. NUTOPIA has no land, no boundaries, no passports, only people. NUTOPIA has no laws other than cosmic. All people of NUTOPIA are ambassadors of the country. As two ambassadors of NUTOPIA, we ask for diplomatic immunity and recognition in the United Nations of our country and its people”.

Na tradução livre :


“Nós anunciamos o surgimento de um país conceitual, chamado Nutopia. A cidadania deste país pode ser obtida pela declaração de sua consciência (quanto à existência) de Nutopia. Nutopia não possui território, não tem fronteiras, não emite passaportes; possui apenas gente. Nutopia não dispõe de nenhuma lei além das leis cósmicas. Todas as pessoas de Nutopia são embaixadoras do país. Na condição de embaixadores de Nutopia, nós pedimos imunidade diplomática e reconhecimento, pela ONU, de nosso país e de seu povo”.


Eis o vídeo da declaração de Nutopia, disponível no You Tube :



Outro vídeo explicando os propósitos desse país fictício :

O estandarte de Nutopia, era/é uma bandeira inteiramente branca, e sua simbologia dispensa maiores explicações, acredito.


Mas “Nutopia” foi além da provocação e ironia fina...

A visão do país sem fronteiras, onde as pessoas eram aceitas pela afinidade com os ideais fraternais, revelava por trás de um simples statement de efeito artístico/estético/mercadológico, algo muito mais profundo.
A supraconsciência por trás dessa suposta utopia, era/é uma realidade de ordem muito avançada.


Acima de qualquer conspurcação torpe, perpetrada pela pequenez de detratores incautos, supraconsciência responde à parâmetros de cosmoética.
Um mundo sem mesquinharias, é sobretudo um triunfo do homem sobre o seu próprio Ego.


Lennon nos deixou em 1980, assassinado por um psicopata. Perdemos muito com a falta de sua inteligência milhas acima da média, e sua determinação de sonhar com um mundo melhor, mas sobretudo por nos incentivar a embarcar nesse sonho, também.
Os detratores adoram usar a expressão “O sonho acabou”, extraída da música “God”(de 1970, contida no álbum “Plastic Ono Band”), e fora de contexto, para ironizar o fim do sonho Hippie. Mas não vejo graça alguma numa colocação desse tipo, no sentido de que só perdemos com essa inversão de valores, pois sem sonho, não andamos para a frente e viver no pesadelo dos escombros niilistas, não nos leva à parte alguma, além da desolação.


Yoko Ono mantém os ideais do casal vivos em ações midiáticas, mas sem a mesma força que teriam se Lennon estivesse conosco, fisicamente até hoje.
Uma dessas ações pró-Paz, é a de manter um site onde em alguns segundos, é possível se cadastrar e se tornar um cidadão de Nutopia, adquirindo o status de embaixador desse país dos sonhos.


Eu, Luiz Domingues, sou um embaixador de Nutopia, e acredito num mundo fraternal, sem guerras e sem egoísmo.
Se você quiser se tornar um cidadão desse belo país, acesse o link :



Matéria publicada inicialmente na Revista Gatos & Alfaces, em 2014.

20 comentários:


  1. Até coloquei "Rubber Soul" para escutar. Eu leio TUDO até hoje que me aparece pela frente e escuto TUDO a respeito dos Beatles. Confesso que sou um doente beatlemaníaco. Mas, sem dúvida a partir de 1966 eles deram um salto, quando, estranhamente, começaram a sofrer mais, em função da percepção de estarem sendo usados pelo sistema. Daí o sofrimento e depois a revolta. Grande matéria, Dominguez.

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  2. Grande Elmo !

    Impressionante como pensamos de forma igual. Também sou um admirador sem reservas do Fab Four, e sempre enxerguei na sua obra, algo muito além da música, simplesmente.

    E gosto muito da segunda fase da banda, onde acredito, a criatividade chegou no ponto máximo, abrindo cabeças, e promovendo mudanças na sociedade.

    No meu caso, tenho a percepção que Lennon tomou consciência de seu poder de fogo criativo como artista, e como líder sociopolítico, quando encontrou Yoko.

    Sei que é uma opinião polêmica, pois a lenda urbana fez de Yoko uma figura odiada por quase todos os fãs dos Beatles, mas eu nunca embarquei nessa ideia, e pelo contrário, acho que ela fez muito bem para ele, pois o fez acreditar que era mais que um Rock Star, mas um tremendo artista.

    E no caso de todas as ações que perpetrou em causas sociopolíticas, sou muito fã de sua militância em prol da paz, sobretudo, mas também com respingos em tantas coisas importantes, tais como a fraternidade; compartilhamento; respeito; tolerância etc etc.

    Muito grato por ter lido, comentado e compartilhado comigo a sua experiência pessoal com a música mágica do Fab Four, da qual também sou grande fã !!

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  3. Luiz, acabei de ler....Putz...Seu texto é importantíssimo! Principalmente neste momento crítico que o mundo está atravessando e também o nosso país (ainda com cinquenta milhões em miséria absoluta?..). Eu li e nem acredito na alegria que estou sentindo!...

    Espetacular explicação sobre a Nutopia e tudo o que Ela significa! Parabéns!!!

    Muito obrigado por esta Grande Obra que com certeza servirá de Norte para muitos "navegadores" do Brasil que desejam saber mais sobre o movimento libertador conduzido/ criado por John Lennon e se engajar mais "ativamente" Nele!

    Vlw!
    Rock On!

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    1. Franklin :

      Que prazer para mim ler um comentário tão entusiasmado de sua parte !!

      Espero mesmo ter dado essa contribuição, ainda que modesta, para manter vivo o ideal de Lennon & Yoko, por Nutopia, e tudo o que representa esse conceito fantástico de fraternidade sem fronteiras; sem diferenças, com todos realmente se reconhecendo como irmãos.

      Que possamos despertar nos jovens atuais, esse entusiasmo que demonstrou aqui pelo tema.

      Que a Fraternidade Rock'n Roll, espalhada em várias Redes Sociais, mantenha a chama de Nutopia, viva !

      Rock on !!

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  4. Parabéns pela Obra magnífica que vc postou, Luiz! Já esperava isso há muito tempo, só aguardava o momento certo de vc fazer isso! Muitíssimo obrigado em nome de toda nossa Fraternidade Rock'n'Roll que também é um "pedacinho" desta Sociedade Alternativa fundada por John Lennon! Vlw Fera!!

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    1. Exato, Professor !!

      Já tinha te avisado tempos atrás, que a matéria estava pronta, mas precisava cumprir um tempo útil em sua primeira aparição, nas páginas da Revista Gatos & Alfaces, onde teve uma boa repercussão.

      A Fraternidade Rock'n Roll presa tanto o conceito, que tem até uma sessão especial no Google+, com um destaque muito importante.

      É por aí, mesmo. O sonho de Lennon ,imaginando um mundo sem fronteiras; sem preconceitos e sobretudo, sem guerras, é o mesmo de Gandhi. O "Ahimsa" do Mahatma foi a base da militância dele, Lennon, também.

      E vamos nessa, fazendo a nossa parte para transformar este planeta !

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    1. Fantástico apoio e elogio, amigo Michel Custódio !

      Muito grato por ler e participar com comentário !

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  6. Que matéria linda,amigo!
    BRAVO!!!!!
    Saudade dessa época de paz e amor!
    Bjus
    http://www.elianedelacerda.com

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    1. Mas que legal que gostou !!

      O desafio é fazer desses ideais do casal John & Yoko , o padrão de normalidade para este planeta. Esse é o ideal de Nutopia !

      Beijo e obrigado pela visita e manifestação sempre positiva, amiga Elyane !

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  7. Sensacional!! Conteúdo extremamente pertinente! Seu texto contribui para fortalecer esses ideais maravilhosos que foram sustentados por esse grande ícone da música, da arte, do amor e da paz.
    Parabéns Luiz! E muito obrigada por nos presentear com essa obra linda! Grande beijo, querido.

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    1. Vanessa :

      Muito legal que tenha curtido. Particularmente, tenho um apreço muito grande pelas ações do casal Lennon & Yoko, pelas sua militância positiva em torno da igualdade, fraternidade e sobretudo a paz.

      Em tempos anti-Hippies, que negam tais ideais e justamente fomenta ideias antagônicas de truculência; ódio e desunião, relembrar tais passagens do casal, principalmente perpetradas entre o final da década de sessenta e início da de setenta.

      Grato por ler, comentar e entusiasmar-se pela causa !!

      Beijo, amiga !!

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  8. Bem legal sua reportagem! Eu vi uma entrevista da Yoko comentando que em todos os shows havia gente da CIA e o FBI. Pra nós brasileiros, falar em Nutopia, daria para pensar em "false friends", como é chamado no inglês, ou seja, pares de palavras que apresentam sentidos totalmente diferentes.

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    1. Muito legal que tenha curtido, amiga Lourdes !

      A perseguição da CIA e do FBI sobre o casal foi implacável, como questão de honra para Nixon. Está na pauta comentar tais ações, que inclusive são objeto de um documentário chamado : "Lennon X Nixon", famoso na grade de canais a cabo, tipo History; Discovery e similares.

      No caso da confusão com o neologismo que citou, nunca havia pensado nisso, tampouco lido a respeito. Portanto, ótimo adendo de sua parte.

      Grato pela participação sempre bem vinda !!

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  9. Muito interessante essa reportagem Luiz! Que bom seria se esse mundo na qual Lennon, queria transformar, fosse real. Vivermos em uma piramides de hierarquia, que sempre o mais alto , nesse caso a CIA e o FBI, para não deixar acontecer! Vou entrar no site e viver virtualmente um pouco dessa liberdade e igualdade. Quem sabe, um dia possa ser realizado esse sonho né???
    Obrigada por compartilhar.
    Abraço!

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    1. Mas que bacana que apreciou, amiga Bete !

      O sonho de um mundo sem guerra; miséria e egoísmo, é um ideal que todos devemos seguir com orgulho, pois representa uma passo além para a humanidade carcomida de mesquinharias.

      Visite sim o Site de Nutopia, pois vale a pena se engajar nesse sonho.

      Grato por participar !!

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  10. Emocionante seu texto Luiz, como é bom imaginar uma sociedade praticando um pouco dessa ideologia, saindo do "umbiguismo"!! Obrigada por reavivar esse sonho dentro de nós!

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    1. Muito legal que tenha gostado, amiga Jani !!

      O sonho não pode acabar, como muitos opositores tanto se esforçaram para destrui-lo...

      Abração !

      Peace & Love !!

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  11. Excelente leitura, eu como sempre aprendendo mais sobre a história do rock e boa musica com seus textos, abraço e obrigado!☮ ✌

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    1. Mas que maravilha trazer sua consideração aqui, amigo Kim !

      Seu elogio tem um peso extraordinário a incentivar-me mais e mais.

      Peace and Love !!

      Viva Nutopia !!

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