sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Ginga e a Coragem de Miriam Makeba - Por Luiz Domingues

          
Quando falamos da influência da raiz africana na música criada nas três Américas, a grosso modo é fácil estabelecer um conceito generalizado.


Na América do Sul, o Brasil absorveu a cultura afro, principalmente na formação do seu Samba; na América Central, pulverizou-se em vários países, criando o acento caribenho em diferentes ritmos; e nos Estados Unidos, gerou os dois grandes troncos que tornaram-se árvores frondosas, e com muitos galhos : Jazz & Blues.


Mas o movimento inverso também causou impacto no continente africano.

Se a sua influência fora brutal na construção de tantas escolas musicais diferentes, séculos depois, a música pop das Américas e da Europa, voltaram tal qual um boomerang, e redefiniram o rumo da música pop africana moderna, numa retroalimentação muito interessante.


Muitos artistas africanos foram reverenciados na música comercial pop ocidental, e seu som era bem isso que descrevi superficialmente acima, ou seja, uma mistura das tradições folclóricas locais; suas raízes ricas em sonoridades muito coloridas; alegres, e de divisões rítmicas muito sofisticadas, com a música pop ocidental e mega comercializada, que por sua vez, tinha em suas raízes mais profundas, a mesma fonte africana.


Em meio à esse boom da música africana, alguns artistas, oriundos  de nacionalidades diferentes, desse grande continente, tiveram  oportunidades no show business internacional.


Foi o caso de Miriam Makeba, uma sulafricana.

Cantora de enorme graça e ginga, Miriam teve projeção internacional, mas não só por conta de sua obra e performance como cantora.


O fato, é que Miriam tinha muita consciência sócio política, e sendo negra, numa África do Sul sob regime político racista, tornou-se uma voz contra o execrável regime do Apartheid.

Tentando a vida artística na América e /ou Europa, Miriam, participou  em 1960, de um documentário denominado “Come  Back , Africa”, cuja exibição no famoso  Festival de Cinema de Veneza, chamou a atenção do mundo para o racismo na África do Sul, mas criou-lhe um problemão pessoal, pois seu país caçou-lhe o passaporte, e mais que isso, a cidadania, tornando-a apátrida.

Perambulando por Londres, tornou-se amiga do ator/cantor americano, Harry Belafonte, com o qual estabeleceu parceria.


Sendo também um ativista anti-racista, e um incansável batalhador pelos direitos civis iguais para os negros na América, Belafonte ganhou a companhia de Makeba no ativismo, e a ajudou a construir uma carreira pop internacional, participando de vários lançamentos de discos; singles; e LP’s da cantora africana.

Entre tantas canções, Miriam lançou “Pata Pata”, em 1966, que tornou-se febre mundial, entrando nos charts, numa época em que The Beatles; Rolling Stones; Bob Dylan, e diversos artistas da Black Music, o compunham normalmente.


Mas como o ativismo era forte para ela, não se deitou no berço esplêndido do sucesso pop imediato, e continuou agindo e incomodando muita gente, certamente.


Para agravar a animosidade das forças contrárias às suas ideias libertárias, casou-se em 1968 com um ativista que era monitorado pela CIA / FBI, Pentágono etc etc.

Tratava-se de Stokely Carmichael, simplesmente o líder dos Panteras Negras, uma partido revolucionário, apócrifo, e não reconhecido pelo governo americano, por trazer ideias explosivas à mentalidade americana, em seu espectro político, como o socialismo, por exemplo e claro, seu carro chefe era a luta pelos direitos civis dos negros.


Stokely Carmichael foi o criador da expressão “Black Power”, que extrapolou o statement político, marcando época, não só na
América, mas espalhando-se pelo mundo todo.

Em 1968, Miriam veio ao Brasil, e surfou forte na onda de seu sucesso, “Pata, Pata”.


Já na chegada ao Rio, foi recebida no aeroporto pela bateria da Escola de Samba Mangueira, caindo nos braços do povo.


Visitou todos os programas de TV possíveis e imagináveis da TV no Rio e São Paulo, causando furor com seu mega sucesso.

“Pata, Pata” tinha um swing ocidentalizado que muito se assemelhava ao R’n’B, e a percussão lhe dava um certo ar caribenho, muito dançante.


Numa época em que a Black Music americana estava se popularizando fortemente aqui no Brasil, e Wilson Simonal comandava a onda da “pilantragem” na MPB, a canção de Makeba caiu no gosto popular, instantaneamente.


Claro, brincalhão como sempre, o povo brasileiro tratou de aprontar uma avacalhação com a letra da canção.

Cantada por Makeba num dialeto africano (Xhosa), provocou uma paródia em português que ficou tão famosa quanto a versão original, pela similaridade fonética e claro, pelo caráter galhofeiro que tanta agrada os esculhambadores brasucas...


Onde ela cantava :


“Sata wuguga sat ju benga, sat si pata pata”


O povo se acostumou a cantar :


“Tá com pulga na cueca, vem cá que eu mato”


Pilhéria à parte, Miriam encantou os brasileiros, onde me incluo, vendo-a na TV, na época, 1968.

Sua carreira foi bastante prejudicada depois disso, pelos momentos tensos perpetrados pelos Panteras Negros, cuja ligação dela era total, por conta do marido.


Tiveram que deixar a América inclusive, estabelecendo residência na Guiné.


Em 1973, ela separou-se de Carmichael, mas continuou sendo vigiada e cerceada em muitos aspectos pelas convicções  sociopolíticas.

No ano de 1975, participou ativamente do movimento de libertação de Moçambique, inclusive contribuindo com sua música, “A Luta Continua”, que serviu de slogan para a luta pela libertação do domínio de Portugal.


Nos anos 80, ficou mais afastada da vida artística e teve um momento muito difícil, onde perdeu uma filha, mudando-se para a Bélgica.


Quando Paul Simon lançou o LP Graceland, todo ambientado na sonoridade da música sulafricana, Makeba embarcou nessa onda, e chegou a participar da turnê de divulgação do álbum, como artista convidada de Simon.
Quando o apartheid finalmente encerrou-se na África do Sul, e Nelson Mandela se tornou o presidente daquela nação, Makeba pode enfim retornar à sua pátria, com o restabelecimento de sua nacionalidade.


Momento bonito, Mandela em pessoa a recepcionou no aeroporto, mostrando que a luta havia valido a pena para a artista e ativista.


Seus últimos anos foram tranquilos em solo pátrio, mantendo uma carreira artística local, até falecer em 2008.

Ela não teve apenas “Pata Pata” como sucesso, mas essa canção em questão, a marcou indelevelmente e proporcionou muitas regravações, algumas bacanas inclusive, caso do Osibisa, uma banda de Rock genuinamente africana, mas que era muito respeitada por rockers europeus e americanos, e de fato, era muito boa.


Makeba teve uma morte dramática, mas muito emblemática para qualquer artista, ou seja, morreu no palco, numa apresentação que fazia em Castel Volturno, na Itália, vítima de um ataque cardíaco quando estava cantando.

Não foi exatamente ali durante o concerto que realizava, mas algumas horas depois no hospital, mas pode-se dizer que morreu fazendo o que mais gostava.
Essa foi Miriam Makeba, uma artista pop africana sensacional; ativista; mulher corajosa, e de muito valor.
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2015

Nenhum comentário:

Postar um comentário