terça-feira, 24 de novembro de 2015

Som Livre Exportação - Por Luiz Domingues



Quando a Rede Globo começou a despontar como líder de audiência, aproveitando-se dos primeiros sinais de decadência da Record, e com a estagnação da Tupi (apesar do seu  retumbante sucesso recente, como havia obtido com a telenovela revolucionária, Beto Rockfeller), foi sem dúvida com a crescente ascensão de seu núcleo de dramaturgia, que isso se deu.


Claro que devemos considerar os fatores extra-operacionais que levaram a Globo à liderança (ditadura, Time Life, incêndios estranhos nas emissoras concorrentes...), mas pensando só no fator artístico, foi com as novelas que a Globo começou a sobressair-se, e dentro desse conceito, o filão das trilhas sonoras exclusivas para tal veículo, lhe despertou a atenção.


Já citei Beto Rockfeller anteriormente, mas cabe relembrar que o fato dessa telenovela da Tupi, ter usado o conceito da trilha sonora exclusiva, com músicas escolhidas a dedo para a trilha sonora, e com a repetição de certas canções para marcar personagens, só reforçou isso para a Globo.
Com essa ideia na cabeça, em 1969, a Globo lançou sua gravadora própria, chamada “Som Livre”, com o intuito inicial de lançar discos com a trilha de suas novelas.


Esse passou a ser um filão e tanto no mercado fonográfico, certamente.


No ano de 1970, a Som Livre já estava consolidada no mercado fonográfico com o lançamento de seus discos de trilhas de novelas, mas expandia-se, e assim, passou a contratar artistas de carreira, também.


Em 1971, num movimento contrário, usou então a TV para se autopromover, indo no caminho inverso do qual fora concebida, com a criação de um programa chamado “Som Livre Exportação”.  
A ideia era fugir do formato antigo dos festivais, que pareciam estar esgotados (embora a própria Globo ainda insistisse com o FIC, seu festival, até 1972 e em 1975, arriscou-se no “Abertura”), e dessa forma, o “Som Livre Exportação” se colocava como uma mostra de vários artistas, sem a caretice da competição.


Outro ponto interessante, era o de ser eclético ao extremo.
Sem fechar com um ou outro estilo musical, pelo contrário, o “Som Livre Exportação” reunia artistas aparentemente díspares entre si, num caldeirão multifacetado, onde o Rock; a MPB, e a Soul Music “brasuca”, muito em alta naquele instante, fossem representados, sem nenhum conflito entre si.
A vinheta de abertura do programa Som Livre Exportação

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=nOC_QAF9iqQ

O programa durou entre novembro de 1970, e agosto de 1971.


Outra ideia sensacional foi também a de realizá-lo ao vivo, e de maneira itinerante, dando-lhe uma aura de “tour”, o que gerou uma grande expectativa do público, sem dúvida.
Segundo consta na divulgação oficial da Globo, havia uma segunda intenção da gravadora / emissora, em vender o pacote para o exterior, levando o seu cast aonde fosse possível, mas no frigir dos ovos, esse ambicioso plano acabou não ocorrendo, com a produção ficando restrita ao cenário brasileiro, apenas.


Independente disso, foi um estouro, com lotação esgotada, por onde passou, e audiência maciça na transmissão da TV.
A primeira edição ao vivo, ocorreu em São Paulo, no Palácio de Exposições do Anhembi, em março de 1971.


Os registros oficiais marcaram 100 mil pessoas presentes no evento.

Sei que o pavilhão de exposições comporta uma multidão de porte de estádio, mas apesar de realmente ter lotado, creio o número “100 mil” é um pouco além da realidade, superestimado, portanto.


Contudo, certamente que foi um número alto, gerando euforia para os produtores.
A seguir, foi realizado no campo do “Canto do Rio”, em Niterói; e no mesmo mês, em Brasília, aproveitando a ocasião em que a Globo inaugurava a Globo Brasília.


Voltando a São Paulo, novas edições ao vivo ocorreram no Clube Sírio-Libanês, e outra no Tuca, o Teatro da Universidade Católica, PUC.
Numa viagem à Minas, visitou Ouro Preto, e Belo Horizonte.

Elis Regina e Ivan Lins o apresentavam, e claro que participavam ativamente cantando e tocando, também.
Elis Regina e Ivan Lins lançam "Madalena" no Som Livre Exportação

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=rFl07aE-UTI

Foi ali, inclusive, onde o hit “Madalena”, de Ivan, e interpretado pela Elis, estourou, potencializado também pelo fato de estar na trilha sonora de uma novela da época (“A Próxima Atração”), portanto fazendo valer o propósito inicial da Som Livre, em divulgar seus discos de novelas.


Além de Elis e Ivan, se apresentaram também no “Som Livre Exportação”: Gonzaguinha; Aldir Blanc; Chico Buarque de Hollanda; Clementina de Jesus; Tim Maia; Toquinho & Vinicius; Tony Tornado, Brasucas e na ala Rocker, A Bolha; O Terço e Os Mutantes.
A concepção de enquadramentos era mais ampla do que a usual na TV da época, certamente bebendo da fonte dos documentários de Rock, pois explorava closes dos artistas em expressões faciais mais detalhadas, e da performance dos instrumentistas, mesclando-se com a expressão das pessoas da audiência, mostrando reações espontâneas.
Mutantes executam "Ando Meio Desligado" no Som Livre Exportação

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=xJgj9zgJZA8

Claro, como veículo de propaganda da gravadora, muitos discos foram lançados com tal mote e o que dizer de um grupo de artistas desse quilate e suas canções antológicas registradas em coletâneas dessa qualidade. Hoje em dia, esses LP's valem ouro nos sebos e/ou sites de colecionadores de vinis. 
Ficou na grade da Globo, às quintas, às 20:30 h e não dá para não deixar de comparar que se entre 1970 e 1971, nesse horário, o cidadão comum ligava a TV de sua sala de estar e dava de cara com música dessa qualidade, o panorama da atualidade na mesma emissora é bem outro, infelizmente...
A Bolha executa "Mater Matéria" no Som Livre Exportação

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=KfgaZvp6SRA

Tenho uma boa lembrança pessoal dessa atração, da qual assisti todas as suas edições, e nessa ocasião, com 10 para 11 anos de idade, já estava bastante interessado em música, e portanto, curti muito.
A última edição do programa foi um especial enfocando a velha guarda da MPB, com Ciro Monteiro; Mário Lago; Cartola, e membros da Escola de Samba Mangueira.


O motivo de seu cancelamento, nunca foi explicado convincentemente.
Elis Regina interpreta "Black is Beautiful" no Som Livre Exportação

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=QVaXJAqwkyI

Se dava audiência; promovia a gravadora; intensificava a divulgação dos discos, e das trilhas das novelas; além de ser um estouro quando das versões ao vivo, realmente acreditar que a frustração em não ter emplacado tal pacote para o exterior, não parece plausível.
 
É muito mais provável que a ditadura deva ter “sugerido” à emissora que não continuasse, mesmo porque, Ivan Lins era persona non grata para o sistema; isso sem contar Chico Buarque, pior ainda, e o fato de Caetano Veloso ter participado de uma edição, numa rara vez em que veio ao Brasil, em 1971, no período em que estava oficialmente exilado em Londres.


De qualquer forma, embora tenha tido curta duração, a atração foi bastante salutar para a música brasileira daquele momento, levando muita qualidade sonora para a tela.
O jornalista Nelson Motta era o mentor da ideia, mas havia também outras pessoas de qualidade nessa história, como Augusto Cesar Vanucci; Eduardo Ataíde; Carlos Alberto Loffler; Walter Lacet, e Solano Ribeiro, este, um dos cabeças dos históricos festivais da Record nos anos sessenta.


Inacreditável que não tenhamos mais música dessa qualidade na TV, e não é admissível achar que a safra atual não seja boa, se levarmos em conta que no limbo do underground o que não falta é artista de extrema qualidade artística, só lhes faltando espaço para mostrarem-se ao grande público, coisa que a mídia atual não deixa.
Tem muita gente ótima por aí, mas escondida, e à margem do que os marketeiros da atualidade “acham” que vale a pena investir.


Uma pena mesmo que hoje se ligue na Globo às 20:30 h das quintas, e não vejamos Elis Regina apresentando aqueles artistas todos, mandando um som violento, mas ao contrário, damos de cara com as novelas, que ainda não encerraram sua ode às favelas...
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2015

2 comentários:

  1. Muito bom! Gostei muito do seu blog e vou conhece-lo mais. Parabéns!

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    1. Oi, Monaliza !

      Que gratificante receber a sua visita, e tomar conhecimento de que apreciou esta matéria em específico, e o Blog em geral.

      Esteja convidada a visitar meu Blog sempre que quiser, é um enorme prazer para a minha pessoa.

      No arquivo do Blog, existem inúmeras outras matérias com enfoque semelhante, abordando a cultura pop e a contracultura das décadas de sessenta e setenta, que acredito, sejam de seu interesse.

      Muito grato por ler, comentar e elogiar !

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