terça-feira, 2 de outubro de 2018

CD Pauliceia & Madrugada & Blues / Blindog - Por Luiz Domingues


Este não é um trabalho recém lançado, mas pelo contrário, já caminha para completar dez anos de existência. Entretanto, tenho como um princípio em minha conduta pessoal e visão de vida, jamais misturar o conceito da música (e arte em geral), com a questão cronológica, portanto, pouca importa-me se uma obra possui um minuto ou um milhão de anos de vida, pois verdadeiramente o que levo em conta é se possui qualidade artística e emociona-me. Portanto, este é o caso desse segundo álbum da banda Blindog, oriunda da cidade de Osasco-SP e que denomina-se: Pauliceia & Madrugada & Blues, lançado em 2009, sob uma produção independente.
Para falar do trabalho do Blindog e deste álbum em específico, é preciso mencionar a figura do seu guitarrista e fundador, Jessé “Blindog” Carvalho cuja persona confunde-se com a própria banda, tamanha é a sua magnitude dentro do processo de construção da banda e da obra, em si. 

Experiente como músico, dotado de uma condição técnica e criativa muito acima da média, Jessé vai além desses atributos pessoais, mas encarna também a figura do Rocker & Bluesman à moda antiga, quando o Rock tinha um significado maior e não tratava-se simplesmente de um gênero musical, mas possuía significado múltiplo, ou seja, Jessé veio de uma estirpe que sabia que não tratara-se de um mero sonho, mas a envolver algo muito maior.
Na sua trajetória em específico, arrola-se passagem por bandas como Blue Star; Atalho Tao e o Bluedog, e esta última, com parceria com o guitarrista, Edu Gomes, que motivou a formação da banda famosa no circuito do Blues: “Irmandade do Blues”. Daí em diante, Jessé montou o seu Blindog. 

Tal banda teve várias formações e lançara anteriormente o CD “Sampa Midnight”. Neste álbum de 2009, “Pauliceia & Madrugada & Blues”, o Blindog investiu forte no Blues-Rock como o seu norte, mas com muitas variantes interessantes em termos de influências, além de apresentar muita qualidade técnica em sua criação, com arranjos sofisticados e excelente performance individual de cada componente.
Na temática poética deste trabalho, houve espaço para se expressar a observação do cotidiano urbano da época em que foi lançado, 2009, e que nesse aspecto, quando citou-se a violência urbana, infelizmente não difere da realidade que vivemos nos dias atuais de 2018, quase dez anos depois em termos de crônica do cotidiano brasileiro. Talvez como uma novidade ruim para o atual momento, seja a constatação que além de estar pior a sensação de insegurança generalizada, tais fatos a produzir uma neurose coletiva não restringem-se mais às grandes cidades, tão somente, mas que esteja espalhada também pelas pequenas localidades interioranas, a delinear um retrocesso social, portanto. 

Mesmo com essa carga na sua poesia, o trabalho não mostra-se panfletário e houve espaço também para outras abordagens, tais como a relação homem-mulher e a clássica relação do Rock e do Blues tradicional com motivações automotivas, versadas pela paixão mútua entre a eletricidade desse tipo de música e os motores envenenados de motos & carros possantes e a sua contumaz atração pela estrada. 
No tocante à capa e encarte, a formação da banda nessa ocasião, posa com a urbanidade noturna como seu cenário. Concepção simples, porém bela e direta a exprimir a proposta da banda, gostei bastante do mote e da sua resolução enquanto Lay-Out. 

Na contracapa, a simpática figura de um cão, que a despeito da sugestão dele ser cego, mostrou-se coerente com o próprio nome da banda, naturalmente. O encarte, é sóbrio, com as fotos individuais dos componentes dessa formação, todas as letras (medida salutar, sem dúvida) e uma boa ficha técnica, bem escrita e detalhada. Sobre as músicas, tenho mais a observar:
“Boogie 66”
Essa música já começa com um riff ao estilo Acid Rock sessentista, forte. Lembrou-me Jimi Hendrix, certamente e também dos álbuns do Buddy Miles no início dos anos setenta. Gostei muito do refrão construído sob contratempos, com muita criatividade.
Veja abaixo um promo da canção: “Boogie 66”

Eis acima o link para escutar no You Tube.

“Motoboy”
Munida de um outro riff bem elaborado, esta canção traz também um refrão permeado por convenções complexas, muito bem tocadas. Gostei do solo duplo do Jessé. Veja abaixo o promo da música: “Motoboy”

Eis acima o link para assistir no You Tube.

“Paulicéia & Madrugada & Blues”
Blues-Rock com roupagem moderna, lembrou-me o trabalho do Aerosmith, principalmente em seus discos dos anos noventa. Gostei muito dos vocais dobrados e bem desenhados na melodia central e refrão, assim como da parte harmônica da canção. É ótimo o solo e mais uma vez, há um arranjo pleno em convenções bem concatenadas. Veja abaixo o promo da canção “Pauliceia & Madrugada & Blues:
https://www.youtube.com/watch?v=4byOwn9G-Ts
Eis acima o link para ver no You Tube.

“Dinossauro Numa Banda de Rock’n Roll”
Trata-se de um Rock acelerado, sustentado por uma base muito criativa. Gostei muito do riff e das convenções, assim como do solo em dueto e a intervenção da gaita. E como não poderia deixar de ser, nesta letra, de uma forma bem humorada, fala-se sobre a utopia hippie, o pé na estrada beatnick e como tais valores esvaneceram-se, supostamente, pois na realidade, basta mencioná-los e tudo faz sentido, novamente, sob o efeito mágico da música que perpetua-os. É o que insinua um trecho da letra, inclusive: 

“Tudo de bom que a cigana falou / Veio o destino sacana e sabotou / Para o ferido guerreiro errante / O vento só mordeu, nunca soprou”

Veja abaixo o promo da canção: “Dinossauro Numa 
Banda de Rock’n Roll”:
https://www.youtube.com/watch?v=c3KAYv5gzjk
Eis acima o link para assistir no You Tube.

“Telejornal”
Gostei muito desse Blues-Rock com a melodia e harmonia montada sobre pausas intercaladas. E a sua letra investe fundo no que vemos nos programas policialescos da TV e o seu indefectível mundo cão sem fim. Veja abaixo um promo para assistir a canção “Telejornal”:

Eis acima, o link para assistir no You Tube 

“Blue Jeans Blues” (Storm Monday)
Esta faixa trata-se de uma vinheta instrumental. Uma bonita construção de guitarra, sob efeitos.

“Mais Pro Blues que para o Rock”
Eis uma balada mantida por uma criativa sobreposição de bases de guitarra, muito bem idealizada enquanto arranjo. A parte “B” traz uma quebrada rítmica muito interessante e uma parte “C” com vozes sobrepostas, muito bonitas. O solo é magnífico, com muita ardência, provavelmente oriunda de uma guitarra Fender Stratocaster e pelo estilo, lembrou-me bastante o trabalho do guitarrista do Queen, Brian May.
Veja abaixo o promo da canção “Mais pro Blues do para o Rock”

Eis acima o link para assistir no You Tube.

“Rock Réquiem”
Trata-se em linhas gerais de um Hard-Rock dotado de um riff forte. Apreciei a melodia desenhada em duo e o belo solo. Veja abaixo um promo da canção: “Rock Réquiem”

Eis acima, o link para assistir no You Tube.
“Rock Réquiem” 

"Quando um Velho Cão Cego Chora"
Eis um Blues forte, com emoção recôndita em suas entranhas. Gostei bastante do refrão e da parte harmônica a apresentar nuances fora da tradição harmônica do gênero. E dos solos, excelentes, sem dúvida. A melancolia expressa na letra, tem poesia, e mesmo que seja um lamento, mostra o sentido da beleza.

“Lamento mudo de um perdedor / sem passado, sem futuro, sem sorte / sua sina, definitiva como morte”

Assista abaixo um promo da canção : “Quando um Velho Cão Cego Chora”:

Eis acima o link para ver no You Tube.

“Alucinado”

Esse Blues-Rock tem um balanço que pende facilmente para o Funk-Rock setentista, em muitos momentos. Impossível não empolgar-se com o seu swing e a letra é divertida ao tratar da questão de paixão de um homem por uma mulher. Veja abaixo o promo da canção “Alucinado”

Eis acima o link para ver no You Tube.

“Anjos da Esquina”
Outra balada e desta feita pesada, com um direcionamento ao Hard-Rock setentista, com a grandiloquência do estilo “AOR”. Contém uma boa base, além de uma intervenção da gaita e um solo empolgante. Assista abaixo um clip produzido para a canção: “Anjos da Esquina“

Eis acima, o link para ver no You Tube

"O Sonho Ainda Não Acabou"

Sob um bom riff ao estilo do Hard Rock, bem anos setenta, tem também como a faixa anterior, aquela grandiosidade ao estilo AOR, e um ótimo solo montado sob estilo Rock'n' Roll tradicional. Creio que o título da canção diz tudo sobre a sua intenção, ou seja, de fato, enquanto houver a menção ao Rock, não há como acabar a esperança por dias melhores. 

Letra escrita para um disco lançado em 2009, certamente a expressar um sentimento de alguém que sonhara em 1969, em meio à euforia Woodstockeana por construir-se um mundo melhor, e agora repercutida nesta resenha quase a chegar em 2019, ou seja, a vibração não muda, o sonho nunca acaba. Assista abaixo um promo para a canção: O Sonho Ainda não Acabou”

Eis acima o link para assistir no You Tube.
Gravado sob supervisão de André Fontanetti e Jessé “Blindog” Carvalho
Mixado por Bruno Fiacadori e Jéssé “Blindog Carvalho
Masterização: Engenheira Florencia Saravia
Produção gráfica: Caio Carlucci  
Ilustrações: Marco Angeli e André Bertazzi
Fotos: Fábio Ghrum

Formação do Blindog para esse trabalho:
Jessé “Blindog” Carvalho: Guitarra e Voz
Bruno Santanna: Voz; Gaita e Percussão
Arnaldo Ramos: Bateria
Daniel Ribeiro: Baixo e Voz

Músicos convidados:
André Carlini: Gaita
Robson Fernandes: Gaita

Para conhecer melhor o trabalho da banda, visite o seu canal do You Tube:


https://www.youtube.com/channel/UCS2kSrIrDV4NbVCpzGLtdww

Eis um trabalho que eu recomendo, sem dúvida, pela sua qualidade artística.

5 comentários:

  1. Gratidão e agradecimentos pela bela e generosa RESENHA, caro brother LUIZ DOMINGUES! Antes de tudo, pra banda BLINDOG, é um baita incentivo, mostrando que vale a pena todos os esforços, que sabemos que não são poucos, para que uma banda do underground do rock e do blues persista na espinhosa trilha do reconhecimento. Nesse momento, estamos trabalhando na pré-produção do novo disco da banda e, acabamos de receber uma injeção de ânimo! Valeu muito, caro Luiz Domingues! Juntos!!!

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    1. Da banda BLINDOG e, em particular, do amigo Jessé Blindog!!!

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    2. Fantástico receber o primeiro comentário, justamente do próprio artista cuja obra foi resenhada. É o que eu sempre digo : quando a obra é boa, o trabalho do resenhista é muito facilitado. Parabéns pelo álbum, amigo Jessé e fico feliz por saber que esteja empenhado em produzir mais um com inéditas, para breve. E sobre as dificuldades que o artista brasileiro sofre, nem precisa dizer, sou um remador no mesmo barco e sei o quanto é duro lidar com essa situação. Sigamos em frente com as nossas forças, então !

      Grande abraço !

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  2. Quando o piloto deste blog recomenda... é porque ê coisa fina

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    1. Poxa, fiquei lisonjeado pelas suas palavras, muito obrigado ! E sobre o álbum e a banda enfocados, pode escutar que é muito bom.

      Visite sempre o Blog, fiquei feliz coma sua presença, aqui.

      Abração, Clessio !

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