Após o
lançamento do filme, “Rock All Night”, Roger Corman praticamente mergulhou de
imediato em seu projeto subsequente em para retratar o universo jovem e
ambientado na euforia causada pelo Rock’n’ Roll, a usar dos mesmo expedientes
de produção do filme anterior, desta feita a produzir o filme: “Carnival Rock”.
Nessas condições, ele novamente usou um mini conto televisivo, exibido como
teleteatro como base e no caso, a tratar-se de: “Carnival at Midnight”, escrito
por Leo Lieberman. Veladamente, tal história também teve a influência do
libreto da Ópera, “Pagliacci”, escrita pelo compositor erudito italiano, Rugero
Leoncavallo, ao final do século XIX.
Corman usou
a mesma fórmula, portanto, com a qual produzira e dirigira, “Rock All Night”,
seu Rock Movie anterior, visto que comprara os direitos de um mini conto
televisivo, e assim adaptou-o para uma outra realidade, levemente e tratou por
introduzir o elemento Rock’n’ Roll, sutilmente para fornecer-lhe o substrato
musical mínimo necessário para atrair o público jovem e aproveitar a euforia
que tal gênero estava a gerar na sociedade norte-americana desse período, pós
segunda metade da década de cinquenta. Além do mais, Corman filmou a toque de
caixa, com baixa verba de produção, utilizou muitos atores com os quais havia
trabalhado em “Rock All Night”; sob fotografia em preto e branco e direção de
arte simples, quase a revelar um despojamento, no entanto, é nítida a falta de
recursos a gerar o caráter prático dessa produção, sob improvisações
inevitáveis. Bem, como já expliquei ao longo da resenha de “Rock All Night”,
Corman era um especialista em filmar sob tal penúria material, portanto o que
para outros diretores seria um bom motivo para sentir-se envergonhado e tolhido
em termos de possibilidades, em seu caso, foi simplesmente mais uma oportunidade
em atuar conforme o seu modus operandi para trabalhar normalmente. Portanto, o
filme assim foi concebido ipsis litteris conforme o anterior, a mudar-se a
história, naturalmente, mas mediante a estrutura de roteiro e produção tão
semelhante que parece ser um segundo ato do filme anterior.
Qual é o
mote, neste caso? Bem, em “Carnival Rock”, há uma boite que promove shows
musicais e notadamente com a presença de artistas ligados direta ou
indiretamente ao Rock’n’ Roll. Há uma ambientação externa a sugerir que tal
casa de espetáculos faz parte de um parque de diversões, com as personagens a
caminhar por tal local, em algumas cenas e isso justifica um pouco a influência
da Ópera, “Pagliacci”, como ao longo da resenha ficará mais clara ainda.
Então, eis
que há uma cantora, Natalie (interpretada por Susan Cabot), que costuma
apresentar-se ali no clube musical. Ela é apaixonada por Stanley (interpretado
por Brian Hutton), que não tem um bom caráter, infelizmente, mas a moça, mostra-se
cega por amor, e não percebe tal traço nocivo da personalidade do rapaz. Na
contrapartida, há um outro homem, um pouco mais velho e que ama Natalie, na
figura de Christopher “Christy” Cristakos (interpretado por David J. Stewart). Esse
homem é o proprietário do estabelecimento e que fora namorado de Natalie,
anteriormente e por conta desses fatores citados, não conforma-se em tê-la
perdido para um rival e pior, a tratar-se de um canalha contumaz, daí o seu
desespero ser amplificado.
Por azar
absoluto e a denotar uma fraqueza pessoal de Christy, eis que ele perde a sua
boite para o seu rival, mediante um fortuito jogo de cartas, ou seja, a
desgraça total para gerar o conflito emocional do filme.
Em uma tentativa
desesperada, Christy passa a adotar uma tática completamente aleatória para
reconquistar a sua ex-namorada, ao vestir-se e maquiar-se como um palhaço para
atuar ao vivo com tal número humorístico, entretanto, a moça não sensibiliza-se
com tal ação, é lógico. Está aí justificada a influência da Ópera, “Pagliacci”,
portanto a retratar o palhaço como um personagem triste que sente-se inferiorizado
por não reunir condições para conquistar a garota que ama.
O filme avança
em meio a tal conflito base e entre frustrações, socos e números musicais, eis
que há um clímax. Isso ocorre com o palhaço, “Christy”, a tomar a medida
extrema em colocar fogo na casa, literalmente, e assim provocar a morte da sua
amada e de si próprio, como uma ação desesperada a visar encerrar o seu
sofrimento. Ao final, a personagem, Ben (interpretado por Dick Miller), que é
uma espécie de gerente da boite, consegue salvar Natalie e o pesadelo
encerra-se parcialmente, pois o palhaço sucumbe ao seu próprio martírio. Uma
história triste, portanto, e nada original em tese, por ter havido uma
inspiração praticamente explícita no libreto de uma Ópera razoavelmente famosa,
e além do mais, tal mote é um clichê da literatura, certamente, com centenas de
histórias a conter tragédias a envolver triângulos amorosos. Independente desse
fator repetitivo, há por enaltecer-se a parte musical e que mais uma vez contou
com o espetacular grupo vocal “R’n’B”, “The Platters”, em atuação impecável. Participam
também, David Houston; “The Blockbusters” (que defende o tema título do filme, “Carnival
Rock”); Bob Luman and The Shadows e também um número solo do grupo, The
Shadows. A atriz, Susan Cabot, canta a defender a sua personagem, Natalie. Não
há registro que seja a sua voz real, no entanto, pois salvo engano de minha parte,
essa atriz não era cantora, portanto, tudo leva a crer que a sua voz tenha sido
dublada por uma cantora de ofício, não creditada na ficha técnica do filme.
Sobre o
grupo, “The Shadows”, é preciso esclarecer que não trata-se do grupo
instrumental britânico, famoso por ser banda de apoio do cantor e astro
britânico, Cliff Richard. O “The Shadows”, britânico, foi em tese muito mais
famoso, certamente, mediante a construção de uma carreira longa e recheada por
grandes êxitos, pois além de ter sido a banda de Cliff Richard por muitos anos,
manteve a sua discografia exclusiva e muito celebrada pelos fãs do Rock
Instrumental, influenciado pela corrente da Surf Music cinquenta/sessentista.
No caso deste, “The Shadows” norte-americano que aparece neste filme, trata-se
portanto de um homônimo bem menos famoso, no entanto, a revelar-se uma ótima
banda. No filme, em meio aos números em que atua a fornecer suporte instrumental para o
cantor, Bob Luman (este por sinal, a tratar-se de um artista centrado no estilo
Rockabilly e fortemente influenciado pela Country Music, por extensão e que
teve uma longa carreira vitoriosa, até deixar-nos ao final dos anos setenta),; e
também quando executa um tema instrumental, “The Creep”, a banda impressiona pela
sua qualidade e é espetacular verificar que o seu guitarrista era ninguém menos
do que James Burton. Talvez ainda não devidamente famoso em 1957, o fato é que
Burton tornou-se nos anos posteriores um dos melhores guitarristas
norte-americanos da corrente do Country Rock, a revelar-se um mestre do estilo.
Extremamente técnico e com uma postura de palco muito chamativa, Burton
tornar-se-ia guitarrista da banda de Elvis Presley na fase sessenta/setentista,
do Rei do Rock.
Portanto, quando mais maduro, por volta de 1969, Burton ganhou
enfim uma maior proeminência popular, visto que a super exposição advinda em
tocar com Elvis Presley dali em diante, tornou-o enfim mais conhecido do grande
público. Em suma, que prazer assistir o grande guitarrista, James Burton em
1957, bem jovem e a tocar de uma maneira exuberante a sua guitarra Fender
Telecaster, a sua marca registrada, e bem típica de quem era influenciado pela
Country Music.
Então, em
suma, “Carnival Rock” é isso, um filme montado em torno de um roteiro bem
simples, com produção modestíssima e a conter artistas reais da música,
sensacionais, portanto a despeito da sua precariedade em termos de produção,
nos dias atuais tornou-se um documento valioso para preservarmos a história do
Rock, principalmente em termos cinquentistas, na plena euforia gerada em meio
aos seus primórdios.
Conforme eu já havia comentado na resenha do filme, “Rock
All Night”, Roger Corman teve a sua fama construída principalmente em torno dos
filmes orientados pelos gêneros do terror e da ficção científica, no entanto, a
sua filmografia é eclética e teve espaço para abordagens sobre o universo jovem
sob diversas matizes nas décadas de cinquenta e sessenta, portanto, lidar com o
Rock’n’ Roll com um mote subliminar, não foi algo meramente sazonal em sua
carreira como diretor e produtor cinematográfico.
Ainda no
elenco de “Carnival Rock”, arrolo as presenças de outros atores e atrizes: Jonathan Haze (como Haze), Ed Nelson (como
Cannon), Iris Adrian (como Celia), Dorothy Neumann (como Clara), Chris Alcaide
(como Slug), Frank Ray Perille (como Billy), Bruno VeSota (como Mr. Kirsch), e
outros. A bela atriz, Abby Dalton, que teve uma participação mais efusiva em “Rock
All Night”, aparece em “Carnival Rock”, praticamente como uma figurante, em
cena rápida e não creditada. Escrito por
Leo Lieberman, “Carnival at Midnight”, originalmente foi concebido para ser encenado
como um teleteatro na TV, e neste caso foi adaptado, dirigido e produzido por Roger Corman para ser lançado no segundo semestre de 1957. Como repercussão, a sua trajetória
angariou pouca visibilidade da parte do público, pelo mesmo motivo pelo qual o
filme anterior de Corman dentro do mesmo universo de um Rock Movie conseguira,
ou seja, teve a concorrência muito forte de muitos outros filmes correlatos
lançados pelos estúdios concorrentes e a destacar-se os filmes a conter Elvis
Presley como ator protagonista, muito melhor acabados. E além do mais, se a
euforia em lançar-se Rock Movies aos borbotões, pareceu ser uma necessidade
premente, dada a onda do Rock’n’ Roll em seu auge cinquentista, por outro lado,
a tendência decorrente por tal exagero em produzir-se filmes em linha de
produção industrial, também gerou o excesso natural e sufocou o público. Não
foi a melhor estratégia, certamente, porém é compreensível que o espírito
empreendedor de Roger Corman tenha movido-se nesse sentido, no calor dos acontecimentos
de 1957.
Mesmo assim,
o filme recebeu uma crítica boa da parte da revista “Variety”, uma publicação bastante
respeitável na América do Norte, a destacar a direção de Roger Corman e
certamente mencionar a similaridade com o libreto da Ópera, “Pagliacci”. Tal
filme embalou muitas "sessões da tarde" nos anos sessenta, e posteriormente caiu no
limbo, para ser resgatado em canais de TV a cabo com atenção aos clássicos e
obscuros filmes de décadas passadas ou simplesmente em mostras temáticas sobre
o Rock’n’ Roll ou em específico sobre a carreira de Roger Corman.
Desconheço a existência de uma versão caseira
para a venda em plataforma VHS, mas nos anos dois mil, o filme ganhou a sua
versão em DVD. É facilmente encontrado para ser assistido na Internet de uma forma
integral e gratuita, através do YouTube e outros portais especializados em
filmes.
Resenha preparada para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" em seu volume III, com a leitura disponibilizada a partir da página 374.
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