Houve uma tendência
cinematográfica no cinema inglês, a partir do final dos anos cinquenta, conhecida
como: “Nova Onda do Cinema Britânico”. Geralmente fotografados em preto &
branco, tais filmes tiveram como influência o Neorrealismo italiano e a Nouvelle
Vague francesa, certamente, no entanto, tal escola construiu-se rapidamente amparada
por um forte sentimento nacionalista, portanto, foi uma tendência de cinema
muito centrada em sua identidade britânica, apesar das evidentes influências
advindas da parte de escolas estrangeiras. Tal vertente foi ampla e usou várias
nuances para expressar-se e não necessariamente permaneceu fechada na ideia de
ser um estilo cinematográfico para a juventude a enfocar signos inerentes à sua
cultura, porém muitas vezes, capturou tais nuances a observar a mentalidade jovem
britânica, e por extensão a mostrar movimentos ocorridos ao longo dos anos
cinquenta e sessenta. Nesses termos, a questão da música e das diversas tribos
que gravitaram em torno de tais tendências, foi enfocada em várias ocasiões e
foi o caso deste filme em específico, chamado: “Some People”, lançado em 1962.
Ao fugir do
padrão, esta produção foi fotografada em cores, algo não usual dentro dessa
escola de cinema. Com tal opção, esse filme não perdeu as características
típicas desse estilo a esbarrar no realismo e a mostrar muitas cenas em
externas com as personagens a caminhar pelas ruas das cidades e também a mostrar pontos
conhecidos e até turísticos. Neste caso, a opção não foi usar Londres ou Manchester, localidades mais esperadas a ser usadas como cenário
para filmes ingleses, contudo, a produção de “Some People” optou por Bristol,
cidade e condado ao leste da Inglaterra. Ótima escolha, pois apesar de não ser uma
cidade/região muito popular no imaginário dos turistas estrangeiros, Bristol
é na verdade, uma importante cidade inglesa e tem muitos recursos, uma história
muito antiga que remonta à Idade Média e muitos atrativos culturais. Portanto,
esse filme mostra a cidade a pulsar no ambiente de início de década de
sessenta, e a produzir uma cena artística jovem, e absolutamente local.
O ambiente na
Inglaterra de 1962, como sabemos, constituiu-se de uma fase pré-Beatlemania que
estava em ebulição. A fama dos Beatles era localizada ainda, a restringir-se à
sua cidade de Liverpool, no norte do país, no entanto, a banda fora contratada recentemente
por uma gravadora major e em outubro desse mesmo ano, lançaria o seu primeiro
single para dar início ao seu sucesso em âmbito nacional, portanto, a ebulição
já mostrava-se em curso. Além desse fenômeno em vias de acontecer, o som jovem britânico
existia em forma de centenas de grupos de Rock ao estilo, “Skiffle”, espalhados
pelo país; o Rock Instrumental do grupo, The Shadows e o astro Pop, Cliff
Richard a fazer sucesso radiofônico e também através de seus filmes (inclusive
a contar com o próprio grupo, The Shadows, como a sua banda de apoio, nos
discos, shows ao vivo e nos filmes). A estética “Mod”, outro fenômeno
tipicamente britânico, também já estava em voga, se bem que ganharia (assim
como a Beatlemania e a “British Invasion” sobre a América do Norte), uma proeminência
maior em seguida, e isso sem contar outras tribos a seguir tendências
socioculturais existentes no Reino Unido, como os “Teddy Boys”, “Rockers” e gangues
formadas por motociclistas em geral.
Em “Some
People”, a ideia foi traçar um painel sobre a juventude comum, não
necessariamente para mostrar membros de tribos, mas jovens do povo a viver e
sonhar em meio a esse panorama todo acima descrito. Assim transcorre o filme,
portanto a mostrar um grupo de jovens, rapazes e moças, que andam pelas ruas de
Bristol, à cata de diversão em seu cotidiano. Não apenas diversão, certamente, pois
existia a questão das obrigações escolares e familiares, a culminar na questão
da colocação desses jovens no mercado de trabalho e nessa realidade britânica,
é sabido que a maioria das pessoas menos abastadas, sempre estiveram concentradas
na chamada, “classe operária”, a camada mais simples dentro da sociedade no
Reino Unido.
Nesses
termos, a ação mostra um grupo de jovens que saem para divertir-se e
eventualmente praticam pequenos delitos em termos de vandalismo contra o
patrimônio público e, sim, são músicos e planejam formar uma banda de Rock.
Eventualmente interagem com gangues de motociclistas, mas não necessariamente
são membros dessa tribo, embora por força da história, um desses rapazes esboça
ingressar em uma gangue dessa característica e assim gera-se um conflito com
direito a briga em vias de fato, em um momento mais avante da película.
Tais
rapazes são: Johnny (Ray Brooks), David Andrews (como Bill) e Bert (interpretado
por David Hemmings), como os principais elementos em um primeiro instante. A
vagar pelas ruas de Bristol, eles mexem com as meninas, vandalizam sinais de
trânsito e latas de lixo, entre outras falcatruas e ao serem autuados por abusar
da velocidade e não respeitar o sinal vermelho de semáforos, ao pilotar motos,
são levados ao tribunal para serem condenados a receber multas e uma dura
repreensão da parte de um magistrado bastante conservador.
Chateados com
tal revés, eis que os rapazes invadem uma igreja e o jovem, Johnny, que é
bastante talentoso, a tocar teclados e guitarra, sobe ao patamar onde
encontra-se o órgão da instituição e passa a tocá-lo em plena madrugada, e logicamente
que o que ele executa não é exatamente música sacra, mas sim, Rock’n’ Roll in natura,
enquanto os seus amigos divertem-se a valer, a dançar debochadamente, inclusive
com um deles a apropriar-se e usar um hábito sacerdotal que ali encontrara. O
vigário (interpretado por Michael Gwynn), os surpreende em meio à balbúrdia
juvenil que estão a empreender dentro do templo e passa-lhes uma descompostura,
é óbvio, mas logo em seguida, eis que aparece a figura de Mr. Smith (interpretado
pelo experiente ator, Kenneth Moore), que é um maestro, e diretor do coral da
igreja. Pois ele percebe que os rapazes não são marginais e oferece-lhes uma
oportunidade para que usem o salão paroquial para promover os ensaios da sua
banda de Rock e assim, eis que isso passa a ocorrer.
Nesse ínterim, eis que os
rapazes conhecem a bela filha do senhor Smith (Anne, interpretada por Anneke
Wills), que trabalha como secretária da instituição e obviamente que ela
torna-se amiga de todos os rapazes e ao mesmo tempo, objeto de desejo deles,
até que enfim, chegue a escolher, Johnnie como namorado. Entra em cena a figura
de mais uma bela moça, Terry (interpretada por Angela Douglas), que é cantora e
assim, após alguns ajustes, a banda completa-se, com a inclusão de um rapaz frequentador
da paróquia para tocar bateria no grupo.
Há muita
ingenuidade juvenil a envolver as cenas onde tal banda ensaia, logicamente, mas
há espaço também para certas reflexões Rockers, quando por exemplo, um dos
rapazes produz sem querer uma microfonia com a sua guitarra e por não saber
lidar com o recurso do “feed back” natural proporcionado por um amplificador,
fica desconcertado com tal fenômeno eletrônico. De fato, nessa época tal tipo
de ruído proporcionado por uma guitarra ligada em um amplificador, não era considerado
como um recurso a ser explorado em prol da sua performance musical e salvo
engano de minha parte, a situação só modificar-se-ia a partir do lançamento da
canção, “I Feel Fine”, pelos Beatles, em 1964, quando a introdução dessa canção
apresentou tal tipo de recurso sonoro, graças ao estupendo guitarrista, George
Harrison, que transformou a microfonia gerada e antes considerada como algo
indesejável pelos músicos, como um trunfo sonoro em favor da canção.
Uma outra cena
que chama muito a atenção em “Some People”, ocorre com Anne, a bela filha do
maestro que é surpreendia na banheira de sua casa pelo pai, a tomar banho quente
com roupa e para explicar a estranha ação ao seu pai, ela explica-lhe que a
água quente ajustada no corpo, serviria para encolher o tecido jeans e tornar a
calça justa ao máximo, para poder seguir a moda vigente entre as meninas da
ocasião. Eis então uma abordagem cultural interessante sobre a moda feminina
jovem, de início de década de sessenta entre as moças britânicas e quero crer
em toda a Europa (e quiçá ao redor do mundo), em 1962.
A história
segue com a ocorrência de pequenos conflitos gerados por ciúmes e mal-entendidos entre os jovens e o clímax ocorre quando um dos rapazes envolve-se
com uma gangue formada por motociclistas e estes invadem o salão onde a banda
ensaia e uma briga chega às vias de fato, com a destruição de tudo em volta. O
senhor Smith fica muito desapontado, naturalmente, e após algum tempo, Johnnie
compromete-se a arcar com os prejuízos, para restabelecer prontamente a
confiança de Smith, mas sobretudo da sua namorada, Annie. Simples assim.
Enfim, um
filme bastante inocente, mas que observa alguns méritos, já expressos. Na parte
musical, o que é digno de nota, é a incidência da banda a tocar, e o seu
estrato musical é um som Pop, bastante leve e a observar-se a raiz do R’n’B, entretanto
devidamente absorvido pelo padrão britânico. Trata-se outrossim de uma
sonoridade agradável, embora bem simples em sua execução. As canções exibidas
com a voz da personagem, Terry (Angela Douglas), na verdade foram dubladas pela
atriz em questão e a verdadeira voz é da cantora, Valerie Mountain. A parte
instrumental foi gravada por uma banda real, igualmente, chamada: “The Eagles”,
que existia desde 1958, mas que teve a sua primeira melhor chance para alcançar
uma melhor projeção, com o convite a gravar a trilha sonora do filme, “Some
People”.
Apesar do álbum a conter a trilha sonora do filme ter obtido um
relativo sucesso, ao ponto em frequentar a parada de sucessos britânica, tal
banda não angariou nada mais que uma modesta repercussão no cenário do Rock
inglês, pois nem mesmo com a explosão do Rock britânico no mundo, reuniu forças
para fazer parte dessa euforia toda e sucumbiu, ao encerrar atividades em 1964,
portanto, eu posso imaginar o quanto os seus componentes frustraram-se em não
ter aproveitado as oportunidades. A canção título do filme, “Some People”, também
foi lançada em compacto/single e teve um bom desempenho na parada de sucesso britânica
em 1962.
Tal película
teve um bom desempenho, porém sob o âmbito nacional, a atingir um resultado
circunscrito ao Reino Unido em uma primeira instância. A crítica foi moderada
na ocasião, a elogiar a boa fotografia colorida (isso é uma verdade), além da
observação de externas a mostrar bonitas tomadas da cidade de Bristol, outra afirmação
bem colocada. Contudo, a história em si; a atuação dos atores; a observação
sobre a direção e no tocante à trilha sonora, não despertou maiores elogios. De
fato, não se trata de uma obra prima do cinema, eu concordo, mas também passa longe
de ser um filme ruim.
Ainda a
participar do elenco de atores e atrizes: Timothy Nightingale (como Tim),
Frankie Dymon Junior (como Jimmy), Richard Davies (como Harper), Cyril Luckham
(como o juiz de direito que condenou os garotos), Fanny Carbie (como a mãe de
Johnny), Harry H. Corbet (como o pai de Johnnie) e outros.
Foi escrito
por John Eldridge, produzido por James Archibal e dirigido por Clive Donner.
Lançado em junho de 1962. Há por destacar-se também, que este filme foi realizado
graças aos esforços da parte do Duque de Edinburgh para incentivar a cultura em
meio a um prêmio por ele criado nesse sentido. Portanto, a ideia de se mostrar no
filme, diversos pontos turísticos da cidade de Bristol, observou também a preocupação de enaltecer as
virtudes dessa municipalidade, como uma obrigação contratual, em face do concurso estabelecido pelo senhor Duque.
Aqui no
Brasil, tal filme não passou com grande constância na TV. Desconheço exibições
regulares em canais de TV a cabo, nem mesmo em mostras sobre o cinema
britânico, que são comuns na grade de certos canais temáticos, no entanto, a
privilegiar outras produções, pois confesso, somente pude assistir “Some People”
através do YouTube, onde inclusive não é fácil achar-se uma cópia na íntegra, mas
enfim, os interessados culminam em encontrar, com a devida paciência na busca.
Em síntese, acho que vale a pena assistir, pois
trata-se de um bom documento a mostrar a ambientação britânica pré-Beatlemania,
pré-movimento Mod e com o atrativo de contar com atores jovens que
posteriormente cresceram no cinema britânico (David Hemmings, sobretudo), e também
pela presença de Kenneth More, como um ator já veterano na ocasião, em ação.
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", através do seu volume III e está disponível para a leitura a partir da página 386.

















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