quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Filme: That'll Be The Day - Por Luiz Domingues


Um interessante filme a dramatizar a trajetória de um Rocker britânico, durante a década de cinquenta, deu-se com o filme: “That’ll Be The Day”. Trata-se da saga do personagem, Jim McLaine (interpretado pelo cantor/ator, David Essex), a revelar-se um típico garoto pobre, oriundo da classe operária inglesa, e a viver uma existência massacrante e entediante.

Cabe uma parêntese para realçar que David Essex vivia em sua carreira musical à época, um bom momento, daí a sua participação como ator protagonista dessa produção, ter chamado a atenção do público, como um adendo comercial conveniente, digamos assim.

Não apenas isso, o elenco teve outros músicos muito célebres, igualmente a atuar como atores, casos dos bateristas Ringo Starr e Keith Moon (The Beatles e The Who, respectivamente) e também a destacar a presença do cantor, Billy Fury e John Hawken (The Nashville Teens).

Bem, a história mostra a vida desse pobre rapaz, Jim McLaine, em meio ao seu tédio existencial por sentir-se sem perspectivas para uma mudança de situação pessoal, porém, como preconizaria um Rocker britânico famoso ao final dos anos sessenta, “o que pode fazer um garoto pobre a não ser cantar em uma banda de Rock?”  Sendo assim, após tentar sobreviver através de subempregos os mais variados, ele abandona os estudos, para o desespero de sua mãe (é bem simbólica e transgressora, embora com certa docilidade, a cena em que ele joga fora o seu material escolar, incluso o boné com o distintivo da instituição a qual frequentava, em um córrego), e cometido tal ato, a sair feliz da vida por verificar que livrara-se de um ônus que nunca quis arcar em sua vida, simbolizado pelo material a ser carregado pelo curso da água. 

E assim, em contato com os seus amigos, ele vai para um acampamento de férias e dá chance para que novas pessoas e perspectivas surjam em sua vida. Eis que ele conhece então, Mike (interpretado por Ringo Starr), que se mostra uma influência forte para ele começar a buscar um novo rumo para a sua vida. Finda a temporada no acampamento de férias, ambos vão trabalhar juntos nos brinquedos de um parque de diversões e são interessantes as cenas em que dialogam, ao vermos o personagem, Mike, na posição de um informal conselheiro. Não chega a ser curioso, pois Ringo Starr já acumulava participações em outros filmes, e mais uma vez ele não aparece a tocar bateria no filme, mas apenas trabalha como ator.

Em meio às confusões geradas com o gerente do parque, flertes com garotas e indisposições com alguns clientes, o Rock’n' Roll permeia tudo e assim, Jim absorve paulatinamente o impacto da música revolucionária que vinha do outro lado do Atlântico. A ambientação é a do final dos anos cinquenta (1958, segundo consta no roteiro), portanto, mostra-se bem o impacto do Rock’n' Roll cinquentista e norte-americano sobre os jovens britânicos e o quanto tal estilo musical foi digerido por esses garotos europeus, na contrapartida de que nenhum norte-americano poderia supor que sob uma rápida absorção, os ingleses, sobretudo, regurgitariam tudo para apresentar melhoramentos, ao dar um novo rumo para o Rock, vide a famosa “British Invasion”, visível já em 1963, e a tornar-se avassaladora a partir de 1964.

Nesses termos, as presenças de Keith Moon, Ringo Starr e Billy Fury, como atores, tem o poder da referência implícita, pois as suas respectivas trajetórias construídas através da história do Rock, podem tranquilamente ter servido como inspiração para a elaboração do roteiro desse filme. Apesar de ser um história fictícia, é óbvio que uma trajetória desse teor, tem tudo a ver com a história deles, pessoal. Sem dúvida que a história de Ringo Starr, antes de ingressar nos Beatles, com a sua banda, Rory Storm and the Hurricanes, tem similaridade com a saga de da banda “Stormy Tempest”, que inseriu-se nesse filme, por exemplo.

Isso reforça-se com a trilha musical proposta, que é sensacional, e versada por peças do cancioneiro Rocker cinquentista, notadamente da parte do fantástico, Buddy Holly, aliás, com a explicita citação do título do filme, visto que “That’ll Be The Day” é um Rock’n Roll emblemático do repertório dele, Buddy.

Destaca-se a atuação de Keith Moon que toca alucinadamente, exatamente como sempre o fez na vida real, com o The Who. Isso inclusive é mostrado em uma cena a retratar os primeiros ensaios da banda “Stormy Tempest”, cujos membros, Jim McLaine vem a conhecer e ocasião em que Moon (aqui a interpretar J.D. Clover), faz um solo de bateria, bem ao seu estilo tresloucado e para quem conhece a sua trajetória, é bem emocionante para assistir-se.

Mclaine toca em um assunto interessante, quando pergunta ao pessoal do “Stormy Tempest”, se eles compõe as suas próprias músicas e o baterista, J.D. Clover, responde com uma desconcertante sinceridade prosaica, ao afirmar: -“é óbvio que não, pois somente os norte-americanos sabem compor músicas”. Essa fala não foi aleatória, mas bem orientada para constar nos diálogos, pois tratou-se de uma exemplificação de como os jovens músicos britânicos, ao final dos anos cinquenta, tinham essa mentalidade em considerar que não possuíam capacidade para criar, mas apenas reproduzir o som dos norte-americanos que eles admiravam. Pura balela, bastou quebrar tal paradigma e o Rock britânico provou o seu valor com o poder de uma bomba atômica deflagrada, poucos anos depois, porém, de fato, tal sentimento de inferioridade criativa existiu anteriormente.

Jim parece empolgado, mas ao mesmo tempo atormentado com a pressão familiar recebida para contribuir com o seu sustento, portanto, não teve alternativa e assim voltou para a sua casa para assumir trabalhar no pequeno estabelecimento comercial familiar. Nesse ínterim, casa-se e sua esposa tem um filho. Tudo parece caminhar para um destino evidente em torno de uma vida simples dentro do padrão da classe operária britânica, no entanto, Jim sente-se profundamente entediado com tal resolução. Então o sinal mágico ocorre quando ele passa pela vitrine de uma loja de instrumentos usados e resolve investir no seu futuro, ao comprar uma guitarra velha e barata.

Simbólico, foi o momento de transição não apenas para a vida do personagem, mas a deixar claro que o Rock britânico tomou a atitude e dali em diante, com as rédeas na mão, não apenas iria impor-se, como na verdade, dominar a cena artística, inteiramente.

Outra referência do filme, é a canção “1941”, do cantor, Harry Nilsson. Não a canção em si, mas pelo teor da sua letra, que versa sobre a ideia de um pai que teve um filho em 1941, e que abandonara-o em 1944. Na continuidade da letra, Nilsson canta que o menino cresceu e fugiu para juntar-se a um circo. Pois o produtor do filme, David Puttman, encomendou para Ray Connoly, uma história a partir dessa premissa sugerida na canção de Nilsson. Aos poucos, Connoly, que nunca havia escrito roteiros para o cinema, mas na verdade era um jornalista e crítico musical, montou uma história ambientada em um parque de diversões, ao invés de um circo e a sua experiência com o Rock o impeliu a fazer do seu personagem, Jim McLaine, um aspirante a ser um Rocker. Em entrevista concedida muitos anos depois, Connoly confessou que apropriou-se também de ideias que assistira em outros filmes, notadamente em películas tais como: “East of Eden” (“Vidas Amargas”, de Elia Kazan) e “Les Quatre Cents Coups” (“The 400 Blows”, em inglês ou “Os Incompreendidos”, em português), de François Truffaut. Tudo bem, no cinema, nada se cria, tudo se copia, como poderia ter dito Antoine Lavoisier.

A ideia de contratar artistas da música para atuar nos principais papéis como atores, poder-se-ia ser considerada temerária, mas o próprio roteirista, Connoly, revelou na mesma entrevista já citada, que escrevera o personagem, Jim McLaine, para ser amargo, mas precisou adocicar a sua imagem e por acaso, quando foi ao teatro para assistir a montagem britânica do espetáculo, “Godspell”, notou que o cantor, David Essex, que estava a atuar, seria a escolha perfeita, por conta de seu semblante a transmitir a docilidade em contraponto que ele precisava e não obstante tal sutileza, Essex era um astro Pop na vida real e mantinha um séquito feminino em seu percalço, com naturalidade.

E além de Ringo Starr a atuar como ator e prestar consultoria, outro elemento importante que agregou-se e muito auxiliou, foi Neil Aspinall. O famoso roadie dos Beatles na vida real, também foi um assessor e foi dele a responsabilidade em convidar Keith Moon e Billy Fury para participar como atores, ao interpretar os músicos da banda: “Stormy Tempest” (respectivamente, J.D. Clover e a persona, “Stormy Tempest”).

Outra curiosidade incrível sobre a produção desse filme, deu-se e relação à sua trilha sonora. Como o orçamento inicial mostrara-se muito baixo, a produção teve que captar mais recursos e nesse ínterim, surgiu uma pequena empresa canadense, especializada em telemarketing, que propôs-se a investir, desde que o filme proporcionasse a criação de uma trilha a conter quarenta músicas, que posteriormente deveria ser utilizada como vinhetas de suas ações publicitárias. Algo bastante incomum, é bem verdade, mas a produção do filme não pode recusar a oferta e assim, como um resultado prático, percebe-se que principalmente nas cenas onde os personagens perambulam pelo parque de diversões, existe a ação de um alto falante a executar pequenos trechos de diversas canções oriundas do Rock’n' Roll cinquentista e daí, a obrigação com o patrocinador foi cumprida e ao mesmo tempo, o filme enriqueceu-se com tantas citações, ainda que ligeiras, desse repertório espetacular.

Foi nesse ponto que a produção percebeu que o personagem crescera e que caberia uma continuação da história e por isso, mal “That’ll Be The Day” estreava nas telas e a produção de um segundo filme, a ser chamado: “Stardust”, correu a todo vapor, para mostrar a ascensão da banda de Jim McLaine ("Stray Cats"), e toda a ambientação sessentista em torno disso, o que animou ainda mais o roteirista, Ray Connoly, que na condição de um crítico musical, acompanhara a cena sessentista real, in loco. Sobre “Stardust”, falo sobre tal filme em sua resenha em específico, naturalmente.

E para aquecer ainda mais toda a movimentação em torno de “That’ll Be The Day”, David Essex havia emplacado um grande sucesso de sua carreira nas paradas de sucesso em 1973, com a música, “Rock on”, portanto, apesar de nada ter a ver diretamente com o filme, isso só contribuiu para angariar ainda mais interesse midiático para a obra cinematográfica. 

Como conclusão final, creio que essa produção nasceu modesta, mas cresceu acima das expectativas iniciais de sua própria produção; fez um tremendo sucesso e antes mesmo de obter esse termômetro da parte do público, já motivou em seguida a produção de uma continuação, com “Stardust”, lançado no ano posterior, em 1974, e aí sim, mediante a possibilidade de contar com uma produção mais portentosa, garantida pelo maior investimento financeiro e certamente pelo entusiasmo gerado pelo surpreendente sucesso de: “That’ll Be the Day”. 

Sobre as atuações, não dá para ser exigente, visto que os protagonistas foram defendidos por músicos na vida real, e não atores de ofício, mas há por ressaltar-se que David Essex ostentava a sua experiência teatral por ter encenado “Gospell” nos palcos de Londres e Ringo Starr e Keith Moon, ambos já haviam participado de outros filmes; uma infinidade de documentários e promos e não necessariamente apenas em termos de material de suas respectivas bandas, portanto, ambos estavam acostumados a enfrentar um set de filmagem e a conter bastante desinibição para lidar com as câmeras.

Ainda no elenco, houve a presença dos atores : Rosemary Leach (Srª Maclaine); James Booth (Sr. McLaine); Rosalind Ayres (Jeanette Sutcliffle); Robert Lindsay (Terry Sutcliffle); Deborah Watling (Sandra); Brenda Bruce (Doreen); Beth Morris (Jean) e outros.

Escrito por Ray Conolly. Produção a cargo de Sanford Liebserson e David Puttnan. Sob direção de Claude Whatham, foi lançado na Inglaterra em abril de 1973, e nos Estados Unidos, em outubro do mesmo ano.

Recebeu críticas boas em geral, a não ser no “New York Times”, onde o crítico norte-americano implicou com o sotaque britânico e até sobre o excesso de piscadas de certos atores, que supostamente denotariam nervosismo ante as câmeras. Implicância sem cabimento, pois sobre as tais piscadas, somente ele perdeu tempo em ater-se a um detalhe imperceptível dessa monta e quanto ao sotaque, seria como um crítico brasileiro falar mal de um disco da cantora de fado, Amália Rodrigues, por ela manter o sotaque castiço de Lisboa, ora pois...
Cópia do filme integral, no YouTube, eu desconheço que exista. Somente encontra-se fragmentos com cenas esparsas e muitos desses vídeos, misturam-se com cenas do filme posterior, “Stardust”, talvez no afã de estabelecer uma comparação ou seja lá qual tenha sido a ideia de que assim editou e postou. É possível assistir em sites especializados em filmes raros, mas com cobrança, e mediante a obrigação em preencher cadastro etc. e tal. Ou comprar a cópia em formato DVD, mas também somente em versões internacionais, sem legendas em português. Sacrificante, eu sei, mas creio que valha a pena assistir, pois o filme tem o seu valor histórico e a trilha é uma maravilha para quem aprecia ao Rock primordial dos anos cinquenta.
Esta resenha faz parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", Está disponível para a leitura através de seu volume II, a partir da página 108.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Filme: Riot on The Sunset Strip (Os Transviados de Sunset Strip) - Por Luiz Domingues

Entre 1965 e 1966, a famosa: “Sunset Strip”, da cidade de Los Angeles, na Califórnia, tornara-se mais que um boulevard frequentado por artistas de cinema e a exibir lojas e restaurantes caros a atrair a atenção de turistas vindos do mundo inteiro, graças ao glamour hollywoodiano, no entanto, tornara-se igualmente um ponto de encontro para os emergentes hippies, adeptos da contracultura em geral, Rockers, freaks, Beatnicks e libertários em geral, por conta inicialmente de diversas casas noturnas a pulsar com música ao vivo (Whisky a Go-Go, entre as mais famosas), notadamente bandas de Rock. 
Entretanto, o volume gerado por essa movimentação frenética, assustou as autoridades, motivadas pela inevitável reclamação dos implicantes de plantão em torno de grupos tais como: liga de senhoras em prol da moralidade nos costumes, políticos conservadores, associações de comerciantes e que tais, ao ponto de tais grupos sociais exercerem pressão sobre a prefeitura da cidade, em conjunto com a força policial, para que agissem e dessa forma, um decreto foi baixado a instituir um “toque de recolher”. 

Portanto, depois das 22 horas, ficou proibido circular por ali e qualquer pessoa ficou sujeita ao enquadramento policial, se violasse tal norma autoritária. Ora, justo no país que arvorava-se em ser a terra da liberdade e das oportunidades? Justamente na segunda metade dos anos sessenta, em plena Califórnia e sobretudo, a interferir diretamente com uma juventude que buscava o sentido libertário da vida, em todos os sentidos? Pois evidentemente que isso não poderia resultar em algo positivo e assim, em novembro de 1966, um protesto dos jovens contra tal medida de exceção foi reprimido com truculência e daí veio a expressão: “Riot on the Sunset Strip”.
Dessa forma, tal acontecimento motivou a criação de um filme sobre tal conflito e na verdade, abriu a oportunidade para que outros explorassem o tema, a retratar os hippies e o seu sentimento de liberdade, versus a reação da sociedade conservadora e tudo permeado por conceitos pró e contra, naturalmente. 

No caso de “Riot on the Sunset Strip” (no Brasil, também conhecido como “Os Transviados de Sunset Strip”), a abordagem pareceu pender para a visão conservadora, portanto contra o movimento hippie, em uma primeira análise superficial, no entanto, o filme não deixa tal posição acintosamente declarada e dá margem para outra interpretação mais amena, em alguns aspectos, além de ter um mérito concreto, no tocante ao ter mostrado três bandas de Rock emergentes, sensacionais em ação, e sendo assim, nos dias atuais, décadas após o seu lançamento, veio a tornar-se um filme com tal legado implícito e de certa forma, sim, também é um documento contracultural, mesmo que os seus produtores o tenham concebido com intenção contrária, isto é, em desagrado ao movimento. 
Uma primeira observação importante, é sobre ter sido filmado e lançado sob toque de caixa, para aproveitar o calor dos acontecimentos, portanto, sem distanciamento histórico mínimo o suficiente para ter-se uma visão mais abrangente, tornou qualquer tomada de posição, pró ou contra, precipitada. 
Nesses termos, se a intenção foi depor contra os hippies, pura e simplesmente, tirante a obviedade em torno do malefício decorrente do abuso das drogas por alguns indivíduos, não pode denegrir o movimento como um todo, mas claramente ser atribuído como uma escolha individual de foro íntimo, tal qual o uso de bebidas alcoólicas, tão nocivas quanto e não apenas legalizadas, quanto incentivadas pela sociedade, vide o massacre midiático perpetrado por publicitários nesse sentido a incentivar o consumo. 

Portanto, se esse foi (é) o maior perigo, torna-se cruel ter que lidar com a hipocrisia conservadora que demoniza algo que execra por motivos escusos e valoriza outro elemento, em gritante contradição, algo tão nocivo quanto, mas que certamente aufere-lhe dividendos, portanto, algo escuso, igualmente. 
Bem, esta é a resenha de um filme e não uma matéria sobre saúde pública, mas fica a observação para entender melhor o seu contexto para a época, ao falarmos sobre a ação desenvolvida pela película, em meio ao ano de 1967. 
O segundo aspecto, foi decorrente do primeiro, no sentido de que a pressa em filmar e lançar, foi também acompanhada pela falta de recursos. Com um orçamento baixo, não foi possível haver um maior capricho na produção em geral. Portanto, ao considerar tal fator, creio que o resultado até surpreende, positivamente, no sentido de que apesar da simplicidade espartana com a qual essa produção lidou, o resultado ficou digno.
Mais contracultural do que propriamente um Rock Movie, certamente, “Riot on the Sunset Strip”, cabe melhor em outro livro, focado em tal tipo de abordagem, no entanto, dada a quantidade de cenas geradas em uma casa noturna (Pandora’s Box), a mostrar bandas de Rock verdadeiras em ação, penso que entra bem neste rol que selecionei para constar neste livro.
Sobre o roteiro, a opção foi pela simplicidade e considere-se tudo o que eu já alertei anteriormente, portanto, teria sido impossível recorrer-se a um texto mais sofisticado com nuances mais profundas, a conter uma devida exploração melhor das personagens etc. 
Nesses termos, a história narra a efervescência da Sunset Strip entre os jovens, alguns mergulhados na contracultura e outros a sentir-se atraídos por tal ideário, porém sem ainda compreendê-lo inteiramente e esse é o ponto que certamente deve ter apavorado as autoridades e a sociedade conservadora da época, aliás, até hoje, visto que mais de cinco décadas depois, ainda há uma incompreensão generalizada sobre tal movimento. 
Bem, a ação transcorre em torno de alguns personagens jovens que aproximam-se dessa cena e portanto, ficam à mercê de seus perigos, ao caracterizar o aspecto conservador da visão da produção e direção do filme, certamente.
Mostra-se então a efervescência na Sunset, com hippies a caminhar por todos os cantos e a reação de estupefação das pessoas “normais”, absolutamente apavoradas com a presença dos cabeludos, e certamente a interpretar a existência de tal horda formada por “freaks” (e entenda o termo, “Freak” pelo seu sentido pejorativo a designar alguém “esquisito” ou até pior, como uma “aberração”), como um sinal apocalíptico do “fim dos tempos”. 

A narração inicial é estabelecida com aquele ar solene do telejornalismo de outrora e claramente a expressar a contrariedade em relação aos jovens ali exibidos por sua atitude e escolha. Então vem a parte dramatúrgica com jovens ‘saudáveis”, oriundos de boas famílias a mostrar-se em um ambiente universitário, mas claramente entusiasmados pelos acontecimentos da Sunset Strip.
A personagem principal é Andrea “Andy” Dollier (interpretada por Mimsy Farmer, que aliás, foi protagonista mais tarde do cultuado filme, “More”, que ficou famoso pela trilha sonora assinada pelo Pink Floyd e também trabalhou em mais filmes de arte europeus, inclusive com o sensacional diretor italiano, Dario Argento). 
Andy é uma bela garota que em uma primeira instância, mostra-se renitente para mergulhar de cabeça como os seus colegas que já frequentam sem temor aquele ambiente e insistem para que ela avance, igualmente nesse sentido. 
Bem, até aí, trata-se de um comportamento humano normal e principalmente registrado na adolescência, quando os pais sempre temem a influências das ditas “más companhias” sobre os seus pimpolhos. 
Ela vai junto, mas com reservas e aí, entra em cena a casa noturna: Pandoras’ Box, a apresentar bandas de Rock, com muito som psicodélico e Garage Rock sessentista entre outras vertentes, todas sensacionais. O clima é de euforia total, com aquela sensação caleidoscópica em termos de difusão de cores pelas paredes a gerar a loucura máxima, permeada por preceitos surrealistas, certamente a evocar as famosas “trips” proporcionadas pela ação das drogas mediante psicoativos a gerar efeito lisérgico/alucinógeno. 
Observa-se a presença de três bandas em cenas diferentes e intercaladas ao longo do filme, que são: The Enemys, The Standells e a Chocolate Watchband. Outro aspecto a reforçar a ideia de ser algo pernicioso à sociedade, dá-se em relação as cenas em que são mostradas prisões em massa de hippies e seguidas por pais furiosos a comparecer em delegacias de polícia para buscar os seus filhos, certamente a corroborar o sentimento temerário da parte da sociedade conservadora em relação ao movimento. Pois antes de estigmatizar as pessoas, a contrapartida em relação ao fato de que muitas prisões foram feitas arbitrariamente, somente por conta do sujeito ser cabeludo e assim ser considerado um pária da sociedade e/ou “vagabundo”, ocorreu em profusão na história. 
Bem, fato real à parte, na dramaturgia, uma dessas prisões coletivas enquadra a personagem, Andrea “Andy” e os seus amigos. O ponto de conflito instaura-se quando ela mais do que constrangida em estar ali detida, dá a entender que existe algo ainda pior para envergonhá-la e isso fica patente ao espectador quando ela evita dar o seu nome, pois na verdade, o tenente daquela chefatura é o seu próprio pai. Dramalhão portanto, a lembrar Soap Opera norte-americana ou mesmo filmes e seriados que passavam na TV com tal sentido, como por exemplo: “O Vale das Bonecas”. 
Enfim, foi o caminho que o roteiro achou para causar mais comoção em torno do contraste. E para piorar, o policial em questão, Walt Lorimer (interpretado pelo veterano ator, Aldo Ray), faz o tipo de policial linha dura e intolerante, mas em seu íntimo, pelo contrário, ainda que veladamente, demonstra ter uma docilidade humanitária até surpreendente, portanto, a intenção deve ter sido fazer com que o público adulto nutrisse mais empatia ainda pela autoridade que também é um pai “bonzinho” e que está prestes a decepcionar-se com a sua própria filha, que foi envolver-se com hippies drogados.
Nesse ínterim, um conselho formado por pessoas proeminentes da sociedade, organiza-se para pressionar as autoridades a tomar providências e assim coibir a aglomeração de hippies na Sunset Strip, e se possível fechar as casas noturnas e até demoli-las (houve uma tentativa de conluio com a especulação imobiliária nesse sentido, na história real dos conflitos), como a invocar as lembranças bíblicas sobre Sodoma & Gomorra, certamente, portanto a seguir fatos então recentemente ocorridos na vida real e os jovens reagem com protestos. 
O tenente, no entanto, mostra-se aberto ao diálogo e negocia com as lideranças dos hippies, para que a ocupação nas ruas não redunde em confusão e os ânimos apaziguem-se. 
O contraponto interessante dá-se em torno da garota ser vítima de um trauma por ter os pais separados e sobretudo por viver com a sua mãe, Margie (interpretada por Hortense Petra), que é uma alcoólatra patética. Andrea “Andy” assiste o seu pai a dar pronunciamento na TV, a falar sobre as confusões com os hippies e os plano para acabar com aquela baderna (“riot”, afinal de contas) e sente-se ainda mais perdida em meio à falta de diálogo com os seus pais.
Ela volta então com os seus amigos e amigas ao Pandora’s Box e assiste mais shows de Rock, quando naquela euforia proposta pela loucura total, aceita ir com eles para outro local, assim que surgiu a ideia de invadir-se uma mansão desocupada e organizar uma festa particular, entre eles mesmos. Isso ocorre e evidentemente que em meio à música bem alta que colocam na vitrola, bebidas e drogas, a euforia sai de controle ao resultar em uma orgia. 
A princípio, Andy, ao contrário de suas amigas mais entusiasmadas, não pretende entregar-se aos prazeres sem limites, mas alguns rapazes colocam LSD na bebida dela e assim, ela entra em uma viagem psicodélica intensa. É óbvio que eu não faço apologia às drogas, mas preciso deixar claro que a cena é bem impressionante, apesar da total falta de recursos do filme, principalmente pela atuação individual de Mimsy Farmer, como atriz, ao interpretar, Andrea “Andy” Dollier, sob a ação de uma droga alucinógena, ao ponto dessa cena ser considerada antológica por vários meios, não apenas uma opinião formada entre os cinéfilos contraculturais e/ou entusiastas de cinema não comercial em geral, pois realmente a dança sob transe que ela encenou, foi algo espetacular e realmente passa a ideia de que o efeito da droga fazia com que a personagem experimentasse uma sensação incontrolável em termos de prazer corpóreo. 
No entanto, o lado mau disso e devo admitir, também realista, foi que ao perceber que a moça estava fora de si, os rapazes que a drogaram à revelia, consumam a sua segunda intenção com tal ato cometido, assim que ela foi levada a um quarto da mansão, é estuprada por esses dois canalhas, e também por vários outros rapazes, igualmente inescrupulosos. Concomitante a isso, a polícia já estava alertada sobre a festa promovida pelos hippies e cercou a mansão. 
Muitos conseguiram escapar, entretanto, a protagonista, estava ainda muito fora de si, e para piorar as coisas, quando um policial subiu ao quarto e reconheceu a moça, preferiu ser discreto e chamar o tenente, seu pai e deixar que ele lidasse com a situação. Bem, dramalhão instaurado, como eu já havia previsto, seguiu-se à reação do pai, uma explosão nervosa da moça, ao proferir palavras duras em momento de desabafo entre pai e filha por questões familiares, a denotar a falta de atenção que ela ressentia-se desde da separação de seus pais, a questão da mãe alcoólatra etc.

Um jornalista, um daqueles típicos que vimos muitas vezes em filmes policiais norte-americanos dos anos trinta a cinquenta e que costumavam fazer plantão em delegacias à cata de furos de reportagem com crimes a envolver pessoas famosas, desconfia que há algo errado e vai atrás para investigar e buscar saber a situação do tenente que surpreendera a sua própria filha ali, drogada e abusada sexualmente. A moça vai para o hospital, afinal de contas, drogara-se e fora estuprada muitas vezes e no hospital, o tenente Walt perde a compostura e agride alguns amigos dela, ao responsabilizá-los pela influência negativa que exerceram para que ela chegasse em tal ponto. A situação fica ainda pior para os hippies, é claro, com a opinião pública a pressionar as autoridades etc. 
Uma resolução adocicada ocorre repentinamente, quando vemos Andy recuperada, ainda no hospital e vestida como uma boa moça, como se fosse uma personagem de um seriado familiar ao estilo “Paty Duck Show” ou coisa que o valha e sob uma música orquestral a sugerir que tudo voltara ao normal, reconcilia-se com o seu pai. Nada contra a ideia de uma filha que faz as pazes com o seu pai, mas a abrupta mudança no conflito ficou muito forçada, infelizmente.

E o filme encerra-se com uma locução piegas, a dar conta que: -“a situação é preocupante, pois as autoridades podiam prender pessoas aos montes e fechar casas noturnas, mas os cabeludos iriam continuar e diante desse fato inexorável, o que podemos fazer? Aonde vamos parar?” 
Curioso, não foi a primeira vez que um axioma moralista foi colocado sob locução em filmes a envolver conflitos com a juventude e só para citar dois, sem maior esforço de pesquisa, recordo de “Angels With Dirty Face” de 1938 e “The Wild One”, de 1953. Denota que a sociedade conservadora preocupa-se mais em procurar deter algo que foge-lhe à compreensão, mas não faz nada para tentar entender o ponto de vista dos jovens que lançam novas ideias.
Enfim, mensagem melodramática à parte, o filme, apesar de seus limites, tem o seu mérito por retratar um aspecto dos acontecimentos ocorridos de fato em Los Angeles, que ao contrário de San Francisco, na mesma Califórnia e outras localidades na América, foi mais tenso por conta da reação em contrário, local. E sobretudo por mostrar as bandas de Rock citadas, em ação. 
Sobre o The Standells, por exemplo, não fora a primeira participação desse grupo em uma produção cinematográfica, pois isso já havia ocorrido em “Follow the Boys” (1963), “Get Yourself in a College Girl (1964), e até em episódios de séries de TV, tais como: “The Bing Crosby Show”, “Ben Casey”, “The Munsters” (“Os Monstros”) e até em uma animação infantil, “Zebra in the Kitchen” (1965). 
Já em relação ao “The Enemys”, tal banda também participara de episódios de seriados de TV, casos de “Burke’s Law” (“A Lei de Burke”) e “The Beverly Billbillies” (“A Família Buscapé”), 
E finalmente, a mais famosa que ali apresentou-se, “Chocolate Watchband”, uma sensacional Garage Band dos anos sessenta, com a famosa atuação frenética de seu vocalista, Dave Aguilar, com as suas maracas. A aparição dessa banda a tocar: “Don’t Need Your Lovin”, é para arrepiar. Ainda a constar da trilha do filme, existe o som de outros artistas tais como: a cantora, Deborah Travis, Mugwamps, The Mom’s Boys, The Sidewalks Sounds e Drew.

Outros atores que participaram: Laurie Mock (que interpretou, Liz-Ann Barbrey, a amiga morena de Andy), Michael Evans (como Frank Tweed), Bill Baldwin (como “Stokes”), Anna Strasberg como Helen Tweedy, Tim Rooney (filho do veterano ator, Mickey Rooney), como Grady Toss e outros.
Foi escrito por Orville H. Hamptom, com produção de Sam Katzman e direção de Arthur Dreifus. Lançamento em março de 1967, portanto, se considerarmos que o auge do conflito de rua na Sunset Strip, na vida real, ocorrera em novembro de 1966, pode-se mensurar o quanto foi acelerada a produção desse filme, para explorar o assunto do momento, mas cabe ressaltar que o “verão do amor” veio alguns meses depois e a propaganda negativa ficou obscurecida e pelo contrário, apesar dos pesares, esse filme tornou-se mais uma peça de interesse contracultural, a posteriori.
Dificilmente será visto em canais de TV a cabo da atualidade, e a cópia em DVD, só mesmo a contar com o material importado, sem legendas em português. E como consolo, dá para assistir no YouTube, ainda que as cópias disponibilizadas, sejam oriundas de gravações feitas em fitas VHS, portanto, sem uma grande qualidade.
Como peça para estudar-se a explosão contracultural dos anos sessenta e também pela parte musical, vale muito a pena assistir e acrescento nesse rol a cena da personagem, Andrea “Andy” Dollier, sob intenso frenesi lisérgico, defendido pela atriz, Mimsy Farmer, como algo notável.
Esta resenha faz parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n Roll". Está disponível para a leitura através do seu volume II, a partir da página 98.