segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Filme: Das Wilde Leben (Eight Miles High - A Vida Selvagem) - Por Luiz Domingues

Mais uma história interessante a retratar a presença de groupies, como personagens recorrentes na entourage de bandas de Rock (principalmente nos anos sessenta e setenta), o filme alemão, “Das Wilde Leben” (denominado: Eight Miles High”, em inglês e “A Vida Selvagem”, em português), vai além do trivial já abordado em filmes como “Groupie Girl” e “Permissive”, lançados em 1970. Em primeiro lugar, porque trata-se de um filme baseado em fatos reais e em uma segunda análise, muito por conta da biografia da personagem central retratada, extrapolou os limites do Rock ao mostrar uma história a esbarrar em muitos aspectos diferentes, embora a aura Rock’n' Roll permeie a obra inteira.

A primeira cena do filme mostra a protagonista, completamente nua em uma praia paradisíaca a observar um bote em chamas a navegar no mar. Seria uma pira funerária viking? Ao final, tudo é esclarecido, certamente. Bem, em ritmo de flashback, o filme mostra a trajetória pessoal de uma moça de Munique, na Alemanha, chamada: Uschi Obermaier. Oriunda de uma família classe média baixa, ela vive às turras com a sua mãe e o padrasto. 


Eis que acompanhada de uma amiga, vão assistir um show de Rock em uma casa de pequena expressão, mas a sua beleza que é muito grande, chama a atenção de um fotógrafo que está ali por pura coincidência e este a aborda e pede autorização para fotografá-la. Dali para um ensaio fotográfico sensual foi um salto rápido, entretanto, a sua mãe acha as fotos em seu quarto e escandalizada, briga com a filha e também com o padrasto e sai de casa ao melhor estilo “She’s Leaving Home”, acompanhada de sua amiga.

Uma vez na estrada tais moças pedem carona, até que uma Kombi ornada com cores psicodélicas passa e as convida a viajar. Trata-se de uma banda de Rock em seu interior, chamada : “Bröselpilze”. Vive-se o ano de 1968 e a lisergia estava na Alemanha com toda a força, tanto quanto na Inglaterra, mas os alemães tinham as suas particularidades locais, bem acentuadas. Um exemplo disso, dá-se quando chegam em Berlim e lá, ocupam um um galpão abandonado, ou seja, um tipo de ocupação bem comum entre os hippies alemães nesses anos.

São interessantes as cenas a mostrar a vida deles em “kommune”, em meio a muitos incensos; o som de cítaras e eventualmente com a banda a ensaiar. O som que produzem ali, é absolutamente experimental e lembra sob muitos aspectos o som ultra conceitual da banda alemã, Amon Düül, em sua primeira fase na carreira (nos anos setenta, o Amon Düül II, a sua dissidência, foi bem mais musical, certamente), ou seja, é no limite da cacofonia. E para seguir a história real de Uschi Obermaier (interpretada por Natalia Avelon, tão linda quanto a Uschi da vida real), há um enfoque na sua vida sexual intensa, a fazer a conexão sobre a sua personalidade em específico, e o espírito livre da vida em comunidade hippie. 

Uschi envolve-se inicialmente com Rainer Langhans (interpretado por Mathias Schweighöfer). Ali, os conceitos misturam-se, visto que nem todos são hippies a acreditar no poder da paz & amor, pois alguns ali são militantes políticos e nesses termos, o amor livre dos hippies, não é aceito por todos. 

Gera-se a ideia dos ciúmes, que aos entusiastas das novas ideias a respeito do amor livre, é algo abominável e na contrapartida, a ideia em estimular ações políticas onde a violência é cogitada como expediente legítimo para impor ideologia, é rejeitada pelos hippies. Até a própria Uschi, que é bem resolvida nessa questão, cai na armadilha e tem um crise de ciúmes ao ver que uma antiga namorada de Rainer chega no galpão e ele não reluta em dormir com ela na mesma noite.

Enfim, em meio às controvérsias, Uschi logo é notada pelos repórteres fotográficos dos órgãos de imprensa e recebe convites para posar. Ele torna-se a musa dos movimentos estudantis e isso também gera ciúmes e inveja. Para piorar a relação dentro da “Kommune”, uma batida policial arbitrária, ocorre e acha-se uma bomba armazenada no local. Todos vão presos como terroristas, mas logo desmascara-se que a bomba fora “plantada” a mando das autoridades, para incriminar os jovens.

A fama de Uschi pela sua beleza incrível, é gerada na imprensa, e assim cresce muito, ao ponto de que um dia , ela receba um convite dos super astros do Rock, Mick Jagger & Keith Richards, dos Rolling Stones e assim, ela e Rainer vão a uma festa louquíssima, organizada por ambos em Londres. Dali em diante, Rainer percebe que não tem como segurar o ímpeto de astros com fama mundial e Uschi Obermaier torna-se uma groupie, dessa mega banda, de fato. 

Entretanto, por deter uma personalidade muito forte, ela não mergulha inteiramente nesse estilo de vida, ao menos nesse primeiro instante e dali até 1973, continuou a atuar como modelo fotográfico e a viver em várias cidades. Em 1969, por exemplo, ela recebeu um convite e aceitou atuar como atriz em um filme, chamado, “Rotte Sonne” (“Rota do Sol”). Dirigido por Rudolf Thome, ela foi protagonista da película, uma história policial, mas curiosamente, nesta cinebiografia, “Das Wilde Leben”, isso não foi mencionado. Tempos depois, por chamar tanto a atenção, eis que um dia o produtor de cinema italiano, Carlo Ponti, propõe-lhe um contrato milionário para atuar como atriz ao participar de dez filmes e o primeiro em que participaria, seria dirigido por Michelangelo Antonioni, ou seja, a sua beleza incrível abria-lhe as portas de uma forma absolutamente visceral, sem dificuldade alguma, mas em contrapartida, Uschi pareceu não ser ambiciosa, tampouco vaidosa e ao contrário de outras garotas que jamais perderiam tal chance, ela simplesmente emitiu um “arrivederci” para Carlo Ponti, ao rejeitar a oferta.
Nesse ínterim, entra em cena a figura de Dieter Bockhorn (interpretado por David Scheller), que acompanhado de um assessor seu (um lacaio, praticamente), chamado, Wieland “Lurchi” Vags (interpretado por Georg Friedrich), é um suposto hippie com um certo ar de aventureiro fanfarrão e golpista, que vive como um nômade a percorrer diversos países, sem maiores preocupações na vida a não ser viver um dia de cada vez. Portanto, Dieter tem muita sintonia de pensamento com Uschi, no sentido da liberdade absoluta e quando encontram-se verdadeiramente, há uma identificação imediata. Entretanto, Dieter, mesmo antes de conhecê-la pessoalmente, já sabia de sua existência e admirava-a, pela sua beleza física, ao ter visto muitas revistas com ensaios fotográficos seus.

Estabelecem então um relacionamento explosivo, visto que ambos tem gênio forte e brigam bastante por questões diversas, mas vão em frente, até que os Rolling Stones novamente surgem na vida de Uschi e ela volta a ser groupie, ao servir na cama os "Glimmer Twins", Jagger & Richards. 

Isso ocorreu por volta de 1973, quando ela viajou com a banda para uma extensa turnê pelos Estados Unidos (por ser fato real, deduz-se que isso ocorreu durante a turnê de lançamento do LP “Goat’s Head Soup”). Entretanto, ela cansa-se em viver em hotéis, fugir do assédio de fãs dentro de limusines e sobretudo, da extrema loucura permeada por drogas e bebidas e ao voltar para a Alemanha, reencontra Rainer em Hamburgo e aceita viajar com ele (e o assistente, Lurchi), pelo Oriente Médio e Ásia, através de um “Motorhome”, o famoso “Trailer”, que na verdade é um ônibus reformado e todo estilizado à estética psicodélica Hippie. 

Esse trio atravessa então muitos países exóticos e claro que chamam muito atenção com esse carro e eles próprios com visual “freak” em meio a povos com cultura fechada e quiçá adeptos de fundamentalismo religioso rígido. Na fronteira do Paquistão com a Índia, foi por pouco que mediante uma batida policial truculenta e arbitrária, eles não foram barbarizados e o salvo conduto só aconteceu quando Dieter com a sua costumeira mentira contumaz, convenceu os agentes policiais que seria um militar alemão com alta patente, apesar de aparentar ser um Hippie completamente lunático.

Na Índia, são confundidos com príncipes germânicos e uma senhora rica oferece-lhes uma cerimônia de casamento com direito a orquestra. Nessa cena, a chegada de Uschi, como uma noiva, em cima de um elefante totalmente ornado, é grandiloquente. Ambos vivem pois, uma aventura por dia nesses países, até que Uschi percebe que engravidara. Até aí tudo bem, fato da natureza, mas ela perde o bebê e isso mexe muito com ela, de uma maneira pela qual jamais achou que sentiria. Naturalmente que isso estremece a relação dela com Dieter.


Em seguida, o filme já os mostra por volta de 1983, no México, em uma praia, em meio a hippies latino-americanos, quando eis que aparece a figura de Keith Richards que está ali por alegar que vai casar-se naquela localidade, dias depois. Keith junta-se aos malucos na praia e faz um show particular em clima de luau. Dieter tem uma crise de ciúmes, pois sabe que Uschi já fora groupie dos Rolling Stones e sente que ela pode simplesmente sair dali com Richards, para voltar a acompanhar a banda em turnês, bastaria que ela desejasse isso e o casamento de Richards em nada mudaria tal predisposição. 

Esse ponto (aliás em todo o decorrer do filme isso acontece), é interessante por denotar que se a posição dos hippies em relação ao amor livre e sobretudo a condição das groupies em relação às bandas de Rock, sempre alardeou-se como livre e encarada com total naturalidade a revelar uma predisposição em impor-se como uma irreversível quebra de paradigma em torno das relações humanas (e principalmente em torno dos tabus sexuais), na prática, isso não foi exercido em 100%, exatamente pelo fator da personalidade única de cada indivíduo. Nesses termos, o fator posse/ciúmes, muitas vezes passou por cima do caráter libertário dos ideais. Portanto, nem mesmo uma alma livre como a de Uschi, esteve livre desses paradigmas mais arraigados.

Dieter resolve subir em uma moto e evadir-se da praia, sem despedir-se de Uschi. Aos gritos de “Viva Zapata”, ele simplesmente acelera a moto a vai embora. Uschi fica triste, tenta resignar-se e seguir em frente, mas vai atrás de Dieter e depara-se com uma cena triste, ocorrida poucos segundos antes, pois Dieter colidira de frente com um caminhão e morrera, instantaneamente.  Não fica claro no filme, se Dieter sofrera um acidente ou simplesmente teve o impulso em encerrar a sua existência por vontade própria. Daí, vem novamente a cena exibida no início do filme, em que Uschi prepara o corpo de Dieter e o crema, ao estilo de uma cerimônia fúnebre viking, com o corpo em chamas a queimar sob uma pira em forma de bote a navegar no mar.

O filme acaba aí, mas há uma menção nos créditos a esclarecer que posteriormente Ushi tornou-se uma designer de joias e abandonou a vida hippie, cheia de aventuras, que vivera desde 1968.

Muito bem, história real, pincela bem como foi o espírito de época sob a ótica germânica; envolve os Rolling Stones; cita o cinema; a vida de Uschi como modelo e a sua errante peregrinação como nômade em meio a muitas histórias que viveu e colecionou para justificar um filme interessante. Trilha sonora muito boa; fotografia e figurinos, idem, direção de arte e locações, visualmente belíssimas e atuações boas. A atriz, Natalia Avelon, impressionou pela semelhança física com a Ushi Obermaier da vida real. Aliás, Uschi em pessoa, foi assessora da produção e colaborou muito, não apenas com o roteiro e elaboração da personagem por parte de Natalia, mas inclusive como na questão do sotaque de Munique, que segundo consta para quem fala bem o idioma alemão, ficou bem convincente.
Outros atores relacionados neste filme: Friedericke Kempter (como Sabine), Victor Norén (como Mick Jagger), Milan Peschel (como Freiberg), George Friedrich (como Lurchi), Inga Busch (como Agentin), Heike Warmuth (como Barbara), Sebastian Maschat (como Conrad), Julia Valet(como Kajol) e outros.

A crítica não gostou do excesso de cenas de sexo e que em alguns trechos, são quase explícitas. Compreensível que haja uma reclamação nesse aspecto, visto não tratar-se de um filme pornográfico, no entanto, teria sido inverossímil evitar ou mesmo diminuir tal incidência de erotismo, ao tratar-se da cinebiografia de uma modelo que foi hippie e groupie. Tirante esse excesso, que há mesmo, trata-se de um bom filme a retratar mais uma vez o universo das groupies em relação às bandas de Rock, no entanto, com o enfoque ligeiramente diferente do habitual, visto que a vida de Uschi Obermaier deu margem a um filme cheio de aventuras. 

Escrito por Olaf Kraemer e Achim Bornhak. Dirigido por Akim Bornhak, e lançado em 2007.
Disponível em DVD / Blue Ray, no You Tube só existe postado em cenas esparsas. É possível assisti-lo na íntegra e gratuitamente, no portal de vídeos, “UK.RU”. 
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll". Está disponível para a leitura através do seu volume II, a partir da página 124.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Filme: Stardust - Por Luiz Domingues


Após o sucesso do filme britânico, “That’ll Be The Day”, lançado em 1973, rapidamente a sua continuidade foi filmada e lançada, ao final de 1974. Chamado como: “Stardust”, essa obra seguiu a cronologia do filme anterior, a mostrar a trajetória do personagem, Jim McLaine. Na verdade, a sua continuidade nem esperou o sucesso do primeiro para ser arquitetada, visto que o roteirista, Ray Connoly e o diretor, Ray Puttnam, já estavam convencidos que essa história merecia uma continuidade e assim, trabalharam com afinco. Com mais verba disponível em relação ao filme anterior, foi possível elaborar um roteiro mais robusto, a propor cenas mais grandiosas e nesse sentido, “Stardust” tem um acabamento bem melhor em termos de direção de arte; figurino; e o luxo em ter locações externas muito bonitas da Inglaterra; Estados Unidos e da Espanha. Aliás, na Espanha, são imagens bem impressionantes, conforme descreverei mais adiante.


O filme mostra, Jim McLaine na cena inicial, a convidar o seu velho amigo, Mike, que conhecera no parque de diversões onde trabalharam ao final dos anos cinquenta, para que este seja o empresário da banda que fundara, chamada: “Stray Cats”. No primeiro filme, Mike fora interpretado por Ringo Starr, mas em Stardust, Ringo recusou o papel ao afirmar que devido ao roteiro avançar pelos anos sessenta e mostrar a ascensão de Jim e sua banda, sentir-se-ia desconfortável pela sua fama real com os Beatles nessa mesma época enfocada na história. Desta feita, o personagem, Mike, foi defendido por Adam Faith. Ora, Adam também foi um egresso do Rock britânico cinquenta / sessentista, com relativo sucesso (um dos seus sucessos, foi sem dúvida, a canção, “What Dou You Want”), e não importou-se em atuar, embora seja bem verdade, que a sua fama fora infinitamente menor que a do Ringo, portanto, apenas observo e entendo as razões alegadas por ambos.


Daí em diante, mostra-se a ascensão vertiginosa do Stray Cats, a começar em shows realizados em pequenos clubes, mas rapidamente a galgar degraus e vide o meio de transporte com o qual começam a sua trajetória, um furgão em péssimo estado de manutenção e como rapidamente passam a deslocar-se com carros melhores e compatíveis com a sua fama crescente. A formação da banda contou com Johnny, na guitarra e voz (interpretado também por um ator/músico, Paul Nicholas, experiente em musicais teatrais e daqui em diante, em Rock Movies (Tommy, Lisztomania, Sgtº Peppers entre outros), Alex na guitarra e voz (Dave Edmunds, também músico e que foi componente da banda sessentista, “Human Beins e responsável pela trilha sonora deste filme), o tecladista, Steve (Karl Howman, este, apenas ator) e o super astro do Rock, Keith Moon (The Who), que também participara do filme anterior e ao contrário de Ringo Starr, não teve nenhum constrangimento em participar a interpretar o baterista, J.D. Clover, novamente e desta feita em várias cenas de shows ao vivo e das loucuras de bastidores de uma banda de Rock na Inglaterra em plena fase de euforia da dita “British Invasion”/Swingin’ London e consolidação do Rock em sua safra “late 60’s”.


As cenas ao vivo, são muito boas, visto que a banda fictícia fora formada por músicos verdadeiros, com exceção do tecladista, mas a energia realística garantiu-se e ainda mais com Keith Moon a tocar bateria, ou seja, uma energia avassaladora e muito bem retratada nas cenas, tanto que a pensar exclusivamente na atuação dele, é notório o quanto ele atuou a vontade, como se estivesse a tocar com o The Who na vida real. Keith Moon deu trabalho nos bastidores das filmagens, visto que o seu gênio indomável gerou muita confusão, como bem contou o roteirista, Ray Connoly em sua extensa entrevista concedida anos depois, para falar sobre a produção dos dois filmes : That’ll Be the Day e Stardust.



Esse foi o lado bom do filme, ao mostrar as ótimas cenas com a banda fictícia, Stray Cats a tocar ao vivo; programas de TV & afins. Contém igualmente, bastante bastidores com camarins, quartos de hotel, viagens etc. Além disso tudo, aborda-se os problemas típicos que toda banda de Rock enfrentou, não apenas nos anos sessenta e setenta, mas a tratar-se de certas agruras típicas, tratadas como inerentes ao ofício, ou seja: é quase inevitável que as brigas de ego ocorram e amplifiquem-se à medida que a fama cresça. Dinheiro, por exemplo, entra no primeiro posto para estragar tudo, pois o senso da ganância fala alto e aliás, é uma má conduta observada em qualquer profissão e não apenas um defeito observado no meio artístico. Portanto, é inevitável em em um empreendimento que visa lucros e seja controlado por vários sócios, com o crescimento do negócio, haja um sentimento de um sócio em relação aos demais, que talvez considere-se mais merecedor de fatias maiores por trabalhar mais ou até mesmo quando a discórdia instaura-se por alguém duvidar de alguém por alguma falcatrua cometida em termos de desvio de recursos.


Outra boa maneira para uma banda ser minada por brigas entre os seus componentes, ocorre por conta de egos infláveis e nesse caso, o meio artístico é pródigo em proporcionar tal demanda egóica. Basta um componente chamar mais a atenção dos críticos; fãs e principalmente do público feminino por conta de sua boa aparência e o fato dele ser comentado como o galã da banda, gera ciumeiras entre os demais. Mas também tem a proeminência por chamar mais atenção no palco pela performance; por ostentar um nível técnico maior que os demais ou por suas ideias para composições e arranjos, ganhar elogios, enfim, são muitos os fatores que inflam os egos ao ponto de destruir amizades e destruir bandas, implodidas por tais fatores e isso explica tantas que viveram carreiras curtíssimas, em detrimento de seu brilhantismo artístico.



Bem, tudo o que descrevi acima ocorre nesses momentos iniciais e até a metade do filme, muitas situações assim, são vistas. Tem também a loucura dos fãs, sobretudo das fãs, com cercos policiais feitos para que o Stray Cats toque e consiga evadir-se dos locais com relativa segurança para os seus componentes, em clima de Beatlemania. Cada um a correr para uma limusine e com fãs histéricas a correr atrás, é mostrado e isso foi algo bem dentro da realidade que os Beatles e outras bandas britânicas sofreram nos anos sessenta.


Então, tem a inevitável participação de um empresário com maior estrutura para segurar esse momento promissor, na figura de Marty Wilde (interpretado por Colin Day), claramente inspirado em Brian Epstein, o empresário dos Beatles, com aquela clássica maneira para gerenciar a carreira do Stray Cats, a influenciar em todos os detalhes, inclusive a gerar as inevitáveis indisposições, tamanha a interferência desagradável em seus desígnios pessoais. Chega-se então em um ponto que o destaque para o personagem de Jim McLaine, que é o baixista e cantor da banda, motiva uma mudança na estratégia gerencial e assim, a banda passa a chamar-se : Jim McLaine & Stray Cats. Bingo, a discórdia com tal mudança gera revolta em outros membros e isso começa a minar a relação boa construída em mutirão, no tempo da labuta mais rude do início da carreira.


Copia-se bastante a trajetória dos Beatles, novamente, ao mostrar a chegada da banda à América do Norte e o quanto isso foi tratado como um impulso para a banda atingir um nível muito maior. Enquanto isso, as drogas e as groupies entram na ordem do dia, além de interferências da parte da gravadora; editora; acordos com radialistas, ou seja, o negócio fica tão grande que a contrapartida dos artistas estar loucos pela fama e pelos prazeres dela oriundos, obscurece-lhes o discernimento e nessa hora, os inescrupulosos aproveitam-se para aproximar-se e roubar bastante o dinheiro fabuloso que a banda está a gerar.


E o inevitável ocorre, empresários e produtores convencem o mais famoso da banda que a carreira solo é o seu melhor caminho e que certamente que ele não precisa dividir nada com os seus companheiros “menos talentosos”. Isso também é uma ação típica do meio empresarial e igualmente um fator para destruir carreiras, visto que acaba-se com bandas ótimas e nem sempre uma carreira solo avança como o artista foi levado a crer que aconteceria facilmente.


Pois então, Jim McLaine não está mais com os seus amigos. Ele também não é mais o mesmo, visto que as drogas; bebedeiras e groupies, em profusão, tratou por moldar a sua personalidade para algo mais soturno. Um certo mau humor crônico o faz parecer-se com Bob Dylan, em muitos aspectos. Bem, entra em cena um empresário norte-americano, na figura de um típico texano, Porter Lee Austin, interpretado por Larry Hagman. Hagman foi famoso na TV norte-americana por ter interpretado o incauto astronauta, major Nelson, no seriado, “I Dream of Jeannie” (“Jeannie”, no Brasil.). Também participou de outros seriados; telemovies e uns poucos filmes longa metragem, mas a sua fama não era grande na Inglaterra. A sua contratação foi um arranjo do acaso, visto que a intenção inicial da produção, foi contratar um ator mais famoso, ao tratar-se de Tony Curtis. Entretanto, apesar de Curtis ter gostado do roteiro e estar acostumado a trabalhar com britânicos (nessa época, ele já havia participado recentemente do seriado inglês, “The Persuaders”, ao lado de Roger Moore, em 1971), quem causou problemas foi o seu agente, que irredutível, não abriu mão do cachet milionário exigido e daí, a opção por Larry Hagman. E é preciso registrar que Hagman atuou tão bem como uma magnata texano obstinado e manipulador (boçal igualmente, é preciso salientar), que tal atuação dele em “Stardust” rendeu-lhe a oportunidade de ser contratado posteriormente para viver o terrível vilão: “JR Ewings”, no seriado cafona, porém bem sucedido comercialmente, “Dallas”. Ele mesmo afirmou isso, em sua biografia pessoal.


Bem, nesta altura do filme, Jim McLaine já está bem perturbado. A sua fama é mundial; ganha muito dinheiro, mas vive depressivo, quando não catatônico em virtude de seus abusos e descontentamento com a carreira musical em si. Chega a sonhar em voltar com o Stray Cats, mas o empresário, Austin e o seu agente pessoal, Mike não o deixam reagir. Sua namorada, a belíssima, Danielle (Ines Des Lonchamps), não demonstra muito companheirismo, ao denotar estar a aproveitar-se da fama dele, Jim, tão somente.



Nesse sentido, ocorre a cena onde ele é informado que a sua mãe falecera e além de ser mal recebido na cerimônia fúnebre, por seus familiares e amigos dos tempos em que era apenas um rapaz pobre, tal notícia espalhara-se e a polícia inglesa tem muito trabalho para montar um cordão de segurança, visto que a imprensa, e sobretudo os fãs enlouquecidos, estão ali à espreita para ver o seu ídolo. Esse contraponto dramático é bem interessante na história, embora seja obviamente desagradável pela circunstância da história. E para piorar as coisas, ele encontra-se com a sua ex-esposa, Jeanette (interpretada por Rosalind Ayres), e o filhinho que deixara para trás e ambos são quase engolidos pela multidão enlouquecida. Um diálogo ríspido com a ex-esposa, mostra o quanto a fama fizera-lhe mal e ele, apesar de sentir o baque, não reage a contento, visto que debilitado emocionalmente, tornara-se um rebotalho humano.


Como se tudo isso não bastasse, a sua carreira está mal administrada. A energia pura do Rock’n' Roll ficara para trás, nas lembranças do Stray Cats, a sua boa banda. Agora ele grava o que determinam que ele grave, além de participar de ações de marketing com ação gerencial discutível, obra de seu novo empresário que não entende nada do ramo, na verdade. Sob tal prerrogativa, ele grava um especial de TV, muito megalomaníaco, a cantar com o apoio de um orquestra e coral de vozes, sob uma estilização visual bastante exagerada. Trata-se supostamente de uma “Ópera-Rock”, chamada :“Dea Santa et Gloria”. A parte musical desse tema, é bonita, não resta dúvida, mas a sua colocação na história visou retratar um equívoco na carreira de Jim, portanto, é bastante melancólico vê-lo a interpretar tal tema, apesar da sua beleza melódica.


Cansado, porém milionário, Jim resolve comprar um castelo medieval encravado em uma montanha, localizado em uma remota cidade do interior da Espanha. Visto que estava estafado, foi o refúgio sabático que programou obter para alcançar a sua recuperação física e mental e quiçá, repensar a carreira. Mais do que nunca, sente saudade do Stray Cats, mas ao mesmo tempo sabe que os ex-colegas ficaram magoados com ele e sobretudo, os contratos que assinou, deixam-no atrelado ao empresário sanguessuga, ainda por um bom tempo.



Ele gasta uma fortuna para restaurar o castelo, mas o seu empresário (e o seu agente pessoal, também), está farto dessas férias forçadas e quer que o seu artista volte a produzir o quanto antes, visto que artista não pode sumir do imaginário popular por um tempo muito grande, essa é uma verdade também expressa no filme, sob o risco de perder o seu “momentum”, e assim, nunca mais recuperá-lo. 


Então, ele é pressionado a voltar a atuar e marca-se uma entrevista para ele começar a voltar à evidência. O plano é mostrar o castelo maravilhoso em que habita e que ele possa anunciar uma nova etapa na carreira, porém, enquanto a equipe de TV prepara o equipamento para fazer uma intervenção ao vivo, ele está muito depressivo e tem o impulso em suicidar-se. Uma impressionante cena a mostrá-lo a caminhar pelo telhado do castelo, dá a entender que está muito mal. Após uma grande pressão, ele finalmente aparece para conceder a entrevista e já a passar mal pela ingestão de muitas drogas, passa a discursar de forma desconexa, para o desespero do empresário e então, o seu amigo e agente, Mike, percebe a situação e chama uma ambulância.



No trajeto para o hospital, enquanto agoniza, Mike tem uma explosão nervosa e acusa-o de ser egoísta etc e tal, todavia, Jim já está a ter uma complicação cardíaca decorrente de uma overdose e falece com a ambulância ainda em movimento.


Não é uma história exatamente criativa, longe disso, pois explora bem o clichê da vida e obra de um Rock Star engolido pelas vicissitudes da fama, mas Stardust é um bom filme, assim como o filme, “That’ll Be The Day”, que foi na verdade, uma parte inicial da mesma história. O filme tem os seus méritos, certamente, ao mostrar as cenas musicais e de bastidores, e também a conter boa música. Os temas do Stray Cats, foram todos compostos; arranjados e executados por Dave Edmunds, que além de atuar como ator, tocou todos os instrumentos na gravação da trilha. E os temas cantados, tiveram de fato as vozes de David Essex que era / é um bom cantor, além dos demais atores que também eram cantores e músicos reais. Sobre David Essex, em sua carreira real na música, eu já falei a respeito, inserido na resenha de “That’ll Be The Day”.



Foi dirigido por Michael Apted e lançado em outubro de 1974, na Inglaterra, e em outros países, de forma escalonada, em 1975. Roteiro por Ray Connoly e produção a cargo de David Puttnam e Sanford Lieberson. Recomendo “Stardust” e seu predecessor, “That’ll Be The Day”, ambos, bons filmes e com vários atrativos interessantes para um Rocker apreciador de Rock Movies e sobretudo, interessado em cultura Rocker das décadas de 1950/1960 e 1970, sobretudo.

Existe a versão em DVD / Blue Ray, mas no You Tube, só é encontrado alguns poucos fragmentos do filme. Uma versão na íntegra, gratuita e com boa qualidade, pode ser vista no portal russo de filmes, “OK.RU”. 
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll". Está disponível para a leitura através do seu volume II, a partir da página 115.