segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Filme: Radio On - Por Luiz Domingues

Lançado em 1979, o filme britânico, “Radio On”, não é propriamente um Rock Movie e na verdade, trata-se muito mais de um Roadie Movie, misturado com elementos típicos do cinema alternativo alemão, sob uma primeira análise. No entanto, apresenta em seu bojo uma característica forte (praticamente como um suporte ao roteiro), que o aproxima muito do Rock propriamente dito e ao avançar mais ainda, tem muito a ver com a atmosfera sombria que assolou a Inglaterra e a Europa inteira por extensão, ao final dos anos setenta. Portanto, tal película contribuiu por conseguinte, ao designar como seria a década de oitenta, por antecipação.
O fato, é que o personagem principal do filme, Robert (interpretado por David Beames), é um DJ que faz a programação de uma emissora de rádio e que atua dentro de fabricas, para entreter os operários durante o expediente. De fato, esse modelo de emissora alternativa existiu na Inglaterra e aqui é óbvia a referência à United Biscuits Network, que operou dessa forma, nos anos setenta (entre 1970 e 1979). Ocorre que por conta desse personagem ser um DJ de rádio, o filme transcorre o tempo todo a conter música, seja nas cenas iniciais dentro de uma fábrica, seja no trânsito, enquanto o personagem dirige pelas ruas de Londres e igualmente em sua residência, quando ouve discos de vinil ou simplesmente liga o rádio.
A história avança com o suicídio do irmão de Robert e este, fica obcecado em descobrir a motivação que levara o seu irmão a tomar tal atitude drástica. Nesses termos, Robert entra em seu carro e inicia a sua jornada ao viajar de Londres a Bristol, sempre a ouvir música no rádio do seu carro e a conhecer pessoas pelo caminho, e que são figuras estranhas, mas não acintosamente exóticas e/ou perigosas, mas pelo contrário, apenas esquisitas e um tanto quanto apáticas.
Todas as paisagens são duras, quase não há nada bucólico nessa peregrinação e pelo contrário, o filme investe em paisagens sombrias a mostrar viadutos e vias em geral, pouco agradáveis visualmente a falar, do subúrbio de Londres. Existem momentos em que lembra até a desolação do famigerado “minhocão” de São Paulo, com prédios de apartamentos a circundar vias dessa mesma característica. 
É por conta disso também, que a trilha sonora baseada na produção versada pela estética do Pós-Punk, emoldura um filme melancólico, com forte sentido existencialista, a denotar falta de perspectiva, vazio e desilusão com o mundo. E por outro aspecto, tal passeio do personagem tem muito do cinema alemão alternativo, por uma razão óbvia, ou seja, o cineasta germânico, Win Wenders, não o dirigiu, mas esteve nesta produção como um assistente de câmera. E mais que a contribuição de Win Wenders, muitos profissionais alemães somaram-se aos britânicos, inclusive com a presença de atores dos dois países, e como resultado, muitas cenas chegam a confundir o espectador, sobre ser uma ambientação inglesa ou alemã. 
Dessa forma, o som de David Bowie, bem dessa fase de sua carreira, que é conhecida como a fase Berlinense, quando o artista morou em Berlim e gravou três álbuns de estúdio com forte carga a apontar para o som Techno com teor futurista (e a apontar em direção futurista sobre o que o Pós-Punk seria nos anos oitenta), toca em vários trechos do filme, assim como o emblemático grupo alemão, Kraftwerk, este um egresso da cena do Krautrock setentista e a trabalhar fortemente com um som robótico a insinuar ruídos produzidos por máquinas industriais e que tais, além de outros artistas a apontar na mesma direção, praticamente. E mesmo quando ouve-se algo quase próximo de um Rock clássico tradicional, ainda assim já escuta-se uma sonoridade deveras embrutecida, isto é, os anos oitenta já estavam a chegar, infelizmente. 
Escuta-se portanto, o som do Devo (a abominável releitura de “Satisfaction”, dos Rolling Stones); The Rumour; Lene Lovitch; Eric Goulden; Ian Dury and the Blockheads e um som da carreira solo do genial guitarrista, Robert Fripp, que estava a buscar caminhos modernos após ter encerrado as atividades do seu grande, King Crimson e de certa forma, a antecipar o que seria a reformulação sonora que a banda teria, assim que voltou à ativa nos anos 1980. 
Sting, o baixista do The Police, e que estava a ingressar em fase sob grande popularidade com tal banda na vida real, participa do filme como ator e a sua cena, a interpretar um frentista de posto de gasolina remoto na estrada (o personagem, Eddie), mostra-o a cantar uma canção de Gene Vincent, mediante uma guitarra desligada. Ele está a cantar dentro de um furgão abandonado, para em seguida travar um diálogo improvável com Robert e continuar a cantar, com Robert a cantarolar junto. 
É talvez o único número musical não comprometido com a aspereza Pós-Punk, pois ao tocar e cantar tão informalmente a canção :“Three Steps From Heaven”, de Eddie Cochran, trouxe a doçura de uma balada com forte apelo cinquentista, para amenizar toda aquela desolação Pós-Punk. É preciso deixar a ressalva de que David Bowie, mesmo quando soou a utilizar tal estética robótica dessa escola, ainda sim compensou-nos pela extrema beleza de suas melodias compostas, portanto, é uma atenuante.
Preciso acrescentar ainda, que algumas cenas mostram-se curiosas. Um exemplo, dá-se quando o personagem Robert, dá carona para um rapaz que mostra-se muito prolixo e deprimido e quando este mostra-se posteriormente agressivo e pede para que Robert pare o carro no meio da estrada para que esse impertinente fosse urinar no mato, sem vacilar, Robert o abandona, apenas a observar a reação raivosa do abandonado, pelo retrovisor do carro. É interessante quando Robert, em outra cena, procura e acha no porta-luvas do carro, várias fitas K7 a conter os álbuns do Kraftwerk e as suas respectivas capas são exibidas sem parcimônia. Em outro momento, o personagem protagonista ouve através do rádio do automóvel, os resultados da rodada do campeonato inglês de futebol e para quem acompanha tal esporte, é interessante ouvir a locução com aquele forte sotaque britânico a citar vários clubes tradicionais daquele país. 
Várias cenas noturnas são inseridas, inclusive com a presença de chuva, e o personagem a dirigir sob tais circunstâncias, torna o filme ainda mais soturno. Em dado momento, ele conhece duas garotas alemãs e estabelece um relacionamento com uma delas, Por falar em referência alemã, quando Robert passa pela Westway para sair de Londres, uma tomada acompanha com calma um grafite pintado em uma parede como os dizeres: “Free Astrid Prool” (liberdade para Astrid Prool). Essa mulher citada, Astrid Prool, fora componente do grupo terrorista alemão, Baader Meinhof, que foi responsável por diversos atentados na Alemanha. Uma menção sutil a reforçar o laço germânico dessa coprodução com a Inglaterra. Outra cena curiosa, é quando ele visita uma tia sua, acompanhada da namorada alemã e uma hostilidade é sentida, com uma certo sentido xenófobo da parte da idosa.
Mais adiante, Robert vai sozinho visitar um Pub de quinta categoria e envolve-se em uma confusão completamente gratuita. Ao esbarrar em uma mulher que jogava bilhar, ele atrapalha a sua jogada. A mulher mostra-se bem agressiva e o adverte com truculência, mas passados alguns segundos, ele novamente a atrapalha em sua tacada e aí ao pedir desculpas e justificar laconicamente que aquilo teria sido “um acidente apenas”, a mulher, por sua vez, revida com um chute violento na base do banco em que ele estava sentado e ao vê-lo a espatifar-se no chão, responde com sarcasmo que : -“fora um acidente, apenas’.
Quase ao final, Robert chega em um lugar esmo, que lembra uma pedreira abandonada. Sob tal ambientação inóspita, ele dá algumas voltas e ao evadir-se do local, estaciona o carro na beirada do precipício e em princípio, sugere-se que a jornada vai culminar em um suicídio. Entretanto, ele apenas desce do carro e em uma segunda impressão, parece que vai apenas deixar o carro cair, visto que o aproximou ainda mais da beirada e soltou o freio de mão. No entanto, ele tira uma fita K7 do porta luvas e sob o som do Kraftwerk, mais uma vez, deixa o automóvel ali naquela situação periclitante, com as portas abertas e o som a reverberar muito alto, a produzir um eco natural. Bem simbólico, naturalmente, mostra a máquina da sociedade industrial a vencer o homem, em via de regra. Robert caminha até uma estação ferroviária remota e entra no trem, supostamente de volta à Londres. Aparentemente derrotado pelo sistema, não teve outra alternativa a não ser retomar a sua rotina na capital britânica.
Particularmente eu não gosto desse final de anos setenta e menos ainda da década de oitenta, por uma série de fatores e muitos dos quais tem a ver com a estética do Punk e do Pós Punk, sob muitos aspectos, e não apenas pela sonoridade adotada por tais artistas que seguiram tal modelo. No entanto, no caso deste filme, apesar da rudeza em estar inserido subliminarmente em tais ideias, ele apresenta o seu valor como documento de época, certamente. Creio já ter elencado tais aspectos positivos, mas vale acrescentar que há uma valor agregado a mais, no tocante à presença das suas locações externas. Para quem conhece bem as cidades de Londres e Bristol, é interessante, certamente, pela visão de uma paisagem urbana familiar e a conter inclusive, estabelecimentos que nem existem mais ou que passaram por profundas modificações urbanas, nos anos posteriores a 1979, casos do Camden Plaza Cinema e o Bristol Hippodrome, por exemplo.

Além dos já citados atores, destaque também para: Andrew Bryatt (“Deserter”), Sue Jones Davis (“Girl”), Lisa Kreuzer (Ingrid), Sabina Michael (“Aunt”) e outros.

Em termos de repercussão, tanto pelo resultado nas bilheterias, quanto sobre a opinião gerada pela impressão da imprensa, esse filme mostrou-se muito obscurecido. É geralmente tratado como uma peça relegada a uma posição subalterna, em todos os quesitos

Foi escrito e produzido por Christopher Petit e lançado em 1979. Desconheço se exista a cópia em formato DVD, mas é facilmente encontrado no YouTube, para ser assistido, quando o leitor desejar.

Esta resenha está publicada no livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", através do seu volume II, disponível para a leitura a partir da página 181

sexta-feira, 29 de julho de 2022

CD Nordic Dream/Antonio Celso Barbieri - Por Luiz Domingues

Nordic Dream” é o mais recente álbum do músico, compositor, produtor musical, webmaster, escritor e ativista cultural, Antonio Celso Barbieri. Criador inquieto, ele usou bem o tempo gerado pela quarentena sanitária decorrente da pandemia ao lançar obras em profusão e este CD “Nordic Dream”, é o seu mais recente fruto nascido de uma fase tão fértil e expressiva de sua parte.  

No release oficial do álbum, o artista explana com muita lucidez o que o inspirou e motivou a criar a obra em si, e neste caso, o seu mergulho criativo foi direcionado às tradições nórdicas seculares, de onde buscou a fonte para compor.

Ante as geleiras e as tradições Vikings, principalmente a privilegiar na sua visão o paganismo que cultua a força da natureza, Barbieri se deixou levar por tal vibração ancestral e perpetrou uma obra multifacetada a expressar toda essa riqueza.

Ainda a recorrer ao release oficial da obra, acrescento que Barbieri destacou que especificamente para essa obra, ele fez uso de instrumentos virtuais, no caso, “Nordic Cello" e outro chamado “Nores”', para buscar mais proximidade com a essência nórdica, e neste caso eu acrescento que também pelo fato de que o artista sempre gostou de usar os recursos da tecnologia em torno das experimentações da música eletrônica em sua obra (“Nordic Dreams” é o seu 15º título de sua numerosa discografia).

Sobre a arte gráfica a denotar mais uma de suas habilidades, haja vista a sua atuação destacada como artista gráfico e webmaster, tenho a dizer que apreciei bastante a sua concepção. Na minha concepção, a geleira personificada na figura imponente da estilização de um Viking e respectivo elmo como sua base, mergulhado no mar gelado e sob o céu noturno, todo estrelado da Escandinávia a ilustrar tanta beleza, realmente impressiona.

Cabe, no entanto, acrescentar que na visão do próprio artista, opinião essa relatada-me diretamente, Barbieri explica que na arte de sua capa, ele está querendo dizer que, para ele, em termos de cultura nórdica, o viking é apenas a ponta do iceberg.

Agora a refletir a minha percepção sobre o aspecto musical desse álbum, devo salientar que Barbieri seguiu a sua linha mestra a usar instrumentos tradicionais e eletrônicos em perfeita sintonia. Ao mesclar docilidade e contundência, se mostrar épico e solene e igualmente profundamente respeitoso com a força das tradições místicas nórdicas, ele montou um belo mosaico representativo sobre a alma nórdica, sem, no entanto, deixar que o disco fosse confundido como algo pertencente ao campo da música Folk-Étnica e que tampouco possa ser rotulado como “World Music”, pois a abordagem é muito fora dessas nomeações genéricas, não tenho dúvida.

Acho conveniente acrescentar algumas impressões pontuais de minha parte sobre cada faixa:

Ouça "Always Alone", através do bonito clip concebido por Antonio Celso Barbieri

Escute diretamente no YouTube através do seguinte link:

https://www.youtube.com/watch?v=T09EQd7MWPQ

Always Alone” – Peça delicada, mostra beleza em sua melancolia reflexiva e implícita, sob o ponto de vista emocional. Gostei da influência do Rock Progressivo setentista expresso através dos sintetizadores de uma forma recôndita.

Ceres, Vesta and Juno” - Bem rítmica, inclusive no uso inteligente da divisão e pausa como um belo recurso, passou-me uma ideia ritualística bem interessante.

The Three Scandinavian Kingdoms” - gostei da incidência da percussão e do elemento Rock na sua composição, sutil, mas perceptível.

The Easter Celebration” - Esta faixa tem um aspecto bastante salutar no sentido de se mostrar muito adequada para servir como trilha sonora de um filme com motivação militar.

The Emotional Wheel” – Há um suspiro que soa como algo fantasmagórico que me chamou a atenção no arranjo desse tema, justamente por abrir campo para diversas interpretações.

Se produzido por um Ser humano, denota representar uma série de introspecções profundas, do âmago do Ser e isso por si só já me impressionou. Se por outro lado for a repetição mecânica do ruído de uma máquina industrial, ele (Barbieri) foi além, pois estabeleceu a simbiose entre a máquina e os humanos sob diversos aspectos. Impressionante metáfora, portanto.

The Aurora Borealis” – Bastante rica, ritmicamente a falar, esse tema me lembrou o estilo do saudoso tecladista e compositor grego, Vangelis, de certa forma.

From Nothern Ancient Times” – Gostei muito do uso de sinos grandiosos para se emular um clima grandiloquente e também do ar orquestral do arranjo como um todo.

The Viking Pagan Mind” – Destaque para a boa interpretação ao piano da parte do artista.

Assista o clip da música "It's Good to Be Alive", sob a criação e edição de Antonio Celso Barbieri. 

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=rtwEGQIiMqY

It’s Good to Be Alive” – Tema extremamente vibrante, passou-me a ideia de uma celebração da vida e não por acaso o seu título sinaliza nessa direção.

Just a Friendly Clan Meeting” – Faixa de curta duração, mostra em sua melodia, um trunfo vigoroso.

Assista o clip da música: "Nordic Dream", sob a criação e edição de Antonio Celso Barbieri.

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=oqUUceBShAI

Nordic Dream” – A faixa que dá nome ao álbum é bela pelo seu caráter épico, por trazer uma abordagem complexa em sua constituição sonora. Pelo aspecto da imagem proposta pelo artista, apesar do nome, não se trata de uma ode à cultura nórdica como um todo, mas sim à força da liderança viking em meio às suas planificações pela construção de uma civilização que suprisse os seus anseios, conforme Barbieri assinalou no release oficial do álbum.

Running Down Hill” – Essa música soou-me enigmática e soturna (no bom sentido, logicamente), ao denotar, na minha visão (bem-entendido), uma abordagem impressionista em essência.

The Soft and the Hard Feelings” – Tema bastante percussivo, muito interessante.

The Viking Prophecy” – Tema executado ao piano, se mostra introspectivo e expressivo.

The Secrets of the Golden Crown” – Gostei da construção dessa linha ao piano, a privilegiar notas longas que ressoam e assim valorizaram a introdução de percussão com farta influência oriental.

Em suma, o novo álbum de Antonio Celso Barbieri, “Nordic Dream”, é rico em diversificação sonora, também pela mescla de instrumentos tradicionais com recursos eletrônicos e até virtuais, propõe reflexão sobre o papel da cultura pagã nórdica como elemento fundamental para a formação da cultura geral Anglo-Saxã, mas com clara importância para a todas as culturas europeias e a abranger o mundo, por conseguinte.

Mais um dado importante: é preciso salientar que a se mostrar coerente, como em todos os seus discos anteriores, Barbieri usa o recurso de buscar o acesso profundo em seu “Eu” interior e nesse esforço, a sua autoanálise empreendida através do seu encontro com o próprio micro-cosmo, há sempre uma amálgama perfeita também com o macro-cosmo da realidade externa a abordar a sua visão sociopolítica do mundo.

Antes de encerrar a resenha, faço o convite ao leitor para que conheça a matéria longa que eu escrevi e publiquei no meu Blog 2, para repercutir a persona de Antonio Celso Barbieri, como um empreendedor cultural eclético e dinâmico. Eis abaixo o link para acessar a matéria:

http://blogdoluizdomingues2.blogspot.com/2022/03/antonio-celso-barbieri-um-visionario.html

Para escutar o CD “Nordic Dream” na íntegra, acesse o site de Antonio Celso Barbieri, através do link descrito abaixo:

www.2bstar.com

Nordic Dream” foi inteiramente gravado no estúdio Raw Vibe de Londres, UK. Lançado em 2022.

Composições, arranjo, arte de capa e produção geral de Antonio Celso Barbieri.

Antonio Celso Barbieri toca todos instrumentos, além da programação de sons eletrônicos e virtuais.

Para conhecer também o seu site “Memórias do Rock Brasileiro”, acesse:

https://www.celsobarbieri.co.uk/