sexta-feira, 30 de setembro de 2022

CD DM/Danilo Martire - Por Luiz Domingues

Cantor, compositor, multi-instrumentista e professor de canto, Danilo Martire tem uma carreira prolífica, sempre a lançar novidades como singles e álbuns completos em alternância estratégica, normalmente apoiados com clips bem produzidos e disponibilizados na internet.

Danilo já foi vocalista de uma boa banda do estilo Hard-Rock e com forte influência setentista, o “Balls” e também componente, ainda que por pouco tempo, do grupo de Rock, “Delta Crucis”, além de outros trabalhos coletivos, mas é através da sua carreira solo que ele concentra a sua maior carga e o faz com bastante desenvoltura.

No cômputo geral, o Rock sob diversas nuances é o seu foco, entretanto, Danilo Martire é um artista eclético e aberto a várias tendências, portanto, as suas composições e sobretudo o estilo de sua interpretação é multifacetado, a caracterizar um artista que sofreu influência bastante diversificada a abranger além de muitas escolas distintas dentro do Rock, também as nuances da MPB e da Black Music de uma forma generalizada.

Neste álbum em específico, denominado como: “DM” (que aliás, mediante tal título eu creio que se dispensa qualquer explicação de minha parte ao leitor, pela obviedade do que se trata), eu notei toda essa riqueza musical nas suas boas composições e além do áudio bem caprichado, há de se destacar a ótima interpretação vocal de sua parte e de toda a parte instrumental excelente, da parte dele e de todos os músicos envolvidos na gravação e dois quais, eu conheço alguns pessoalmente e os recomendo sem pestanejar.

O bom gosto predomina em todos os quesitos, portanto, trata-se de uma audição agradável ao extremo e além do mais, demonstra uma abrangência salutar e esse é um trunfo do artista, devemos observar, pois Danilo pratica um tipo de Rock aberto, que pode ser classificado tranquilamente como “Aor”, ou seja, uma música bem composta, arranjada e executada em sua formatação, orientada (daí a sigla a denotar tal característica em inglês) ao público considerado “adulto” que ouve música e sobretudo vai assistir shows ao vivo com outro tipo de postura e expectativa.

A respeito do aparato gráfico, a sobriedade acompanha a predisposição do artista para se apresentar dessa forma, ou seja, com muita classe. A capa frontal é composta de uma boa fotografia a mostrá-lo sentado em frente a uma porta de madeira antiga, oriunda de algum estabelecimento comercial ou quiçá de uma igreja, a segurar o seu violão.

É uma imagem que denota uma força expressiva grande no meu entender, pois o recado é dado com muita objetividade no sentido de que o artista se mostra sem subterfúgios, a deixar claro que a sua integridade artística fala por si só.

Na parte interna da capa, a opção pela foto do “set” usado para compor a ilustração principal, mas desta feita sem a presença do artista, foi a oportunidade para que ele pudesse elaborar um pequeno texto a explanar o que acredita em seu íntimo como Ser Humano e, por conseguinte, nos legou na forma de um aforismo a sua convicção em tom motivacional a quem interessar. Acrescento que concordo com tal pensamento:

Este álbum é dedicado aos que acreditam em seus sonhos e na capacidade de se reinventar a todo momento

Para fechar a parte gráfica, a contracapa mostra mais um detalhe do set fotográfico, novamente vazio, sem a presença de Danilo Martire e com uma sutil desfocada nas bordas do enquadramento como fundo para abrigar a ficha técnica e os nomes das canções que compõem o álbum. Já no "silk", do disco em si, eu gostei bastante da foto com aplicação de desenho sobreposto, a mostrar o artista a caminhar com o seu violão às costas.

Senti falta das letras nesse encarte, mas eu como músico, sempre entendo a questão do encarecimento que esse tipo de adendo gera na arte gráfica de um álbum, portanto, relevo a ausência com a devida compreensão da realidade que nos cerca e nesse sentido, sei bem o quanto é oneroso lidar com a produção independente.

Se faltou a presença das letras no encarte e esse quesito na obra de Danilo Martire é muito valorizado por ele mesmo, pois até programa de internet ele tem para discutir a poesia musicada, há a compensação de existir um bom clip para cada canção, o que valorizou em demasia a produção.

Ouça a música: Eu de Ocasião”

Eis o link para escutar diretamente no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=6epOziZbIbo

A respeito das músicas que estão presentes neste disco, sobre a primeira faixa, ”Eu de Ocasião”, eu achei muito boa a escolha dessa canção para abrir o CD, dada a sua verve Rock’n’ Roll, portanto a produzir aquele impacto natural e bem colocado para se dar início à audição de um disco.

Canção com excelente apoio dos teclados, riff “ganchudo” a la Hard-Rock setentista e apoio excelente dos backing vocals a imprimir um teor Pop bem interessante, conta também com um bom solo de guitarra que em alguns trechos tem a boa companhia do som clássico proveniente do órgão “Hammond” a insinuar um duelo muito empolgante entre os dois instrumentistas. Gostei da linha de baixo, também com uma construção criativa, além da bateria firme ao extremo.

Escute “Dissonante”:

Eis o link para ver o clip no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=q-R7qH6DXKE

Dissonante” é uma bela balada com carga R’n’B adorável. A sua introdução a conter o elemento “Blues” é um adendo de muito bom gosto e quando o balanço entra em cena, só confirma o que eu já salientei. Gostei muito do slide guitarra a pontuar com bastante felicidade, o bom arranjo do piano elétrico, violão de apoio e ótima linha de baixo e bateria.

Veja o clip da música “Pela Última Vez”:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=2y_v-u5sjD8

Pela Última Vez” tem a sua carga da boa MPB com sabor setentista, com todo o arranjo a pender para o som mineiro, a se inspirar no melhor do Folk-Rock com aquela pitada salutar do Rock Progressivo. Gostei da linha melódica toda, sobretudo a construção do refrão, muito bem desenhado.

Assista o clip da música: “Me Reinvento”:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=dISlPeZPC7o

Me Reinvento”, a quarta faixa, já entra em ação com divisão rítmica a usar o “staccato” como recurso e imediatamente tal escolha remete a muitos artistas dos anos sessenta, bem dentro daquela predisposição de fundir o Rock ao cancioneiro popular dos anos 1920 a 1940, ou seja, a conter o elemento Folk e também o Jazz de uma maneira sutil.

Música muito bem composta e interpretada, chama a atenção pelos belos timbres dos instrumentos e pela criatividade vocal da parte de Danilo, inclusive a solar com intenção onomatopaica ao simular um instrumento de sopro com a sua voz, mediante um simulador do gênero. Não se trata de um recurso inovador, mas reforçou com brilho a intenção sessentista da canção. A parte desdobrada ao final da canção é bem bonita, igualmente.

Através da letra, Danilo fala sobre o quanto é nociva a interferência externa na vida de qualquer pessoa e ao final, o recado se encerra de uma forma definitiva quando ele diz de uma forma enfática:

Essa história que você escreveu, só o prefácio é meu

Assista o clip de “Não Quero Sair”:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=pSnsNkSWwxE

Não Quero Sair”, é um som com forte influência do Blues-Rock. Faixa bem curta, quando ela acaba fica a sensação de “quero mais”, ou seja, é uma ótima estratégia da parte do artista a se pensar na produção do álbum, propriamente dita. Mais uma vez o arranjo geral se mostra muito bem concatenado com atuações ótimas de todos os instrumentistas e naturalmente da parte vocal.

Assista o clip de “O Instante que o Tempo Para”:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=inbci5qAbMA

O Instante que o Tempo Para”, é uma balada densa com forte pendência ao Slow Blues. Gostei muito do solo de guitarra, bem naquela disposição do Blues, ou seja, a se mostrar extremamente melódico e investir pesado no aspecto emocional, além do apoio poderoso do órgão Hammond. 

Assista o clipe da canção "A Falta":

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=tKabL-nxBFs

A Falta” tem uma condução com forte apelo da MPB mais moderna, isto é, se trata de uma música bem harmonizada e cheia de detalhes interessantes no arranjo. A linha melódica é muito rica a ofertar a oportunidade ideal para o talento vocal de Danilo Martire brilhar com intensidade e ele explora cada espaço com maestria. O solo super melódico da guitarra também é um destaque.

Assista o clip de “Virtual”:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=GX6xwZIEafU

Virtual” fecha o disco. Essa canção já havia sido lançada previamente como um single apoiado com clip e chamara a atenção previamente pela sua qualidade implícita.

O violão muito bem tocado, tem o apoio do piano elétrico na medida certa, além das pontuais intervenções da guitarra em seu início e com tanta sofisticação, lembra bastante o Soft-Rock “jazzy” do duo norte-americano, Steely Dan, como uma referência minha como ouvinte, que fique claro, pois na verdade eu não sei o que exatamente inspirou o artista.

A harmonia sofisticada deu respaldo para um arranjo rico desse quilate, naturalmente, e mais um detalhe, o acréscimo da percussão foi muito bem escolhido e extremamente agradável. E certamente que abriu campo para um solo tão bonito da parte do piano elétrico, com rápidas insinuações dissonantes, inclusive, e ótimo apoio da guitarra.

Foi sábia a decisão de encerrar a canção com o recurso do “fade out” tamanha a felicidade dessa parte a conter o solo final e amparado por uma linha de baixo, bateria e percussão, cheia de balanço ao estilo da Soul Music.

Na letra, Danilo Martire questiona o aspecto ruim da modernidade tecnológica na qual vivemos nos dias atuais, a estremecer as relações humanas reais em detrimento da dita “vida virtual”, tão efêmera.

Para encerrar, digo que esse álbum “DM” do Danilo Martire é uma obra plena de virtudes em todos os aspectos e que deve ser ouvida com bastante atenção.

Gravado (parte instrumental) no estúdio Equinox09 e parte vocal no Ninrod Studios.

Todas as composições por Danilo Martire

Gravação e mixagem: Neto Florêncio

Masterização: Tiago Hospede

Gravação e direção da parte vocal: Rodrigo Lacerda

Fotografia: Elen Goulart

Projeto Gráfico: Rafael Gatti

Danilo Martire: Voz, violões e guitarras

Músicos convidados:

Áureo Alessandri: Guitarras

Nuno Xavier: Teclados

Neto Florencio: Baixo

Fisher “Batera”: Bateria

Para conhecer melhor o trabalho de Danilo Martire, acesse:

Danilo Martire – Site oficial

https://www.danilomartire.com.br/

Canal do YouTube:

https://www.youtube.com/c/danilom

Página no Facebook:

https://www.facebook.com/danilomartire.singer

Spotify:

https://open.spotify.com/artist/5ZDbvyhaLkUatSJsIxHiK6

Deezer:

https://www.deezer.com/br/artist/10499217

Contato direto com o artista:

dmartire@gmail.com

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

CD Compacto Made in Casa/V-Mentes - Por Luiz Domingues

Oriunda da cidade de Lavras, no sul de Minas Gerais, a banda “V-Mentes” lançou em 2002, um primeiro CD single, denominado: “Made in Casa”. Tal classificação do disco por eles mesmo aventada na ocasião, se referiu ao fato de que na prática, um disco com quatro músicas apenas, não poderia ser qualificado como um CD e tampouco um EP, mas na verdade, a se constituir de uma mostra reduzida do trabalho, e que a trocar em miúdos, se compararmos ao tempo dos lançamentos em discos de vinil, seria um compacto duplo, com duas músicas de cada lado.

Portanto, achei bem colocada a autoclassificação que os membros dessa banda acharam para designar do que se trata o seu próprio produto.

Na parte musical, o V-Mentes mostrou qualidade técnica e artística neste seu trabalho inicial e também uma boa dose de ecletismo ao apresentar um som com várias influências salutares. Os rapazes foram do Pop-Rock ao R’n’B com desenvoltura, mas avançaram ainda mais ao demonstrar uma boa proximidade com a MPB, e de uma maneira até surpreendente, a flertar com o Rock Progressivo e também de uma maneira bem sutil, com a psicodelia nordestina setentista.

Com um áudio satisfatório para o padrão mais comedido da produção independente, o trabalho se mostra agradável em sua audição de uma maneira geral e a performance da banda é muito boa, com cada instrumentista a desempenhar com bastante competência as suas respectivas especialidades.

Sobre a capa do álbum, ela se mostra bem simples a conter a ilustração da massa encefálica de um cérebro humano em coloração vermelha sob um fundo cor de rosa. E na parte da contracapa, há uma ficha técnica sobre o trabalho, até que bem munida de informações, dadas as circunstâncias do pouco espaço disponível para tal.

Como músico e acostumado às agruras do artista que habita o patamar “underground” da música profissional, eu entendo perfeitamente a opção por uma mídia de armazenamento no padrão do “CD-R” como opção mais viável ao bolso do artista e neste caso, sem "silk" com ilustração, portanto, relevo a ausência de um acabamento melhor categorizado nesse item.

Sobre as quatro canções apresentadas nesse álbum, destaco mais alguns detalhes a seguir:

Olhos Vermelhos” é uma releitura que a banda fez de uma canção do grande Guilherme Arantes. Sucesso nos anos 1980, a versão do Guilherme tem a sonoridade típica daquela década, com o exagero estético imposto na formulação do áudio, ou seja, a se mostrar super pasteurizado, uma grande pena, mas claro, a se tratar de um artista do quilate de Guilherme Arantes, a qualidade da canção se sobrepõe com naturalidade.

No caso desta versão do “V-Mentes”, a predisposição foi seguir praticamente o mesmo arranjo presente no disco do Guilherme Arantes, no entanto, sem aquela carga oitentista toda, pois afinal de contas, a época era outra e os membros dessa banda não sofreram imposição de algum produtor com alta carga de condicionamento em torno do comercialismo, conforme o Guilherme deve ter sido submetido nos anos 1980.

Destaco a presença de uma cantora convidada (chamada: Bruna, e faltou grafarem o seu sobrenome na ficha técnica), que apoiou bem o vocalista da banda, André Vieira.

A segunda faixa, “Ressuscitei”, tem o elemento do Rock Progressivo em diversas passagens do arranjo, inclusive no uso de boas convenções e intervenções pontuais de uma flauta transversal.

Mas a canção se mostra híbrida, no sentido de que há também elementos do som “Grunge” e do “Funk-Metal”, a se tratar de estilos surgidos ao final dos anos oitenta e mais proeminentes no início dos anos noventa, ou seja, a refletir o gosto pessoal dos rapazes que devem ter acompanhado com interesse pessoal tal cena no decorrer da adolescência de cada um.

Ao Vento” é a terceira faixa e se trata de uma balada no estilo R’n’B, e é inevitável não pensar na tendência aberta do Pop-Rock sob tal viés da Black Music, bem marcante nos anos noventa e início dos dois mil, e celebrado por bandas como o Jota Quest, por exemplo.

Não posso afirmar categoricamente que tenha sido essa a inspiração do “V-Mentes”, mas na minha percepção, foi o que me sugeriu de imediato.

O solo de guitarra com notas longas é bem interessante, com apoio bom dos teclados e na interpretação vocal, eu notei uma predisposição para a eloquência, a lembrar o estilo do Meat Loaf, de certa forma. A música avança para uma parte inteiramente diferente e nesse instante, o baixo se destaca pelo balanço imprimido.

Para fechar o disco, a canção: “Cem Tons de Cinza” traz uma boa porção de brasilidade pela via da MPB mais moderna. Além disso, o Rock Progressivo se mostra presente pela elaboração mais complexa do arranjo e aquela porção de psicodelia setentista nordestina traz um sutil elemento nonsense muito interessante para somar, sem dúvida.

Em suma, por essa pequena amostra em formato de um compacto duplo, o “V-Mentes” mostrou qualidade em todos os quesitos e automaticamente se credenciou como uma banda promissora a pleitear uma carreira interessante.

E tanto foi assim que na contracapa do disco, a banda deixou a afirmação otimista de que em março de 2003, lançaria um CD completo, todavia, a banda prosseguiu sem atingir tal objetivo e mediante uma mudança de formação, culminou que os novos companheiros do cantor André Vieira se mostraram mais interessados em atuar pela noite a interpretar música não autoral e  assim, a banda encerrou atividades por volta de 2008.

Para complementar, se não há registros específicos sobre o CD compacto, "Made in Casa", ao menos há a boa nova de que o vocalista André Vieira pode ser escutado em trabalhos solo que desenvolveu posteriormente em carreira solo, além de sua atuação com o bom grupo de Rock Progressivo, Tisaris, mediante vários álbuns lançados. Portanto, aprecie tais trabalhos relevantes, cujas indicações se encontram abaixo.

Gravado no estúdio “Olho do Anjo” de Lavras-MG, entre setembro e dezembro de 2002

Operação de áudio (captura e mixagem): André Vieira

Capa (arte e lay-out): André Vieira

Produção geral: André Vieira

Formação do V-Mentes nessa gravação:

André Vieira: Voz

Adriano: Baixo, violão e voz

Fábio: Bateria, percussão, sopros e voz

Thomaz: Guitarra, violão e voz

Ket: Teclados

Participação especial:

Bruna: Voz

Para conhecer melhor o trabalho do vocalista André Vieira, acesse o link do Spotify para ouvir quatro álbuns do grupo de Rock Progressivo, "Tisaris":

https://open.spotify.com/artist/2J4zomeknTnu3oawPeH1x4?fbclid=IwAR3y0KphcTwr148B9HvEREdQ27W4uX5Ifn0E2P_H6uvvA2My8aZuixbGj_k

O canal do Tisaris no YouTube:

https://www.youtube.com/user/tisaris

Veja essa performance ao vivo de André Vieira, em carreira solo, a interpretar a canção: "Honra":

Eis o link do YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=MEw92NYCBEk

Acima, a interpretação da música: "Frevotronic".

Eis o link do YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=hjaJw_PSNQg

Agradeço ao bom vocalista André Vieira que forneceu-me informações valiosas sobre a trajetória do V-Mentes, além de outros trabalhos seus e também ao amigo Marinho "Rocker", grande colecionador de discos e ativista cultural, que é de Lavras-MG, a terra natal dessa banda e igualmente colaborou com informações sobre a trajetória do V-Mentes.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

CD Bugs/Bugs - Por Luiz Domingues

O “Bugs” é uma banda formada no início dos anos dois mil (2002, para ser específico), em Natal, Rio Grande do Norte e que desde o começo das suas atividades, se mostrou comprometida com um trabalho versado pelo Garage Rock sessentista em essência.

Je Suis um Révolutionnaire” foi o seu primeiro registro fonográfico, lançado no mesmo ano, mas logo a seguir, o grupo preparou uma versão revista e aumentada a acrescentar mais faixas em 2003 e assim, se chegou a esta revisão do primeiro trabalho, doravante denominado apenas como “Bugs” ou seja, a se caracterizar como um disco homônimo. 

Neste caso, tal trabalho foi realizado mediante a formação da banda na época, centrada em um “Power-Trio”, a conter os seguintes componentes: Joab (bateria), Paolo (baixo e voz), e Denilton (guitarra).

A confirmar o que eu já citei anteriormente, a sonoridade é o Garage Rock de sabor sessentista como referência principal, mas no bojo das influências, outros estilos derivados e/ou contemporâneos se mostram presentes, como o Acid-Rock, a psicodelia, experimentalismo, Rock’n Roll visceral e que tais.

No próprio release presente no encarte do disco, os membros do “Bugs” deixam tal premissa muita clara, inclusive a citar artistas sessenta-setentistas do Rock e da MPB que admiram e a acrescentar influências ótimas advindas do cinema e da literatura, ou seja, um conteúdo de alto quilate que essa banda demonstra possuir com sobra.

Por falar em literatura, as letras se mostram muito interessantes, com poesia bem condizente com os poetas que eles cultuam e citam no release e de fato, eu apreciei a verve poética apresentada nas composições.

Sobre a arte gráfica da capa, a opção pela pintura abstrata a predominar tons de azul é bem bonita e a parcimônia a conter apenas o nome da banda (e homônimo ao título do álbum), certamente foi bem colocado por uma questão de coerência e ao mesmo tempo, praticidade.

No encarte, a presença das letras é muito salutar, porém, nota-se uma ficha técnica modesta, que poderia conter mais dados sobre a produção em si. Para compensar a falta de mais informações sobre o álbum, há a inserção do release a conter uma breve biografia do grupo e mais duas ilustrações a tornar esse aparato gráfico, mais atrativo.

O “Bugs” mudou de formação tempos depois e se tornou um quarteto, lançou mais discos, participou de festivais em várias partes do Brasil e ganhou prêmios em reconhecimento ao seu trabalho, eu devo acrescentar.  

Sobre este primeiro trabalho, é preciso esclarecer que a concepção da banda em termos de áudio, foi optar pelo som cru, sem muito tratamento de áudio, propositalmente no sentido da banda soar como uma Garage Rock dos anos sessenta e nesse sentido, a questão da psicodelia a ser realçada forçou uma mixagem com a voz obscurecida pelo instrumental de uma maneira geral.

Nesse caso eu penso que há beleza embutida no tratamento de voz desse áudio a conter um reverber profundo, exatamente para buscar a alma sessentista mais próxima do som das bandas de garagem.

Tal opção foi criticada por alguns jornalistas na ocasião do lançamento, no entanto, eu penso que neste caso, apesar de haver gerado uma certa dificuldade no tocante à inteligibilidade das letras em termos de dicção, a banda privilegiou o conceito como forma de demarcar a sua expressão inspirada nessa estética sessentista e difusa por natureza.

Portanto, pode parecer contraditório se as letras são comprovadamente poemas criativos que precisam ser bem escutados, no entanto, o apoio das letras impressas no encarte, supre tal necessidade, ao menos em tese (pois é, e quem não tem o encarte do disco em mãos?).

Sobre as músicas, cabe trazer à baila mais algumas considerações:

Náuseas”, a primeira faixa, mostra uma linha de baixo agressiva a lembrar o The Who nos seus primórdios e tanto é assim que na sua parte final há espaço para uma digressão extensa e expressiva. Já na sua letra, há ecos do poeta Augusto dos Anjos como influência, ao menos na minha percepção pessoal, quando se diz:

Perpetuando um gozo lúdico e apodrecendo/ Tudo isso é uma sátira moral digerida a leite”.

Laydee” investe no efeito do “looping” psicodélico como condução base e a sustentar a melodia dividida em sua métrica de uma maneira criativa.

Mais uma vez a se mostrar inspirado na poética, a banda destila trechos como:

Dentre suas gengivas cintilantes ofuscam meus olhos morgados ao encontrar-se com o sol

Bella Kiss” lembra bastante o trabalho de bandas sessentistas como o “The Music Machine”, “The Seeds” e “The Chocolate Watchband” com um tipo de vibração peculiar nesse sentido. O solo de guitarra insano (em alguns momentos a se mostrar duplo), reforça tal sentimento.

Passageiro Feliz” lembra muito os primeiros trabalhos dos “Mutantes”, com uma linha melódica bem feliz e muitos elementos psicodélicos, incluso o som "fuzz" de guitarra, tão característico da verve sessentista. 

Perfume Noturno” é um Rock visceral que remete ao trabalho do grupo norte-americano, “MC5”, sem dúvida alguma, mas é compreensível que na percepção dos ouvintes mais modernos ou no mínimo de quando esse disco foi lançado, em 2003, tenha sido classificado como “Stoner Rock”, “Indie-Rock” ou “Proto-Punk”.

Olhos Nervosos” também investe forte no efeito “looping” e tem como reforço os vocais onomatopaicos que ornam a boa melodia defendida pelo vocalista, Paolo.

É interessante a reflexão proposta na sua letra:

Seria como seus olhos/Revelassem as palavras/Pensando em Fugir?/Pensando em Fugir?

Gostei do bom uso do wah-wah pela guitarra e também da dinâmica empregada ao final, além da estranheza proposital inserida para encerrar o tema.

Vida Conjugada” é puro “Pink Floyd na sua fase “Barrettiana” pela sua constituição. A harmonia com bastante incidência de passagens cromáticas, muito wah-wah na guitarra, vocais a buscar o som pop “bubblegum” mas com bastante aspereza melódica a propor o contraste e muito experimentalismo agregado a elementos “Jazzy”, que também soma muito bem para formatar a loucura explícita e muito bem-vinda.

Edgar”, a próxima faixa, é bem Rock’n’ Roll e soa mais moderna a grosso modo, mas na prática, também tem a sua raiz vintage. Neste caso, é inevitável não pensar nos trabalhos solo de Lou Reed e Iggy Pop no início dos anos setenta, ao ouvir esta música.

Doce Avenida” é a nona faixa, e se inicia mediante uma declamação amparada por um arpejo de guitarra, além da base de baixo e bateria fincados sob um certo sentido Blues-Rock. O apoio do Backing vocal é bastante incisivo como contribuição e lembra bastante o trabalho de grupos sessentistas versados pela psicodelia britânica de Canterbury.

Je Suis un Révolutionnaire” é na verdade uma vinheta rápida e certamente que denota o apreço da banda pela “Nouvelle Vague”, Jean-Luc Godard e os fatos ocorridos em maio de 1968 em Paris como uma expressão de vanguarda revolucionária. Experimentalismo é o que não falta nessa faixa, sem deixar de mencionar a sua contundência acentuada.

Leite de Estela” tem a declamação como um recurso ao início do tema e mediante uma batida bem tribal na bateria, gera uma tensão interessante. E assim, a música avança, com intervenções de guitarras melódicas e simultaneamente com ruídos não usuais para causar um efeito de contraste bem criativo.

Em sua letra, destaca-se um verso como amostra:

Cante pra mim no deleite das horas mortas/Na excelência cardíaca e descompassada essa canção triste e epilética”...

O Bugs ao vivo, porém com uma formação diferente, como quarteto, algum tempo depois do lançamento do primeiro álbum aqui resenhado. Click: Rafael Passos

Mantra 9” (“Kraftablack”) é a décima segunda faixa e tem uma proposta mais atual em sua sonoridade ao insinuar a música eletrônica pós-anos 1990.

E para encerrar o disco, há uma segunda versão de “Laydee”, com uma sonoridade sutilmente diferente a sugerir uma nova mixagem feita sob outros parâmetros de áudio.

Em suma, o "Bugs" fez um bom trabalho de estreia, ao elencar muitos aspectos salutares em sua obra e a se destacar a sua opção explícita, ou seja, a se basear na estética dos anos 1960 como um farol a ser seguido e também na boa elaboração das letras a denotar o apreço desses artistas pela poesia mais sofisticada.

Ouça o álbum “Bugs”, homônimo da banda, através desse link do YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=xiyEdFORpK8

(agradeço ao canal de Luiz Felipe Medeiros no YouTube, que contém o álbum em sua íntegra para a audição) 

Gravado, mixado e masterizado no Ícone Studio de Natal-RN no segundo semestre de 2003

Técnico de áudio (captura): Vlamir Cruz

Técnicos de mixagem: Joab e Vlamir Cruz

Arte de capa e encarte: Bugs

Arranjos e produção musical: Bugs

Produção geral: Bugs

Gravadora Mudernage

Lançamento: 2003

Formação do Bugs nesse álbum:

Joab: Bateria

Paolo: Baixo e voz

Denilton: Guitarra

Para conhecer melhor o trabalho do Bugs, acesse:

Site Muzplay:

https://www.muzplay.net/musica/bugs

Site Wiplash:

https://whiplash.net/materias/cds/003462-bugs.html

Last.FM:

https://www.last.fm/pt/music/Bugs/+wiki