quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

TV Paulista, Na Raça e no Improviso - Por Luiz Domingues

A TV Tupi de São Paulo iniciou suas atividades em setembro de 1950, e as pessoas tendem a considerar a TV Record, fundada em 1953, como a segunda emissora criada na cidade de São Paulo, mas na verdade, desde 1952, outra emissora já estava no ar.

Tratava-se da TV Paulista, canal 5, que fora inaugurada oficialmente em março de 1952.


Fruto do esforço pessoal do deputado Oswaldo Ortiz Monteiro, ao contrário da TV Tupi que teve todo o empenho do empresário Assis Chateaubriand e da TV Record, com Paulo Machado de Carvalho, a TV Paulista nasceu de forma muito improvisada e com parcos recursos financeiros, que não lhe deram o respaldo para investir em instalações, equipamento e tecnologia.

Por exemplo, os primeiros tempos de atuação da emissora, foram muito difíceis, com as transmissões sendo feitas de forma precária, nas dependências de um apartamento localizado na Rua da Consolação.


Nesse improviso, a cozinha do apartamento era o laboratório de revelação e a sala de estar era a redação/produção e também micro estúdio para o telejornal.

A garagem do edifício, foi usada como estúdio, além de um salão no térreo, onde funcionava uma loja, anteriormente.

Mesmo assim, em condições precárias, a TV Paulista foi bravamente crescendo, mesmo diante da TV Tupi com estrutura muito maior e mesmo com a fundação da TV Record, que entrou no ar, com estrutura operacional de alto nível.

Em 1955, o deputado Ortiz Monteiro vendeu a emissora para Victor Costa e aí, a TV Paulista teve seus melhores dias, concorrendo com dignidade contra seus concorrentes gigantes.

Nessa altura, já tinham instalações mais confortáveis, instaladas na Rua das Palmeiras, em Santa Cecília, bairro da zona central da capital paulista.

Muitos artistas, técnicos e jornalistas importantes da TV brasileira, passaram pela TV Paulista.

Mesmo antes da Era das telenovelas diárias entrarem para valer no cotidiano do telespectador brasileiro, a TV Paulista investiu bastante nesse setor, ainda que não fossem com a periodicidade diária, como já observei.

Como era praxe nos primórdios da TV, nessa emissora também foram muitos os programas investindo em teleteatros ao vivo, com grandes nomes do teatro nacional.


Gente do calibre de Cacilda Becker e Nicete Bruno, só para citar duas grandes atrizes, atuaram nos teleteatros da TV Paulista, que fizeram história.

O "Circo do Arrelia", famoso programa infantil e "A Praça da Alegria", histórico humorístico popular, passaram pela TV Paulista, assim com a "Sessão Zás-Trás", outro famoso na linha infantil.

O comunicador popular Silvio Santos, também começou seus primeiros passos na TV, via TV Paulista e Hebe Camargo também teve passagem pelo velho "canal 5".

Na linha musical, o programa "Hit Parade", trazia o melhor da MPB nos anos cinquenta, com nomes como Elizete Cardoso, Cauby Peixoto e Agostinho dos Santos, entre muitos outros, emprestando suas vozes para trazer musicalidade ao canal 5.

Uma marca registrada no estúdio, era a existência de um palco giratório e uma piscina. Convenhamos, nos anos cinquenta e início dos sessenta, era um cenário luxuoso para os padrões da TV brasileira. 


Aproveitando esse recurso, surgiu o programa "Maiôs em Passarela", que intercalava números musicais com desfiles de maiôs, ou seja, atraindo uma audiência masculina e causando celeuma numa época ainda bem conservadora.

No campo do telejornalismo, o "Mappin Movietone" fez história, tendo esse nome obviamente por conta da loja de departamentos mais tradicional da cidade, o Mappin, por ser seu patrocinador.

Nos livros de história da TV brasileira, consta que o "Programa Silveira Sampaio" foi o primeiro "Talk Show" da TV brasileira.


O mote do programa era na verdade um elemento fictício. O apresentador falava sobre fatos políticos ou sociais do momento e era interrompido por um telefonema. Então, o tom esquentava, por ele conversar com uma suposta fonte que lhe alimentava com "quentinhas". Curiosamente, muitos anos depois, o jornalista Ferreira Neto usou o mesmo recurso, falando ao telefone com o fictício "Leo", que lhe dava informações supostamente privilegiadas e ele as repercutia com cinismo e muita ironia. Não tão curioso assim, pois Ferreira Neto era da produção do Programa Silveira Sampaio...

Outro programa que entrou para a história, era "O homem do Sapato Branco", liderado por Jacinto Figueira Junior. Sua linha era popularesca e passava fácil pela barreira do mau gosto ao enfocar casos de pessoas comuns em conflito e que acabavam em pancadaria e xingamentos nos estúdios. Infelizmente inaugurando assim uma linha que perdura até hoje na TV.

A parte engraçada disso, era que o Jacinto era um sujeito carismático e fazia uma tremenda onda, com seu indefectível "sapato branco" e agia na linha de um mediador de conflitos, que na verdade queria era ver o circo pegando fogo...


Na TV Paulista, havia também uma boa grade de seriados, desenhos animados e filmes de longa metragem, internacionais.

Mas como foi uma espécie de praxe nefasta nos anos sessenta, essa emissora foi vítima de incêndio muito suspeito, lhe dando prejuízo irreparável. Muito estranho...

Em 1965, indo mal das pernas financeiramente e amargando derrotas ante outras emissoras, e nessa altura, já existia com muita força também a TV Excelsior, aceitou a proposta do jornalista Roberto Marinho, que recém havia inaugurado a TV Globo no Rio de Janeiro, e assim, a TV Paulista passou a ser uma afiliada da Globo em São Paulo.


Em princípio, era uma afiliada ainda mantendo sua identidade e grande parte de sua programação tradicional, mas aos poucos, a Globo foi tesourando a participação e assumiu-se como Globo de São Paulo, canal 5.

Já em 1968, após o estranho incêndio, a TV Globo de São Paulo desistou de usar a estrutura da TV Paulista e deslocou toda a sua produção para o Rio. Os velhos estúdios da Praça Marechal Deodoro ficaram obsoletos e usados para poucas peças do jornalismo Global, como o Jornal Hoje, por exemplo, até que a Globo criasse sua nova estrutura paulistana, no Brooklin, na zona sul de São Paulo.

Há muita controvérsia sobre a venda da TV Paulista e processos correm na justiça pela família de Oswaldo Ortiz Monteiro, contra a venda da emissora, perpetrada pelo segundo dono, Victor Costa para a Rede Globo, em 1965.


Segundo defendem, sua tese é a de que a venda fora feita de forma fraudulenta, com várias falsificações de assinaturas, incluso a de pessoas falecidas oficialmente, portanto caracterizando falsidade ideológica.

Bem, é mais uma dúvida que paira sobre a construção do império que a Rede Globo construiu a partir de 1965.


A TV Paulista nasceu de forma muito improvisada e isso denota a vontade de fazer algo acontecer, a despeito da escassez de recursos.

Teve seus momentos importantes para a história da TV brasileira e foi celeiro de artistas, técnicos e jornalistas.


Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2013.

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