sábado, 7 de junho de 2014

Bandeira Paulista Esmiuçada - Por Luiz Domingues

Bandeira oficial de um país ou de uma região sempre é norteada por simbolismos. Algumas exageram, nesses maneirismos, é verdade.

A ideia básica é enaltecer aspectos que simbolizem a geografia, mas também aspectos culturais diversos e indo além, tentar captar e exprimir, a alma daquela nação ou coletividade retratada.

E não foi diferente quando foi concebida a bandeira do Estado de São Paulo.


É preciso considerar que tal estandarte foi concebido sob um momento político conturbado para o Brasil (1888) e daí, ter características bastante acentuadas no sentido de esforçar-se para ser uma concepção antagônica à Monarquia.Nesses termos, entusiastas da causa republicana, queriam uma bandeira nacional inteiramente nova, que representasse o rompimento total com o Império e o escritor e filólogo Julio Ribeiro (nome de batismo : Julio César Ribeiro Vaughan), foi incumbido da tarefa de concebê-la.                                                                                                                                                                 
A primeira e chocante providência foi quebrar a ideia das cores oficiais, o verde e o amarelo, em prol de três cores diferentes.

Adotando o preto, branco e vermelho, a teoria era a de que tais cores representavam as três raças que formavam a nação brasileira. 

Reforçava assim o conceito antropológico de uma nação multi racial, formada por brancos, negros e indígenas.

A questão das faixas horizontais (na verdade era uma velada inspiração no pavilhão norte-americano), significava segundo Julio, a representação do tempo, com dia e noite se intercalando e criando a história brasileira ininterrupta. E a faixa preta nas bordas, como estratégia de delimitação territorial. 

Mas mesmo com a vitória dos republicanos e o inevitável fim da monarquia em 1889, esse formato não vingou e a nova bandeira brasileira oficial seguiu quase o mesmo parâmetro dos tempos da monarquia, com pequenas modificações (o uso da expressão positivista "Ordem e Progresso", por exemplo, seguindo a moda criada pelo filósofo francês Augusto Comte, idolatrado pelos republicanos daquela época).

Dessa forma, a bandeira concebida por Julio Ribeiro ficou popularmente conhecida como a "bandeira paulista".

E tornou-se apócrifa, pois não era reconhecida oficialmente pelo governo federal. 


Quando da Revolução Constitucionalista de 1932, a bandeira ganhou força nas manifestações populares, tornando-se um símbolo da luta, não pela emancipação de São Paulo, mas pela reivindicação de uma nova constituição para o Brasil.

Mas somente em 1946, por decreto presidencial, a bandeira foi reconhecida oficialmente como estandarte oficial do Estado de São Paulo.


Então, outras explicações foram adaptadas ao simbolismo de seu desenho. Por exemplo, a questão das faixas simbolizando o dia e noite, agora diziam ser a representação dos dias e noites que os bandeirantes usaram em suas expedições expansionistas.

O vermelho do retângulo superior esquerdo, era o "sangue" desses homens, derramado em prol da construção do estado.

O azul representa a pujança do estado, com seu progresso e abundância de recursos.

E as quatro estrelas amarelas não tem um simbolismo formal, ainda que no projeto inicial, fossem associadas à questão da localização geográfica do Brasil.

Aliás, a presença do mapa do Brasil denota a ideia de que São Paulo se orgulhava de ser membro da federação, simbolismo que frustra os entusiastas da ideia separatista, certamente, pois denota uma incômoda subserviência ao Brasil, que é contraditória aos seus anseios.

Outra curiosidade muito interessante a cerca da bandeira paulista, era que o seu autor, era mineiro de nascimento. Mais ou menos como Pelé que nasceu em Minas, mas é considerado paulista por ter se criado na cidade de Bauru e feito sua fama em Santos, Julio Ribeiro nasceu em Sabará, Minas, morou no Rio, mas construiu sua vida profissional e familiar em São Paulo.

Julio Ribeiro era filho de um norteamericano (George Vaughan), e foi escritor (seu livro mais famoso foi "A Carne"), filólogo, membro da Academia Brasileira de Letras, ativista político e agitador cultural. Era adepto do naturalismo, um movimento cultural criado por Émile Zola.

Seu livro "A Carne", causou escândalo na sociedade da época, por abordar de forma revolucionária no romance, a história de uma mulher sexualmente livre. Com isso, comprou uma briga pública com a Igreja Católica, e dali em diante, muitas farpas foram trocadas publicamente entre Julio e membros do clero.

Sua herança literária frutificou na família, pois é avô de Elsi Lessa; bisavô de Ivan Lessa e Sergio Pinheiro Lopes e trisavô de Juliana Foster, todos escritores.

Está aí a história do pavilhão paulista...


Matéria publicada no Site/Blog Orra Meu, em 2014.

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