quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Apogeu e Decadência de um Espaço Cultural - Por Luiz Domingues




O bairro da Bela Vista, próximo ao centro de São Paulo, e popularmente conhecido como “Bexiga” tem um longo histórico de ligação com arte & cultura.


Nele, existem diversos teatros; casas noturnas; museus; feiras temáticas; livrarias; sebos & brechós; além das inúmeras cantinas e restaurantes, em sua maioria orientadas pela culinária italiana, ainda como herança dos tempos em que o bairro tinha uma população de imigrantes italianos, imensa.


E por ter tantos teatros em seu perímetro, naturalmente que o bairro virou um ponto de encontro para a classe teatral, e muitas produções nasceram nas mesas dos restaurantes, frequentados por atores; diretores; autores, e produtores.


Um dos mais importantes espaços culturais do bairro, passa atualmente por momentos difíceis, e que de certa forma traçam um triste paralelo entre glória e desgraça.


Vamos aos fatos :
Em 10 de outubro de 1940, graças aos esforços dos irmãos José Fernando e Nicolau Taddeo, inaugurou-se o Cine Rex, na esquina das Ruas Rui Barbosa e Conselheiro Carrão, ponto nevrálgico do bairro, a um quarteirão das inúmeras cantinas italianas da Rua 13 de maio.


Moderno para a época, tinha arquitetura muito semelhante aos cinemas norte americanos, em nada devendo a qualquer sala de exibição de Los Angeles.
Com 1800 lugares, era um cinema luxuoso, aconchegante, e com a melhor tecnologia possível para o fim de anos trinta / início dos quarenta.
Na primeira sessão, foi exibido o filme “Irene”, produção norte americana, com Ray Milland e Anna Neagle como atores protagonistas. 
O ator Ray Milland só ganharia um Oscar quatro anos depois, por sinal, pela sua atuação espetacular  em “The Lost Weekend” (em português, inventaram um outro nome : "Farrapo Humano"), e que muito provavelmente foi exibido no Cine Rex, também.


Por anos, o imponente Cine Rex foi mais uma das inúmeras opções cinematográficas da cidade de São Paulo, e cabe salientar que os irmãos Taddeo eram donos também do Cine Piratininga, uma sala gigantesca e histórica, localizada no bairro do Brás, também próximo ao centro da cidade.
Foto da inauguração do Cine Rex, com os seus proprietários, os irmãos Taddeo, perfilados no centro e à frente do quadro de funcionários do cinema, em outubro de 1940 

Até que na segunda metade da década de sessenta, o velho Rex passou por uma transformação.


Para os cinéfilos foi uma tristeza, mas o consolo foi que o seu novo proprietário tinha planos culturais igualmente nobres e dessa forma, a sala foi desarticulada como cinema, transformando-se num teatro.
Híbrido, com a proposta de abrigar não apenas montagens teatrais, mas também shows musicais, teve seu segundo momento de apogeu, ao final da década de sessenta, quando ali encenou-se a peça manifesto do movimento Hippie, “Hair”.


Um marco para o teatro brasileiro, não só pela absoluta contemporaneidade com a montagem original norte americana, a montagem brasileira de “Hair” em pleno ano de 1969 teve outros elementos notáveis para fazer dela, histórica. 
Primeiro por ser um verdadeiro libelo pró-Liberdade, num momento onde a ditadura militar estava endurecendo-se, nos chamados anos de chumbo, portanto, fazendo da montagem, um oásis em meio ao baixo astral generalizado na sociedade.


E numa segunda observação, por ter revelado uma verdadeira constelação de atores e atrizes que brilhariam intensamente no teatro; cinema e TV do Brasil, na década de setenta em diante, casos de Sonia Braga; Antonio Fagundes; Nuno Leal Maia; Ney Latorraca; Antonio Pitanga, além de outros já mais experientes como Altair Lima; Armando Bogus e Aracy Balabanian.
Nessa altura, o ex Cine Rex já atendia pelo nome de Teatro Aquarius, e com esse nome estiloso, cheio de significado hippie, manteve “Hair” por anos em cartaz, sob absoluto sucesso, emendando em outra produção igualmente a ver com o movimento contracultural internacional, “Jesus Christ Superstar”.


Intercalando-se a esses dois retumbantes sucessos teatrais, muitos shows de Rock foram ali realizados e o Teatro Aquarius era no início dos anos setenta, um dos maiores pontos de freaks da cidade, borbulhando em meio ao desbunde, e portanto, colorindo um pouco os tempos cinzentos de ditadura.
Secos & Molhados lançaram o seu mega bem sucedido álbum de estreia, ali.
O Som Nosso de Cada Dia lançou nos anos 2000, um CD com um
show ali gravado em 1976, histórico. 
O Apokalipsys de Zé Brasil; Silvia Helena & Cia., fez ali shows memoráveis de sua carreira.  
No ano de 1976, Rita Lee & Tutti-Frutti, em seu auge criativo, ali lançaram o LP “Entradas e Bandeiras”, numa temporada memorável que entrou para a história do Rock brasileiro, pelo lado bom e pelo mau, visto que foi nessa temporada de lançamento desse álbum, que Rita Lee foi presa sob acusação de porte de drogas.
No início de 1977, o Made in Brazil encenou seu show “Massacre”, cuja temporada rendeu um disco ao vivo, que ficou anos engavetado, mas recentemente foi lançado , enfim.


Em fevereiro desse ano, eu e Laert Sarrumor fomos ver esse show do Made in Brazil, e uma história engraçada envolvendo o saudoso jornalista /produtor Ezequiel Neves ocorreu conosco, e cujos detalhes já redigi em minhas memórias autobiográficas.
A Diva do teatro, Bibi Ferreira, encenou ali “Gota D’Água”, ainda em 1977, um momento ímpar para a dramaturgia brasileira.


Foram os últimos momentos de atuação contracultural do teatro, pois o Aquarius saiu de cena, e numa nova reformulação, transformou-se em discothequé, acompanhando os sinais dos tempos.


A efêmera (e vazia culturalmente), moda “Disco” passou rapidinho, mas a edificação ficaria ainda longe de seus propósitos culturais originais, pois ali abrigou uma boite.


Até que em meados dos anos oitenta, voltou a ter um uso mais condizente, ainda que não tão engajado com a arte mais avançada, e dando vazão assim para se tornar um auditório de programas de TV.
O maestro Zaccaro, uma figura carimbada em programas de TV populares, apresentando-se com sua orquestra, tornou-se o novo proprietário e ali por anos, o manteve para gravar seu programa particular na TV, e alugando-o para outras produções.
Por exemplo, quando o programa “Perdidos na Noite” saiu da TV Gazeta e foi para a TV Record, as gravações usavam o velho palco do Aquarius, então renomeado como Teatro Zaccaro.


Mantendo seu programa musical na TV por alguns anos, Zaccaro também usou o teatro para alavancar sua marca e vender seus bailes de formatura; debutantes e réveillon/carnaval, além das festas temáticas italianas, mote principal de sua orquestra.
Nos anos noventa, o Teatro teve um novo boom como espaço teatral, ao abrigar por muito tempo, a montagem da peça “Trair e Coçar é só Começar”, um retumbante sucesso de público, escrito pelo ator/autor Marcos Caruso.


Peça de humor popular, não tinha o élan contracultural que o teatro abrigou com “Hair” e “Jesus Christ Superstar”, além dos históricos shows de Rock, mas, claro que tinha o seu valor artístico e segurou a vocação da edificação por mais algum tempo.
Mas mesmo assim, tempos difíceis vieram e o maestro Zaccaro não segurou mais a dificuldade em manter vivo o teatro.


Não mais sendo utilizado como espaço cultural, ali virou um escritório de produção, mas rapidamente fechou as portas.


Então, o inevitável aconteceu, quando passou a abrigar  uma igreja evangélica, seguindo os passos de tantos cinemas e teatros da cidade, agora cooptados pela verba não tributável dos dízimos religiosos.


Mas não durou muito, por incrível que pareça nesse caso, e fechando as portas, a casa ficou em absoluto ostracismo.
Dia a pós dia, o declínio foi acentuando-se, com a fachada da edificação ficando num estado deplorável, e o seu entorno, tornando-se um abrigo de pessoas carentes.


Temendo invasões, os donos do prédio tomaram a providência triste de cercá-la de tapumes para evitar o pior, mas assim tornando o aspecto do velho Rex/Aquarius, um desalento.
Triste passar por ali e ver essa degradação e no meu caso, quantas lembranças gloriosas vem-me à cabeça...


O contraste entre o luxo de outrora e o lixo atual, deprimia-me.
 
Naquela esquina, Greta Garbo brilhou...Os hippies bradaram para que a luz do sol brilhasse no mundo...Maria Madalena perguntou porque não poderia amar aquele homem...Rita Lee disse estar com superestafa, e Bibi Ferreira disse que pode ser a Gota D’água...


E agora, é uma edificação caindo aos pedaços, servindo de mero abrigo para mendigos e pela calçada, seus transeuntes apressados nem fazem ideia do que ali acontecera nos seus anos de glória.
Não tenho certeza, mas parece que o atual proprietário é uma concessionária de uma montadora de automóveis de origem italiana.


A tendência é mandar passar um trator e ali construírem suas enormes vitrines para exibir os modelos do ano de sua fábrica.


Torço para que uma luz venha a iluminar algum mecenas, e que consiga reabrir o Teatro Aquarius, ou o Cine Rex, e melhor ainda, quem sabe um mix entre ambos, abrigando sala de cinema, teatro para montagens teatrais e shows musicais.


Eu sei que sou um sonhador, mas como seria alentador recuperarmos tal espaço...
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2015

4 comentários:

  1. Olá Luiz,

    Gostei das suas impressões sobre o extinto Cine-Rex, realmente deve ter sido um lugar incrível nos seus tempos de glória!
    Digo isso, por ter nascido na década de 90, mas por ser estudadnte de arquitetura e curiosa pela história do Bixiga, me deparei com esse interessante edifício e gostaria de saber se você poderia me ajudar.
    Você teria fotos da época em que ele foi Teatro Aquarius ? Meu tcc é sobre o restauro desse edifício, consegui muitas fotos das época do Zaccaro e algumas como Cine-Rex, mas é bem difícil encontrar imagens de outras épocas. Se possível ficaria muitíssimo grata.
    Abraços
    Letícia - (leticia.moneda@outlook.com)

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    1. Oi, Letícia !

      Que prazer receber a sua visita no meu Blog.

      Bem, de fato esse edifício já teve uma importância enorme para a cultura paulistana, como você tem visto em suas pesquisas.

      Já anotei seu E-Mail, e reservadamente lhe falarei sobre o que solicitou-me.

      Se puder ajudá-la em seu TCC, será um prazer para mim.

      Tenho outras matérias no meu Blog falando sobre aspectos culturais da nossa cidade, e envolvendo épocas passadas, algumas inclusive falando, ainda que bem superficialmente, sobre arquitetura. Fique a vontade para olhar nos arquivos do mesmo.

      Grande abraço !!

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  2. Olá Luiz,me chamo thiago sou neto do Nicolau Taddeo e filho do José Luiz masseram taddeo,estou em busca de documentos do meu avô,tipo onde ele nasceu,de qual cidade da Itália ele veio,você tem algum documento,gostaria de ter uma foto do Cine Rex,essa foto que ele está no centro com o irmão poderia mandar no meu e-mail pra eu guardar de lembranças. Desde já agradeço,excelente seu blog. Segue me email thiagotaddeo@gmail.com
    Obrigado

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    1. Olá, Thiago !!

      Estou muito honrado com sua visita, ainda mais ao identificar-se como neto do grande, Nicolau Taddeo, um grande empreendedor cultural para São Paulo e para o Brasil.

      Sobre as questões mais pessoais que citou, já enviei-lhe um e-mail dias atrás com esclarecimentos e sim, mandei em anexo a foto desta matéria que ilustra a inauguração do Cine Rex, com as presenças de seu avô e tio-avô.

      Grande abraço !!

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