sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Não é por Má Vontade dos Profissionais, eu Vi com meus Olhos - Por Luiz Domingues



Dor.

Não era novidade para mim uma crise estomacal proveniente da gastrite, que me ataca desde 1997, quando foi pela primeira vez diagnosticada.

Nunca erradicada definitivamente, é passível de ser controlada, mediante cuidados básicos de alimentação.


Sou abstêmio e vegetariano, não cometo abusos alimentares, mas mesmo assim, um pouco de fritura, via batatas fritas ou um pastel de feira, pode acionar o problema, latente.

Desta vez, contudo, superada a crise que mesmo tratada com um bom analgésico (que não contenha ácido acetilsalicílico, naturalmente, e que, não passa em menos de cinco horas de agonia), acarretou algo pior.

Fui acometido de um desequilíbrio de pressão arterial que passando do limite aceitável, me obrigou a procurar ajuda profissional.

Procurei um Hospital renomado, e credenciado pelo meu plano de saúde, que não está no topo dos planos caros que cobrem tudo, mas que garante descontos substanciais na sempre salgada conta médica.

Passei pela triagem e me encaminharam à uma cardiologista. 

Mocinha novinha, mas sem preconceitos contra sua suposta pouca experiência, claro que estava graduada e apta para me diagnosticar, eu deduzi.

Superando a tendência natural de ficar ainda mais nervoso no ambiente hospitalar e assim, fazer a pressão “subir”, quando ela fez a primeira medição, estava alta, mas abaixo do que eu tinha medido em casa, com aparelhinho particular.

Ela já ia me dispensar, mas eu lhe relatei que estava notando que minha urina estava turva, com coloração mais escura que o normal. 

Diante de tal queixa, encaminhou-me para um exame de sangue e urina que fiz ali mesmo, e comemorei o fato do laboratório ter sido muito rápido na análise. Em menos de uma hora, estavam me chamando para voltar para o gabinete da jovem doutora, com o resultado à sua disposição para análise.

Nesse ínterim, convidaram-me a visitar o restaurante fino pertencente ao hospital. Pensei comigo : -“puxa, nos hospitais públicos o caos é total e num hospital de luxo, tudo remete à um hotel 5 estrelas, do tratamento dispensado da parte dos mais simples funcionários à cúpula”...

Voltei ao gabinete e a mocinha de jaleco, muito solícita e educada, me tranquilizou : -“os seus exames de sangue e urina estão normais, senhor. Recomendo que tome bastante água por trinta dias, e controle a medição da pressão a cada três dias. Se voltar a dor estomacal, marque consulta com gastroenterologista” .

Pensei novamente comigo :-“não é nada...a crise de gastrite foi um pouco além da conta, disparou a pressão alta e basta eu não exagerar no pastel de feira”...


Leigo incauto, não levei em conta que os dois exames pedidos eram superficiais ao extremo, e que a doutora jovenzinha só analisou a superfície da minha queixa...

Pouco tempo depois, minha pele entrou em processo progressivo de icterícia.

Ficando amarelo, literalmente, marquei consulta com um médico gastro, e quando me sentei em sua frente no seu consultório, e lhe contei minha experiência naquele hospital caro e com seu restaurante “cinco estrelas”, ele não acreditou que a sua coleguinha jovem não tenha me internado, imediatamente.

Sendo franco, me assustou, mas foi preciso : -“cara, você tem que se internar imediatamente. Seu caso é grave, na melhor das hipóteses, é uma hepatite brava”...

Com uma lista de exames prescritos, lá fui eu para um laboratório, já cônscio de que havia uma gravidade, e não bastava só tomar água e evitar o pastel do japonês, feito na sua Kombi...

Os exames demoraram um pouco para ficarem disponíveis e nesse ínterim, fui ficando a cada dia mais “amarelo”, e sem forças, quando então as palavras do doutor ecoavam na minha cabeça : - "se piorar, nem espere os exames para retornar comigo, corra para o hospital mais perto da tua casa”.

Vendo on line, o laboratório foi liberando aos poucos alguns diagnósticos preliminares. Nessa altura, sabia que meu sangue apresentava diversos índices muito acima do normal. Em alguns itens, a marca atingida chegava a estar 500 % acima do aceitável para um homem de minha faixa etária. E já sabia que não tinha hepatite dos graus B e C, tampouco doenças tropicais, mas isso o médico já havia me perguntado se eu viajara à Amazônia, ou países africanos e claro que não, tal possibilidade de um contágio desse porte não me assustava.

Algum tempo depois, eu já tinha visto no exame on line, que meu diagnóstico era de colelitiase, e falando linguagem de leigo, “pedra na vesícula”.

Rapidamente o doutor me explicou que o tratamento era feito mediante uma cirurgia bem tranquila, ao estilo de uma endoscopia, e cujo objetivo, era a extração da vesícula, um pequenino órgão anexo ao fígado, que tem a função de um filtro. Ocasionalmente ele acumula pedras que se formam por anos e anos de ingestão de alimentos com sódio, sal e vários tipos de gordura, e a solução é sua extração sumária.



Não sendo um órgão fundamental, dá para viver uma vida normal sem ele, desde que se adquira a consciência de que agora o fígado está sozinho, e não pode ser “castigado”

Bem, se for só isso, tudo bem, pois como nunca bebi álcool, não fumo, e não como carne, portanto evito alimentação pesada com muito tempero e condimentos, não haveria de ser um sacrifício, doravante.

Mas na verdade, a conversa com o médico não foi tão amena assim na hora, no calor dos acontecimentos.

Ele foi enfático, dizendo que eu não poderia esperar nem um minuto para me internar, e buscar tal cirurgia, e assim, saindo de seu consultório, entrei num táxi e fui direto para um hospital famoso de meu bairro, mas ...público.


Na cabeça, não parava de pensar no noticiário do cotidiano, naquelas reportagens sobre o descaso da saúde pública. Cenas dantescas de insalubridade absoluta; desdém do corpo médico e dos funcionários em geral; falta de recursos; sujeira; equipamentos sucateados etc  etc.

Todavia, não me restava alternativa pela gravidade e emergência da situação, amplificado pelo fato de que meu plano particular bem fraquinho, não cobre internações e cirurgias em hospitais particulares e melhores.

O que tenho a relatar agora, é uma experiência dilacerante que envolve cansaço e angústia infernais, mas também, tem o lado angelical e humano que experimentei fortemente, e esta matéria visa sobretudo, estabelecer justiça para com os profissionais exemplares com os quais lidei, e que me salvaram a vida.


Cheguei ao Hospital São Paulo, por volta das 16 horas de uma terça-feira.

A triagem inicial foi sufocante, com quatro etapas. A multidão era impressionante ali para ser atendida. Havia de tudo, como se espera de um hospital daquele tamanho, mas ainda vivendo dias de calor intenso, e apesar do verão ter se encerrado há poucos dias, havia uma epidemia de dengue no estado de São Paulo inteiro, e como se não bastasse atender munícipes com tal enfermidade, o hospital recebia centenas de pessoas vindas de cidades interioranas.

Com a total falta de estrutura regionalizada, a solução dos prefeitos de cidades pequenas é sempre lotar vans da prefeitura com seus doentes e enviá-los para São Paulo, sobrecarregando ainda mais o já caótico serviço na capital, com “apenas” 12 milhões de habitantes para atender...


Reparei que havia um rapaz oriental, com um número de senha um pouco na minha frente, que se contorcia em dores. Ele mal conseguia ficar sentado na cadeira, e chamou-me a atenção que estava com forte icterícia, como eu. Mas pelo seu gestual, segurando a região lateral do abdômem, talvez sugerisse que estivesse com pedra nos rins.

Quando finalmente passei pela terceira triagem, e desta feita com uma enfermeira que mediu-me pressão e temperatura e não apenas perguntas burocráticas, pude relatar enfim meu caso mais detalhadamente, mostrando-lhe meus exames feitos num laboratório particular, e a carta do meu médico particular, endereçada a qualquer cirurgião, sobre a urgência em me operarem.

Já passava das 18 horas, quando finalmente fui encaminhado para ser avaliado por um médico.

Achei que a cansativa triagem de mais de duas horas, havia sido o pior, mas na verdade, agora era que amargaria horas de angústia e cansaço.

Na ultra lotada sala de espera, mais gente agonizando de dor; crianças chorando, e idosos super mal acomodados e sendo amparados por parentes, mas nem todos, eu diria, pois de uma forma triste, muitos velhinhos estavam sós.

Uma adolescente gritava com a mãe. Aparentava ter uns 14 anos de idade, mas naquele momento, se portava como se tivesse 4, pois insistia na afirmação : -“mãe, vamos embora, está demorando muito”...


A mãe ponderava que hospital público era assim mesmo, e que não podiam sair dali sem atendimento, pois havia a suspeita de dengue.

O rapaz oriental que eu vira nas três fases da triagem inicial, se contorcia e suava em píncaros. Conjecturei em silêncio que eu era até afortunado, pois estava só muito fraquinho, sem forças e muito amarelo (muito mesmo, de forma assustadora), mas não sentia dores, como aquele rapaz.

As horas foram passando. O cansaço começa a entorpecer a mente e aquela paciência na qual me imbuí assim que deixei o consultório do médico particular, estava esvaindo-se. Não há mais posição na cadeira de plástico dura, e que não comporta que uma pessoa se acomode por tanto tempo, sem sentir dores musculares acentuadas.

Uma senhora muito idosa, gemia ao meu lado. Seu gemido era contínuo, em sincronia com a respiração, denotando que a dor era uma constante em sua vida, e que talvez se acostumara a tal dinâmica.

A menina com suspeita de dengue, foi aumentando seu grau de insatisfação. Agora berrando com a mãe, se portava como criança sem consciência, exigindo ir embora. Ligava para o pai e o namorado, para irem “salvá-la” da mãe que a estava “obrigando” a esse martírio...mas espere aí, namorado ? Então para certas coisas ela gostava de ser adolescente, para outras, agia como criança pequena...o que ela realmente tinha, dengue ou dengo, fiquei na dúvida.

Já se aproximava da meia noite. Via por um monitor de TV instalado naquela saguão, mas sem entender o áudio, o último jornal daquela estação que domina a audiência neste país, após sua overdose de novelas.

A chamada dos médicos era até rápida, mas a multidão era enorme e assim, a sensação individual era de lentidão.

Via muitos médicos jovens fazendo chamada de pacientes, mas simplesmente parecia que a sala estava sempre cheia, devido ao fluxo impressionante de gente chegando.

Fora toda essa gente doente, haviam os acidentados e as vítimas da violência urbana que chegavam o tempo todo, arrebentados, literalmente, trazidos com muita truculência e adrenalina por ambulâncias do serviço de saúde pública, bombeiros e polícia militar. No caso da polícia, a tensão era enorme, geralmente trazendo bandidos baleados em confrontos e o clima era de terror, com cheiro de sangue, e a adrenalina dos policiais no limite da insanidade.

A menina dengosa extrapolou. Numa crise nervosa, pôs-se a berrar. 

Ameaçava a mãe de abandonar o hospital. Só não o fez porque estava muito fraca e mal conseguia ficar sentada. Gritos para que calasse a boca, vindos de outros enfermos na mesma situação de espera, irromperam e com razão, pois ela estava tumultuando e piorando ainda mais a vida de todos. Mas a mãe sucumbiu e “chamou a polícia”, indignada com a demora que na sua ótica, era caso de desdém da parte dos profissionais do hospital.

Assisti de meu “camarote” de plástico vagabundo, a cena dantesca, que deve se repetir à exaustão em todos os hospitais públicos do Brasil. Sentindo-se desprezados, chamam a polícia para obrigar os médicos e enfermeiros a atendê-los, julgando que a demora é desdém, mas não mensuram que o sistema vive um colapso e os profissionais não dão conta de atender a todos de forma digna. Todavia, estou antecipando-me, pois falarei dessa realidade posteriormente.

Foi quando chegou uma viatura da polícia militar e uma policial feminina de arma em punho, adentrou o saguão e “exigiu” conversar com a direção.

Fiquei pensando no quão inadequada era a ação da parte das duas. 

Tanto a mãe, como a corporação policial, estavam muito equivocadas nessa ação.

A mulher que não conhecia a realidade do hospital, e julgou que os médicos brincavam com vídeo-games na área reservada, enquanto cerca de 400 pessoas aguentavam horas de espera agonizante, e sob intensa dor, a maioria. 

E a corporação, mesmo sendo correto o pronto atendimento sempre que um cidadão o aciona, mas sabedora que ali era um hospital  sério, ligado à uma universidade tradicional e que há anos, recebe diariamente inúmeras viaturas policiais levando gente baleada e esfaqueada, num ritmo frenético.

O que aquela policial esperava conseguir ao abordar o chefe de plantão daquele pronto-socorro, com um revólver na mão ? Aquilo foi de uma falta de noção impressionante.

Enquanto isso, a senhora que gemia em sincronia com a respiração, já havia urinado duas vezes ao meu lado, transformando o entorno de sua cadeira, em algo nojento, mas muito triste, é claro. 

E o rapaz oriental parecia que ia explodir de tanta dor dilacerante. Sua expressão corporal e o suor acentuado denotavam isso, mas não se ouvia um gemido de sua parte, nem mesmo reclamações contra a "preguiça dos médicos", conversa recorrente entre muitos que ali estavam.


Passava das 2:00 horas da manhã, quando um jovem residente adentrou o saguão pronunciando meu nome, com voz impostada.
Apresentei-me de imediato, com a força que podia naquele instante, é claro.

Pelo longo corredor que percorremos, percebi que o rapaz era extremamente simpático e estabelecia comigo uma conversa coloquial, permeada de gírias, e até uso de palavrões com conotação de interjeições.

Achei louvável a sua predisposição, que tomei como uma forma de ganhar a confiança do paciente, geralmente apavorado com o mal que lhe acomete, e amplificado pelo contato com o ambiente hospitalar que assusta normalmente o leigo em geral, mas principalmente pela exaustiva demora nas três triagens.

Fico na dúvida se isso é orientação dada em sala de aulas, ou especificamente no PS, ou mesmo se é comportamento adotado por conta do rapaz e de seus colegas de forma geral, mas por iniciativa própria.

Apenas louvo a predisposição em se considerando que 99% das pessoas que atendem, tem baixo nível educacional e cultural e sendo assim, a linguagem tem de ser a mais simples possível para quebrar animosidades e/ou resistência.

Bem, o pior já havia passado, que foi vencer a triagem cansativa, mas uma segunda batalha, ainda mais demorada e cansativa, se iniciaria ali, dentro daquele corredor, mas desta feita, com a possibilidade de eu ter outra visão sobre o atendimento, com as precariedades visíveis do serviço público, mas sobretudo, do esforço hercúleo de seus profissionais para dar o melhor de si.

Na avaliação inicial, antecipei-me e relatei ao jovem residente, que estava ali por indicação do médico particular e apressei-me em lhe mostrar meus exames, hemograma e ultrasom, que diagnosticavam a pedra na vesícula.

Mediante tal material; exames preliminares; e muitas perguntas, estava convencido que eu deveria ser internado, mas havia uma série de procedimentos para tal, antes dessa resolução ser tomada.

Para início de conversa, o caso tinha que ser analisado pelo médico professor que supervisionava aquele corpo de residentes de plantão naquele instante e, por praxe, tudo bem que respeitavam a opinião do meu médico e os exames que fizera num laboratório particular, mas novos exames foram pedidos, imediatamente.

Começava ali, a maratona de duas semanas que ali permaneci, perdendo a conta de quantos exames fiz.

Cansado, pois já passava das 3 horas da manhã, mas avisado pelo médico que o hemograma solicitado demoraria quatro horas para ficar pronto, resignei-me.

Nessa altura, minha única aspiração concreta era a de que me internassem. Sabia que a cirurgia era a minha única alternativa e o meu temor inicial era o de que não conseguisse vaga na internação, devido ao colapso total do serviço público de saúde.

Horas depois, o cansaço somava-se à angústia por tal dúvida e mais os efeitos da doença que somatizavam-se. Sem dormir e praticando jejum por conta do exame solicitado, estava um “trapo humano” por volta das 8:00 horas da manhã, quando procurei o médico residente que me assistira.

Foi quando me informaram que estava acontecendo o ritual da troca de plantões e uma nova turma e um novo professor / supervisor assumiriam, mas que não ficasse preocupado, pois um novo residente ficaria responsável pelo meu prontuário.

Na avaliação do primeiro residente, a sua professora / supervisora já havia decidido me internar, mesmo antes de ver o novo hemograma, mas agora, o novo plantonista queria analisar com calma, antes de dar sua decisão.

Cabe explicar que o Hospital São Paulo é um Hospital escola, pertencente à Universidade Federal de SP. Ali é a Escola Paulista de Medicina, rival maior da Faculdade de Medicina da USP e portanto, é ponto de honra ali, ter 100 % de certeza de tudo, com um padrão de excelência, exemplar e implacável.

Ali, apesar dos pesares, residia a minha total confiança de que estava em ótimas mãos.

Um rapaz de feições árabes se apresentou como o meu novo médico, anunciando-se com seu nome típico do oriente médio, Dr. Anuar. 

                  O ex-presidente do Egito, Anuar Sadat

Ele brincou comigo, talvez acostumado com pessoas que não compreendem o seu nome, que soa exótico na nossa cultura, mas eu jamais me esqueceria, primeiro porque associei imediatamente ao ex-presidente do Egito, Anuar Sadat, e em segunda instância, porque o Dr. Anuar, foi um amigo e tanto ali naquele momento inicial, não medindo esforços pela minha internação, e conversando comigo sempre que podia, e quase nunca o era, tamanha a loucura que era a dinâmica naquela Pronto Socorro.

Não só o amigo Anuar, mas todos os seus colegas, trabalhavam alucinadamente, como se ali fosse um posto cirúrgico militar em pleno front de guerra.

Estava claro para mim, que a culpa não era dos médicos e enfermeiros, mas do completo colapso do poder público em oferecer condições de trabalho adequadas para esses profissionais não trabalharem como loucos, e serem também maltratados, ao serem responsabilizados indevidamente pelo atendimento precário.

Trocando em miúdos, para quem acha que é negligência dos médicos; enfermeiros; técnicos, e funcionários em geral, isso é uma grande injustiça, pois eles dão o máximo de si, inclusive muito além da capacidade humana, muitas vezes, e também são vítimas da falta de condições.

Ali, não só nesse primeiro dia, mas nos vários onde fiquei esperando minhas cirurgias, vi a luta e frustração desses jovens médicos. Sempre correndo pelos corredores, muitas vezes atendem duas ou três pessoas ao mesmo tempo, e são interrompidos para emergências com algum acidentado chegando, pingando sangue e com fraturas expostas as mais impressionantes.

Não guardei o nome de todos, nem mesmo o sobrenome, mas além de Felipe e Anuar que me atenderam inicialmente, lembro-me de Alexandre; Érica; Bruno; Victor; Ana; Clarice; Camila; Natália e outros cujos nomes não aprendi, correndo alucinadamente pelos corredores.

Eram 11 horas da manhã quando Dr. Anuar me comunicou que seu professor internara-me oficialmente.

Fui encaminhado à uma sala de repouso e recebimento de soro, que na verdade era um anexo ao corredor do PS.

No corredor que era imenso, e em formato de uma letra C, parecia um hospital militar no Afeganistão. Macas encostadas nos dois lados, com um tráfego constante de macas em trânsito, e geralmente sob stress total com gente entre a vida e a morte, acidentados e/ou vítimas da violência urbana.    

Nessa salinha do soro, assim que cheguei vi a garota dengosa que deu um escândalo horas antes no grande saguão e cuja mãe havia chamado a polícia, indignada com a demora...estava dormindo fatigada e tomando soro. Ouvi as enfermeiras falando, era dengue mesmo...

Nessa salinha, o correto era tomar o soro e voltar para um quarto, mas que quarto ? Todos, literalmente, que estavam em macas pelos corredores, estavam internados, aguardando cirurgia e simplesmente não haviam acomodações decentes para todos. 

Eu também seria alojado ali, mas nem isso era possível naquele instante, e a sala do soro era a primeira etapa dessa longa espera.

Ali passei três dias acomodado numa cadeira, e até ali havia dois estágios. 

Uma cadeira mais confortável e anatômica que fazia as vezes de uma cama, era o objeto de cobiça ali. Idosos ou pessoas em condições muito piores tinham prioridade, é claro. Mulheres e crianças em segundo patamar, mas chega-se num ponto onde o cavalheirismo é colocado sob judice, e a indisposição total com o mal estar pelo desconforto e a doença, faz com que isso se torne uma necessidade premente, acima da educação. 

Não cheguei nesse ponto, mas houve um momento que todos perceberam que eu estava à beira de um colapso, e num dado instante da quarta feira, uma enfermeira me alojou numa dessas poltronas melhores, onde pude dormir um pouco, mas não muito, pois o barulho, e os chiliques perpetrados por pacientes e seus entes queridos, só não era pior que as ambulâncias chegando com gente em estado lastimável, principalmente os que chegam trazidos por viaturas policiais, que são geralmente bandidos baleados, e a adrenalina dos policiais é terrível.

Até então, apesar do cansaço inacreditável e da debilidade, estava conformado com a internação nessas condições e esperançoso que numa segunda etapa, seria deslocado para uma quarto compartilhado, logicamente, mas com um leito decente, banheiro e um grau de ruído infinitamente menor, sem contar o padrão de higiene mais proeminente e consequentemente, menor risco de infecção hospitalar, pois essa preocupação a mais se instaurou em minha mente, vendo o quadro que ali se apresentava diante de mim.

Apesar de todas as precariedades, as enfermeiras eram solícitas e os procedimentos padrão ali naquela ala, estavam sendo cumpridos com bastante profissionalismo e dedicação, a não ser num dia que um enfermeiro errou a minha veia várias vezes na troca do “acesso”, mas isso não era nada diante do que eu estava passando e ainda passaria.

Um senhor idoso e muito debilitado estava ali quando cheguei e ali permaneceu depois que saí. Além da doença severa que o acometia, estava com sinais fortes de Alzheimer. Ficava falando compulsivamente coisas sem sentido e algumas pessoas à minha volta debochavam dele. Realmente a ignorância grassa, e aquilo me entristecia bastante.

Na madrugada de quarta para quinta, fui comunicado que teria que fazer exame de tomografia computadorizada.

Segunda constatação sobre o serviço público que sentia na pele, positivamente. Quanto custa isso em hospital ou clínica particular ? 

Eu não poderia pensar em outra coisa que não fosse contrária à impressão generalizada de descaso com a população. Ali, não era o que eu via, aliás pelo contrário.

Fomos levados à uma ala fora do hospital, mas por praxe hospitalar, internados não podem caminhar fora do complexo. Portanto, nos colocaram numa ambulância que deslocou-se por menos de vinte metros, levando-nos para um edifício no outro lado da calçada.

Alta madrugada, quase três da manhã e quase todas as alas desse complexo em anexo, estavam vazias e com luzes apagadas.

Claro que com tal cenário, tudo parecia fantasmagórico e me senti num set de filmagens de um filme de terror.

Éramos em cinco pessoas naquelas condições, todas que estavam habitando aquele claustrofóbico espaço da salinha de soro do PS.

Quando chegou a minha vez, passei por uma mini entrevista e fui seguindo os passos dados pelo enfermeiro que aplicou-me a injeção de contraste e advertiu-me sobre seus efeitos colaterais desagradáveis possíveis, com sensações de queimadura generalizadas.

Nada disso ocorreu-me, meu organismo não reagiu dessa forma, mas o exame foi chato sob outros aspectos.

Voltamos ao espaço do soro, e mais exames me aguardavam.

Quando chegou a quinta feira, um pouco depois da hora do jantar, mais ou menos, o meu amigo Anuar veio conversar comigo.

Numa abordagem delicada, mas bem franca, deu-me a notícia que meu caso era mais grave do que o meu médico particular havia diagnosticado. Com exames mais apurados, havia a suspeita de um tumor muito agressivo no pâncreas, e a icterícia fora causada pela obstrução do ducto biliar. Isso, de fato, o meu médico particular havia colocado como hipótese.


Então, decidiram que meu caso dependia de mais exames, mas numa primeira avaliação, eu teria que enfrentar entre três ou quatro cirurgias, colocando uma espécie de "stent" no pâncreas após a possível retirada desse tumor gigante, e aí, se tudo corresse bem, veríamos a posição do oncologista para um possível tratamento pós-cirúrgico.

Nesses termos, anunciou uma alta provisória, pois de nada adiantaria ficar internado sem essa posição definida sobre linha de tratamento a ser adotada. Estávamos na “Semana Santa”, com o hospital absurdamente superlotado; um surto de dengue trazendo gente de muitas cidades interioranas etc etc.

Então, claro que a intenção era abrir uma vaga ali, mas também estava nas entrelinhas que sendo grave o meu caso, a saída tinha uma intenção subliminar de dar-me a chance de passar um último final de semana com minha família, talvez sendo o almoço de Páscoa, o derradeiro.

Tentei amenizar ao máximo a notícia para não chocar familiares, dando-lhes informações não muito precisas sobre esse quadro, e voltei para casa na noite de quinta, bastante debilitado pela somatória dos efeitos da minha enfermidade, o cansaço daqueles três dias, com a longa espera e o desconforto absoluto pela falta de instalações adequadas do Hospital.  

Usei esses três dias em casa para agilizar uma série de coisas, já prevendo o pior.

Foi um aprendizado e tanto, pois a iminência concreta da partida definitiva, disparou uma série de reflexões importantes sobre tempo; desperdício; prioridades; pendências etc.

Voltei para o hospital na segunda-feira, antes das 6 horas da manhã, conforme o Dr. Anuar pediu-me, mas mesmo com o documento de alta provisória e convocação para reinternação em mãos, evitou-se que eu tivesse que passar pela longa e cansativa triagem de três etapas.

Minha única sorte, foi que o fluxo de pessoas era bem pequeno nesse horário ainda com a escuridão do fim de madrugada reinante, e nenhum funcionário criou empecilhos diante da documentação.

Mesmo assim, na quarta etapa, até passar novamente por Anuar e ter a internação confirmada pelo seu professor / supervisor, foi um processo de horas.

Por volta das 11 da manhã, fui chamado e voltei para a minha rotina da salinha de soro, e a briga pelo direito de ficar na melhor cadeira.

Mal acomodado numa cadeira de plástico, e exausto pela maratona de dias, apesar do refresco caseiro que tivera, minha condição de saúde estava debilitando-me naturalmente.

Apesar de tudo, estava feliz por estar ali, mesmo com tanto desconforto, e sob a expectativa incerta de horas, talvez dias para que me levassem à primeira cirurgia.

Das pessoas que me cercavam na quinta-feira, só reconheci o senhor que não parava de falar...

E o oriental, hein ? 
Nunca mais o vi, tomara que tenham lhe assistido bem, livrando-o dos males que o afligiam.

Naquele dia passei por mais uma maratona de exames. As veias começavam a ficar muito debilitadas com tantas coletas sanguíneas, e o “acesso” sendo renovado constantemente.

Numa determinada madrugada, fui instruído a ir realizar um exame sozinho, numa outra ala do hospital. Apesar da minha mobilidade estar bastante comprometida, pude fazê-lo e esse passeio foi instigante. Sentindo-me num episódio de “Kingdom Hospital”, lembrei-me bastante de Stephen King, andando em alas escuras e desabitadas, sob o silêncio da madrugada e curti, apesar de tudo, esse momento, pois além do lado lúdico sob o ponto de vista da fantasmagoria, era um momento de pausa no frenesi do PS, onde é impossível dormir, a não ser sedado fortemente, ou vencido pela exaustão.

Fui enviado para o exame da ressonância magnética e na entrevista, tive que falar sobre claustrofobia. De fato, não é agradável ficar num ambiente ínfimo, e sem mobilidade alguma, semelhante à um sarcófago, por cerca de 40 minutos. Mas preferi isso a não ter um meio dos médicos me diagnosticarem com melhores elementos científicos.

E lá fui eu, me condicionando psicologicamente para enfrentar a máquina, pela circunstância claustrofóbica e barulho infernal inerente (lembrou-me bastante uma rave de música eletrônica, mas talvez com melhor musicalidade eu diria...), quando finalmente após longos 40 minutos e fazendo um esforço auditivo enorme para ouvir os comandos do técnico (-"respira, segura, expira"...), vi que desligaram a máquina, e após um tempo, fui “desinjetado” dela.

Para a minha estupefação, o técnico estava meio sem jeito de me comunicar, e pedindo desculpas, disse-me que houvera tido uma falha, e que teríamos que cumprir mais 20 minutos daquele procedimento. Ok, sem pensar muito lhe sinalizei para o fazermos imediatamente, e sem refresco, como ele aventara para tentar amenizar o impacto.

Tal exame foi na verdade o mais providencial, pois fechou o diagnóstico final.

O que supunham ser um tumor gigante no pâncreas, era na verdade um conglomerado de pedras que migraram da vesícula, obstruindo o ducto biliar, e se alojando ali.

Estava por um triz uma continuidade desse processo de migração, e se uma só fosse parar no duodeno, as coisas se complicariam e muito.

Quem deu-me essa notícia foi o Dr. Vitor, outro jovem residente, e muito gentil no trâmite inteiro que ali passei. Anuar estava por perto e só sinalizou fazendo um sinal de positivo. Insha’Allah, amigo !!

Então afastada a pior hipótese, minha nova perspectiva era de apenas duas cirurgias, uma específica para a retirada da vesícula, a causadora inicial da pane, e outra para cuidar do pâncreas.

Quando voltei de mais exames, a enfermeira me alojou na poltrona cobiçada por todos, onde eu até poderia ficar dias, sem reclamar, pois agora era só questão de tempo para me levarem às cirurgias.

Contudo, não passou nem uma hora e uma senhora muito idosa e debilitada chegou naquela salinha e gemendo de dor, amparada pela neta, sentou-se naquela cadeira dura. Tudo bem, eu estava péssimo, mas não aguentei isso, e lhe cedi a poltrona.

Por sorte, Anuar chegou e deu-me mais uma boa notícia : eu “subiria de vida”, pois uma maca estava reservada para mim, doravante.

Quando me deitei nela, brinquei com ele, que estava no hotel cinco estrelas doravante...

Claro, era no corredor, com dúzias de macas ao redor com pessoas em condições iguais ou piores que a minha, mas diante dos dias que fiquei naquela salinha do soro, era um bálsamo...

Ali, passei cinco dias aguardando a chamada. Fiz os exames diários de praxe e um preparatório para a primeira cirurgia. No restante do tempo, era só paciência e resiliência a ser treinada.

Mais descansado pela fator maca, mas no olho do furação da emergência, foi difícil pregar os olhos ali, com o frenesi de gente arrebentada chegando a todo instante.

Acostumei-me com o cheiro de sangue nauseabundo, misturado à outras tantas coisas nojentas relacionadas às vísceras humanas, e claro que tive receio da infecção hospitalar, mas fazer o que ?

Ali, as experiências que tive foram intensas ao extremo.

Primeiro, pelo que já havia constatado nos dias anteriores, ali pertinho do centro cirúrgico de emergência, agora havia se amplificado ainda mais a impressão que esses profissionais trabalham sob um stress absurdo, e dão o seu melhor.

Não foram poucas as demonstrações de profunda humanidade que vi da parte deles, extraindo forças não sei de onde para serem gentis, mesmo não tendo tempo algum para isso e sobretudo, pela absoluta falta de recursos melhores com os quais deveriam ter, e não tem, pela vergonhosa “falta de verbas” vinda dos governantes.
Segundo ponto : como são maltratados pelos pacientes e seus respectivos acompanhantes/entes queridos...

Tudo bem que o cansaço é enorme nas triagens; tudo bem que ficar internado num corredor de Pronto Socorro insalubre é um horror que ninguém merece, mas os profissionais que ali trabalham, dão 100 % de sangue; suor & lágrimas, passando inclusive por sacrifícios pessoais gritantes. E outra coisa, quem merece ser execrado são esses ratos da política que desviam milhões dos cofres públicos, pois os hospitais estão assim, por culpa deles.

A rotina ali no Hospital, das trocas de plantões, era espartana. Cada nova equipe que entrava, estabelecia uma inspeção minuciosa, duas vezes ao dia.

Decorei a rotina...primeiro vinha uma junta de cinco a seis residentes. Um lia o relatório de seu prontuário com os dados atualizados dos últimos exames em voz alta, com os demais anotando tudo em fichários. Depois me perguntaram sobre minhas percepções pessoais a cerca de meu estado e me davam alguma informação sobre o meu estado e perspectivas.

Depois vinha uma junta de professores, com o mesmo procedimento e geralmente davam um parecer sobre os próximos passos do tratamento.

Finalmente, uma junta de enfermeiras, repetindo o procedimento, e sob o ponto de vista da enfermagem, naturalmente.

Isso quando não vinham turmas de anos iniciantes e intermediários de alunos da faculdade, sendo introduzidos ao mundo que enfrentarão quando chegarem à residência propriamente dita.

Outra constatação, aí falando de tendência de geração, quase todos os rapazes tem dois metros de altura. Antigamente a altura média do brasileiro era 1.70, e um rapaz de 1.80 era considerado muito alto, e apto para jogar basquete, mas a nova realidade brasileira é outra nesse aspecto. 

E outra, muito mais agradável de se observar, todas as meninas, nossas futuras doutoras, são belíssimas. Ver as médicas residentes ali, parecia um desfile de beleza, amenizando em muito a feiura da realidade daquele lugar de sofrimento; angústia, e insalubridade.

Terceira observação, notei uma tendência muito nítida na rotina do PS. Durante a noite e a alta madrugada, a maioria dos casos de emergências que ali chegavam eram casos de violência urbana, com policiais trazendo gente baleada e esfaqueada, predominantemente.

Já na parte da manhã, era uma enxurrada de motoqueiros acidentados, com fraturas horríveis.

Decorei a fala do funcionário da segurança, um simpático gordinho, com forte sotaque carioca, todo dia para dispersar os visitantes dos enfermos : -“acabou a hora da visita, dê um beijo no seu parente dodói, e vamos saindo por gentileza”...

Um rapaz que estava próximo de mim, estava esperando por cirurgia de reparação do fêmur que fraturara em acidente de moto. 

Era um entregador de pizzas.

Falante ao extremo, puxava conversa com todo mundo, quando não se punha a cantar música sertaneja.

Mas um dia, teve uma crise de dor, e quando pediu auxílio à enfermeira, esta passou apressada para acudir outro enfermo, e esse gesto enfureceu sua irmã que estava ao lado como acompanhante. 

Por infelicidade, havia uma mini junta médica próxima, mas nada tinha a ver com os profissionais do atendimento do PS. Tratava-se de um professor, que cercado de quatro ou cinco alunos, fazia observações sobre aspectos neurológicos, indagando seus alunos sobre a matéria. 

Mas a irmã do rapaz não levou em consideração tal caráter da presença desses médicos ali, e aos berros, lhes ofendeu, argumentando que eram insensíveis à dor de seu irmão, e que não mereciam serem chamados de médicos etc e tal.

Ok, dor é algo triste e ninguém merece. Ok, também, médico teoricamente tem o dever ético de prestar socorro em qualquer circunstância, a grosso modo.

No entanto, aquela mini junta estava ali com outro propósito, e nem eram médicos daquela ala. E por fim, a enfermeira veio rapidamente, não foi nenhum caso de desprezo como a moça insinuou, ofendendo-os.

Outro caso nesse sentido, também presenciei da minha maca. Uma mulher jovem xingou com palavras de baixo calão a jovem Dra. Clarice, acusando-a de ser “desumana” por não estar assistindo com rapidez sua avó. E não era nada disso, eu havia decorado o procedimento, a Draª Clarice já havia feito todos os seus esforços de atendimento, e os novos passos só seriam dados mediante a chegada dos exames, que demoram...

De longe, eu vi a jovem Draª com o rosto virado para a parede, fazendo uma expressão de profunda contrariedade, e provavelmente contando até dez para não explodir com a acompanhante de sua paciente.

Ao longo dos dias, eu observara com atenção a movimentação de Clarice, Anuar e todos os seus colegas, e era certo que trabalhavam o turno de 12 horas, sem tempo nem para irem ao banheiro ou tomar um copo d’água. Vendo-os naquele frenesi, cheguei a conjecturar que humanos que são também, entrariam num colapso se não diminuíssem o ritmo, mas naquela loucura, era algo impossível.

Havia um residente ali que era conhecido pela alcunha de “Francês”. Ele não interagiu comigo em nenhum momento, mas eu via sua ação que era de uma coragem extraordinária. Devia ser reconhecido entre os colegas como alguém impetuoso e de sangue frio acima da média, pois os piores casos de traumatismos que chegavam, ele era o que tomava a iniciativa do primeiro atendimento.

Numa determinada madrugada, um enfermo bêbado deu um trabalho incrível, pois além de estar todo arrebentado pelo acidente que sofrera, estava agressivo por conta da adrenalina da situação, potencializada pelo efeito do álcool.

Esse Dr. “Francês” foi muito enérgico com ele, e alguns doentes que estavam naquele corredor, incomodados com os gritos de ambos, começaram a xingá-lo, bem dentro daquela predisposição de achar que os médicos do serviço público destratam os pacientes a torto e direito, por prazer ou desprezo.

Mas eu tinha outra impressão ali, completamente diferente. 

Descontrolado, o paciente estava tumultuando completamente a enfermaria e não dava para assisti-lo naquelas condições. Claro que não era o ideal, mas o tal “Francês” estava se impondo, e estava certo, na minha ótica.

Fui chamado enfim para a primeira cirurgia. Um dia antes, fiz os preparativos e exames de praxe.

Na quinta-feira, dia 9 de abril, fui conduzido à ala da cirurgia gastro/intestinal e lá fui muito bem recebido por uma jovem doutora que me explicou todo o procedimento (não me recordo seu nome, acho que era Claudete, e só me lembro que tinha sotaque nordestino, e era muito bonita e simpática). Nada temi, pois seria pouco invasivo, rápido e indolor 100%, assemelhando-se à um procedimento de endoscopia.

Nesse dia, retiram as incríveis 11 pedras que aglomeraram-se no meu pâncreas.

Quando voltei, descansei o máximo e pude dormir em paz em meio aos gritos de dor dos enfermos, e a balbúrdia causada naquele frenesi da emergência, ainda aproveitando os efeitos da sedação.

No dia seguinte, me informaram que tudo correra perfeitamente, mas agora eu teria que fazer a outra intervenção prevista, de forma muito mais invasiva, pois a pedra da vesícula, era enorme, e não poderia ser extirpada pela via endoscópica tradicional.

Paciência, vamos de cirurgia tradicional mesmo...

Contudo, os doutores me deixaram claro que não havia perspectiva de se definir a data da segunda cirurgia, pois a prioridade era para as pessoas que chegavam todo dia na emergência.



Aqui cabe uma reflexão interessante, e antes de falar, deixo a ressalva de que abomino ideias nazi-fascistas e portanto, não me interpretem mal pelo que falarei a seguir, por favor !

Sou favorável à preservação total da vida e extirpação da dor para todo ser humano, estendendo tal máxima aos animais e vegetais, no mesmo raciocínio.

Todavia, vendo aquele quadro ali pintado, era inevitável não fazer conjecturas. Por exemplo, eu estava ali não por minha vontade própria, mas acometido de uma enfermidade. No máximo, poderia ser culpado por anos de ingestão de alimentos com alto grau de sódio ou outro componente qualquer, que culminaram na enfermidade, não me eximo disso, mas, trata-se de uma culpa involuntária, e sem intenção de causar mal a ninguém, nem a eu mesmo.

Mas no caso de bandidos que tomam a prioridade das alas cirúrgicas, em detrimento de tantos enfermos que ali ficam esperando pela mesma intervenção, é um conflito ético e tanto que deveria ser repensado pela sociedade, e especificamente pelas áreas da saúde; segurança pública e justiça.

Vejam, não sou favorável à insanidade higienista vinda de simpatizantes do nazi-fascismo, que querem que bandidos morram.  Chamem-me de sonhador, mas quero um mundo onde não hajam bandidos, mas não por terem sido exterminados em campos de concentração, mas simplesmente porque a maldade não exista mais.

Nenhum ser humano merece morrer, em hipótese alguma, sem a chance de ter um atendimento médico que o salve.

Todavia, daí a dar prioridade para alguém que deliberadamente saiu à rua para matar; ferir e roubar alguém, e por sorte da sociedade, foi frustrado em sua intenção maléfica, e baleado por agentes policiais, parece um tipo de deferência descabida que prejudica pessoas de bem que também estão enfermas e precisam do tratamento, mas não se feriram ao assumirem o risco disso em prol de prejudicar outras pessoas.

Ouvi uma sugestão muito razoável vindo de uma pessoa próxima de mim, que tocou nesse assunto, quando visitou-me no Hospital. Esse primo meu argumentou que o correto seria a criação de hospitais policiais específicos para tratar bandidos feridos em confrontos, com equipes médicas formadas por policiais de carreira, com toda a infraestrutura necessária e humanitária, porém, fazendo com que ficasse o bandido circunscrito ao espectro policial.

Com isso, aliviaria-se a carga nos hospitais públicos e também nos particulares que atendem tais ocorrências via SUS, dando mais vagas e agilidade para as pessoas de bem.

Feita a observação, que apesar de plausível é utópica no Brasil atual, fiquei mais dois dias na enfermaria, e fui informado na manhã de domingo, pela doutora Ana, que seria operado ainda naquela manhã.

Os exames que fiz para a cirurgia anterior, ainda eram válidos, quando lhe questionei sobre tal detalhe e portanto, lhe agradeci e esperei os comandos da enfermagem.

Cheguei bastante confiante ao centro cirúrgico, e tranquilo, mesmo porque, a cirurgia em si, não causa incômodo algum, mas o pós-cirúrgico é que traz adversidades e se arrasta por dias, semanas e até meses, dependendo do caso.

Quando acordei, no fim da tarde, estava me sentindo muito debilitado, e assim foi nos dias posteriores.

Finalmente, fui levado para um quarto de enfermaria e apesar das condições simples, depois de quase uma semana no PS, aquilo parecia um “resort” para mim.

Bem tratado pelas enfermeiras, com outro tipo de rotina médica, mas muito atenciosas e prestativas, passei mais seis dias ali.

Troquei de quarto no segundo dia e me colocaram junto à um senhor idoso que era doente terminal, infelizmente. 

A nutricionista da ala gástrica, veio me perguntar sobre o caso dele, se eu havia observado se o senhor estava se alimentando, e de fato, deprimido por sentir estar nos seus últimos dias, não estava, e era até compreensível. Preocupada, vi que conversou detidamente com o grupo da dor, uma junta médica especializada em enfermos terminais, e com um geriatra que prontamente se uniram para lhe dar o mais humanitário tratamento possível, nesse instante difícil. 

Fiz questão de agradecer a postura da nutricionista, outra mocinha iniciante na carreira.

Era para ter sido liberado antes, mas um dos doutores da junta que me assistiu, o Dr. Alexandre, explicou-me que meus índices hemográficos ainda apresentavam níveis anormais. Portanto, me segurariam mais um pouco, até terem certeza de que eles estivessem abaixando em progressão, indicando a reversão gradual do quadro, e aí sim, teria um acompanhamento ambulatorial por mais um tempo indefinido.

Bem, o pior passara, mas ainda estava sob cuidados e o período de debilidade seria longo no pós-cirúrgico.

Nesses dias, os exames mais chatos cessaram e só a coleta diária do sangue era o que havia de mais invasivo.

Mas muito cansado e com dores decorrentes dos pontos da cirurgia, ao menos pude descansar, porque salvo uma crise de algum paciente, o silêncio naquela ala era uma autêntica gratificação.

Tive alta no sábado, dia 18 de abril.

Os primeiros dias em casa foram duros. Não tinha a real noção de como o pós-cirúrgico era incômodo por vários aspectos. Estava muito fraquinho, com uma tosse muito intensa e que me fora informado se tratar de trauma pós-entubação, portanto normal, porque afeta a laringe/faringe/garganta, e dores abdominais adquiridas pelos pontos.

O acompanhamento ambulatorial foi cansativo na primeira vez, um mês depois, pois estava muito debilitado ainda, e a locomoção foi difícil. Por sorte, um casal de amigos de longa data me conduziu em seu carro, minimizando minha debilidade de locomoção.

Era numa clínica pertencente ao Hospital/Universidade, mas em outro endereço, ainda que no mesmo bairro.

Já na segunda e terceira consulta, minha condição foi progredindo gradativamente.

Vi muitos médicos que circulavam pelos corredores do hospital, trabalhando também nesse ambulatório. Me informaram que o rodízio faz parte da residência deles e que estão em todos os setores.

Na penúltima consulta, fui surpreendido pois quando a jovem doutora me chamou, me perguntou se eu não me importava que minha consulta fosse um misto de aula. Quando entrei no gabinete, foi um doutor-professor que me atendeu e haviam sete ou oito jovens doutoras em sua volta, ouvindo suas perguntas e minhas respostas. E o professor intercalava seu diálogo comigo, fazendo comentários análogos para as estudantes e lhes indagando com questões técnicas de meu caso e repercutindo minhas impressões pessoais sobre os sintomas.

Isso não era uma novidade. Por duas vezes ainda na enfermaria, no pós-cirúrgico, eu fora abordado por dois professores, perguntando-me se eu permitia que um grupo de alunos me vissem e meu caso fosse analisado como atividade curricular extra sala-de-aulas. Fiquei até lisonjeado em ajudar e dar minha ínfima parcela de colaboração com o Hospital/Universidade, como forma de agradecimento até, por terem salvo a minha vida e terem tido todo o empenho para devolver a minha vida normal, com a saúde restabelecida.

Uma vez com uma turma de 3º ano de medicina, e esse professor era brincalhão e carinhoso com seus jovens alunos, tolerando até sua timidez sem sentido em responder perguntas. Eu percebi nitidamente que o medo de arriscar errar e ser ridicularizado os “travavam”, e o professor brincava com isso, descontraindo o ambiente e não humilhando-os. Bem, meus doze anos como professor de música me deram noções sobre pedagogia e didática, certamente.

Outra vez, na mesma semana, uma professora fez o mesmo, solicitando-me nesse sentido. Eram alunos ainda mais jovens, do segundo ano, e aquelas carinhas de quase adolescentes, revelavam uma certa insegurança, natural para quem dava os primeiros passos e ainda estava iniciando o processo de sair da sala de aulas e da instrução meramente teórica. Pensei comigo, logo estarão na residência do PS, como os jovens do quinto ano que ali vi, e vivendo a experiência do stress total de ser médico num campo de guerra, literalmente...

Na quinta consulta ambulatorial, tive enfim a alta definitiva.

Queria apertar a mão de cada médico residente; professor veterano; enfermeira, e técnico que me acompanhou no processo todo, mas o rodízio ali é total e fica difícil estabelecer relação social nessas circunstâncias.

Não anotei o nome de ninguém, só pude citar uns poucos pelo prenome, nesta matéria.

O objetivo desta matéria não foi tecer um relato de lamentos pessoais, mas sim, trazer ao leitor um outro lado do atendimento de saúde pública que eu vivenciei.

Não descarto a hipótese de que em outras instituições públicas, haja descaso da parte de maus profissionais. Apenas relato o que eu vi e senti na pele, ou seja, ao contrário da convicção paradigmática da maioria da população brasileira, dando conta de que na saúde pública, nada funciona a contento por puro descaso dos profissionais que a servem, ali, no Hospital São Paulo, o que eu vi e senti na pele, foi justamente o contrário.

A abnegação; o sacerdócio profissional; a entrega; o sacrifício profissional; a frustração por não poderem atender melhor; a delicadeza em tratar com humanidade; a implacável busca do diagnóstico sem margem de dúvida, tudo isso é marca registrada ali dentro.

Quem deve ser cobrado de forma contundente para que não hajam aglomerações insustentáveis nas unidades públicas de saúde, são os mandatários do poder público, de todas as instâncias do poder executivo e também os do poder legislativo, que votam e vetam projetos de Leis.

Em tempos de crise ética total, a operação Lava Jato perpetrada pela Polícia Federal, com apoio do Ministério Público e do Poder Judiciário, mostra-se uma esperança de dias melhores para o povo brasileiro.

Sem soar ingênuo, mas sendo realista, desse montante inacreditável de valores surrupiados dos cofres públicos, por esses facínoras, daria-se um jeito na melhoria das condições da saúde pública.

Mais hospitais, regionalizando o atendimento e desafogando o sistema das grandes capitais; melhoria e ampliação dos complexos já existentes; investimento maciço em equipamentos; almoxarifado, despensas de alimentos, e farmácia sempre abastecidos; melhorias nas clínicas laboratoriais; aumento significativo da oferta de leitos, extinguindo a presença de pessoas em corredores de enfermarias e principalmente na ala de Pronto Socorro; Melhorias no atendimento das triagens, agilizando o primeiro atendimento; valorização dos profissionais com plano de carreira digno e salários melhores; enfim, isso tudo e muito mais, pode até soar utópico, mas garanto, com o dinheiro roubado por anos a fio, daria de sobra e certamente poderíamos também reestruturar todo o sistema educacional, além de outras tantas prioridades deste país.

Cerca de 40 dias depois que saí da internação, vi reportagens de jornalismo, mostrando que os residentes do Hospital São Paulo organizaram uma greve branca, insatisfeitos com a falta de verbas a lhes darem melhores condições de atendimento à população. Não aguentam mais atender milhares de pessoas, quando o hospital comportaria dez vezes menos. Entendi perfeitamente a reivindicação deles e me solidarizei, é claro. 

Escrevi esta matéria em outubro de 2015, estou bem, e minha única restrição é não fazer exercícios físicos acentuados ou carregar peso excessivo, até julho de 2016.

Sou muito grato ao Hospital São Paulo; Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); e à Escola Paulista de Medicina.

Agradeço aos médicos e enfermeiros todos que me ajudaram no hospital e no ambulatório, e nomeio apenas alguns poucos cujos nomes guardei : Anuar; Felipe; Bruno; Victor; Érica; Alexandre; Ana; Natalia; Camila e Clarice.

Esses profissionais trabalham num ritmo frenético, super estressante e enfrentando muitas dificuldades, portanto, quando ouço gente desqualificando a saúde pública, sei que a crítica não pode ser generalizada de forma alguma, pois eu estive lá e devo minha vida à esses profissionais. 

4 comentários:

  1. Um relato emocionante... não consegui parar de ler. Ja passei por experiência semelhante e nao pude deixar de sentir o coração apertar. Ao lado do drama humano, a radiografia perfeita do Brasil. Bravo! Muita saude e luz para vc. Abraços.

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    1. Sinto-me lisonjeado com sua visita ao meu Blog, e mais que isso, com o elogio ao texto; solidariedade e identificação com o que relatei, visto ter passado por sufoco semelhante ao meu, em termos de saúde.

      Sobre o caos na saúde pública, acho que concordamos, só um choque de ética e civilização para fazer essa classe política horrorosa que temos, parar de roubar de forma absurda e acintosa, os cofres públicos.

      Mas convenhamos, de onde saem os políticos, e os empresários mal intencionados que estabelecem as negociatas ? Não saem do seio do povo ?

      Pois o choque tem que ser geral, quebrando o maldito paradigma da "malandragem" do povo brasileiro. Quando conseguirmos esse feito histórico, finalmente poderemos ter um país mais justo e organizado, com serviços públicos dignos dos impostos que pagamos, com a certeza de haver o retorno social adequado.

      Grato, meu amigo ! Muita saúde e felicidade para você, seus familiares e amigos, também !!

      Grande abraço !

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  2. Pois é, Luiz, como alguém disse, um depoimento emocionante! Fidedigno, lúcido e sereno. Quem já passou por algo semelhante sabe bem avaliar a verdade dessas palavras. Acima de tudo, demonstra compreensão e gratidão. E este é o maior exemplo que se pode dar nestas horas...

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    1. Sensacional que tenha gostado, Zé Rubens !

      De fato, você soube interpretar bem a intenção do meu depoimento.

      E foi muito feliz em afirmar que não basta a resiliência diante de um quadro de perda da saúde e submissão aos recursos tão combalidos da saúde pública deste país, mas sobretudo ter-se a serenidade de avaliar a realidade, separando o joio do trigo, e foi o que fiz, no texto. Indo além, agradecer e retribuir, ainda que não na mesma proporção em que recebi ajuda, é um prazer depois de tanto amparo humanitário recebido.

      Muito grato por ter lido e comentado com propriedade !!

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