sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Não é por má vontade dos profissionais: eu vi com os meus olhos - Por Luiz Domingues



Dor.

Não se tratava de nenhuma novidade para a minha percepção pessoal, lidar com uma crise estomacal proveniente da gastrite, um problema que me acometia desde 1997, quando essa doença foi pela primeira vez diagnosticada. Nunca erradicada definitivamente, seria em tese, passível de ser controlada, mediante cuidados básicos de alimentação.

Sou abstêmio e vegetariano, não cometo abusos alimentares, mas mesmo assim, um pouco de fritura, via batatas fritas ou um pastel de feira, poderia trazer à tona o problema latente. Desta vez, contudo, superada a crise que mesmo tratada com um bom analgésico (que não continha ácido acetilsalicílico, naturalmente, e dor essa que não costumava passar em menos de cinco horas de agonia, mesmo assim), desta feita acarretou em algo pior.
Fui acometido de um desequilíbrio provocado pela pressão arterial que ao passar do limite aceitável, obrigou-me a procurar ajuda profissional. Procurei um hospital renomado e logicamente credenciado pelo meu plano de saúde (que aliás não figura no topo dos planos caros que cobrem tudo, mas que garante pelo menos descontos substanciais na sempre salgada conta médica). Passei pela triagem e fui encaminhado à avaliação de uma cardiologista. Moça bem novinha, mas sem preconceitos de minha parte, contra a sua suposta pouca experiência, pois haveria de ser óbvio que deveria estar graduada e apta para a diagnosticar-me, eu deduzi.
Ao superar a tendência natural de ficar ainda mais nervoso no ambiente hospitalar e assim, estimular a pressão para que ela subisse ainda mais, quando a jovem doutora estabeleceu a primeira medição, esta se encontrava alta, todavia, abaixo do que eu havia medido em casa, com um aparelho para uso doméstico (e eu sei que tais aparelhos caseiros são questionáveis). 

A doutora já tencionava dispensar-me, mas eu relatei-lhe que estava a notar que a minha urina estava turva nos últimos dias, ou seja, com a coloração mais escura que o normal. Diante de tal queixa, a jovem médica encaminhou-me para um exame de sangue e urina que fiz ali mesmo no laboratório do complexo hospitalar e nesse instante, comemorei o fato do laboratório ter sido muito rápido para obter sua análise. Em menos de uma hora, uma atendente solicitou que eu voltasse ao gabinete da jovem cardiologista, mediante o resultado à sua disposição para a necessária análise.
Nesse ínterim, uma funcionária convidou-me a visitar o restaurante fino pertencente ao hospital. Pensei comigo: “ora veja só, a mídia bate na tecla que nos hospitais públicos o caos é total, mas em um hospital de luxo, tudo remete a um hotel cinco estrelas, do tratamento dispensado da parte dos mais simples funcionários a sua cúpula”. E claro, fiquei com a impressão clara que aquela visita inusitada tinha a forte intenção de impressionar-me como a um cliente que é tratado assim em lojas de artigos de luxo, para deslumbrá-lo. A que ponto usam a medicina com tal propósito torpe.  

Voltei ao gabinete e a moça de jaleco, muito solícita e educada, tranquilizou-me: -“os seus exames de sangue e urina estão normais, senhor. Recomendo que tome bastante água, por trinta dias, e controle a medição da pressão a cada três dias. Se voltar a dor estomacal, marque consulta com o seu gastroenterologista de confiança". Pensei novamente comigo: "sendo assim, não é nada grave e nesse caso, talvez a crise de gastrite tenha ido um pouco além da conta, disparou a pressão a torná-la mais alta e bastaria eu não exagerar no consumo de pastel de feira, doravante.

Leigo & incauto nos trâmites da medicina, não levei em conta que os dois exames pedidos mostraram-se superficiais ao extremo e que a doutora inexperiente, sim, devo frisar, só analisou a superfície da minha queixa, ao seguir um procedimento padrão. Voltei para a casa me sentindo mais tranquilizado, tomei banho e fui cumprir um compromisso de trabalho, naquela mesma noite, embora me sentindo enfraquecido. Pouco tempo depois, ou seja, questão de um ou dois dias, a minha pele entrou em processo progressivo de mudança de coloração, em torno do avanço da icterícia.

Por ficar "amarelo", literalmente, e me assustar muito com tal reação, marquei uma consulta com um médico gastro e quando sentei-me em sua frente em seu consultório e contei-lhe a minha experiência naquele hospital caro e com seu restaurante “cinco estrelas”, ele não acreditou que a sua colega jovem não tenha me internado, imediatamente. Sendo franco, assustou-me, porém foi preciso: “rapaz, você tem que internar-se, imediatamente. O seu caso é grave, na melhor das hipóteses, é uma hepatite severa que o acomete”.
Com uma lista de exames prescritos, lá fui eu para um outro laboratório, já cônscio de que havia gravidade, e não bastava apenas tomar água e evitar o pastel do japonês, feito em sua "Kombi" estacionada na entrada de uma feira livre de bairro. Desta feita, os exames demoraram um pouco para ficar disponíveis e nesse ínterim, eu pus-me a ficar a cada dia, mais “amarelo”, e sem forças, quando então as palavras do doutor passaram a ecoar assustadoramente na minha cabeça: "se piorar, nem espere os exames para retornar comigo, corra para o hospital mais perto da tua casa”.
Tomei conhecimento da situação, via "on line", pois o laboratório liberara aos poucos alguns diagnósticos preliminares. Nessa altura, eu já sabia sabia que o meu sangue apresentava diversos índices muito acima do normal. Em alguns itens, a marca atingida chegava a estar 500 % acima do aceitável para um homem de minha faixa etária naquele momento. E já tinha também a consciência que eu não detinha hepatite, dos graus B e C, tampouco doenças tropicais, mas isso o médico já havia me perguntado se eu viajara à Amazônia, ou países africanos e claro que não, tal possibilidade de um contágio desse porte não preocupava-me.

Algum tempo depois, eu já havia verificado o resultado do exame completo, on line, e que o meu diagnóstico fechara de forma definitiva em torno da doença chamada: "colelitíase", ou a falar mediante a linguagem de um leigo, a tratar-se da popular, “pedra na vesícula”. Rapidamente o doutor explicou-me que o tratamento era feito mediante uma cirurgia bem tranquila, ao estilo de uma endoscopia, e cujo objetivo, seria a extração da vesícula, ou seja, um pequenino órgão que encontra-se localizado em anexo ao fígado, e que tem a função de um filtro, algo bem básico. Ocasionalmente ele acumula pedras que formam-se por anos e anos por conta da ingestão de alimentos a conter doses de sódio, como por exemplo, produtos que contenham alta porcentagem de sal e também vários tipos de gorduras sob proveniência variada, e que neste caso, a única solução seria a sua extração sumária.


Não sendo um órgão fundamental para a manutenção da existência, seria possível manter um estilo de vida normal sem ele, desde que fosse adquirida doravante, a consciência de que o fígado estará sozinho dali em diante, e que não poderia ser sobrecarregado nunca mais. Bem, se fosse apenas isso, tudo bem, pois como eu nunca bebi álcool, não fumo e não como carne, portanto evito alimentação pesada com muito tempero e condimentos, não haveria por ser um sacrifício insuportável, doravante. Todavia, na verdade, a conversa com o médico não foi tão amena assim nesse instante, no calor dos acontecimentos.
Ele foi enfático, ao dizer que eu não poderia esperar nem um minuto para internar-me, e que deveria buscar tal cirurgia de imediato, e assim, ao sair de seu consultório, eu entrei em um táxi e fui direto para um hospital famoso de meu bairro, mas, ante as cinscunstâncias da minha falta de recursos avantajados e sem um plano de saúde desses mais caros, se tratou de um hospital público.

Na minha mente, eu não parava de pensar no noticiário do cotidiano, naquelas alarmantes reportagens sobre o descaso da saúde pública. E mesmo a ter consciência da orquestração leviana que tal vilipêndio carrega nas suas entranhas para privilegiar a ideia de que a saúde pública é péssima e que a solução é aderir aos planos de saúde caríssimos, é claro que mesmo sendo um entusiasta do SUS, por natureza e consciência, eu sabia que a demanda não aguenta a falta de recursos suficientes para manter esse esforço hercúleo que tal sistema tão nobre precisa para praticar medicina humanitária. 

Portanto, veio à minha mente cenas dantescas a exibir a insalubridade absoluta, falta de recursos, pouca higiene, equipamentos sucateados etc. Todavia, não restava-me outra  alternativa pela gravidade e emergência da situação, a amplificar-se pelo fato de que o meu plano de saúde particular revelava-se bem insípido, por não cobrir internações e cirurgias em hospitais particulares e com melhores condições de atendimento. Em suma, o que tenho a relatar agora, é uma experiência dilacerante, que envolve cansaço e angústia infernais, mas também, detém o lado angelical e humano que experimentei fortemente, e sendo assim, esta matéria visa sobretudo, estabelecer justiça para com os profissionais exemplares com os quais lidei, e que salvaram a minha vida.

Cheguei ao Hospital São Paulo, por volta das 16 horas de uma terça-feira de março de 2015. A triagem inicial foi sufocante, com quatro etapas. A multidão era impressionante ali para ser atendida. Havia de tudo, como espera-se de um hospital daquele tamanho, mas ainda a viver dias de calor intenso, e apesar do verão haver se encerrado há poucos dias, havia uma epidemia de dengue no estado de São Paulo, inteiro, e como se não bastasse atender munícipes com tal enfermidade, o hospital recebia centenas de pessoas vindas de cidades interioranas. Com a total falta de estrutura regionalizada, a solução dos prefeitos de cidades pequenas é sempre lotar vans das suas respectivas prefeituras, com os seus doentes e enviá-los para a cidade de São Paulo, para sobrecarregar ainda mais o já caótico serviço na capital, como se não bastasse haver somente na capital paulista,  “apenas” 12 milhões de habitantes para atender.
Na sala da primeira triagem, reparei que havia um rapaz com feição oriental, com um número de senha um pouco na minha frente, e que contorcia-se em dores. Ele mal conseguia ficar sentado na cadeira, e chamou-me a atenção que estava com uma incidência forte de icterícia, como eu. Mas pelo seu gestual, a segurar instintivamente a região lateral do abdômen, talvez sugerisse que estivesse com pedra nos rins.
Quando finalmente passei pela terceira triagem, e desta feita com uma enfermeira que mediu-me pressão & temperatura e não apenas a inquirir-me com perguntas burocráticas, eu pude relatar enfim o meu caso mais detalhadamente, ao mostrar-lhe os meus exames feitos através de um laboratório particular, e a carta providenciada pelo meu médico particular, endereçada a qualquer cirurgião, sobre a urgência para que eu fosse operado. Já passava das 18 horas, quando finalmente eu fui encaminhado para ser avaliado por um médico. Achei que a cansativa triagem de mais de duas horas, havia sido o pior, mas na verdade, nesse momento posterior foi que eu amargaria muito mais horas e sob angústia e cansaço extenuante.
Na ultra lotada sala de espera, havia mais pessoas a agonizar com bastante dor, crianças a chorar, idosos super mal acomodados (amparados por parentes em estado de nervosismo, devo acrescentar), mas nem todos tinham amparo, eu diria, pois de uma forma triste, muitos idosos estavam solitários ali, a ter que lidar com as suas muitas limitações. 

Uma adolescente gritava com a sua mãe. Aparentava ter cerca de 14 anos de idade, mas naquele momento, portava-se como se tivesse 4, pois insistia na afirmação: “mãe, vamos embora, está a demorar muito!”
A mãe ponderava que na média, hospital público era assim mesmo, e que não podiam sair dali sem atendimento, pois havia a suspeita de dengue no seu caso. O rapaz oriental que eu vira nas três fases da triagem inicial, contorcia-se ainda mais e suava em píncaros. Conjecturei em silêncio que eu seria naquele ambiente até um afortunado, pois estava a sentir-me apenas muito fraco, sem forças e muito amarelo (muito mesmo, de forma assustadora), contudo, não sentia dores lancinantes, como aquele rapaz.
As horas foram a passar. O cansaço começou a entorpecer-me a mente e aquela paciência na qual eu havia me imbuído, assim que deixei o consultório do médico particular, estava a esvair-se. Não havia mais posição possível que atenuasse a dor muscular advinda daquela cadeira de plástico vagabundo e bem dura, e que na verdade não comporta que uma pessoa acomode-se por tanto tempo, sem que sinta tal incômodo acentuado e ainda mais a se levar em conta que cada pessoa ali presente, estava com problemas sérios para tratar e muitas, com dores muito fortes. 

Uma senhora muito idosa, gemia ao meu lado. O seu gemido era contínuo, em sincronia com a sua própria respiração, a denotar que a dor que ela sentia, seria possivelmente uma constante na sua vida, e que talvez acostumara-se com tal dinâmica. A menina com suspeita de dengue, colocou-se a aumentar o seu grau de insatisfação. Agora a berrar com a mãe, portava-se como uma criança sem consciência, ao exigir ir embora. Essa adolescente ligava para o seu pai e também para o seu o namorado, para que ambos fossem lá, para “salvá-la” da mãe que a estava “a obrigar” a esse martírio. Mas espere aí, como assim, namorado? Então para certas coisas ela gostava de ser adolescente, mas para outras, agia como uma criança pequena que não tem noção das coisas, ou seja, o que ela realmente tinha, dengue ou dengo, eu fiquei na dúvida.
Já aproximava-se da meia noite. Via por um monitor de TV instalado naquela saguão, mas sem entender o áudio, o último jornal daquela estação que domina a audiência neste país, após a conclusão da sua costumeira overdose de novelas. A chamada dos médicos mostrava-se até rápida, mas a multidão era enorme e assim, a sensação individual era de lentidão extrema. Eu via/ouvia muitos médicos jovens a estabelecer a chamada nominal dos pacientes, contudo, simplesmente parecia que a sala estava sempre cheia, devido ao fluxo impressionante mais pessoas a chegar. Não dão conta do fluxo, é um fato.

Além de toda essa gente doente, havia os acidentados e as vítimas da violência urbana que chegavam o tempo todo, arrebentados, literalmente, trazidos com muita truculência e adrenalina por ambulâncias do serviço de saúde pública, corpo de bombeiros e polícia militar. No caso da polícia, a tensão era enorme, geralmente a conduzir bandidos baleados em confrontos e o clima era de terror, com cheiro de sangue insalubre e a adrenalina dos policiais no limite da insanidade. 

Nesse ínterim, a menina dengosa extrapolou. Sob uma nova e muito acentuada crise nervosa, pôs-se a berrar e assim instaurar o escândalo generalizado naquele ambiente. Ela ameaçava a mãe sobre abandonar o hospital. Só não o fez porque estava verdadeiramente doente e muito fraca, portanto, mal conseguia ficar sentada. Gritos para que essa garota calasse a boca, vindos de outros enfermos na mesma situação de espera, irromperam e com razão, pois ela estava a tumultuar e por conseguinte, piorar ainda mais a vida de todos. Todavia, a mãe sucumbiu aos apelos da adolescente neurastênica e “chamou a polícia”, indignada com a demora pelo atendimento, isto é, na sua ótica, a demora pelo atendimento seria um caso de desdém da parte dos profissionais do hospital.
Assisti de meu “camarote” de plástico vagabundo, a cena dantesca, que deve repetir-se à exaustão em todos os hospitais públicos do Brasil. Ao sentirem-se desprezados, as pessoas incautas tendem a chamar a polícia, no afã de obrigar os médicos e enfermeiros a atendê-los, por assim julgar que a demora é um sinal de desleixo desses profissionais, mas tais pessoas não mensuram que o sistema vive um colapso devido à alta demanda e assim, os profissionais simplesmente não dão conta de atender a todos de uma forma mais rápida. Todavia, estou a antecipar-me, pois certamente que eu falarei dessa realidade posteriormente, no curso desta matéria.

Foi quando chegou uma viatura da polícia militar e uma policial feminina com arma em punho e semblante a demonstrar muito nervosismo, adentrou o saguão e “exigiu” conversar com a direção do hospital. Fiquei a pensar no quão inadequada seria a ação da parte das duas partes. Tanto a mãe, como a corporação policial, estavam muito equivocadas nessa ação.
A mulher, que não conhecia a realidade do hospital e julgou que os médicos brincavam com videogames na área reservada, enquanto cerca de quatrocentas pessoas aguentavam horas de uma espera agonizante, e sob intensa dor, no caso de sua imensa maioria. E a corporação, mesmo sendo correto o pronto atendimento sempre que um cidadão a aciona, mas sabedora que ali era um hospital sério, ligado a uma universidade tradicional e que há anos, recebe diariamente inúmeras viaturas policiais a conduzir gente baleada e esfaqueada, sob um ritmo frenético. Neste caso, o que aquela policial completamente despreparada para exercer a sua função, esperava conseguir ao abordar o chefe de plantão daquele pronto-socorro, com um revólver na mão de forma intimidatória? Aquele ato foi de uma falta de noção impressionante.

Enquanto isso, a senhora que gemia em sincronia com a respiração, já havia urinado duas vezes em suas próprias vestes e ao meu lado, para assim transformar o entorno de sua cadeira, em algo nojento, porém muito triste, é claro. E o rapaz oriental parecia que ia explodir de tanta dor dilacerante que acusava sentir. A sua expressão corporal e o suor acentuado denotavam isso, mas não ouvia-se um único gemido de sua parte, nem mesmo reclamações contra a "preguiça dos médicos", conversa recorrente entre muitas outras pessoas que ali estavam presentes.
Passava das duas horas da manhã, quando um jovem residente adentrou o saguão a pronunciar o meu nome, com a sua voz impostada para mostrar-se grandiloquente. Apresentei-me de imediato, com a força que eu podia empreender naquele instante, é claro. Pelo longo corredor que percorremos juntos, percebi que o rapaz era extremamente simpático e estabelecia comigo uma conversa coloquial, permeada por gírias, e até no uso de palavrões corriqueiros entre a patuleia, como uma forma de buscar a conotação das interjeições populares. Achei louvável a sua predisposição, que tomei como uma forma para ganhar a confiança do paciente, geralmente apavorado com o mal que acomete-lhe naquele instante e amplificado pelo contato com o ambiente hospitalar que assusta normalmente o leigo em geral, mas principalmente pela exaustiva demora observada durante o martírio das três triagens obrigatórias. Fiquei na dúvida se isso fora uma orientação regulamentar, ensinada em sala de aulas da universidade, ou especificamente como um procedimento protocolar para o ambiente no "PS", ou mesmo se tratou-se do comportamento adotado por conta específica desse rapaz e/ou de seus colegas de uma forma geral, por iniciativa própria.
Apenas louvo a predisposição, ao considerar-se que a grande maioria das pessoas que eles, médicos residentes, atendem em tal circunstância, ostentam um padrão de baixo nível educacional e cultural e sendo assim, a linguagem precisa ser a mais simples possível para quebrar animosidades e/ou resistência ante a avaliação médica. 

Bem, na minha percepção pessoal, o pior já havia passado, que foi vencer a triagem cansativa, mas uma segunda batalha, ainda mais demorada e cansativa, iniciar-se-ia ali, dentro daquele corredor, porém, desta feita com a possibilidade para que eu obtivesse uma outra visão sobre o atendimento, mediante, sim, as precariedades visíveis do serviço público, mas sobretudo, a observar o esforço hercúleo de seus profissionais para dar o melhor de si.
Nesse ponto, através da avaliação inicial do jovem médico, eu antecipei-me e relatei-lhe, que estava ali por indicação de um médico particular e dessa forma, apressei-me para mostrar-lhe os meus exames, a conter o hemograma completo e o ultrassom, que diagnosticavam a questão da colelitíase/pedra na vesícula.
Mediante tal material, a conter os meus exames preliminares e muitas perguntas que formulou-me, ele se mostrou convencido de que eu deveria ser internado, todavia, havia uma série de procedimentos para tal, antes dessa resolução ser tomada.
Para início de conversa, o caso precisava ser analisado pelo médico/professor que supervisionava aquele corpo de residentes de plantão naquele instante e, por praxe, tudo bem que respeitavam a opinião do meu médico particular e os exames que eu fizera em um laboratório privado por minha conta, porém, novos exames foram pedidos, imediatamente. Começava ali, a maratona a contabilizar duas semanas nas quais ali eu permaneci, ao perder a conta, literalmente, sobre por quantos exames fui submetido. 

Cansado, pois já passava das três horas da manhã, mas avisado pelo médico que o hemograma solicitado demoraria quatro horas para ficar pronto, resignei-me. Nessa altura, a minha única aspiração concreta seria a de que internassem-me. Eu sabia que a cirurgia seria a minha única alternativa e nesta altura dos acontecimentos, o meu temor inicial foi por não haver a certeza de que eu conseguiria uma vaga na internação, devido ao acúmulo absoluto de pessoas em situação parecida ou muito pior do que a minha naquela ocasião. 

Em minha expectativa mais pessimista, eu lutava contra a ideia que atormentava-me internamente de uma forma recorrente a dar conta que um médico ou outro funcionário qualquer da instituição, simplesmente me abordaria a qualquer instante para dizer que não haveria vaga para a internação e que eu deveria buscar o atendimento em outro hospital. Convenhamos, não seria algo inusitado pela alta demanda normalmente, ou seja, tal possibilidade não seria algo impossível de se concretizar. 

Horas depois, o cansaço somava-se à angústia por tal dúvida atroz que eu alimentava na minha mente, e assim, somado aos efeitos da doença que intensificavam-se. Sem dormir e a praticar o método do jejum por conta do exame solicitado, eu estava um “trapo humano” por volta das oito horas da manhã, quando procurei o médico residente que assistira-me horas antes, mediante o resultado dos exames em mãos. Foi quando eu fui informado que estava a acontecer o ritual da troca de plantões e uma nova turma, com o seu respectivo professor/supervisor assumiriam, mas ele ressaltou que eu não ficasse preocupado, pois um novo residente ficaria responsável pelo meu prontuário dali em diante. Na avaliação do primeiro residente, a sua professora/supervisora já havia decidido internar-me, mesmo antes de examinar o novo hemograma, mas agora, o novo plantonista queria analisar com calma, antes de emitir a sua decisão. Ou seja, foi quase como voltar para a estaca zero do atendimento, em minha percepção obscurecida pela soma de intempéries que eu estava a sofrer, há horas.

Cabe explicar que o Hospital São Paulo é na verdade, um Hospital escola, pertencente à Universidade Federal de São Paulo. Ali funciona a Escola Paulista de Medicina, talvez a maior rival da Faculdade de Medicina da USP, portanto, é um ponto de honra ali, haver 100 % de certeza de tudo, com um padrão de excelência, exemplar e implacável. Ali, apesar dos pesares, residia a minha total confiança de que eu estava em ótimas mãos. Um rapaz a aparentar ter feições árabes, apresentou-se como o meu novo médico, a anunciar-se com seu nome típico do oriente médio, doutor Anuar. 
                      O ex-presidente do Egito, Anuar Sadat

Ele brincou comigo, talvez acostumado com pessoas que não compreendem o seu nome, que soa exótico em meio à nossa cultura, mas eu jamais esquecer-me-ia, primeiro por que associei-o imediatamente ao ex-presidente do Egito, Anuar Sadat, e em segunda instância, porque o dr. Anuar, foi um amigo e tanto ali, naquele momento inicial, por não medir esforços em prol da minha internação, e ao conversar comigo sempre que podia, e quase nunca o era, tamanha a loucura que apresentava-se a dinâmica naquele pronto socorro. Não apenas o amigo Anuar, mas todos os seus colegas, trabalhavam alucinadamente, como se ali fosse um posto cirúrgico militar, em pleno "front" de guerra.
Estava claro na minha avaliação, que a culpa pela demora irritante, não era dos médicos e enfermeiros, mas da completa dificuldade do poder público para oferecer condições de trabalho adequadas para que esses profissionais não fossem obrigados a trabalhar sob tal pressão absurda, e por causa disso, serem também maltratados, ao imputaram-lhes a responsabilidade indevida pelas condições precárias perlas quais ali trabalhavam. Ao trocar em miúdos, para quem acha que é negligência dos médicos, enfermeiros, técnicos e funcionários em geral, isso é uma grande injustiça, pois eles dão o máximo de si, inclusive muito além da capacidade humana, muitas vezes e também são vítimas da falta de melhores condições.
Ali, não somente nesse primeiro dia, mas nos vários onde fiquei a aguardar pelas minhas duas seguidas cirurgias, eu vi a luta e frustração desses jovens médicos. Sempre a apressar-se pelos corredores, muitas vezes atendiam duas ou três pessoas ao mesmo tempo e eram quase sempre interrompidos para emergências com algum acidentado a chegar e a pingar sangue, mediante fraturas expostas, as mais impressionantes. 

Não guardei o nome de todos, nem mesmo o sobrenome, mas além de Felipe e Anuar que atenderam-me inicialmente, lembro-me de Alexandre, Érica, Bruno, Victor, Ana, Clarice, Camila, Natália e outros, cujos nomes eu não descobri, mas os vi a locomover-se alucinadamente pelos corredores. Por volta de onze horas da manhã, eis que o dr. Anuar comunicou-me que o seu professor internara-me, oficialmente. Fui encaminhado a uma sala de repouso & recebimento de soro, que na verdade era um anexo improvisado ao corredor do pronto socorro.
No corredor, que era imenso, e em formato de uma letra "C", a sua aparência era a de um hospital militar localizado em alguma nação pobre e sob estado de guerra. Macas encostadas pelos dois lados, com um tráfego constante a conter macas em frenético movimento, e geralmente sob stress total, com seres humanos entre a vida e a morte, acidentados e/ou vítimas da violência urbana. Nessa sala do soro, assim que cheguei vi a garota dengosa que protagonizara um escândalo, horas antes, no grande saguão e cuja mãe havia chamado a polícia, indignada com a demora, só que agora, ela estava a dormir, fatigada e a tomar soro. Ouvi as enfermeiras a comentar que o seu caso fora diagnosticado como dengue, mesmo.

Nessa sala, o correto seria receber a dose do soro e ser encaminhado para um quarto, mas que quarto? Todos, literalmente, que estavam em macas pelos corredores, estavam internados, a aguardar por cirurgia e simplesmente não havia acomodações melhores para todos. Eu também seria alojado ali, mas nem isso foi possível naquele instante e a sala do soro transformou-se portanto, na primeira etapa dessa torturante espera. Ali, eu  passei três dias acomodado em uma cadeira, e até ali, nessa circunstância muito desconfortável, havia dois estágios. 
Uma cadeira mais confortável e anatômica que fazia as vezes de uma cama, era o objeto de cobiça ali. Idosos ou pessoas em condições muito piores, mantinham a sua prioridade para usá-la, é claro. Mulheres e crianças sob um segundo patamar, mas sinceramente, eu cheguei em um ponto de fadiga e debilidade onde o cavalheirismo foi colocado sob judice, e a indisposição total com o mal-estar pelo desconforto e a doença estava a agravar-se, por isso, tudo isso somado fez com que a busca por uma melhor acomodação viesse a tornar-se uma necessidade premente, acima da educação. 

Não cheguei em tal ponto, mas houve um momento que todos perceberam que eu estava à beira de um colapso e sob um dado instante da quarta-feira, ainda, uma enfermeira alojou-me em uma dessas poltronas melhores, onde, enfim, eu pude dormir um pouco, mas não muito, pois o barulho, e sobretudo a zorra instaurada por conta dos chiliques perpetrados por pacientes e os seus entes queridos revoltados, só não foi pior que as ambulâncias a chegar com pessoas em estado lastimável, principalmente os que chegavam conduzidos por viaturas policiais, que eram geralmente meliantes baleados, e a adrenalina dos policiais mostrava-se ainda mais tensa que o estado de saúde dos próprios feridos em questão.
Até então, apesar do cansaço inacreditável e da debilidade, eu estava conformado com a internação sob tais condições tão desfavoráveis e esperançoso que em uma segunda etapa, seria deslocado para uma quarto compartilhado, logicamente, mas desta feita mediante um leito minimamente confortável, com direito a um banheiro higienizado e a contar com um grau de ruído infinitamente menor no ambiente para cultivar a paz de espírito, sem contar o padrão de higiene mais proeminente e consequentemente, menor risco de infecção hospitalar, pois essa preocupação a mais, instaurou-se em minha mente, ao verificar o quadro que ali apresentou-se.
Apesar de todas as precariedades materiais prementes, as enfermeiras eram solícitas e o procedimento padrão ali naquela ala, estava a ser cumprido com bastante profissionalismo e dedicação, a não ser em um dia, que um enfermeiro errou a minha veia várias vezes na troca do “acesso”, mas isso não foi nada diante do que eu estava a passar e ainda passaria. 

Um senhor idoso e muito debilitado estava ali quando cheguei e ali permaneceu depois que saí. Além da doença severa que o acometia, estava com sinais fortes do Mal de Alzheimer. Ficava a falar compulsivamente coisas sem sentido e algumas pessoas à minha volta, debochavam dele. Realmente a ignorância grassa e aquela reação alheia entristeceu-me bastante. Na madrugada de quarta para quinta, fui comunicado de que teria que fazer um exame de tomografia computadorizada.
Segunda constatação sobre o serviço público que eu senti na pele, positivamente. Quanto custa tal tipo de exame em um hospital ou clínica particular? Eu não poderia pensar em outra coisa que não fosse contrária à impressão generalizada que é forjada por pessoas inescrupulosas sobre o descaso com a população. Ali, não foi o que eu vi, aliás, muito pelo contrário, a excelência do atendimento médico foi exemplar. Fomos levados a uma ala fora do hospital, mas por praxe da instituição, internados não podem caminhar fora do complexo. Portanto, eu e um outro grupo de enfermos fomos colocados em uma ambulância, que deslocou-se por menos de vinte metros, a fim de levar-nos para um edifício no outro lado da calçada. Pareceu algo até ridículo pela ação em si, mas o protocolo foi esse e seguido à risca, de forma espartana.
Era alta madrugada, por volta das três da manhã e quase todas as alas desse complexo em anexo, estavam vazias e com as suas luzes apagadas. Claro que com tal cenário, tudo parecia fantasmagórico e nesse sentido, senti-me inserido em um set de filmagens para um filme de terror. Éramos em cinco pessoas naquelas condições, todas que estavam a habitar aquele claustrofóbico espaço da pequena sala de soro do PS. Quando chegou a minha vez, passei por uma mini entrevista e pus-me a seguir os passos dados pelo enfermeiro que aplicou-me a injeção para prover o contraste e advertiu-me sobre os seus efeitos colaterais desagradáveis possíveis, com a sensação de queimadura, generalizada. Nada disso ocorreu-me, pois o meu organismo não reagiu dessa forma, mas o exame foi desagradável sob outros aspectos. Voltamos ao espaço do soro e mais exames aguardavam-me, exatamente como o intrépido dr. Anuar havia me dito ao usar a expressão "maratona de exames". 

Quando chegou a quinta-feira, um pouco depois da hora do jantar, mais ou menos, o meu novo amigo árabe, Anuar, veio conversar comigo. Em meio a uma abordagem delicada, mas bem franca, deu-me a notícia que o meu caso era mais grave do que o meu médico particular havia diagnosticado. Com exames mais apurados, havia a suspeita de um tumor muito agressivo no pâncreas e a icterícia fora causada pela obstrução do ducto biliar. Isso, de fato, o meu médico particular havia colocado como uma hipótese plausível, mas não visível, porém, neste outro instante, houve a confirmação.

Então, a junta médica que analisara o meu caso, decidiu que o meu caso dependia de mais exames, contudo, em uma primeira avaliação, Anuar disse que eu teria que enfrentar entre três ou quatro cirurgias, e a colocar uma espécie de "stent" no pâncreas após a possível retirada desse tumor gigante, e aí, se tudo corresse bem, veríamos a posição do oncologista para um possível tratamento pós-cirúrgico. Nesses termos, anunciou-me uma alta provisória, pois de nada adiantaria ficar internado sem essa posição definida sobre qual linha de tratamento deveria ser adotada, doravante. Estávamos na “semana santa”, com o hospital absurdamente superlotado, um surto de dengue generalizado a atrair pessoas vindas de muitas cidades interioranas etc.
Então, ficou claro na minha avaliação que son uma primeira instância, houve a intenção também de se abrir uma nova vaga ali, com a minha alta provisória, mas também esteve nas entrelinhas que por ser grave o meu caso, a saída conteria uma intenção subliminar para dar-me a chance de passar um último final de semana com a minha família, talvez a caracterizar o almoço de Páscoa, como o derradeiro de minha existência. Assim que eu soube dessa decisão médica, tentei amenizar ao máximo a notícia para não chocar os meus familiares, ao fornecer-lhes informações não muito precisas sobre esse quadro e voltei para a minha casa na noite de quinta, bastante debilitado pela somatória dos efeitos da minha enfermidade, a conter o cansaço somado ante aqueles três dias, com a longa espera e o desconforto absoluto pela falta de instalações adequadas da parte do Hospital. 

Usei esses três dias em casa para agilizar uma série de providências básicas (conta bancária, transferência de propriedade de meu carro, instruções para a venda de meus pertences e outros assuntos), já a prever o pior. Foi, portanto, um aprendizado e tanto, pois a iminência concreta da partida definitiva, disparou uma série de reflexões importantes sobre a questão do aproveitamento do tempo, desperdício, prioridades, pendências, planejamento para o pós-morte para não sobrecarregar familiares etc.
Voltei para o hospital na segunda-feira, antes das seis horas da manhã, conforme o dr. Anuar solicitou-me, todavia nem mesmo com o documento de alta provisória e explícita convocação para reinternação em mãos, evitou que eu tivesse que passar pela longa e cansativa triagem de três etapas, novamente. A minha única sorte, foi que o fluxo de pessoas era bem pequeno nesse horário ainda com a escuridão do final de madrugada reinante, e assim, nenhum funcionário criou empecilhos extras diante da documentação, apesar da burocrática passagem pelas três etapas de forma obrigatória. Mesmo assim, na quarta etapa, até passar novamente pelo dr. Anuar e obter a internação confirmada pelo seu professor/supervisor, foi um processo que consumiu horas a fio.
Por volta das onze da manhã, fui chamado, enfim, e voltei para a minha rotina na incômoda saleta de soro, e a reviver a briga pelo direito de fazer uso da melhor cadeira. Mal acomodado em uma cadeira de plástico, exausto pela maratona vivida há dias nessas condições e debilitado pela escalada da doença, apesar do delicioso refresco caseiro que eu tivera, a minha condição de saúde estava a debilitar-me naturalmente. Apesar de tudo, eu estava feliz por estar ali, mesmo com tanto desconforto e sob a expectativa incerta de horas, talvez dias para que levassem-me à primeira cirurgia. Das pessoas que cercavam-me na quinta-feira, só reconheci o senhor idoso e que não parava de falar palavras desconexas. E o oriental, hein? Nunca mais o vi, tomara que tenham lhe assistido bem, ao livrá-lo dos males que o afligiam.

Naquele mesmo dia, eu passei, como preconizado, por mais uma maratona de exames. As veias começavam a ficar muito debilitadas com tantas coletas sanguíneas, e o “acesso” a ser renovado constantemente.
Em uma determinada madrugada, fui instruído a ir realizar um exame, sozinho, em uma outra ala do hospital. Apesar da minha mobilidade estar bastante comprometida, pude fazê-lo e esse passeio foi instigante. Ao sentir-me em um autêntico episódio de um seriado ao estilo de “Kingdom Hospital”, lembrei-me bastante de Stephen King, a andar por alas escuras e desabitadas, sob o silêncio da madrugada e apreciei (apesar de tudo), esse momento, pois além do lado lúdico sob o ponto de vista da fantasmagoria, foi um momento de pausa que tive em relação ao frenesi do PS, onde é impossível dormir, a não ser que seja sedado fortemente, ou vencido pela exaustão absoluta. Fui enviado para o exame da ressonância magnética e na entrevista, tive que falar sobre claustrofobia. De fato, não é agradável ficar estático em um ambiente ínfimo, e fechado, sem mobilidade alguma, semelhante a estar em um sarcófago, por cerca de quarenta minutos. Entretanto, eu preferi submeter-me a tal expediente, a arriscar não proporcionar um meio mais preciso para que os médicos pudessem diagnosticar-me com melhores elementos científicos.
E lá fui eu, ao condicionar-me psicologicamente para enfrentar a máquina, pela circunstância claustrofóbica e barulho infernal inerente (lembrou-me bastante uma "rave" de música eletrônica, mas talvez com melhor musicalidade eu diria), quando finalmente após longos quarenta minutos e a estabelecer um esforço auditivo enorme para ouvir os comandos do técnico ("respira, segura, expira"), senti que desligaram a máquina, e após um certo tempo adicional, fui retirado dela. Para a minha estupefação, o técnico parecia estar constrangido para comunicar-me um fato novo, e assim, a pedir desculpas, disse-me que houvera ocorrido uma falha, e que teríamos que cumprir mais vinte minutos daquele procedimento. Certo, sem pensar muito, eu  lhe sinalizei para que o fizéssemos imediatamente, portanto, sem direito a uma pausa, como ele aventara, para tentar amenizar o impacto que eu sofrera. Tal exame foi na verdade o mais providencial, pois fechou o diagnóstico final.
O que supunham ser um tumor gigante no meu pâncreas, fora na verdade um conglomerado formado por pedras que migraram da vesícula biliar, a obstruir o duto biliar, e a alojar-se ali. Estava por um triz, a acontecer uma continuidade desse processo de migração e se uma pedra apenas fosse estacionar no duodeno, a minha situação complicar-se-ia e muito, com a possibilidade concreta de ir a óbito, como algo muito provável. Quem deu-me essa notícia foi o dr. Vitor, outro jovem residente, e muito gentil em meio ao trâmite inteiro que ali passei. Anuar estava por perto e só sinalizou-me à distância, ao gesticular com um sinal de positivo. Insha’Allah, amigo!

Então afastada a pior hipótese, a minha nova perspectiva foi para submeter-me a apenas duas cirurgias, uma específica para a retirada da vesícula, a causadora inicial da pane, e outra para cuidar do pâncreas. Quando eu voltei após ter feito mais exames, a enfermeira alojou-me na poltrona cobiçada por todos, onde eu até poderia ficar dias, sem reclamar, pois agora seria apenas uma questão de tempo para eu ser conduzido às cirurgias. Contudo, não passou nem uma hora e uma senhora muito idosa e debilitada chegou naquela saleta e a gemer com dor, amparada pela sua neta. Ela sentou-se naquela cadeira dura. Tudo bem, eu estava péssimo, mas não aguentei testemunhar tal cena e cedi-lhe a poltrona. Por sorte, Anuar chegou e deu-me mais uma boa notícia: eu “subiria de vida”, em suas palavras a estabelecer uma brincadeira bem-humorada, pois uma maca estava reservada para o meu uso, doravante. Quando eu deitei-me nela, brinquei com ele, que sentir-me-ia em um hotel cinco estrelas doravante.
Claro, estava alojado no corredor, com dúzias de macas ao redor e com pessoas em condições iguais ou piores que a minha, mas diante dos dias em que fiquei naquela sala do soro, foi um balsamo poder deitar e desfrutar de lençóis, cobertor e travesseiro. Ali, passei cinco dias a aguardar a chamada para a primeira cirurgia. Fiz os exames diários de praxe e um preparatório, para visar a primeira cirurgia. No restante do tempo, foi somente uma questão de paciência e resiliência a ser treinada.
Mais descansado pela fator "maca", mas alojado no olho do furação da emergência, foi difícil pregar os olhos ali, com o frenesi de gente arrebentada a chegar a todo instante. Acostumei-me com o cheiro de sangue nauseabundo, misturado a outras tantas coisas nojentas relacionadas às vísceras humanas e claro que tive muito receio da infecção hospitalar, mas fazer o quê? Ali, as experiências que tive foram intensas ao extremo. Primeiro, pelo que eu já havia constatado nos dias anteriores, ao ficar muito perto do centro cirúrgico de emergência, todavia, nesse novo momento, havia se amplificado ainda mais a impressão que esses profissionais trabalham sob uma tensão absurda, e dão o seu melhor.
Não foram poucas as demonstrações de profunda humanidade que vi da parte deles, a extrair forças não sei de onde para serem gentis, mesmo ao não ter tempo algum para isso e sobretudo, pela absoluta falta de recursos melhores com os quais deveriam ter, e não tem, pela dificuldade que um governo de mentalidade preocupada verdadeiramente com a saúde do seu povo sofre com tantos boicotes e sabotagens da parte dos inescrupulosos que visam destrui-lo e pior ainda, quando a administração fica a cargo de quem odeia o SUS e quer aniquilá-lo.
 
Segundo ponto: fiquei abismado por verificar in loco como tais profissionais são maltratados pelos pacientes e os seus respectivos acompanhantes/entes queridos. Tudo bem que o cansaço é enorme nas triagens, tudo bem que ficar internado em um corredor de pronto socorro insalubre é um horror que ninguém merece passar, mas os profissionais que ali trabalham, dão 100 % de sangue, suor & lágrimas, ao passar inclusive por sacrifícios pessoais gritantes. E outro fator, quem merece ser execrado são esses ratos da política que ao invés de apoiar, sabotam a trabalhar acintosamente para sucatear a saúde pública, de forma proposital para privilegiar a aviltante ação predatória exercida pela medicina particular, pois se os hospitais estão assim, é por culpa deles, que enxergam a medicina como um meio de enriquecimento puro e simples.
A rotina ali no hospital, sobre as trocas de plantões, era rígida. Cada nova equipe que entrava, estabelecia uma inspeção minuciosa, duas vezes ao dia. Eu decorei a rotina: primeiro vinha uma junta formada por cinco a seis residentes que se posicionavam ao redor da minha maca. Um deles lia o relatório do meu prontuário com os dados atualizados dos últimos exames em voz alta, com os demais a anotar tudo em fichários. Depois perguntavam-me sobre as minhas percepções pessoais a cerca de meu estado e davam-me alguma informação superficial sobre o meu estado e no tocante às perspectivas.
Depois vinha uma junta com professores, com o mesmo procedimento e geralmente forneciam-me um parecer mais detalhado sobre os próximos passos do tratamento. Finalmente, passava uma junta formada por enfermeiras, a repetir todo o procedimento, mas sob o ponto de vista da enfermagem, naturalmente, ou seja, falavam sobre troca de soro e medicamentos a ser providenciados.
Isso quando não vinham turmas de alunos, formadas por iniciantes e intermediários no curso ministrado pela faculdade, ao ser introduzidos ao mundo que enfrentariam quando chegassem à residência, propriamente dita.

Outra constatação, e neste caso a observar uma tendência de geração, quase todos os rapazes ostentavam quase dois metros de altura. Antigamente a altura média do brasileiro era em torno de 1.70, e um rapaz com, 1.80, era considerado muito alto, e apto para jogar basquete, mas a nova realidade brasileira foi outra nessa ocasião de 2015 , sob esse aspecto fisionômico. 
E outra observação, muito mais agradável a se destacar: todas as meninas, as nossas então futuras doutoras, eram belíssimas. Ver as médicas residentes ali a circular, foi similar a estar na plateia de um desfile de beleza, portanto, a amenizar em muito a feiura da realidade daquele lugar a conter essencialmente como panorama geral, muito sofrimento, angústia e insalubridade generalizada. A terceira observação, foi que eu notei uma tendência muito nítida na rotina do PS. Durante a noite e a alta madrugada, a maioria dos casos de emergências que ali chegavam eram ocasionados pela violência urbana, com policiais a conduzir gente baleada e esfaqueada, predominantemente.
Já na parte da manhã, o grande contingente era formado por uma enxurrada de motoqueiros acidentados, com fraturas horríveis. Vítimas de atropelamentos também formavam o contingente padrão da parte da manhã.

Na hora das visitas, decorei a fala do funcionário da segurança, um simpático rapaz obeso, a expressar-se mediante o seu forte sotaque carioca, todo dia para dispersar os visitantes dos enfermos: “acabou a hora da visita, dê um beijo no seu parente dodói, e vamos saindo por gentileza!”.

Um rapaz que se encontrava próximo de minha maca, estava a esperar por uma cirurgia de reparação do seu fêmur, que fraturara em um acidente de moto. Tratava-se de um entregador de pizzas. Não pensamos muito sobre eles, quando nos entregam a pizza quentinha na porta de nossas casas, mas eles se acidentam com muita frequência, é um fato. Falante ao extremo, esse jovem buscava estabelecer conversa com todo mundo ao redor, quando não punha-se a cantar música sertaneja.
Entretanto, um dia, esse rapaz teve uma crise aguda de dor e quando pediu auxílio à enfermeira, esta passou apressada para acudir um outro enfermo e esse gesto enfureceu a sua irmã que estava ao lado como acompanhante, que julgou ter sido motivado por negligência da parte da profissional. Por infelicidade, havia uma mini junta médica bem próxima, todavia, esses médicos ali reunidos não mantinham relação direta com os profissionais do atendimento do PS. Tratava-se de um professor, que cercado por quatro ou cinco alunos, fazia observações sobre aspectos neurológicos, ao indagar os seus alunos sobre a matéria, pelo que eu pude ouvir e deduzir. Contudo, a irmã do rapaz não levou em consideração tal caráter da presença desses médicos ali, e aos berros, os ofendeu, ao argumentar que estes seriam insensíveis à dor de seu irmão e que por conta de sua insensibilidade, não mereciam ser chamados como médicos etc. e tal. Muito bem, a incidência da dor é algo triste e ninguém merece senti-la. Tudo bem, igualmente, médico teoricamente tem o dever ético de prestar socorro em qualquer circunstância, a grosso modo. No entanto, aquela mini junta estava ali com outro propósito, e nem eram médicos daquela ala. E por fim, a enfermeira veio rapidamente atender o irmão dessa moça indignada, isto é, não foi nenhum caso de desprezo como ela insinuou, a ofende-los com palavras duras.

Um outro caso nesse sentido, eu também presenciei da minha maca. Uma mulher jovem, xingou com palavras de baixo calão a jovem dra. Clarice, ao acusá-la de ser “desumana” por não estar assistir com rapidez a sua avó. E não era nada disso, eu havia decorado o procedimento, a draª Clarice já havia feito todos os seus esforços de atendimento, e os novos passos só seriam dados mediante a chegada dos exames, que demoram por praxe, a ficar prontos.
De longe, eu vi a jovem draª com o rosto virado para a parede, ao demarcar uma expressão facial a acusar a sua profunda contrariedade, e provavelmente a contar até dez para não explodir com a acompanhante de sua paciente. Ao longo dos dias, eu observara com atenção a movimentação de Clarice, Anuar e todos os seus colegas, e era certo que trabalhavam o turno de doze horas, sem tempo nem para ir ao banheiro ou tomar um copo d’água. Ao vê-los naquele frenesi, cheguei a conjecturar que humanos que eram também, entrariam fatalmente em um colapso se não diminuíssem o ritmo, mas naquela loucura ali instaurada, seria algo impossível.
Havia um residente ali que era conhecido pela alcunha de “Francês”. Ele não interagiu comigo em nenhum momento, mas eu via a sua ação, que era de uma coragem extraordinária. Devia ser reconhecido entre os colegas como alguém impetuoso e de sangue frio acima da média, pois os piores casos a mostrar traumatismos que chegavam naquela ala de cirurgia de emergência, eram direcionados para ele que era o médico que tomava a iniciativa do primeiro atendimento. Em uma determinada madrugada, um enfermo bêbado deu um trabalho incrível, pois além de estar todo arrebentado pelo acidente automobilístico que sofrera, estava agressivo por conta da adrenalina da situação, potencializada pelo efeito do álcool.
Esse dito dr. “Francês” foi muito enérgico com ele, e alguns doentes que estavam naquele corredor, incomodados com os gritos de ambos, começaram a xingá-lo, bem dentro daquela predisposição de achar que os médicos do serviço público destratam os pacientes a torto e direito, por prazer sádico ou desprezo arrogante do pequeno burguês contra as camadas carentes da população. Mas eu tive uma outra impressão ali, completamente diferente. Descontrolado, o paciente estava a tumultuar completamente a enfermaria e não dava para assisti-lo naquelas condições. Claro que não foi o ideal, mas o tal “Francês” estava a impor-se, e na minha ótica, estava certo sobre adotar tal atitude enérgica com aquela paciente tão incoveniente.
Fui chamado enfim para a primeira cirurgia. Um dia antes, fiz os preparativos e exames de praxe. Na quinta-feira, dia 9 de abril, eu fui conduzido à ala da cirurgia gastrointestinal e lá fui muito bem recebido por uma jovem doutora que explicou-me todo o procedimento (não recordo-me sobre o seu nome, acho que era Claudete, e só lembro-me que ela possuía sotaque nordestino, e era muito bonita e simpática). Nada temi, pois seria pouco invasivo, rápido e indolor 100%, ao assemelhar-se a um procedimento de endoscopia. Nesse dia, retiraram as incríveis onze pedras que aglomeraram-se no meu pâncreas.
Quando eu voltei, descansei o máximo e pude dormir em paz em meio aos gritos de dor dos enfermos, e a balbúrdia causada naquele frenesi da emergência, ainda a aproveitar os efeitos da sedação. No dia seguinte, fui informado de que tudo correra perfeitamente, mas agora eu teria que fazer a outra intervenção prevista, de forma muito mais invasiva, pois a pedra da vesícula, era enorme, e não poderia ser extirpada pela via endoscópica tradicional. Paciência, vamos de cirurgia tradicional mesmo, eu afirmei. Contudo, o doutor deixou-me claro que não havia perspectiva para definir-se a data para a segunda cirurgia, pois a prioridade seria para as pessoas que chegavam todo dia na emergência. Aqui cabe uma reflexão interessante, e antes de falar, deixo a ressalva de que abomino ideias nazi-fascistas e portanto, que não interprete-me mal o leitor, pelo que falarei a seguir, por favor!
Sou favorável à preservação total da vida e extirpação da dor para todo ser humano, a estender tal máxima aos animais e vegetais, no mesmo raciocínio. Todavia, ao verificar aquele quadro ali pintado, tornou-se inevitável fazer algumas conjecturas. Por exemplo, eu estava ali não por minha vontade própria, mas acometido de uma enfermidade. No máximo, poderia ser culpado por anos de ingestão de alimentos com alto grau de sódio ou outro componente qualquer, que culminou na enfermidade adquirida, não eximo-me disso, mas, trata-se de uma culpa involuntária, e sem intenção de causar mal a ninguém, nem para eu mesmo, ao menos de forma consciente.
Contudo, no caso de bandidos que tomam a prioridade das alas cirúrgicas, em detrimento de tantos enfermos que ali permanecem a esperar pela mesma intervenção, é um conflito ético e tanto que deveria ser repensado pela sociedade, e especificamente pelas áreas da saúde, segurança pública e justiça.

Veja, não sou favorável à insanidade higienista advinda de simpatizantes do nazi-fascismo, que querem que bandidos morram. Chamem-me como um sonhador, mas eu desejo um mundo onde não haja bandidos, mas não pela via do seu extermínio em campos de concentração, todavia, simplesmente para que a maldade não exista mais. Nenhum ser humano merece morrer, em hipótese alguma, sem a chance de ter um atendimento médico que o salve. Entretanto, daí a dar prioridade para alguém que deliberadamente saiu à rua para matar, ferir e roubar alguém, e por sorte da sociedade, foi frustrado pela não obtenção de sua intenção maléfica e ferido por agentes policiais, parece um tipo de deferência descabida que prejudica pessoas pacatas que também estão enfermas e precisam do tratamento, mas não se feriram ao assumir o risco de seu ato antiético em prol de prejudicar outras pessoas.
Ouvi uma sugestão muito razoável vindo de uma pessoa bem próxima de mim e que tocou nesse assunto, quando visitou-me no no próprio hospital. Esse primo meu, argumentou que o correto na sua opinião, seria a criação de hospitais policiais específicos para tratar bandidos feridos em confrontos, com equipes médicas formadas por policiais de carreira, com toda a infraestrutura necessária e humanitária, porém, a fazer com que ficasse o bandido circunscrito ao espectro policial. Com isso, aliviar-se-ia a carga nos hospitais públicos e também nos particulares que atendem tais ocorrências via SUS, e assim a propiciar mais vagas e agilidade para as pessoas comuns. Feita a observação, que apesar de plausível é utópica no Brasil atual, fiquei mais dois dias na enfermaria, e fui informado na manhã de domingo, pela doutora Ana, que seria operado ainda naquela manhã.
Os exames que eu fiz para a cirurgia anterior, ainda eram válidos, quando questionei-lhe sobre tal detalhe, sendo assim, agradeci-lhe e esperei os comandos vindos da parte da enfermagem. Cheguei bastante confiante ao centro cirúrgico e tranquilo, mesmo porque, a cirurgia em si, não causa em via de regra, incômodo algum, mas o pós-cirúrgico é que normalmente traz adversidades e costuma arrastar-se por dias, semanas e até meses, a depender do caso.
Quando acordei, ao final da tarde e com a cirurgia consumada, estava a sentir-me muito debilitado e assim estabeleceu-se uma rotina nos dias posteriores. Duas cirurgias e com sedação profunda com poucos dias de intervalo, causou-me um transtorno físico enorme.

Finalmente fui levado para um quarto de enfermaria e apesar das condições simples, depois de quase uma semana no PS, aquilo parecia um “resort” em minha opinião. Bem tratado pelas enfermeiras, a trabalhar com um outro tipo de rotina médica, mas muito atenciosas e prestativas no âmbito geral, passei mais seis dias ali. Troquei de quarto no segundo dia, quando fui alojado junto a um senhor idoso, que era doente terminal, infelizmente. 
A nutricionista da ala gástrica, veio perguntar-me sobre o caso dele, a questionar-me se eu havia observado se o senhor estava a alimentar-se, e de fato, deprimido por sentir estar nos seus últimos dias, ele não estava a se interessar por comida, e foi até compreensível. Preocupada, vi que essa profissional conversou detidamente com o grupo da dor, uma junta médica especializada para cuidar de enfermos terminais, e com um geriatra, que prontamente uniram-se para dar ao idoso em questão, o mais humanitário tratamento possível, nesse instante difícil. Fiz questão de agradecer a postura da nutricionista, outra moça bem jovem e iniciante na carreira.

Era para eu ter sido liberado antes, mas um dos doutores da junta que assistiu-me, o dr. Alexandre, explicou-me que os meus índices hemográficos ainda apresentavam níveis anormais. Portanto, haviam decidido assegurar a minha estada mais um pouco na internação, até haver a certeza de que tais índices estivessem a abaixar em progressão, para assim indicar a reversão gradual do quadro, e aí sim, eu teria um acompanhamento ambulatorial a posteriori, por mais um tempo indefinido. Bem, o pior passara, mas eu ainda estava sob cuidados e o período de debilidade seria longo no pós-cirúrgico.
Nesses dias, os exames mais invasivos cessaram e somente a coleta diária do sangue foi o que houve de mais incisivo. Contudo, muito cansado e com dores decorrentes dos vários pontos da cirurgias que eu tive, ao menos pude descansar, por que salvo uma crise aguda vinda de algum paciente, o silêncio naquela ala mais reservada era uma autêntica gratificação. Tive alta no sábado, dia 18 de abril.
Os primeiros dias em casa foram duros. Eu não tinha a real noção de como o pós-cirúrgico era incômodo, por vários aspectos. Estava muito fraco, com uma tosse muito intensa e sobre a qual eu fui informado que veio a tratar-se de trauma pós-entubação, portanto algo normal, porque costuma afetar a laringe/faringe/garganta, e também pela observação de dores abdominais adquiridas pelos pontos. 

O acompanhamento ambulatorial foi muito cansativo na primeira vez, um mês depois, pois eu estava muito debilitado ainda, e a locomoção foi difícil. Por sorte, um casal de amigos de longa data conduziu-me em seu carro, a minimizar a minha extrema debilidade motora naquele isntante. Tal procedimento ocorreu em uma clínica pertencente ao hospital da universidade, mas em outro endereço, ainda que no mesmo bairro.

Já na segunda e terceira consultas, a minha condição pôs-se a progredir, gradativamente. Reconheci muitos médicos que circulavam pelos corredores do hospital, a trabalhar também nesse ambulatório. Informaram-me que o rodízio fazia parte da residência deles e que por tal regra, eles estavam em todos os setores sob um regime de rodízio de funções. Na penúltima consulta, eu fui surpreendido, pois quando a jovem doutora que me atendeu chamou pelo meu nome, perguntou-me se eu não me importava que a minha consulta fosse aproveitada para servir como uma aula prática. Quando entrei no gabinete, foi um doutor-professor que atendeu-me e havia sete ou oito jovens doutoras em sua volta, a ouvir as suas perguntas e as minhas respostas. E o professor intercalava o seu diálogo comigo, a tecer comentários análogos para as estudantes e também a indagar-lhes sobre questões técnicas a coincidir com o meu caso em específico e a repercutir as minhas impressões pessoais sobre os sintomas.
Isso não fora uma novidade. Por duas vezes, ainda a estar na ala da enfermaria, no período pós-cirúrgico, eu fora abordado por dois professores, a perguntar-me se eu permitia que um grupo de alunos examinassem-me e que o meu caso fosse analisado como uma atividade curricular extra sala-de-aulas. Senti-me até lisonjeado em ajudar e dar assim a minha ínfima parcela de colaboração com o hospital e consequentemente com a universidade, como forma de agradecimento, até, por ter salvo a minha vida mediante todo o empenho para devolver a minha rotina normal, com a saúde restabelecida. 

Uma vez com uma turma de 3º ano de medicina, e esse professor era brincalhão e carinhoso com seus jovens alunos, a tolerar até a sua timidez sem sentido para responder perguntas. Eu percebi nitidamente que o medo de arriscar e errar para possivelmente ser ridicularizado pelos colegas os “travavam” individualmente, e o professor brincava com tal reação descabida, a descontrair o ambiente e assim não humilhá-los. Bem, por conta dos meus doze anos como professor de música, creio que eu tive uma mínima noção sobre pedagogia e didática, certamente e nesses termos, é claro que admirei a postura do mestre dessa garotada e aliás, a minha metodologia de ensino era pelo m esmo caminho, ou seja, a incentivar os pequenos progressos e relevar as falhas de meus alunos.
Outra vez, na mesma semana, uma professora fez o mesmo, ao solicitar-me nesse mesmo sentido. Eram alunos ainda mais jovens, do segundo ano, e lembro-me bem daquelas feições de quase adolescentes que ostentavam, a revelar uma certa insegurança, algo absolutamente natural para quem dava os primeiros passos no aprendizado da profissão e ainda estava a iniciar o processo de sair da sala de aulas, portanto, a evoluir da instrução meramente teórica até então recebida. Pensei comigo: logo estariam na residência do PS, como os jovens do quinto ano que ali vi em ação, e certamente a viver a experiência do stress total de ser médico a atuar em um campo de guerra, literalmente.

Na quinta consulta ambulatorial, eu tive enfim a alta definitiva.
Eu queria ter podido apertar a mão de cada médico residente, professor veterano, enfermeira e técnico que acompanharam-me no processo todo, mas o rodízio ali era total e ficara difícil estabelecer uma relação social nessas circunstâncias. Não anotei o nome de ninguém, só pude citar uns poucos pelo prenome, nesta matéria.

O objetivo deste relato não foi tecer um apanhado de lamentos pessoais tão somente, mas sim, trazer ao leitor um outro lado do sobre a questão do atendimento de saúde pública, o qual eu vivenciei intensamente. Não descarto a hipótese de que em outras instituições públicas, haja descaso da parte de alguns pontuais maus profissionais e isso ocorre também na rede privada, apesar dos preços exorbitantes cobrados, ou seja, nem mesmo o peso de ouro com o qual praticam o seu atendimento nessas instituições de alto luxo, nessa espécie de medicina "gourmet" que praticam é garantia de excelência inconteste. 

Apenas relatei o que eu vi e senti na pele, ou seja, ao contrário da convicção paradigmática oriunda da mentalidade inerente à maioria da população brasileira, a dar conta de que na saúde pública, nada funciona a contento por puro descaso dos profissionais que a servem, ali, no Hospital São Paulo, o que eu vi e senti na pele, foi justamente o contrário.
A abnegação, o sacerdócio profissional, a entrega, o sacrifício profissional, a frustração por não poder atender melhor, a delicadeza para tratar com humanidade, a implacável busca do diagnóstico sem margem de dúvida, tudo isso faz parte da marca registrada ali dentro. Quem deve ser cobrado de forma contundente para que não haja aglomerações insustentáveis nas unidades públicas de saúde, são os políticos que por motivações torpes, são contra o sistema público de saúde. A sua ganância predatória é uma vergonha.
Sem soar ingênuo, mas a ser realista, desse montante inacreditável de valores surrupiados dos cofres públicos, por esses facínoras que preferem ações governamentais que privilegiam que o dinheiro seja investido no mercado financeiro e não gastos com projetos sociais que atendam os mais necessitados, dar-se-ia um jeito na melhoria das condições da saúde pública. assim como não ceder à sanha da iniciativa privada que sonha com a destruição completa da saúde pública, para alimentar a sua vergonhosa mesquinharia.

Sou a favor da construção de mais hospitais, a regionalizar o atendimento e assim a desafogar o sistema sob colapso das grandes capitais, pela melhoria e ampliação dos complexos já existentes, pelo investimento maciço em equipamentos, modernos, almoxarifado abastecido, despensas com alimentos e farmácia sempre abastecidos, melhorias nas clínicas laboratoriais, aumento significativo da oferta de leitos, a extinguir a presença de pessoas alojadas inconvenientemente em corredores de enfermarias e principalmente na ala de Pronto Socorro, pela melhoria no atendimento das triagens, a agilizar o primeiro atendimento, pela valorização dos seus profissionais com plano de carreira digno e salários melhores, enfim, isso tudo e muito mais a incluir logicamente, o investimento maciço na educação e no fomento à pesquisa científica. 

Pode até soar utópico, mas garanto, tudo isso pode ser providenciado, se prevalecer a visão humanista e não a mesquinharia advinda da ganância. 
Cerca de quarenta dias depois que saí da internação, eu vi reportagens de jornalismo, a mostrar que os residentes do Hospital São Paulo organizaram uma greve branca, insatisfeitos com a falta de verbas a garantir-lhes as melhores condições de atendimento à população. Eles não aguentavam mais atender milhares de pessoas, com o hospital a comportar dez vezes menos, na prática. Entendi perfeitamente a reivindicação deles e solidarizei-me, é claro. Escrevi esta matéria em outubro de 2015, estou bem, e minha única restrição é não fazer exercícios físicos acentuados ou carregar peso excessivo, até julho de 2016. Ou seja, ante o perigo de morte que eu enfrentei, tal restrição é mais do que amena. Sou muito grato ao Hospital São Paulo, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e à Escola Paulista de Medicina.
Agradeço aos médicos e enfermeiros, todos que ajudaram-me no hospital e no ambulatório, e nomeio apenas alguns poucos cujos nomes guardei: Anuar, Felipe, Bruno, Victor, Érica, Alexandre, Ana, Natalia, Camila e Clarice. Esses profissionais trabalham sob um ritmo frenético, super estressante e a enfrentar muitas dificuldades, portanto, quando eu ouço pessoas a desqualificar a saúde pública, sei que a crítica não pode ser generalizada de forma alguma (e aliás, muito pelo contrário), pois eu estive lá e devo a minha vida a esses profissionais. E viva o SUS!

4 comentários:

  1. Um relato emocionante... não consegui parar de ler. Ja passei por experiência semelhante e nao pude deixar de sentir o coração apertar. Ao lado do drama humano, a radiografia perfeita do Brasil. Bravo! Muita saude e luz para vc. Abraços.

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    1. Sinto-me lisonjeado com sua visita ao meu Blog, e mais que isso, com o elogio ao texto; solidariedade e identificação com o que relatei, visto ter passado por sufoco semelhante ao meu, em termos de saúde.

      Sobre o caos na saúde pública, acho que concordamos, só um choque de ética e civilização para fazer essa classe política horrorosa que temos, parar de roubar de forma absurda e acintosa, os cofres públicos.

      Mas convenhamos, de onde saem os políticos, e os empresários mal intencionados que estabelecem as negociatas ? Não saem do seio do povo ?

      Pois o choque tem que ser geral, quebrando o maldito paradigma da "malandragem" do povo brasileiro. Quando conseguirmos esse feito histórico, finalmente poderemos ter um país mais justo e organizado, com serviços públicos dignos dos impostos que pagamos, com a certeza de haver o retorno social adequado.

      Grato, meu amigo ! Muita saúde e felicidade para você, seus familiares e amigos, também !!

      Grande abraço !

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  2. Pois é, Luiz, como alguém disse, um depoimento emocionante! Fidedigno, lúcido e sereno. Quem já passou por algo semelhante sabe bem avaliar a verdade dessas palavras. Acima de tudo, demonstra compreensão e gratidão. E este é o maior exemplo que se pode dar nestas horas...

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    1. Sensacional que tenha gostado, Zé Rubens !

      De fato, você soube interpretar bem a intenção do meu depoimento.

      E foi muito feliz em afirmar que não basta a resiliência diante de um quadro de perda da saúde e submissão aos recursos tão combalidos da saúde pública deste país, mas sobretudo ter-se a serenidade de avaliar a realidade, separando o joio do trigo, e foi o que fiz, no texto. Indo além, agradecer e retribuir, ainda que não na mesma proporção em que recebi ajuda, é um prazer depois de tanto amparo humanitário recebido.

      Muito grato por ter lido e comentado com propriedade !!

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