segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

De Kalafe, de Hippie a Pop Latina - Por Luiz Domingues



Naquela transição entre a Jovem Guarda e o Tropicalismo, muitos artistas emergentes tentaram enquadrar-se de alguma forma ao panorama musical, dito “jovem”, durante o final dos anos sessenta.

Identificados com a breguice suburbana da Jovem Guarda (claro que no seu bojo havia exceções honrosas, caso de Erasmo Carlos, um Rocker de respeito, sem dúvida, assim como Eduardo Araújo & Silvinha), ou com o experimentalismo antropofágico total dos Tropicalistas, muitos transitaram entre esses dois mundos, a buscar seu lugar ao Sol.
Já com os ecos "Woodstockeanos" a eclodir nestes rincões tupiniquins, eis que surge uma exótica cantora paranaense, com origem árabe, a exibir uma voz grave e impressionante e também uma presença de palco muito efusiva, chamada : “De Kalafe”. Denise De Kalafe nasceu em Ponta Grossa, no interior do Paraná, mas veio com "mala & cuia" para São Paulo, onde sonhava firmar-se no metiér artístico. Seu nome exótico era grafado de várias formas (“D.Kalafe”, “De Kalafe”, “Dekalaf”), o que aumentou substancialmente o exotismo em torno de sua figura.
Acompanhada por uma banda de Rock, chamada de “A Turma”, em que um dos guitarristas seria o futuro produtor musical, Arnaldo Saccomani, De Kalafe impressionava pela linda voz com emissão super potente; por ser uma morena espetacular, cuja beleza exótica chamava muito a atenção, graças à sua origem étnica advinda de seu DNA familiar, proveniente do Oriente Médio, e a sua  performance forte no palco. Sua postura lembrava muito a contundência cênica de Maria Bethânia, mas o visual e performance, coadunavam-se absolutamente  com a contracultura Hippies vigente, mais na órbita da Gal Costa (bem entendido, a Gal daquela época, como freak, Gal-Total e Fa-Tal).


Bem, De Kalafe chamou a atenção e com muitas críticas dos conservadores, é claro, por apresentar-se muitas vezes na TV, descalça e a usar vestidos multicoloridos e tudo isso em uma época onde o clima político no Brasil apontava mais para o cinza, e o público médio da sociedade ainda concebia como vestimenta “decente” para qualquer artista que apresentava-se na TV, como um modelo de formalidade cartorária, como se fossem padrinhos de casamento, portanto, claro que De Kalafe e outros artistas contemporâneos e congêneres, chocava(m)...
Entre os anos de 1968 a 1970, "De Kalafe e A Turma" fez um relativo sucesso radiofônico e televisivo, com o lançamento do compacto simples pelo selo, “Rozemblit”, que ousadamente para os padrões da época, apostava em artistas emergentes, notadamente do universo do Rock underground.
Em um desses compactos, músicas como, “Guerra” e “Quadrado Mundo”, mostravam obras coadunadas com o “momentum” sessentista, e sua inerente preocupação dos jovens antenados com a opressão dos sistemas totalitários, guerras estúpidas e demais questões análogas.
                         "Guerra", com De Kalafe e a Turma
 
               "Mundo Quadrado" com De Kalafe e a Turma

Sob um segundo lançamento, De Kalafe e A Turma saiu com outro compacto, a apresentar um cover da música, “Bang Bang” gravada pela cantora pop americana, Cher, e “This Boy”, canção dos Beatles. Outra música que chamou a atenção, foi, “Inch’ Allah”, uma canção pop francesa, com óbvia influência árabe, mas que nunca foi gravada em disco, porém, proporcionou uma aparição incrível em uma cena de um filme lançado em 1968, chamado, “Bebel, a Garota Propaganda”, aliás uma obra muito interessante e baseada em um conto do escritor, Ignácio de Loyola Brandão.
Eis acima, inserido dentro do filme "Bebel, a Garota Propaganda", uma performance de De Kalafe e A Turma, a interpretar a canção pop francesa : "Inch Allah"

De certa forma, e muita gente comentou isso na época, De Kalafe foi uma espécie de "Mariska Veres brasileira" (Mariska foi vocalista da banda pop holandesa, “Shocking Blue”, que fez extraordinário sucesso radiofônico no Brasil, por conta da música “Venus”).
                       "Bang Bang", com De Kalafe e a Turma

De fato, havia semelhanças entre as duas, que iam do visual, figurino, à questão do timbre vocal, além do fato de que o espectro musical do Shocking Blue, no Rock europeu, assemelhava-se bastante à proposta d'A Turma", ou seja, ambas praticavam em essência, um Pop Rock, estilo "Bubblegum", bem do início / meio dos anos sessenta, todavia, praticado ao final daquela década, portanto um tanto quanto defasado e démodé em tempos psicodélicos e com o Rock internacional já a partir para novas tendências, como o Blues-Rock hiper eletrificado; Hard-Rock, ou para o nascente, Progressive Rock.


Mesmo com um relativo sucesso midiático, a situação piorou para De Kalafe e A Turma, no sentido de que não surgiu novas oportunidades com o avançar da década de setenta, e a banda não acompanhou a evolução do Rock brasileiro, ao pegar carona nos Mutantes, Terço, Bolha e outras bandas que apontavam sua evolução, portanto, houve a dissolução do trabalho. Uma tentativa de lançá-la como cantora solo, também ocorreu em 1970, com o lançamento do LP “De Kalafe”, com várias canções compostas a conter letras de Vitor Martins, o grande letrista e parceiro de Ivan Lins, e até com uma regravação do clássico, “Aquarela do Brasil”, mas tal trabalho não logrou êxito, infelizmente.
Determinada, De Kalafe fez as malas de novo e deu uma guinada radical na sua trajetória, ao desembarcar na Cidade do México em 1975, e aí iniciar uma carreira sólida como cantora e compositora, com muito sucesso doravante, naquele país dos Mariachis. A compor e cantar em castellaño, aliás com desenvoltura, naturalmente que seu novo foco não fora o Rock, mas apostou forte na música “romântica”, esse eufemismo gerado para não dizer-se “brega”, nesses tempos forjados pelo advento da mentalidade do politicamente correto, onde tudo ofende e magoa...
De Kalafe caiu nas graças do público mexicano e tornou-se, já a partir do final da década de setenta, um fenômeno de vendas e um ícone da música popular mexicana e latinoamericana em geral, visto que sua popularidade alastrou-se por todos os países de cultura hispânica. Seus discos venderam milhões de cópias, e ela é sempre requisitada, até hoje, para compor trilhas para as novelas mexicanas, portanto, alcançou um status de popularidade naquele país, semelhante ao do Roberto Carlos, por aqui, no Brasil.
Aconselhada por uma numeróloga, acrescentou um “S” a mais no seu prenome, ao passar a grafar como, Denisse De Kalafe, mas além da numerologia, a mudança adaptou seu nome à pronúncia hispânica, por ficar mais confortável para quem fala castellaño, e não consegue pronunciar o “Z” da língua portuguesa, e muito menos entender porque muitas vezes o “S” tem som de “Z”, em nossa língua lusófana. Enfim...


Ela mesma declara-se uma “Brasicana”, embora tenha naturalizado-se mexicana há muitos anos e raramente vem ao Brasil.

Entre seus discos de sucesso no México, destacam-se : “El Porqué de Mi Canto”; “Cuando Hay amor... no Hay Pecado”; “Amar es”; “Hacer y Deshacer”; “Señora, Señora” e muitos outros.
De Kalafe teve tudo para firmar-se panorama do Rock brasileiro daquele final de década de sessenta e início dos setenta; poderia ter enveredado para a MPB engajada e contracultural que embalou os anos setenta, tranquilamente, também. Contudo, música no Brasil não é nada fácil, e sua saída para o sucesso, foi através de um avião que a levou ao solo estrangeiro. Por sorte, lá no México ela teve seu talento como compositora e cantora reconhecidos, ainda que sob um universo não muito confortável para nós, que é o do mundo brega-hispânico.
Mas, sem nenhum preconceito, fico feliz por ela ter alcançado enfim esse sucesso, pois muito pior teria sido abandonar a música, como foi e tem sido o caso de centenas de artistas que batem com seus respectivos narizes nas portas cerradas do sistema musical brasileiro. Saudade do vozeirão e da presença forte de De Kalafe naquele caldeirão efervescente dos anos sessenta.
Matéria publicada inicialmente na Revista Gatos & Alfaces, nº 6, de agosto de 2015

4 comentários:

  1. VOCE VENDE O VINIL DE kALAFE E A TURMA

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    1. Oi, Marisa !

      Antes de mais nada, estou muito feliz por você ter visitado o meu Blog e lido a matéria.

      Sobre o que pediu-me, não, infelizmente não sou comerciante de discos e não tenho como ajudá-la. Apenas escrevia sobre a De kalafe.

      Mas acredito que no Mercado Livre, você encontre os compactos e Lp's que procura da De Kalafe e a Turma.

      Grato e visite sempre o meu Blog !!

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  2. Li sobre essa cantora no livro do Alberto Villas, O Mundo Acabou. Uma gostosa viagem ao mundo dos anos 60 e 70.
    Foi delicioso ler essa reportagem, completa e envolvente!

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    1. Olá, Maria de Fátima !

      Antes de mais nada, quero agradecê-la pela visita ao meu Blog.

      Sobre a cantora, De Kalafe, sem dúvida que sua carreira no Brasil ficou bastante restrita aos apreciadores de música alternativa, Rock underground & afins. Entretanto, não é demérito algum para ela, que apesar dessa obscuridade, deixou sua marca. Além disso, ela buscou seu sucesso Pop em outro país e o alcançou, pois tornou-se, há muitos anos, uma estrela no México, onde é tratada com enorme carinho, até os dias atuais.

      Já que você aprecia pesquisar sobre o universo musical das décadas de sessenta e setenta, além do livro do Villas que citou, recomendo também o livro do jornalista, Bento Araújo, lançado em 2017, chamado "Lindo Sonho Delirante" (título baseado na música do compositor e cantor, Fábio, também famoso nos anos sessenta e amigo do Tim Maia e obviamente a estabelecer o anagrama, "LSD"), com mais de cem resenhas de discos lançados por artistas brasileiros que construiram suas carreiras em torno do Rock psicodélico da década de sessenta. Em breve, 2018, o volume dois desse livro, será lançado. Dê uma olhada na pesquisa do Google.

      E aqui no meu Blog, tenho outras matérias com o mesmo teor. Convido-a a ler tal material, disponível para a sua degustação, quando desejar, basta olhar o arquivo do Blog.

      Grato pelo comentário elogioso e um grande abraço !

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