sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Existe Vida em Marte, Sim... - Por Luiz Domingues



Quando soube que uma mega exposição sobre a carreira de David Bowie seria inaugurada em Londres, achei a notícia espetacular, pois se existe um artista na história do Rock que construiu uma carreira longa e multifacetada, extrapolando as fronteiras do gênero e até da própria música em si, esse foi Bowie.

Cantor; instrumentista; intérprete; compositor; letrista/poeta; ator /mímico; visionário avantgarde...entre os grandes gênios do Rock, e refiro-me à um panteão inquestionável e recheado de personalidades monstruosamente importantes, Bowie já tinha sua cadeira permanente e imortal, desde os anos setenta, sem dúvida alguma.

Pouco tempo depois, soube que a Exposição viria para São Paulo, em princípio para ser realizada no MAM, o Museu de Arte Moderna, no Parque do Ibirapuera, bem perto da minha residência,  e claro que comemorei a oportunidade e já fiquei ansioso pela confirmação.

O tempo passou e veio a confirmação, mas só que em outro endereço, a exposição sobre David Bowie ocorreria no Mis, o Museu da Imagem e do Som. Um museu charmoso, mas com espaço físico bem menor. Ok, haveria de ser ótimo mesmo assim.

Veio a confirmação no início de 2014, e no segundo dia de exposição aberta, eu fui acompanhado de um velho amigo, José Reis, fã do camaleão e ex-roadie do Pitbulls on Crack, uma banda em que atuei nos anos noventa ao lado do guitarrista / cantor e compositor, Chris Skepis, outro fanático fã de Bowie, e onde tínhamos no repertório da nossa banda, uma releitura de Cracked Actor, que adorávamos tocar ao vivo, e eu particularmente tinha o prazer de refazer a frase original da gaita da gravação do Bowie, no baixo, em nossa versão.
                               Foto : Jani Santana Morales

Quando entrei naquela câmara labiríntica com o fone de ouvido no máximo ouvindo as músicas do mestre, foi como entrar num mundo onírico. 

Tornando-me um personagem ambulante dentro da imaginação de Bowie, podendo olhar cada aspecto da sua genialidade artística em meio à um oceano de informações e sensações, mesmo nas primeiras alas da exposição, eu já estava convencido inteiramente de que seria difícil não mergulhar numa comoção, e olhe que Bowie estava bem vivo naqueles dias...

Aliás, genial a ideia do fone de ouvido obrigatório. Além de provocar a emoção sonora, evitava a tagarelice das pessoas, comum em exposições tradicionais e responsável por extrair grande parte do foco e do prazer.

Logo no início dar de cara com a atmosfera espacial de 1969, e o quanto Space Oddity tinha a ver com tudo isso, já mataria qualquer um. Quem era vivo nessa época sabe bem o quanto a imaginação voou longe com a chegada do homem à Lua, meu caso, e Bowie soube ser o menestrel a dar poesia à efeméride.

Na prática, chegar à Lua era só um homem pisando num deserto inóspito de baixa gravidade e silêncio sepulcral, mas Bowie deu vida para esse momento, tornando-o sublime...can you hear me, Major Tom ??

E lá fomos nós, para desbravar as outras alas...             
 

                                Foto : Jani Santana Morales 

Completamente presos nas teias das aranhas de marte, vendo aquele material de Ziggy Stardust, Hunky Dory; The Man Who Sold the World...

Sentindo-me dentro de um caleidoscópio setentista muito louco, voltei forte no meu próprio tempo, com mil lembranças pessoais se misturando à do artista. Metalinguagem total, misturando sensações e reminiscências, as mais diversas.

Vi Ronson; Bolder & Woodmansey na sua fúria rocker. Alienígenas andróginos e mergulhados na glória do Glam Rock; britânicos até a medula, mas exercendo uma arte pan-cosmopolita interplanetária total...e eu ali pensando no garotinho rocker que eu fora nos anos setenta, sonhando em embarcar na mesma nave. E ali, sonhando acordado eu era um deles...

E o quinhão de Tony Visconti nessa história ? Como se esquecer disso ?
                                 Foto : Jani Santana Morales

Pensando no quanto ouvi Alladin Sane e Pin Ups entre 1973 e 1974, fiquei paralisado por uns instantes, com aquelas peças de memorabilia à minha frente, roupas; objetos; manuscritos; desenhos; croquis; instrumentos; vídeos, e a cada ala, músicas correspondentes a cada  fase enfocada da carreira dele, tocando em trechos, num pout pourri delirante para emocionar, de propósito. 

Aquele piano jazzístico do Mike Garson, com aqueles acordes mega dissonantes...o que era aquilo ???

                                Fotos : Jani Santana Morales

Dou de cara com uma sessão de fotos da capa do disco Diamond Dogs, e aquilo era uma coisa enlouquecedora. Conhecia poucas fotos oficiais, mas a sessão revelava a produção da capa. Bowie híbrido, meio humano / meio canino, e minha imaginação a mil por hora lembrando-me de 1974, e o fascínio que esse disco me exercia, incluso a capa perturbadora. No headphone martelando num looping, “Dodo, Dodo”...


Rebel Rebel, e não importava se era rapaz ou moça...

Ah, a fase americana... Bowie deixando de ser britânico e andando pelas ruas da Philadelphia com ginga de negão soul men...que swing man...jovens americanos : pânico em Detroit, o camaleão chegou !! Fame fame, fame...

Em 1976, li numa revista que Bowie era protagonista de um filme longa metragem de Sci-Fi. Ledo engano para os rockers tupinquins que cunharam a frase : “Bowie virou ator”...

Ele sempre foi ator, a maioria é que não sabia ou não percebeu que seus personagens na música eram fruto de sua experimentação teatral e cinematográfica. Não sabiam que ele fora mímico, fez curso com Lindsay Kemp e filmou um curioso documentário em 1969, chamado “Love You Till Tuesday”, fazendo mímica ?
Em 1977, fui ao cinema para ver “The Man Who Fell to Earth” e saí convencido de que Bowie era mais que um grande artista multimídia, mas não podia ser humano, exatamente a situação de seu personagem no filme...

E as lendas urbanas sobre o seu próximo alter-Ego ?   

Quantas teorias pipocando pelo ar entre 1976 e 1978 para explicar quem era “The Thin White Duke”...

Bowie mergulha então na fase soturna e tecnológica de Berlim. 
Antecipou o Pós-Punk quando o próprio Punk mal estava se impondo. Sonoridades  sombrias, robóticas, estranhas...
1ª Foto : Brian Eno quando era componente do Roxy Music. 2ª Foto : Sessão de fotos para a capa do álbum, "Heroes"

Pode parecer contraditório para quem conhece minhas convicções na música, mas eu adoro aqueles três discos da fase alemã, e parei um bom tempo em frente ao sintetizador onde Brian Eno executou aquela textura toda daqueles discos, e Warsawa explodia no meu headphone...

Passo por uma ala com memorabilia de teatro e cinema. Como não se lembrar que interpretou o “Homem Elefante” na Broadway, quase sem maquiagem, apenas usando de expressão corporal e facial...qualquer ator faria isso ? Penso que não.
                         1ª e 2ª fotos : Jani Santana Morales

Chego à uma câmara redonda, com um cinema de 360º passando trechos de shows dos anos 70, predominam imagens da fase glitter, a minha predileta das prediletas, e ...inúmeras peças de figurino...aquela indumentária inacreditável dos seus anos de ouro como Ziggy Stardust, que via nas fotos e no vídeo do documentário de D.A. Pennebacker...
                                 Foto : Jani Santana Morales 

O pout pourri estava me matando...Ziggy Stardust; Moonage Daydream; Sufraggette City, The Jean Genie, Starman; Queen Bitch; Velvet Goldmine...aqueles filmes passando em 360º e as roupas colocadas em manequins sobre dois púlpitos...caramba estava num ritual surrealista de Magritte, num filme de Federico Fellini, numa viagem psicodélica de Tim Leary...

Ali fiquei mais tempo do que o normal, encostei-me num canto e curti aquele massacre emocional por todos os poros. Pessoas à minha volta choravam, e isso era perfeitamente compreensível.
                                 Foto : Jani Santana Morales

Mais alas e um mergulho na produção mais pop dos anos 1980 e 1990 não eram tão emocionantes para o meu gosto pessoal, mas muita coisa legal para ver e ouvir, não restava dúvida.

Vídeos experimentais louquíssimos; vídeos raros de bastidores dos anos setenta, mais roupas, vídeos de depoimentos de personalidades e pessoas comuns falando dele...

Serious Moonlight e Glass Spider…

Mais arrebentado emocionalmente do que os viciados em heroína jogados de estação em estação em Berlim, passei pelas últimas alas já determinado que precisava de uma nova dose...
                                 Fotos : Jani Santana Morales 

Um pouco antes do Carnaval de 2014, combinei com meu amigo Zé Reis, de voltarmos, e desta feita acompanhados de mais amigos que curtissem Bowie como nós. Tinha de dividir a experiência com outros amigos e assim, mandei E-Mail para os que achei que mais tinham a ver com o grande Camaleão.
                                 Fotos : Jani Santana Morales

A maioria respondeu, mas nem todos confirmaram presença, claro, mesmo sendo Carnaval e a maioria não ter compromissos musicais por serem Rockers e não militarem no mundo do Rei Momo, já tinham outros compromissos, viagens marcadas etc.
                                Fotos : Jani Santana Morales

Alguns confirmaram presença e entre essas pessoas, a editora / proprietária do Blog Limonada Hippie, a quem só conhecia virtualmente e que aproveitando a sua vinda para São Paulo (ela é de Niterói / RJ), para ver a Expo, finalmente nos conheceríamos pessoalmente.  

Acompanhado da querida amiga Fernanda Valente, e diversos amigos que encontrei na fila, constatei que eu não fora o único fã de Bowie que teve a ideia de visitar a Expo numa terça de Carnaval...como assim ? 

O Brasil não é a terra do Carnaval ?? 
                        A fila que dava voltas no quarteirão...

Não para aquelas mais de 2000 pessoas que dobravam o quarteirão na Avenida Europa...

Não consegui reunir os amigos na “Expedição Bowie”, título do E-mail que disparei fazendo a convocação geral, porque quando cheguei com amiga Fernanda, a fila já era gigantesca e avistei vários deles em pontos diferentes da fila, portanto, não dava para ficarmos juntos.
                     1ª e 2ª fotos, clicks de Jani Santana Morales

Fiquei mais ou menos perto da Renata Martinelli, cantora superb; Kim Kehl & Lara Pap; Carlinhos Machado e o mais fanático dos Bowiemaníacos que eu já conheci, Chris Skepis, meu ex-companheiro de Pitbulls on Crack. Ali conheci seu filho, chamado Brian Jones, ou seja, dispensa explicações  a escolha do nome do garoto, e com apenas 14 anos de idade, doido por Rock setentista, fã de Gentle Giant...Chris fez um belo trabalho educacional com o menino...

José Reis, nosso amigo em comum, estava perto de Chris, sua esposa Lucia, e o jovem Brian.

Vi também a amiga e produtora Jani Santana Morales (que gentilmente cedeu-me muitas fotos para ilustrar a matéria no Blog Limonada Hippie, e aqui no meu Blog 1, também), que tanto tem trabalhado para resgatar material de bandas por onde passei, desde 2015. E ali, também nos conhecemos pessoalmente, visto que éramos amigos virtuais até então.
                                 Foto : Jani Santana Morales


Foi uma espera cansativa, reconheço. Quando eu e Fernanda Valente entramos, contabilizamos mais de três horas de espera, mas valeu a pena levar os amigos e ter contato com aquela experiência sensorial novamente...

Bowie morreu no dia 10 de janeiro de 2016. Só soube no dia 11.

Não postei nada nas redes sociais, mas apoiei postagens de alguns amigos lamentando a perda.

Não havia escrito sobre a exposição de 2014, e achei que o tempo passara e uma matéria / resenha atrasada não valeria a pena.

Aí veio o dia 10 de janeiro de 2016, e Bowie aparecendo em tudo quanto era reportagem de internet e TV, e percebi que precisava repassar essa emoção aos leitores...

Bye, bye mestre camaleão, agora você volta ao seu planeta, e lá fará um som magnífico com Mick Ronson e Trevor Bolder que haviam partido antes. As Aranhas de Marte vão brilhar de novo no Cosmos...

Sempre que ouvia-o cantando “My Death”, pensava que um dia isso chegaria e chegou...

Acho que precisava escrever e comemorar o fato de que fui à exposição, duas vezes em 2014, assim como fora em dois shows do Bowie em 1990.

No Rio de Janeiro, ele cantou "Station to Station"; em São Paulo, "Life on Mars"...sou um afortunado...

E quer saber ? 

Este planeta fica insuportável sem David Bowie !

Hey, Major Tom, tem lugar aí no seu foguete para mais um ? 

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2016.

Nenhum comentário:

Postar um comentário