segunda-feira, 14 de março de 2016

Parque da Aclimação - Por Luiz Domingues




Em meados do século XIX, um dos caminhos que levava tropeiros vindo do interior do estado, rumo ao porto de Santos, passava por um caminho tortuoso e montanhoso entre o centro de São Paulo e o bairro do Ipiranga, para acessar o caminho do mar.


Um fazendeiro chamado Carlos Botelho comprou um loteamento nessa área em 1892, e como havia morado em Paris, onde se formou médico, trouxe a ideia de usar seu loteamento como um parque ao estilo dos inúmeros que conhecera na capital francesa.

Batizando-o de “Jardin D’Acclimatation”, baseado em parque existente em Paris, tal nome, posteriormente aportuguesado para “Jardim da Aclimação” e mais do que ter um parque para convivência e bem estar, pensou em montar um zoológico particular.
Dr. Carlos Botelho, numa pintura assinada pelo artista plástico, Benedito Calixto 

Tal zoo foi o primeiro da história da cidade de São Paulo, e indo além, foi a primeira sede da Sociedade Hípica Paulista (que posteriormente mudou-se para sua sede própria no subdistrito de Monções, no bairro do Brooklin), e também um complexo de laboratórios de pesquisas de produtos agropecuários. Naturalmente que sua área era muito maior da que abriga o atual Parque da Aclimação e fora as atividades científicas, haviam equipamentos de recreação (salão de bailes; rink de patinação e salão de jogos), e era aberto ao público em geral com a cobrança de um ingresso de  300 réis.
Ao final dos anos trinta, a família Botelho já havia vendido vários lotes de seus inúmeros terrenos no entorno do Parque, e apresentava dificuldades em manter o Parque e dessa forma, o então prefeito Prestes Maia propôs que a prefeitura comprasse o parque, com tal negócio oficializando-se  em janeiro de 1939, pela quantia de 2850 contos de réis.


Daí em diante, o parque alternou momentos de bons cuidados, com fases de abandono por parte do poder público.
  O controverso prefeito de São Paulo em 1955,  William Salém

Somente em 1955, a mando de William Salem, que assumira a prefeitura provisoriamente (numa manobra maluca perpetrada pelo ex-prefeito Janio Quadros, que eleito governador do estado e tendo como vice na prefeitura, e também eleito vice governador, José Porfírio da Paz, abriu caminho para que Salem, presidente da Câmara Municipal e terceiro na sucessão, comandasse a cidade de São Paulo por um curto período de menos de seis meses), mas curiosamente, fazendo ações positivas  e entre elas, fazendo uma grande reforma no Parque, e construindo a sua famosa concha acústica próxima ao grande lago.
Logo a seguir, em 1956, criou-se o campo de futebol com uma pequena arquibancada e, que é considerado oficialmente um estádio da prefeitura (embora de capacidade diminuta), tanto quanto o Pacaembu.
Nos anos 1960, infelizmente os prefeitos que exerceram mandatos nessa década, deixaram o parque de lado e os registros jornalísticos da época dão conta de que o parque ficou imundo, mal cuidado e perigoso, sendo habitado por mendigos e malfeitores. Uma reportagem de 1969, no jornal “O Estado de São Paulo”, chegou a cravar a advertência de que o Parque devia ser evitado pelos moradores do bairro, tamanha a sua insalubridade e periculosidade.


Há relatos também de carros desgovernados que foram parar no topo de árvores frondosas, despencando de uma avenida lateral, com características sinuosas, e no alto de um declive, daí a queda em precipício.
Somente em 1972, na administração Figueiredo Ferraz, uma nova reforma foi feita e que mantém as linhas gerais que o Parque apresenta até os dias atuais e inclusive providenciando a colocação de grades e estabelecendo assim horário de uso para o público em geral e evitando frequência suspeita de pedintes; meliantes & afins.


A concha acústica passou a ser usada com bastante sucesso. Shows musicais de várias vertentes; festas folclóricas; aulas abertas de educação física; gincanas escolares; grupos de praticantes de artes marciais, enfim, ali já aconteceu de tudo.
Foi histórico o show dos Mutantes que ali ocorreu em 1973, com tempo chuvoso e risco de choques para os componentes da banda.


A partir do início dos anos 1980, com apoio do Jornal do Cambuci (que mais tarde passou a se chamar Jornal do Cambuci & Aclimação), e a ação de um jovem empreendedor chamado Dalam Junior, o Parque passou a abrigar um evento fixo denominado “Praça do Rock”, realizado uma vez por mês aos domingos, na concha acústica.
 
Eu, Luiz Domingues, tocando com a A Chave do Sol, numa edição do evento "Praça do Rock", em agosto de 1984, na Concha Acústica do Parque da Aclimação

Tal evento ganhou vulto, e entre 1983 e 1985, fez muito sucesso, inclusive atraindo atenção midiática e eu mesmo, Luiz Domingues, ali me apresentei em três edições desse evento com minha banda nos anos oitenta, chamada A Chave do Sol, com bastante sucesso e perante multidões de milhares de pessoas.
Mas somente em 1986 os moradores do bairro ganharam uma longa batalha burocrática e conseguiram o tombamento do Parque, pois sempre pairava no ar a possibilidade da prefeitura sucateá-lo e vendê-lo para as incorporadoras e sua sanha pela especulação imobiliária. Meno male.


Não faz muito tempo, já nos anos 2000, houve uma época difícil para os usuários do Parque que amargaram mais um descaso da prefeitura, deixando que o lago ficasse totalmente poluído e muitos animais aquáticos e também aves, morressem.
Com muito custo e pressão sobre as autoridades, providências foram tomadas e o Parque superou mais essa crise.
Hoje em dia, segue como um verdadeiro oásis em meio à selva de pedra, atendendo os moradores do bairro da Aclimação, mas também de bairros vizinhos.


Relativamente perto do Parque do Ibirapuera, acaba sendo um elo verde coligado e entre os bairros da Aclimação e Vila Mariana, que são vizinhos e demais bairros do entorno, é comum a grande quantidade de pássaros que voam de um parque para o outro, fora o benefício de dois parques muito arborizados e com opções sócio esportivas e culturais para os cidadãos paulistanos. 
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2016

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