segunda-feira, 20 de junho de 2016

Salão da Criança - Por Luiz Domingues




Naquela euforia de prosperidade criada no governo de Juscelino Kubitschek, onde se vendeu a ideia de que cinco anos de trabalho teriam o efeito de cinquenta no progresso que o país alcançaria, muitos aspectos subliminares dentro do empreendedorismo moderno, começaram a implantar-se no Brasil. 


E dentro dessa prerrogativa, São Paulo que estava quase passando a então capital federal, o Rio de Janeiro, para tornar-se a maior cidade brasileira, borbulhava de planos ambiciosos para assumir o protagonismo econômico da nação, ali no calor da segunda metade dos anos cinquenta. 
Diante desse panorama auspicioso, um empreendedor chamado Caio de Alcântara Machado , formado em direito, mas publicitário por ofício e comerciante por DNA familiar, criou em 1958 a 1ª Fenit (Feira Nacional da Indústria Têxtil), realizada no Parque do Ibirapuera, e que tornou-se sucesso instantâneo.


Tratando dos segmentos inerentes à indústria têxtil, e naturalmente abordando setores ligados à moda, foi uma espécie de bisavô da São Paulo Fashion Week dos dias atuais. 

Rápido e audacioso, Alcântara foi criando outras feiras e abrangendo outros nichos da produção industrial tão poderosos quanto, lançou a UD (Feira das Utilidades Domésticas), que tratava de eletrodomésticos em geral e a partir de 1960, uma de suas mais vitoriosas criações e que aliás perdura até os dias atuais, o Salão do Automóvel, que é considerada já faz tempo, uma das maiores feiras de automóveis do mundo. 
Mas foi em 1961 que lançou sua feira mais lúdica, enfocando o universo infantil e suas múltiplas possibilidades de negócios inerentes : o Salão da Criança.


Isso agitou o mercado de uma forma sintomática, agregando não só a obviedade do interesse das fábricas de brinquedos, mas atraindo também a indústria alimentícia, o mercado editorial; o setor de roupas infantis e tudo que se relacionasse com as crianças.


Foi em 1961, que a primeira feira realizou-se no Parque do Ibirapuera, com apoio muito forte dos meios de comunicação, a começar pelos comerciais veiculados nas emissoras de rádio e TV, com o super simpático jingle gravado pelo palhaço “Carequinha”.

Ouça abaixo o jingle :
“O primeiro Salão da Criança / A bandinha de música voltou / E o palhaço chamando as crianças / Avisando que a festa começou / No Ibirapuera tem competição / Tem pra criançada muita diversão”...


Não só propaganda paga na imprensa, mas apoios foram costurados inteligentemente e essas eram ações bem modernas para a época. 
Por exemplo, programas de TV destinados ao público infantil participaram ao longo dos anos de forma incisiva. Isso ocorreu com o seu cast de artistas participando ao vivo na Feira e muitos testemunhais sendo feitos na TV, fora promoções, com apoio de patrocinadores. 
Logo na primeira edição de 1961, por exemplo, o cast infantil do programa “Turma dos Sete”, veiculado pela TV Record, canal 7 de São Paulo, participou ativamente. Eram 7 atores mirins e alguns adultos, fazendo os pais deles, entre eles, a saudosa Jacyra Sampaio, que fez muitas novelas na TV Tupi nos anos sessenta e setenta e na Globo, em 1977, ficou imortalizada como a Tia Anastácia do Sítio do Pica Pau Amarelo.


Uma novidade absoluta para as crianças, o Salão era algo tão incrível numa época onde não haviam muitas coisas direcionadas diretamente à elas, que tornou-se sucesso imediato e total.
Achei esse vídeo no You Tube, proveniente de um acervo familiar não identificado, com alguns segundos filmados da 3ª edição do Salão da Criança, de 1963. A postagem e telecinagem do original em 8 mm, foi feita pelo publicitário Carlos Augusto Marconi.  

E assim sedimentou-se, entrando para o calendário de eventos da cidade, sendo realizado sempre no mês de outubro, coincidindo com o “Dia da Criança”.
Os expositores passaram a caprichar a cada ano, para garantir stands cada vez mais elaborados, recheados de atrações e novidades entre seus produtos. Claro que lançamentos de produtos começaram a atrelar-se à realização da Feira.


Toda a linha de comestíveis, de balas a chicletes; biscoitos & bolachas; achocolatados & cereais em flocos e claro, sorvetes; chocolates; refrigerantes e bolos, passaram a promover fortemente o Salão, com muitas promoções, distribuição de amostras grátis; premiações etc. 
Brinquedos de parques infantis eram disponibilizados para ações lúdicas; exposição de carros de corrida, aeromodelismo, pistas de autorama, réplicas de aviões para visitação da cabine (isso sempre dá certo para atrair a criançada); carro de bombeiro e blindados militares; castelos medievais; acampamentos indígenas  e casinhas de bonecas para as meninas; gincanas e brincadeiras...enfim, tudo muito moderno e mágico para aquela época.


Com o tempo passando, mais novidades foram sendo incorporadas. Assim como na Fenit, desfiles de moda para roupas infantis e apresentações musicais se incorporaram.
Fora os shows de mágicos, outras atrações circenses inerentes e palhaços por todos os cantos, interagindo desde o portão de entrada com a criançada.


Particularmente, fui uma única vez, apesar de estar descrevendo com todo esse entusiasmo. Foi a edição de nº 7, em 1967.


Curti muito o avião prateado e um monte de referências à corrida espacial.  Estava absurdamente cheio e mal dava para andar nos corredores, apesar de que quase todo stand fosse um convite para a minha então imaginação infantil de um menino de sete anos de idade.
Havia um stand que enlouqueceu-me, promovido por uma indústria petrolífera que havia associado-se à Marvel, gigante das histórias em quadrinhos  americanas e que no Brasil nessa época era produzida em português pela saudosa editora Ebal. As estampas gigantes dos super heróis Marvel pareciam mágicas para mim naquela noite de outubro de 1967 e de certo, o eram mesmo.


Mas havia muita música no ar. Claro, bandinhas tocavam seu repertório circense prosaico, mas havia também um serviço de alto falantes tocando música pop e a MPB de então, fazendo tudo parecer uma experiência onírica, e de fato, pensando nessa memória hoje em dia, a guardo como um sonho envolto em névoas.

Isso sem contar os concursos de bandas, que começaram a partir de 1966, como por exemplo na foto abaixo (e que me perdoem esses rapazes, que hoje devem ser senhores sessentões, mas não faço a menor ideia quem sejam e se soubesse, citaria com prazer) : 
Saboreando minha barra de chocolate predileta, que meu pai comprou para mim, e vendo tantas coisas chamativas, foi uma experiência inesquecível.

                        

O Salão da Criança prosseguiu mais um pouco no Parque do Ibirapuera, mas assim que inaugurou-se o complexo do Anhembi, na zona norte da cidade, mudou-se, assim como as demais feiras organizadas por Caio de Alcântara Machado, para lá, no início dos anos setenta. 
Pelo fato de feiras semelhantes surgirem como concorrentes, o Salão da Criança não teve uma continuidade como as demais e encerrou atividades ainda na primeira metade da década de setenta.


Mesmo assim, deixou sua marca para toda a indústria e comércio que lida com produtos destinados ao público infantil.
Qualquer semelhança com o mote publicitário criado pela ditadura militar, não foi mera coincidência na propaganda acima, da 10ª edição do Salão da Criança, em 1970...

Inovou em muitos aspectos pelo pioneirismo da logística das ditas feiras corporativas e trouxe um elemento a mais, raro nesse tipo de empreendimento, ao lhe conferir aura lúdica, de certa forma com alguma ligação artística, ao lidar com um tipo de consumidor alvo que ainda não pensa no mundo como um ambiente hostil e lhe cobrar atitudes pela sobrevivência tão somente.

Pelo contrário, o enxerga com a magia da inocência, e por isso o Salão da Criança não era uma feira de negócios tão somente, mas tinha algo a mais.
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2016.

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