sábado, 4 de junho de 2016

Perry Mason - Por Luiz Domingues



A sociedade norte-americana é sabidamente bastante jurídica. Não só pelo enorme número de advogados formados anualmente pelas suas universidades, mas principalmente pela gigantesca profusão de processos protocolados em seu sistema judicial diariamente e que justifica a demanda por muitos advogados; promotores; juízes, e todo o entourage que compõe as suas cortes.


Portanto, é muito natural que o tema judicial alimente a cultura, com formas de arte a retratá-lo das mais diversas formas. 


E assim desenhou-se a saga de um personagem que nasceu nos livros de histórias policiais, alcançando posteriormente o cinema; as histórias em quadrinhos; foi adaptado para as radionovelas; e chegou a televisão, fazendo muito sucesso.


Falo de Perry Mason, advogado implacável e certamente um personagem sensacional. 
O escritor Erle Stanley Gardner, o autor do personagem Perry Mason
 
Criado por Erle Stanley Gardner, o primeiro livro com o personagem, foi lançado em 1933. Dali em diante, foram 80 livros lançados, explorando o personagem e com uma marca registrada : todas as histórias tinham o início do título escrito como “The case of”...("O caso de {o}{a}"), com um complemento diferente a designar cada um, posteriormente. 
 
Na construção do personagem, Erle criou Perry Mason como um homem idealista, muito profissional e incansável. Com isso, o marcou como um advogado que só aceitava casos em que tinha 100% de certeza de que seus clientes fossem inocentes, denotando um senso de ética implacável, e mais que isso, com a perseverança de fazer de tudo para inocentá-los, evitando erros da justiça e por conseguinte, preservando a imagem do próprio sistema judiciário, a lhe garantir a infalibilidade e consequente confiança do cidadão comum, nele. 


Em seu escritório, tinha o apoio de dois funcionários fiéis, nas figuras da secretária, Della Street e do detetive particular, Paul Drake, que muito o ajudavam, fazendo trabalho de investigação nas ruas a fim de coletar provas para dar elementos à elaboração da tese de defesa de seus clientes.


Os livros foram sendo lançados num ritmo frenético pela editora, com até quatro lançamentos num mesmo ano, periodicamente de 1933, até 1973.
Ainda nos anos trinta, alcançou as telas do cinema, em 1934, pela primeira vez e repetindo aparições em outras películas, até 1937, perfazendo seis filmes produzidos para a tela grande, com o famoso ator Warry William o interpretando por quatro vezes; no penúltimo filme produzido em 1936, tendo outro ator no papel, Ricardo Cortes e no último, de 1937, Perry Mason foi interpretado por Donald Wood.  


Avançando pela década de quarenta, as histórias de Perry Mason foram adaptadas para o Rádio, sendo produzidas como radionovelas. Com historietas curtas de apenas 15 minutos, ficou no ar de 1943 a 1955, mas com um título diferente “Edge of Night”, apesar de manter toda a estrutura normal dos personagens criados para os livros e adaptados ao cinema.
Outra ação paralela foi a incursão pelas histórias em quadrinhos, mas sem repetir o mesmo sucesso, provavelmente pelo fato de não atingir o público infanto-juvenil, principal nicho consumidor das revistas. Mas depois que chegou à TV, uma nova incursão pelos quadrinhos foi relançada e fez um pouco mais de sucesso.
Finalmente Perry Mason chegou à TV, em 1957, numa realização da produtora Paisano, para a Rede CBS de Televisão.


Seriado criado por Gail Patrick Jackson e Patrick Cornwall Jackson, usou como base dos roteiros, os livros de Erle Stanley Gardner e os roteiros adaptados para o rádio.


Os produtores da série desejavam inicialmente atores como Efrem Zimbalist Jr.; William Hopper; Fred MacMurray ou Richard Carlson para interpretar o incansável advogado, Perry Mason. 
Conta-se como fofoca de bastidores, que quando o ator Raymond Burr apresentou-se nos estúdios para fazer teste para outro personagem (visando interpretar o personagem do promotor Hamilton Burger), o próprio autor do personagem, o escritor Erle Stanley Gardner impressionou-se com sua figura e saiu gritando pelos corredores : -“É ele !! É Perry Mason”, referindo ao ator Raymond Burr.
           A atriz Barbara Hale, que interpretou Della Street  
    William Hopper, interpretou o detetive particular, Paul Drake
   O veterano ator, Ray Collins, que interpretou o tenente Tragg
  William Talman interpretou o promotor público, Hamilton Burger

Os outros atores da série eram Barbara Hale (interpretando Della Street, a secretária); William Hopper como Paul Drake, o dono da agência de detetives “Drake”, que fornecia detetives particulares que auxiliavam o advogado Mason; Ray Collins como o tenente Tragg, que durão, mantinha muitas vezes os clientes de Mason presos até o resultado final dos julgamentos; William Talman como Hamilton Burger, o promotor público que sempre enfrentava Mason nos tribunais. Além de personagens secundários como Steve Drumm (interpretado por Richard Anderson); William Katt (Paul Drake Jr.); William R. Moses (Ken Malansky); e Hal Holbrook, como William “Wild Bill” McKenzie.
A estrutura dos episódios seguia o padrão americano de seriados dessa época, com cerca de 52 a 55 minutos de duração cada um, e sem gancho ao estilo das novelas, a estabelecer continuidade, começando e encerrando uma história completa a cada episódio.

Grande parte da ação se passava no ambiente dos julgamentos, portanto havia uma sofisticação nos diálogos, principalmente nas intervenções de Perry Mason e seu oponente, o promotor Burger.   

Mas também havia ação nas ruas e no escritório de Mason, a retratar a coleta de provas para auxiliar na defesa de seus clientes.
O elemento dramático se fazia presente no sentido de que geralmente sendo causas “impossíveis” de se provar, pelas circunstâncias, a genialidade dos roteiros em achar detalhes imperceptíveis para os telespectadores, fazia com que a atenção fosse capturada até o veredicto final.


Eis aí um dos seus maiores trunfos, senão o maior da série, pois mesmo sendo uma repetição sumária do mesmo mote, o público prendia a sua atenção esperando pelo detalhe a dar reviravolta na história, atraído pela solução sutil que os roteiristas deviam quebrar a cabeça para elaborar. Portanto, tratava-se da repetição da ideia de que um inocente era injustamente acusado de um crime e com provas irrefutáveis depondo contra, seria salvo no final do episódio graças à uma prova cabal achada na última hora. 
A série fez grande sucesso na América, espalhou-se pelo mundo afora e chegou ao Brasil ainda no final dos anos cinquenta, sendo exibida aqui pela TV Record.


Fez sucesso entre os brasileiros, também. Ficou popular ao ponto de pessoas brincarem, dizendo que “qualquer coisa, se ficar difícil resolver algum problema, contrate Perry Mason que ele resolve”... 
E se aqui ficou popular assim, claro que na América, muito mais e lá, entre muitas brincadeiras, estigmatizou-se que todo sujeito metido a “sabichão”, que gostava de se exibir nas rodinhas de conversa, era porque prestava atenção nos discursos do Perry Mason nos tribunais, durante os episódios da série...


Perry Mason teve nove temporadas, de 1957 a 1966, contabilizando 271 episódios. 
Logo após seu término, o ator Raymond Burr foi protagonista de outra série de sucesso na TV, chamada “Ironside”, onde interpretou o policial paraplégico, Robert T. Ironside, que apesar da deficiência física, era durão e combatia o crime com firmeza, auxiliado por assistentes jovens. Tal seriado durou de 1967 a 1975, fazendo sucesso, igualmente.
O bom ator Monte Markhan, que não deu sorte ao interpretar Perry Mason em 1973

E tanto fez sucesso, que quando planejaram a “volta “ de Perry Mason, em 1973, Raymond Burr estava comprometido com essa outra série (Ironside), e dessa forma contrataram o ator Monte Markhan para interpretar o advogado brilhante. Nenhum outro ator do elenco da série clássica foi convidado a atuar e infelizmente essa versão foi um fracasso, tendo somente 15 episódios levados ao ar entre 1973 e 1974.
Em 1985, a concorrente da CBS, NBC, bancou um telefilme (TV Movie), revivendo o personagem, e tendo Raymond Burr e Barbara Hale do elenco original da série. O ator William Hopper já havia falecido e assim, o filho da atriz Barbara Hale, Willian Katt, que tornara-se ator igualmente, foi contratado para viver o detetive Paul Drake.  


Tal TV Movie foi bem recebido pelo público, e outros foram sempre produzidos em sequência. Era um Perry Mason bem envelhecido, aproveitando o envelhecimento natural do próprio ator, Raymond Burr, mas que caiu nas graças do público, até 1993, quando o ator faleceu.
Produziram mais quatro episódios até 1995, usando atores diferentes, mas o carisma estava mesmo com a figura de Burr, que encarnou o personagem como ninguém, inegavelmente. 
Muitas reprises foram promovidas, incluso no Brasil, até os anos setenta, mas foram sumindo paulatinamente da TV aberta, passando para canais de TV a cabo especializados em produções de TV vintage, mas hoje em dia, que eu saiba, não está no ar. 
Episódios no You Tube são encontrados e as caixas oficiais de DVD foram lançadas na América, mas acredito que no Brasil, não. Em sites de colecionadores é possível achar cópias alternativas. 
Perry Mason fez muito sucesso, marcou época e tem muitos méritos, a começar pela criatividade na elaboração dos roteiros; passando pela qualidade dos diálogos elaborados; o fator surpresa paradoxalmente num ambiente de repetição sistemática; pelo bom elenco e notadamente pelo carisma do ator Raymond Burr.


Trilha sonora muito marcante, também, com o espetacular tema de abertura em destaque, composto por Fred Steiner e intitulado, “Park Avenue Beat”.


Muito bonito, tem um piano fazendo um staccato como base, enquanto os instrumentos de sopro trabalham a melodia principal. 

Destaque também para a bateria, numa batida incomum para orquestrações tradicionais da década de cinquenta, quase soando como Rock’n Roll, moderna ao extremo para aquele momento de 1957, portanto. 
Ouça acima o tema de abertura do seriado Perry Mason
 

Muitos diretores famosos assinaram episódios dessa série. Laslo Benedeck; Jack Arnold e Arthur Hiller entre muitos outros.
Sobre os atores convidados, nas nove temporadas, referindo-me somente ao seriado clássico e ignorando a tentativa de continuação mal sucedida de 1973, e os TV Movies dos anos 80 e 90, a lista é gigantesca de figuras conhecidas da TV e o cinema americanos.  


Barbara Eden (I Dream of Jeannie); Paul Fix (Voyage of the Bottom of the Sea); Whit Bissell (The Time Tunnel); Angie Dickinson (Police Woman); Abraham Sofaer (ator em todas as series de Irwin Allen); Ruta Lee (participação numa infinidade de seriados, de Twilight Zone a Maverick); Murray Hamilton (muitas participações na TV, mas no cinema, muito mais, como “Seconds”; “The Graduate”; “Jaws” etc etc); Yvone Craig (a Batgirl de Batman /1966); Fray Way (a mocinha de King Kong, versão clássica de 1933); Elysha Cook Jr. (um ator com carreira no cinema desde 1930, com uma soma de trabalhos inacreditável); Hugh Marlowe (outro ator com forte curriculum no cinema); Edward Platt (o "chefe" de Maxwell Smart em “Get Smart”); Robert Redford (acho que dispensa comentários de apoio...); James Coburn (idem ao Redford...); Louise Fletcher (“Star Trek Deep Space Nine”); Adam West (“Batman”/1966); Simon Oakland (“Kolchak and the Night Stalker”); Wesley Lau (“The Time Tunnel”); Lian Sullivam (ator com muitas participações em seriados nas décadas de cinquenta e sessenta); De Forest Kelley ( o Dr. McCoy de “Star Trek”); Burt Reynolds (outro que dispensa apresentações); Linden Chiles (ator com muitas participações nas séries de Irwin Allen); Leonard Stone (“The Jean Arthur Show”); Ellen Burstyn (“The Exorcist”); R.G. Armstrong (“Cheyenne”); Mark Goddard (o Major West, de “Lost in Space”); Leonard Nimoy (o Mr. Spock, de Star Trek”); Bette Davis (precisa apresentar ? ); Michael Rennie (“The Day the Earth Stood Still”); Walter Pidgeon (veterano do cinema, dispensa apresentações); Billy Mumy (o Will Robinson, de “Lost in Space”); David McCallum (“The Man from Uncle”); George Takei (o Sr. Sulu, de "Star Trek"); Victor Buono (o Rei Tut, de “Batman”/1966); Michael Ansara (outro que era ator de confiança de Irwin Allen e esposo na vida real de Barbara Eden/Jeannie e invejado no mundo todo por isso...); Paul Carr (“Voyage to the Bottom of the Sea”); June Lockhart (a srª Robinson de, “Lost in Space”); Mike Connors (Mannix); Lee Meriwheter (“The Time Tunnel”), e muitos outros.
O episódio piloto, foi filmado em 1956, um ano antes da estreia na TV, e com o requinte de um filme noir. Foi reeditado posteriormente e entrou como o episódio de nº 13, na primeira temporada, com o título de “The Case of the Moth-Eaten Mink”.


No último episódio em 1966 (“The Case of The Final Fade Out”), o criador do personagem Perry Mason, o escritor Erle Stanley Gardner, aparece como presidente do júri, fazendo uma singela participação como ator. 
Sobre o elenco clássico, o ator Raymond Burr faleceu em 2003. 

Barbara Hale está viva em 2016, com 94 anos de idade; William Hopper nos deixou em 1970; Ray Collins partiu em 1965; William Talman, deixou-nos em 1968; Richard Anderson está vivo em 2016, com 89 anos de idade. 
Assim foi Perry Mason, uma série que fez muito sucesso, apesar de ser ambientada no mundo jurídico, com suas longas sessões de oratória e nem sempre em linguagem coloquial, aliás, nunca para ser preciso, e assim, é realmente um mérito para essa produção ter despertado a atenção do público para um show forense, abrindo caminho para que outras séries enfocando o mundo jurídico viessem depois na história da TV.

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