domingo, 20 de agosto de 2017

Tesouros Indo Ralo Abaixo - Por Luiz Domingues



Tendência humana em geral, a prática abominável do imediatismo obscurece-nos os sentidos, não só em termos socioculturais, é bom ressalvar, todavia pior que isso, gera prejuízo e consequente atraso, no avançar da evolução de uma civilização. Parece frase feita e vazia ? Soou confuso o que afirmei acima ? Pois vou esmiuçar a linha de raciocínio e onde quero chegar.


A necessidade é a mãe da invenção, como falava o grande Frank Zappa, e tal afirmativa espelha bem a motivação que tem movido a humanidade para frente, desde que o primeiro troglodita resolveu buscar uma maneira de produzir fogo para cozinhar seu assado, sem ter que depender da combustão natural gerada por um raio fortuito caído do céu. De lá para cá, crescemos em inúmeros aspectos e nem cabe perder tempo para exemplificações óbvias, tomando tempo do leitor. Mas o que interessa saber, é que tal sentido de evolução foi contínuo e ganhou aceleração alucinante, do século XX para cá, graças aos evidentes progressos da ciência. Sobre isso, nada a reclamar, pelo contrário, devemos comemorar os avanços incríveis da tecnologia que facilitam a nossa vida de uma forma absurda, em todos os sentidos, inclusive considerando que tais conquistas englobam a medicina e dessa forma, até a nossa expectativa de vida alongou-se, por conta disso.

Contudo, existe o lado obscuro do progresso, infelizmente, e nesse aspecto, os desdobramentos são muitos, a começar pela tecnologia a favor da beligerância. Antes que contra-argumente-se, não trata-se da visão de um hippie velho e utópico que ainda acredita que o verão do amor de 1967, vai mudar o mundo. É claro que eu sei que a geopolítica é importante e nenhuma nação soberana de 1º mundo, pode abrir mão de ter seu poderio militar a garantir-lhe suas estratégias e interesses. Mas também, apesar de saber disso, não entra mesmo na minha cabeça fabricar armas e dizimar população civil (leia-se crianças e idosos indefesos), e aí, perdoe-me, mas nesse caso sou mesmo um admirador da utopia do Flower Power.

Mas não é esse o ponto que desejo abordar nesta crônica, exatamente. Quando falo em aspectos obscuros da aceleração dos avanços tecnológicos, quero mencionar a tendência pela pulverização de informações que a Internet proporciona, mas sobretudo a indução ao esquecimento sumário da informação, gerando uma verdadeira onda de descaso para com o tesouro cultural da humanidade. Pensando sob qualquer aspecto cultural imaginável, a perda da conexão da geração atual com tal carga cultural acumulada, é brutal. E também é irônico, no sentido de que com tanta tecnologia, ter conexão instantânea com o arquivo cultural da humanidade está nas mãos de todos que manipulam a internet o dia inteiro, em toda a parte com a telefonia móvel cada vez mais prática, portanto, não é culpa da tecnologia em si, mas o fato é que a ultra pulverização e o sentimento popular está mais para “viralizar” fofocas e gracejos da parte de manifestações mega popularescas do que motivar as pessoas a visitar o site do Museu do Louvre, digamos assim. Ok, a garotada não sabe e nem quer saber quem foi Leonardo da Vinci; não está nem aí para Shakespeare ou Alexandre Dumas e não quer entender a diferença do impressionismo para o expressionismo. Mas convenhamos, isso não é algo louvável a ser comemorado, não acha ?


Desconectar completamente com a carga cultural acumulada desde o passado não é nada saudável, e mesmo compreendendo todo o aspecto inevitável que vem induzindo a todos para tal predisposição, não é algo para assistirmos passivamente. Talvez passe por alguma política cultural educacional semeada a partir do ensino fundamental, fomentando outra mentalidade, ou outras ações de apoio e incentivo, mas muito provavelmente, por um conjunto de medidas somadas para que a criançada cresça sim, usufruindo dessa tecnologia incrível, mas tendo uma mentalidade sobre seu uso, diferente, não desperdiçando-a com futilidades múltiplas, mas pronta a tê-la como uma fonte inesgotável de pesquisa. Alguém mais velho que esteja lendo esta crônica lembra-se da “Enciclopédia Britânica” ? E da “Barsa” ? 


Pois é... a Internet tem a possibilidade de ser o que tais enciclopédias propunham-se a ser em tempos passados, mas multiplicado por um fator incalculável em termos de armazenamento de dados. Eu compreendo quando vejo vídeos com teor completamente imbecil a apresentar milhões de visualizações em questão de minutos, ok, a grande massa não vai querer assistir filmes do François Truffaut, todavia, que tal começar a reverter tal quadro, usando políticas culturais mais nobres ? Sim, nem precisa contra argumentar que as autoridades não interessam-se em melhorar o nível educacional e cultural do povo sob pena de não dominá-lo como desejam etc etc. Mas ao menos poderíamos sonhar com uma difusão de ideias menos cruel, ou é sonhar demais ? “Estacionei” no Human Be-in do Allen Ginsberg , ou tenho alguma razão em lastimar o atual estado de coisas ?

6 comentários:

  1. O comentário anti-comentário, de minha parte é: a flexibilidade do conhecimento é encantadora, porém a nossa língua perde para nosso subdesenvolvimento. Ou será o nosso analfabetismo empírico de aprendizado moderno? Sim, nossos professores foram "orientados" a orientar alunos sobre sexualidade, guardando os mil pré-conceitos aprendidos... individualmente! E isto nos anos 70/80. Agora, continuar a "não ensinar" educação e respeito, e moral, aos mais velhos para educarem os mais novos... também ninguém lembra... E dê-lhes modernidade cada vez mais amoral, pré-conceituosa e - desta vez - realmente ignorantes de um convívio social pacífico. Daí esta partezinha de "vamos vender mais armas, realmente modernas" - pois que romperam com a capacidade do desenvolvimento e seguiram com "desenvolvimento científico de era pós moderna", ah... indiscutível... Ou melhor: discutir o que se agora a população regrediu para o século XVI ou por aí, para chegarmos ao século XXI apenas cuspindo fogo e veneno para todo e qualquer "ser vivo"... paupérrimo (porque é assim que aprendem atualmente sobre ser culto e saber discernir a realidade "montada por mentiras consumíveis e que apodrecem todo e qualquer ser humano, que aliás, fica é no "hora veja" o que acontece!) Passar bem... se puder, o resto de nossas vidas, ok??

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    1. Oi, Miriam !

      Creio que por vias diferentes nossa linha de pensamento acaba por encontrar-se num denominador comum. Minha abordagem nessa matéria era outra, queria questionar o mau uso da tecnologia, não pensei na questão da perda de valores que aniquilam o respeito às tradições. Isso é um ponto também a ser analisado com profundidade, certamente. Onde nosso pensamento coaduna-se, creio ser na preocupação com a crescente onda beligerante, trazendo tensão social e iminência de guerra mundial a vista. E claro que é resultado da educação muito maltratada sob inúmeros aspectos, inclusive a frouxidão no conceito do respeito e aí, realmente tendo a concordar contigo, embora haja o outro lado dessa perspectiva, onde é preciso levar em consideração que tensão; medo e guerras são também ações calculadas por forças poderosas com claros objetivos particulares.

      Grato pela atenção ao Blog, com direito a comentário enriquecedor.

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  2. Muito bom, meu caro. O problema é que os medíocres tomaram todos os lugares (inclusive educação) e eles não gostam de estudar. A mídia de massa excluiu intelectuais e gente de valor da sua grade.

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    1. Exatamente, amigo Marcelino !

      Não só gostam da manutenção do status quo por ignorância pura e simples, como também usufruem dela mediante benesses comerciais advindas e portanto, desejadas.

      Grato por trazer sua opinião sempre contundente, aqui no Blog !

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  3. Fico feliz por ter a oportunidade de ler uma crônica assim, que remete a muito que penso e me alenta saber que existem ainda pessoas preocupadas com o básico(Cultura e conhecimento)em dias sombrios de tanta apologia a iniquidade! Parabéns Luiz Domingues

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    1. Olá, Anderson !

      Antes de mais nada, saiba que estou muito feliz com sua visita ao meu blog e mais ainda com sua participação postando comentário muito pertinente.

      De fato, vivemos mesmo dias sombrios, onde a impressão é de que vivemos numa terra arrasada, tamanha a inversão de valores. E isso contrasta com o poder da tecnologia que fica a cada dia mais alucinante, com rapidez no acesso às informações, mil recursos incríveis e poucos os aproveitam adequadamente. Portanto, o negócio é fazermos o nosso "trabalho de formiguinha", agregando pessoas como nós, que preocupam-se e sonham com dias melhores. Apesar de tudo, sou um otimista por natureza e acredito na luz no final do túnel e o simples fato de ler sua participação aqui com esse teor de comentário bem embasado, já é uma prova que não estamos sós e vamos dar a volta por cima, ainda que demore um pouco para vermos um resultado concreto.

      O Blog é seu, visite-o sempre ! Grande abraço, amigo !!

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