quinta-feira, 29 de março de 2018

Velvet Goldmine - Por Luiz Domingues



Quando pensamos na história do Rock nas décadas de sessenta e setenta, principalmente, acho que cabe parodiar a música do velho guerreiro, o inesquecível, Chacrinha : “o Rock britânico está com tudo e não está prosa”... como se não bastasse ter as quatro bestas do apocalipse em suas fileiras (Beatles; Rolling Stones, The Who e Led Zeppelin), os britânicos legaram-nos a incrível safra com artistas oriundos da dita “British Invasion” de 1964; a onda Mod; Folk & Soft Rock; a psicodelia de Canterbury que revelou o Pink Floyd (entre outros ícones); The Kinks; Cream; Blues-Rock; Hard-Rock; Space Rock, Rock Progressivo e muito, muito mais...

No início da década de setenta, em meio a tantas vertentes, o Reino Unido deu-se ao luxo de protagonizar três grandes explosões sonoras ao mesmo tempo, e cada uma, com inúmeros artífices que revelaram-se faróis de alcance mundial. Tais escolas estilísticas eram distintas entre si, mas tendo em comum a exuberância artística e o poder arrebatador entre seus seguidores. Falo sobre o Hard-Rock; Progressive Rock e Glam-Rock (ou Glitter Rock).



Velvet Goldmine é um filme produzido no final dos anos noventa, cuja história é ambientada no universo do Glitter Rock, da década de setenta. Musicalmente a falar, o Glitter / Glam Rock, foi bastante influenciado pelo Rock visceral dos primórdios, anos cinquenta, mas também aberto a manifestações da música europeia em geral, de décadas passadas, ligadas ao burlesco; vaudeville; polka; folk e outras manifestações do cancioneiro antigo e situados entre as duas guerras mundiais do século XX. Sob o ponto de vista estético, uma forte influência da literatura e cinema de Ficção Científica, a versar sobre civilizações extraterrestres, além da literatura de Oscar Wilde e Lord Byron, ao apostar em posturas dândis, com direito a verborragia de forte apelo intelectualizado, a conter bastante sarcasmo (nesse caso, nada mais tipicamente britânico); cinismo e ironia fina. Nessa mistura explosiva, surge então uma androgenia com citações alienígenas, a carregar em visuais exagerados e fortemente efeminados, que gerou furor em todo o Reino Unido e espalhou-se pelo mundo rapidamente, ao criar a onda “glam”. Entre seus principais artífices, destacaram-se : David Bowie & The Spiders From Mars; T.Rex; Roxy Music; Mott the Hoople; Slade; Wizzard (do guitarrista, Roy Wood); Mud, Sweet; Gary Glitter & The Glitter Band e o próprio Queen, que emergiu dessa cena, além de muitos outros artistas, como também os americanos, Lou Reed; Iggy Pop e New York Dolls, que reforçaram o time do outro lado do oceano Atlântico (bem entendido que os americanos tinham uma sonoridade bem mais áspera, quase gutural).


“Velvet Goldmine” é o título de uma música de David Bowie e deveria estar na trilha desse filme, naturalmente, mas o grande camaleão vetou sua inclusão, assim como qualquer outra música sua. Sua primeira alegação foi a de que não queria desperdiçar esse cartucho, visto que ele mesmo planejava produzir um filme sobre o movimento Glitter inglês, do qual fora seu grande monarca. Uma pena, Bowie deixou-nos no início de 2016, e não concluiu tal projeto em lançar uma obra desse teor, e acredito que com ele no comando, teria sido um estouro. Infelizmente, além de vetar suas canções, ao longo da produção de “Velvet Goldmine” soltou notas na imprensa a mostrar-se contrariado, pois o personagem principal do filme, o astro Glam, Brian Slade (interpretado por Jonathan Rhys-Meyers), era bem calcado na sua pessoa, Bowie, e em um de seus principais alter-egos, Ziggy Stardust, o alienígena andrógino que vem para o planeta Terra e torna-se um Rock Star à frente de sua banda, “Aranhas de Marte” (“Spiders From Mars”).

“Fazendo amor com seu próprio Ego”, como Bowie canta na letra da canção “Ziggy Stardust”, o personagem Brian Slade é de fato bastante semelhante ao que Bowie construiu na sua trajetória musical. 


Na foto à esquerda, cena de show real com David Bowie e o guitarrista, Mick Ronson. E à direita, cena do filme, com o personagem, Brian Slade. Intencional a semelhança, naturalmente

Não trata-se de uma biografia velada simplesmente, pois o roteiro do filme lança uma gama de variantes que tendem a misturar isso, mas que Brian Slade tem muito de Bowie / Ziggy, isso é inegável.

Outra observação que o filme angariou da crítica, foi a estrutura narrativa praticamente igual à do clássico noir, “Citizen Kane”(“Cidadão Kane”, de Orson Welles, lançado em 1941). A comparação procede, pois a história contada com saltos temporais e sob o ponto de vista de várias pessoas que gravitaram na vida do personagem, Brian Slade, é a mesma do ovacionado filme quarentista. Em Cidadão Kane, trata-se da morte do personagem que é um magnata das comunicações, Charles Foster Kane, e a chave é decifrar o que significa a palavra, “Rosebud”, a última que o personagem pronunciou antes de falecer. Já no caso de “Velvet Goldmine”, tudo gira em torna do astro do Glam-Rock, Brian Slade, e a chave pode ser a esmeralda, supostamente de origem alienígena, que teria pertencido ao escritor Oscar Wilde (um delírio Glam, portanto...). E já falo sobre isso. 

Sob uma super licença poética e que evoca os dois pilares do movimento Glitter (sci-fi e androgenia), o filme começa com uma nave espacial que aparece no céu de Londres em meados do século XIX, e deixa um bebê alienígena na porta da residência da família Wilde. E ele tem no pescoço um colar a conter uma espécie de esmeralda exótica, vinda de outro planeta. Bem, loucura a parte, bela ideia em insinuar-se que Oscar Wilde foi um extraterrestre e com poderes sobre humanos, para poder viver sem envelhecer como um humano normal, e portanto a insinuar que ele teria criado o Glitter Rock nos anos setenta do século XX. De fato, se David Bowie e Marc Bolan foram seus monarcas, Wilde como patrono (ou matrona, como queiram), encaixa-se no espírito da coisa.

A infância de Brian Slade é relembrada sob vários aspectos e sempre a insinuar a sua homossexualidade, ao assistir shows de transformistas em teatro de variedades; assistir cenas de namoro gay entre adultos que cercavam-no; sofrer bullying na escola e uma irresistível vontade de usar maquiagem e roupas femininas.

O Rock pega-o no meio do caminho e a imitação de Little Richard em que aparece exageradamente maquiado, já dá mostras do que ele tornar-se-ia no futuro.


Adolescente, já apresentava-se com bandas de Rock bem afiadas (muito bem produzidas tais cenas, por apresentar bandas vigorosas), e demonstra talento como cantor e performancer. Vem a seguir a fase "Folk", a cantar baladas soft ao violão mas vestido de mulher, cabelo enorme e com penteado feminino e não de "Rocker cabeludo macho". Lembra a atriz dos anos quarenta, Veronica Lake e qualquer semelhança com David Bowie a usar vestido feminino e cabelo igual à de Lauren Bacall não pode ser mera coincidência (Bowie teve razão em reclamar, basta olhar a capa do LP “The Man Who Sold The World”, de sua própria discografia, lançado em 1970...). 


Então, Brian acha o personagem e o mote que o faz chegar ao estrelato. Um extraterrestre completamente andrógino e novamente, qualquer semelhança com Ziggy Stardust é obviamente intencional.

O Glitter Rock explode na Inglaterra em 1972. Milhões de jovens andam pelas ruas e vão aos shows das estrelas dessa vertente, trajados iguais, a antecipar em décadas a moda dos cosplayers. São jovens extravagantes, efeminados, super maquiados e ao mesmo tempo a parecer alienígenas que acabaram de descer de um disco voador e procuram o Big Ben para tirar uma foto, como turistas em Londres.


Concomitantemente à essa narrativa da ascensão do astro Glam, Brian Slade, vemos a história paralela de Arthur Stuart (Christian Bale), um jovem oriundo da classe operária e como muitos na Inglaterra dessa época, que viu-se arrebatado pelo movimento Glam, e para o desespero dos pais, gostava de maquiar-se, usar roupas chamativas e nada masculinas e a frequentar shows de Rock dos artistas dessa vertente, onde torna-se doravante, um seguidor de Brian Slade.


Outro personagem importante que entra nessa história é o do Rocker, Curt Wild (interpretado por Ewan McGregor), que é claramente inspirado na figura real de Iggy Pop. Mais que isso, tem também muitas características de Lou Reed em sua personalidade e de fato, na vida real, Bowie interagiu com ambos (Iggy e Lou), fortemente, a motivar que passassem uma longa temporada na Europa (eles são norteamericanos), com Bowie a produzir seus discos etc. Portanto, tal personagem tratou por representar esses dois artistas, fortemente. A cena do eletrochoque, por exemplo, foi um fato real na vida de Lou Reed, em um tratamento psiquiátrico que seus pais obrigaram-no a fazer para coibir suas tendências homossexuais e as cenas do personagem a cantar ao vivo com sua banda, nem se fale, então, com uma imitação praticamente literal da presença de palco e trejeitos típicos de Iggy Pop.


Há uma personagem feminina significativa também, que é Mandy Slade (interpretada por Toni Collette). Certamente uma representação de Angela Bowie, esposa de David Bowie nos anos setenta e uma personalidade tão glitter quanto ele, aliás imortalizada pelos Rolling Stones, na famosa canção, “Angie”.



Ao sair das imitações da vida de Bowie, o filme lança enfim mais uma hipótese meramente fictícia : no auge da carreira, Brian Slade é alvejado em pleno palco e isso choca o mundo. O seu fã, Arthur Stuart estava na plateia e fica perplexo com a cena dantesca, como todos os fãs. Anos depois, Stuart torna-se um jornalista e vai a campo para desvendar o ocorrido. E é através dele que as entrevistas com as pessoas que conviveram com Slade, ocorrem e dão os flashbacks que contam o grosso da história ocorrida nos anos setenta. É uma ação claramente inspirada no papel do jornalista Jerry Thompson (interpretado por William Alland), no filme “Citizen Kane”. Mas Brian Slade apenas fingiu ter morrido e na verdade, está vivo, anos depois em 1984, a atuar, mas disfarçado como outro personagem. Bem, na vida real, David Bowie prosseguiu a criar personagens, após decretar o fim de Ziggy, e nos anos oitenta esteve a todo vapor, sob Serious Moonlight...


No todo, apesar do roteiro ser muito embaralhado, no uso de referências múltiplas, a história não chega a tornar-se o “samba do crioulo doido”, mas aconselho prestar atenção, pois qualquer perda de foco no filme pode gerar confusão na interpretação do espectador. Fora disso, o filme tem vários méritos. Por exemplo, uma direção de arte excelente e seria intolerável que não o fosse, ao levar-se em consideração que o Glitter Rock britânico notabilizou-se fortemente pelo aspecto visual exagerado e qualquer subtração desse histrionismo obrigatório ou interpretação errônea na leitura de época desse quesito, arruinaria o filme e pelo contrário, os cenários; figurinos; maquiagem e adereços usados, são muito fidedignos ao que ocorreu na Inglaterra no auge dessa vertente, entre 1971 e 1974, mais ou menos.



Outro item tão ou mais importante quanto, a música contida nessa trilha sonora (e também a incidental) é muito boa e absolutamente fiel a tal escola do Rock setentista. A maioria das canções foi criada especialmente para o filme, mas tem algumas releituras oriundas de clássicos dessa vertente, porém com regravações feitas para o filme, exclusivamente. A grande sacada foi colocar Brian Eno, o tecladista do Roxy Music, uma das bandas mais proeminentes desse movimento, a cargo dessa supervisão musical. Não só um grande músico, mas também um produtor super experiente, Eno não deixou o nível cair e o que ouve-se ali, músicas novas ou regravações, tem produção e arranjos a respeitar as sonoridades setentistas. Ouve-se portanto, uma banda noventista como o "Placebo", a interpretar T.Rex, e quase dá para pensar-se que é a gravação original de Marc Bolan & Cia. E assim tem outros expoentes da cena do Rock britânico noventista a atuar com regravações, como o "Suede" e o "Radiohead", e no caso do Suede, uma banda que foi nos anos noventa, fortemente identificada com um resgate explícito do glitter setentista.



Outro requinte do filme, são múltiplos os sinais subliminares a homenagear o Glitter Rock dos anos setenta. A banda fictícia, “Venus in Furs” do filme, é uma clara alusão à música homônima do The Velvet Underground. O personagem, Brian Slade, chama-se “Slade”, certamente por aludir à banda de Noddy Holder & Cia., o grande Slade, outro baluarte do Glam Rock 70’s...”cum feel the noize” com duplo sentido e tudo...



A passagem de tempo com o agora jornalista, Arthur Stuart a entrevistar pessoas em 1984, tem a ver com o livro de Aldous Huxley, com o mesmo título, pode ser, mas muito mais com a música do David Bowie, “1984” (LP "Diamond Dogs", de 1974), inspirada no livro citado. O personagem do guitarrista da banda fictícia, “Maxwell Demon’s” que chama-se, Trevor Finn, no filme, tem esse nome pela junção dos nomes do saudoso Trevor Bolder (baixista da banda “Spiders From Mars” de David Bowie, e do qual eu sou um fã incondicional como mestre no instrumento que ele foi), e de Mickey Finn, o percussionista do T.Rex. Fora isso, tem múltiplas citações a outros ícones do Glitter Rock e também aos livros de Oscar Wilde. Por fim, a ideia da esmeralda alienígena também pode remeter ao Sci-Fi clássico das Histórias em Quadrinhos, com a lembrança da Kryptonita, mineral do planeta Krypton, que tem o poder de neutralizar os poderes do Superman, justamente por ser de sua terra natal.


Ainda cabe a concepção que David Bowie teve em vida, ao pretender realizar um longa metragem para abordar o que foi a explosão do Glitter Rock britânico. Ele foi morar em outro planeta em 2016, mas torço para que um produtor compre essa ideia e lance algo nesse porte em que o velho camaleão imaginou fazer.

Contudo, “Velvet Goldmine” serve-nos ao menos por enquanto com material a suprir essa necessidade de um retrato sobre tal época.

Produção britânica, foi lançado em 1998, com direção de Todd Haynes. Roteiro do próprio Haynes em parceria com James Lyons. Um ótimo elenco de atores e direção musical de Carter Burwell, mas como já disse, com supervisão de Brian Eno (providencial !).

Recebeu boas críticas no geral, a elogiar a ambientação do Glitter Rock, apesar das ressalvas sobre imitar descaradamente o roteiro de “Cidadão Kane”. No Brasil, passou obscuramente pelas salas de cinema e só os bem antenados na história do Rock, ligaram-se sobre o que tratava-se.


Por ter ficado circunscrito aos canais de TV a cabo, teve repercussão discreta, também. Dá para achar-se cópias em DVD / Blue Ray, e na Internet, não tem disponibilidade gratuita no You Tube, mas consta em vários sites de cinema com exibição no padrão streaming gratuito ou via download pago. 


Em suma, um bom filme, que recomendo.

4 comentários:

  1. Ótimo filme e trilha sonora, concordo com a sua narrativa, faltou um pouco de Glam nos fãs e a primeira vez que ví o filme achei um pouco embaralhado o roteiro, o que me chamou mais a atenção foi a atuação dos atores principais e a thilha sonora, faltou algo mais, talvez Ken Russell como diretor 😀🎸🎶

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom que apreciou, amigo Kim Lima !

      De fato, o roteiro peca pela confusão, ficou mesmo embaralhado o que o diretor quis realmente focar, com tantas situações misturadas a atrapalhar a melhor compreensão do espectador. Concordo contigo, nas mãos de um gênio como Ken Russell, o aspecto Glam teria sido muito melhor realçado. Ele certamente teria mexido no roteiro a evitar a perda de tempo na suposta trama policial e carregado nas alegorias malucas, e teria sido muito mais condizente ao espírito do movimento Glitter-Rock.

      Grato pelo seu sempre interessante comentário, que sempre agrega !

      Excluir
  2. Eu que lhe agradeço, sempre super interessantes e reflexivas suas matérias e crônicas. ☺👏👏👏👏👏⭐⭐⭐⭐⭐

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Opa, seu apoio muito anima-me !!

      Seguimos sempre juntos nessa luta em prol do Rock; música em geral; pelo cinema; arte & cultura !!

      Abração, Kim !

      Excluir