sábado, 21 de abril de 2018

CD Simbiose / Arcpelago - Por Luiz Domingues



Que a vertente do Rock Progressivo setentista foi a mais vilipendiada da história, por detratores de toda a espécie, creio não haver dúvida alguma, nesta altura dos acontecimentos, século XXI a caminho de encerrar sua segunda década de existência. Fruto de motivações nada nobres, tal ataque causou um estrago e tanto e o resultado foi o que verificou-se a seguir, com a criação de uma paradigma infame a ditar a norma para que essa escola estética passasse a ser odiada pelas gerações posteriores, sem questionamentos. Por sorte, nem toda a boiada aceitou a regra imposta e alguns poucos abnegados resistentes continuaram a respeitar e admirar tal vertente e assim, graças à resistência heroica de verdadeiros maquis, o gênero sobreviveu, ainda que a habitar o mundo underground, para manter a chama acesa, mesmo que sob uma proporção ínfima. Por conta de tal persistência, eis que jovens (que em tese nem deveriam saber o que representou tal estética oriunda de décadas atrás), surgem no panorama artístico, espalhados pelo mundo a montar bandas, fomentar cena e reviver o mais puro Art-Rock. E claro, dentro do corolário do Rock Progressivo, ou seja, a respeitar suas mais belas tradições a versar pela sofisticação musical sob inúmeros aspectos. Por exemplo, o apreço inerente pela música erudita, e à Folk music de raiz europeia, os dois pilares da alma mater do estilo, além da extrema preocupação em caprichar nos arranjos individuais de cada instrumentista e da banda como um todo, fora o esmero na produção dos timbres, na respectiva resolução do áudio, no produto final. Um típico fã de Rock progressivo não presta atenção apenas na melodia cantada como uma canção pop qualquer, mas vai fundo na sua prospecção por todos os detalhes e vibra com cada elemento dentro da obra de um artista. Certamente, por ser um gênero onde a sofisticação musical é uma marca registrada, o apuro do artista é automático na elaboração de sua obra, o que faz desse estilo, algo muito especial, sem nenhum demérito a outras escolas dentro do Rock, mas a deixar claro, para tocar Rock Progressivo, é preciso ter embasamento técnico, teórico e conhecimento de áudio para mediante tal carga de bagagem superior, poder pleitear a atenção dos exigentes fãs desse estilo. Ou seja, isso explica muita coisa ocorrida muitos anos atrás, como por exemplo a ação da parte dos marqueteiros inescrupulosos que apostaram em slogans infames como : “I Hate Pink Floyd”... pois avacalhar o estilo foi mais fácil do que estudar por anos a fio para fazer algo decente, mas enfim, não dá para voltar em 1977, infelizmente, para mudar o que aconteceu ali...

O importante é que apesar do vilipêndio massacrante, o gênero mostra-se vivo em pleno 2018, e dessa forma, festivais de Rock Progressivo multiplicam-se pelo Brasil e diversos países, a apresentar uma gama enorme com bandas jovens, além de até dar margem a revitalizar bandas clássicas dos anos setenta e assim, hoje eu tenho o prazer de comentar sobre o trabalho de uma banda carioca moderna, chamada, “Arcpelago”, que mergulhou fundo na sonoridade clássica do Rock Progressivo setentista e lançou o CD “Simbiose”, com muitos méritos.

Sob múltiplas e ótimas influências de artistas clássicos dessa escola, o quarteto apresenta um som coeso, muito bem engendrado harmônica; rítmica e melódicamente, além de mostrar inspiração nas composições; um trabalho muito bom nos arranjos e um áudio excepcional, com valorização total de timbres vintage, um verdadeiro oásis para os apreciadores dessa escola sofisticada e exigente por natureza. Em “Simbiose”, o Arcpelago apresenta seis canções muito interessantes, algumas inclusive com longa metragem, uma marca registrada do Rock Progressivo tradicional, isto é, com o claro uso do recurso das suítes, típico elemento herdado da música erudita, onde a construção de uma peça complexa é permeada por diversas partes, mas a comunicar-se entre si e a manter um elo primordial como ponto de referência. E até faixas bem curtas, bem próximas da Folk Music.

  O baixista, Jorge Carvalho, em ação. Foto de Lívia Botelho

O álbum abre com “Sopro Vital”, sob início a insinuar-se sinfônico. Mas rapidamente entra em climas mais amenos onde o timbre do órgão Hammond, sob ação rápida da caixa Leslie, logo demarca onde estamos a pisar, isto é, sob o porto seguro do Prog Rock clássico. Adorei a base da guitarra, com muita energia e os detalhes com outros teclados são muito inspiradores. O timbre do baixo é absolutamente matador. Um Rickenbacker, modelo 4001, nas mãos de um baixista de alto quilate (Jorge Carvalho) e sob a preocupação em timbrar como antigamente, faz toda a diferença. Lembrou-me o trabalho de diversas bandas europeias setentistas incríveis que eu tenho certeza que os rapazes também gostam, mas não vou enumerá-las aqui, pois a minha idiossincrasia não importa neste momento e o que interessa-me neste caso é enaltecer a sonoridade do Arcpelago. Gostei muito do solo fantasmagórico do Mini Moog (o ótimo Ronaldo Rodrigues é o piloto das teclas nessa banda) e o de guitarra, belíssimo, ao final da canção (Eduardo Marcolino é o guitarrista neste disco, mas nos dias atuais a guitarra da banda é comandada por Diogo Aratanha), em momento de desdobrada rítmica, providencial pela beleza. Ótimo o trabalho do baterista (Renato Navega), com técnica e muita criatividade em seus desenhos rítmicos e muito bom gosto nas sutilezas empreendidas sobre as campanas dos pratos. A parte cantada é pequena, mas muito bonita a evocar quase uma inspiração sutil no canto gregoriano. A letra é bem típica das preocupações do letrista Progger padrão, ou seja, busca a reflexão existencial mais profunda, a destoar completamente do horror popularesco que ouve-se através da mídia mainstream da atualidade, portanto, como é bom saber que tem gente inteligente ainda, neste planeta.

 O baterista, Renato Navega, em destaque. Foto : Carlos Vaz

"Distância entre um Dia e Outro” começa com um piano elétrico muito bem pontuado e um baixo violento, no uso e abuso de distorção, versado nas mais belas tradições de baixistas como : Greg Lake e John Wetton. A base da guitarra é pesada, dissonante e muito instigante a lembrar claramente o King Crimson em seus melhores dias na década de setenta. O baterista dá um show, não só pelas suas viradas técnicas a buscar elementos jazzísticos, mas também na condução, com uma caixa seca e um trabalho brilhante no chimbau e pratos de condução, ou seja, é óbvio que Bill Brufford influenciou-o bastante, que maravilha.

                 O guitarrista, Eduardo Marcolino, em destaque.
 
A terceira faixa, “Ebulição dos Tempos” começa com um riff forte, auxiliado por acentos marcantes. Gostei bastante do solo de guitarra, com timbre encorpado e a bela melodia proposta pelo Mini Moog. E mais uma vez a linha de baixo e bateria mostrou virtuosismo e uma sincronicidade perfeita. Sobre a letra, busca-se novamente o tom da seriedade como seu norte. Gostei da frase :


“Almas vazias choram a Liberdade / Lágrimas aflitas banham a ocisão / E afogam entre as vistas a regeneração”


Cidade Solar” é outra canção instrumental. A levada inicial do baixo, sob um típico Riff de Hard-Rock setentista, trabalha com tônica e oitava como base primordial e por si só, já agradou-me muitíssimo, mas vou além, pois preciso observar que o timbre espetacular, impressiona. Tem um estalo médio agudo que eu particularmente aprecio muito e quando o Jorge informou-me que nesta faixa usou um baixo Fender, modelo Mustang, fiquei muito impressionado com o resultado, visto que a grosso modo parecia o timbre mais agressivo do Fender, modelo Precision. O trabalho dos sintetizadores é mais uma vez muito bom. Ronaldo é um grande tecladista, piloto de tecladeiras setentistas, com maestria. O arranjo da guitarra está igualmente excelente, tanto base, quanto solo.

Tecladista e vocalista, Ronaldo Rodrigues em ação. Foto : Lívia Botelho
 
Universos Paralelos” é uma faixa curta, com delicioso sabor Folk Rock. Lembra muito o trabalho de bandas europeias marcantes da década de setenta, mas também de brasileiras similares. É belíssimo o violão riscado e a melodia central conduzida pela guitarra. E o trabalho do Mellotron é emocionante. Só quem viveu a década de setenta com intensidade sabe o quanto o timbre desse instrumento é marcante ao extremo. Difícil achar tal teclado disponível hoje em dia e acredito que o Ronaldo usou um simulador, mas o timbre ficou muito fidedigno, uma beleza.

A formação do Arcpelago, que gravou o CD Simbiose, com o guitarrista, Eduardo Marcolino (canto inferior à direita).

A última faixa do álbum, “Dentro de Si”, lembra muito o trabalho de bandas progressivas brasileiras e setentistas. Mais uma vez o trabalho do baixista, Jorge Carvalho, impressiona pela sua técnica e criatividade, além do timbre impressionante. Novamente a pilotar um Rickenbacker, desta feita no uso de um modelo 4003, o som do baixo é um massacre sonoro de tão bonito pelo timbre e corpo, robusto como ele só. Em alguns momentos onde sobram notas, a ressonância do “sustain” que ele deixa é incrível, mesmo. Gostei muito dos solos; o de Mini-Moog, a base com órgão Hammond, além de mais uma vez fazer uso de piano elétrico em alguns detalhes e um solo de guitarra muito melódico, a la David Gilmour. A letra da canção mais uma vez investiu no humanismo reflexivo, sob introspecção analítica, algo muito incomum nos dias atuais, ainda bem...

Sobre a capa do álbum, a ilustração é simples em seus traços a mostrar uma arte subjetiva. Sugere a presença dos quatro componentes da banda,unidos em uma espécie de mônada, ou seja, algo bem sutil e tudo sob cores leves, em tom pastel. Toda a concepção do design gráfico da capa e encarte, foi obra de Fernanda Pio. Com fotos da banda, individuais e coletiva, por Patrícia Soransso e Vítor Granja. O álbum foi gravado entre dezembro de 2014 e setembro de 2015. Gravação e mixagem sob a responsabilidade de Eduardo Magliano e masterização por Pedro Garcia.

A destacar-se o press-release no encarte, assinado pelo histórico jornalista cultural, Joel Macedo, membro da equipe original da Rolling Stone Brasileira, no início dos anos setenta e sedimentado escritor e tradutor de livros internacionais.


Eis o álbum “Simbiose”, na íntegra para o leitor degustar o trabalho do Arcpelago :

Eis o Link para assistir no You Tube :


Formação do Arcpelago nesse álbum :

Eduardo Marcolino - Guitarra e Violão

Jorge Carvalho - Baixo

Renato Navega - Bateria

Ronaldo Rodrigues - Teclados e Voz

O atual guitarrista do Arcpelago, Diogo Aratanha. Foto : Lívia Botelho
 
Na atualidade de 2018, o guitarrista titular da banda é Diogo Aratanha.


Para conhecer melhor o trabalho da banda, acesse :


Canal do You Tube :





Página do Facebook :




Contato direto com a banda :


@arcpelago
 
Bem, eu nunca acreditei nos argumentos falaciosos que embasaram o vilipêndio covarde que o Rock Progressivo recebeu ao final dos anos setenta e continuei firme e forte a apreciar essa escola, com muita ênfase, portanto, é com alegria que vejo, após quatro décadas decorridas da deflagração da ogiva nuclear por parte de seus detratores, que o gênero sobreviveu e dá mostras de revitalização. Portanto, saúdo o trabalho do Arcpelago e desejo-lhe uma longa carreira, com mais trabalhos tão bem feitos ou ainda melhores que este CD, “Simbiose”, que é muito bom, no futuro. 

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