Este é um
caso excepcional, pois trata de um filme que não foi concebido para ser um Rock
Movie, propriamente dito, mas ao envolver diversos artistas sensacionais do
universo do Rock cinquentista, inicialmente apenas como uma “escada” para
servir às sketches propostas como piadas, eis que abriu um inesperado campo e
tornou tal filme um dos melhores Rock Movies da história, por incrível que
pareça. Mais do que isso, este filme precipitou um impensável arranjo
involuntário que seria crucial para a história do Rock, portanto, é considerado
nos dias atuais, uma importante peça, também por tal detalhe. Falo sobre o
filme : “The Girl Can’t Help It”, que em português recebeu o malicioso título:
“Sabes o que Quero”.
Cabe
destacar que a tradição brasileira de estabelecer títulos completamente fora da
tradução literal do original em línguas estrangeiras, gerou ao longo dos
tempos, aberrações as mais diversas. A alegação da parte dos “gênios” do
marketing que estabelecem tais mudanças desde os primórdios do cinema mudo,
para alimentar a exibição nacional, sempre pautou-se pela ideia de que seria
importante adaptar os títulos em torno do mote de cada filme, para promover
assim o melhor entendimento da parte do público brasileiro, quando ocorressem
expressões idiomáticas; gírias ou ditados culturais muito específicos em outras
culturas e que seriam portanto incompreensíveis ao nosso entendimento.
Mera
balela, a julgar que seríamos tão provincianos assim ao ponto em ignorar
completamente as diferenças culturais, tendo em vista que o Brasil é
basicamente um país que recebeu imigração de povos do mundo inteiro, portanto,
com tantas colônias estrangeiras aqui estabelecidas, nada causa tanta
estranheza, em tese, mesmo que sejamos um povo colonizado por europeus, em
nosso caso, pelos portugueses. Ao falar sobre esse filme em específico, a minha
explanação sobre essa questão de invenção de nomes aleatórios, passa por tal
aberração e há uma explicação para tal. Quem inventou o título: ”sabes o que quero”,
quando teve essa ideia, quis certamente enfatizar os aspectos maliciosos,
machistas e sexistas contidos no texto do filme e vou além, pois a inspiração
para o nome inventado tem forte influência das antigas chanchadas brasileiras
dos anos cinquenta, notadamente filmes com referência direta ao antigo teatro
de revista, vedetes & rebolados, ou seja, a tratar-se de fitas a envolver artistas com estilo de
humor debochado, tais como Dercy Gonçalves e Zé Trindade, principalmente. Portanto,
trata-se sim de uma comédia norte-americana típica da década de cinquenta, a
buscar o elemento erótico como mote, porém dentro de um abordagem com limites,
naturalmente, muito longe da falta de decoro e da cafajestagem que supostamente
o responsável pela elaboração do título em português para o público brasileiro,
considerou, talvez baseado em suas convicções pessoais.
Postas tais
considerações iniciais, eu avanço para explicar mais um detalhe do ponto de
vista cinematográfico. Tal tipo de abordagem humorística, no cinema
norte-americano (falo sobre comédias românticas), remontava tranquilamente aos
anos trinta e quarenta, ou seja, fora bem explorada em algumas obras assinadas
por diretores do quilate de Ernest Lubitsch, Frank Capra, Charles Vidor e
outros. Porém, tal gênero das comédias românticas evoluiu e enfim, ganhou um ar
mais apimentado nos anos cinquenta, quando Marilyn Monroe foi protagonista de
vários filmes a explorar o humor em torno da sua beleza descomunal e o inerente
machismo gerado, como “Gentleman Prefer Blondies” (de Howard Hawks), “How To
Marry a Millionaire” (de Nunally Johnson) e outras, mas principalmente com a
ótima comédia dirigida por Billy Wilder, “The Seven Year Itch”, a mais
apimentada até então, em 1955.
Nesse sentido de explorar a sua beleza (Marilyn), com um
tipo de roteiro cem por cento baseado no furor gerado pela tensão sexual que
ela provocava naturalmente entre os homens, chegou-se ao clímax no cinema
cinquentista. Nesse filme em específico, que teve um mote muito próximo das
sketches do humor televisivo, Marilyn interpreta uma mulher sexy, mas
absolutamente ingênua, que provoca os sonhos de um vizinho que viu-se livre da
esposa e dos filhos por alguns dias (as tais “coceiras dos sete anos de
casamento”, a designar uma fase onde os homens voltariam a sonhar com outras
mulheres, além da esposa), e assim, as piadas desenvolvem-se em meio à malícia
que só existe na mente do rapaz, pois ela, a personagem defendida por Marilyn, gera
tais situações sensuais, completamente desprovida de qualquer insinuação
erótica, daí a graça das piadas. Bem, o ator que atuou com Marilyn em tal
filme, foi Tom Ewell.
Pois um ano
depois, em 1956, eis que sob a batuta do diretor, Frank Tashlin, o bom ator e
comediante, Tom Ewell novamente foi convocado para estrelar uma comédia nos
mesmos moldes, a explorar a tensão sexual, porém deste vez com uma concorrente
de Marilyn, a exuberante, Jayne Mansfield.
Tão linda quanto, voluptuosa, loura
e acostumada a interpretar o papel da garota ingênua, porém sexy e que derretia
os corações dos homens por anda passava, foi uma escolha perfeita para a
história. A estrutura da comédia, foi praticamente a mesma adotada em filmes
similares, principalmente os estrelados por Marilyn Monroe, mas neste caso, a
história conteve o diferencial de ambientar-se no mundo da música e foi nesse ponto,
que a opção em aproveitar a recente euforia gerada pelo Rock’n’ Roll, no início
da segunda metade da década de cinquenta, transformou este filme em algo muito
maior que uma comédia tradicional da época, mas a revelar-se um dos maiores
Rock Movies daquela década.
Senão
vejamos: a história baseia-se na história de um mafioso que explora máquinas
de jogos de azar ao estilo caça níqueis espalhadas por centenas de estabelecimentos
comerciais norte-americanos. Esse sujeito chama-se: Marty “Fats” Murdock
(interpretado por Edmund O’Brien, aliás, um ator que já era bem experiente na ocasião
e curiosamente não muito afeito a comédias, porém normalmente escalado para
filmes de guerra, westerns e tramas de espionagem).
Pois esse tal Murdock é
bastante temperamental, daquele tipo que não aceita desculpas ou negativas e
quer ser satisfeito o tempo todo e com rapidez. Ele tem uma namorada que é
belíssima e por onde passa, encanta os homens, chamada: Jerri Jordan
(interpretada por Jayne Mansfield). Murdock inventa que a sua namorada precisa
cantar e assim tornar-se uma estrela da música, porém, sem aptidão e nem mesmo
desejo algum pessoal nesse sentido, ela frustra os planos do mafioso. Pois
então, ele contrata um produtor musical que é considerado competente no
mercado, todavia é também um ébrio contumaz, na figura de Tom Miller
(interpretado por Tom Ewell).
Neste caso, a sua contratação teve duas
motivações básicas: ele era considerado o responsável pelo sucesso da cantora real,
Julie London (a interpretar a si mesma em pequena participação no filme), e também por ser conhecido por não misturar
o lado pessoal com o profissional e não ter tido nenhum envolvimento amoroso
com Julie, portanto, uma condição sine qua non para Murdock não alimentar
ciúmes em relação à Jerri. Cabe destacar que Julie London, na vida real, além
de ter sido uma boa cantora, foi atriz, também e a sua atuação neste filme é
sui generis, conforme comentarei a seguir.
Murdock tem um capanga próximo,
apelidado como “mousie” (interpretado por Henry Jones, um ator também
experiente, com participação em diversos filmes no seu currículo, além de muitas
participações em seriados de TV), que fica a observar a movimentação toda de
Tom. “Mousie”, Tom & Jerri, logicamente foram nomes a sugerir uma
brincadeira com o famoso desenho animado com tais personagens.
Daí em diante,
Tom passa a conviver com Jerri e claro que encanta-se com a sua beleza e apelo
sexy, irresistível. Nesses ponto, várias cenas abrem espaço para piadas
incessantes sobre como ela enlouquece os homens, bem naquele tipo de humorismo
sexista e machista de antigamente, em torno da “mulher dotada de pouca inteligência,
porém boazuda”. Mote detestável a parte, por rebaixar a mulher ao posto de um
mero objeto sexual, não posso negar que enquanto piadas, são engraçadas. Como
por exemplo, cenas em que ela anda pelas ruas (ao som da canção: “The Girl
Can’t Help It” interpretada pelo grande, Little Richard), e assim provoca
acidentes absurdos, tal como o homem que carrega cubos de gelo e os derrete com o calor do corpo ao
ver Jerri passar; o leiteiro que provoca a ebulição do leite dentro das
garrafas que carrega ou o senhor idoso que ao mirar o corpo escultural da
beldade, tem as lentes dos seus óculos, rachadas, instantaneamente.
Tom fica
íntimo de Jerri e descobre no cotidiano que ela não quer cantar de forma alguma
e o seu sonho é ser uma dedicada dona de casa, bem no espírito da mulher “bela;
recatada e do lar”, perfeita ao ideário do modo de vida norte-americano. Ele
comunica isso à Murdock e o mafioso não aceita tal diagnóstico. Então, Tom
aluga um estúdio de ensaio e ao piano, propõe alguns exercícios vocais para
aquecer a voz de Jerri, mas ela desafina de uma forma tão absurda que chega a
espatifar uma lâmpada.
Convencido de que ela não tem a mínima condição para
pleitear ser uma cantora, no entanto, isso não demove Murdock de seu plano e
neste caso, gera-se mais uma piada, desta feita a desdenhar do Rock, pois
Murdock considera que a voz horrorosa da bela moça, seria perfeita para que ela
gravasse uma música que ele mesmo teria composto quando fora presidiário, a
tratar-se de um Rock (“Rock Around The Rock Pile”, que vem a ser uma paródia
debochada de “Rock Around the Clock”, de Bill Haley and His Comets). Pois
então, Tom Miller grava a canção absurda de Murdock e ela, Jerri, grava a sua
participação apenas com gritos guturais horripilantes, a imitar uma sirene de
prisão e certamente antecipou em mais de uma década as performances costumeiras
da parte de Yoko Ono, sem dúvida. É bem engraçada a cena em que Jerri grava em
estúdio a sua participação deprimente nessa canção.
Uma vez em Chicago, Tom procura
um rapaz apelidado como “Wheeler” (interpretado por John Emery), um desafeto de
Murdock em meio às rivalidades entre grupos mafiosos distintos, e esse rival
mantém um esquema de controle de máquinas jukebox espalhadas por muitas
lanchonetes e estabelecimentos semelhantes ao longo da América do Norte inteira. Pois tão
importante quanto tocar nas emissoras de rádio, foi manter os discos de
artistas disponíveis em máquinas jukebox, na América cinquentista. Portanto,
essa constatação mercadológica e tipicamente cinquentista, é muito interessante
no filme, a mostrar os bastidores do show business da época.
Wheeler
mostra-se propenso a fechar contrato pois gosta da música em questão, no
entanto, descobre que o seu compositor foi Murdock, o seu inimigo-mor e cancela
tudo. Nesse ínterim, Murdock contra-ataca e através de um emissário seu, sabota
os negócios de Wheeler, para que ninguém mais compre as suas máquinas de
jukebox. A confusão instaura-se, inclusive com as tais máquinas a serem
destruídas e arremessadas às ruas em cenas violentas mas com o devido tom da
comédia. Wheeler mostra-se enfurecido e com os seus capangas a apoiá-lo, jura
vingança, a anunciar que eliminará Murdock.
O espião de
Murdock, “Mousie”, já havia descoberto que Tom e Jerri estavam apaixonados um
pelo outro, mas ao invés de delatá-los ao patrão, simpatizara com ambos e omite
a sua descoberta. Nesse ínterim, haverá um grande show de Rock’n’ Roll em um
teatro, transmitido pela TV, onde Jerri fará a sua estreia como cantora. De
forma surpreendente, Murdock confessa para o seu assistente, “Mousie”, que não
gostava mais de Jerri e que não pretendia casar-se com ela. Ora, foi a dica
milagrosa para o filme alcançar o seu final feliz. Nos mesmos bastidores em
cena paralela, Jerri declara-se à Tom e conta mais uma verdade: ela fingira ser desafinada pois não pretendia
manter uma carreira como cantora. Então, ela sobe ao palco e canta bem, para
provar à Tom que falava a verdade.
Quando todos encontram-se na coxia, Jerri
confessa à Murdock que está apaixonada por Tom e este surpreende à todos ao
oferecer-se para ser padrinho do casal, algo que seria bastante irreal para um
mafioso na vida real, mas engraçado para a comédia, é claro. Simultaneamente,
Wheeler e os seus capangas aparecem para alvejar Murdock, mas eis que Tom o
empurra para o palco e ele canta o seu número, a inibir a ação de Wheeler e os seus
bandidos. Tom e Jerri beijam-se e tudo acaba muito bem...
Enfim, uma
típica comédia com apelo sensual dos anos cinquenta, bem dirigida, munida de um
ótimo elenco e com produção muito boa. Então por quê é considerado um Rock
Movie tão elogiado, se na verdade, pareceu ser uma comédia feita com outros
propósitos? Bem, a resposta é que além da música título (que é sensacional), a
ideia em inserir o Rock como um pano de fundo, proporcionou participações
espetaculares ao longo do filme e então, tanto quanto as boas risadas que o
filme proporciona e sim, Edmond O’Brien, Heny Jones e sobretudo, Tom Ewell,
estiveram muito bem em suas atuações pessoais e também a considerar que a
beleza sensual de Jayne Mansfield é para tirar o fôlego de qualquer um, a
participação de muitos astros do Rock cinquentistas, é um verdadeiro desfile, a
enriquecer este filme de uma forma absurda.
Posso supor que à época, ninguém
ligado a tal produção, e nem mesmo o tarimbado diretor, Frank Tashlin, deduziu
que isso aconteceria, pois alguns desses artistas musicais eram apenas
emergentes no calor de 1956, quando do lançamento desse filme, no entanto, com
o decorrer do tempo, contar com as presenças de tantos artistas que tornaram-se
lendas do Rock, fez com que esse filme transformasse-se em algo muito além de
uma boa comédia, todavia um verdadeiro marco e sim, para ganhar a importância
extra por haver tornado-se um dos maiores Rock Movies da década de cinquenta e
quiçá de todos os tempos.
Como surgem
as participações desses astros? De
forma esparsa, pois como já afirmei, à época, possivelmente foram tratados como
um ato secundário para o filme, a mostrá-los como artistas emergentes de um
modismo que em sua concepção (falo sobre o estilo do Rock’n’ Roll), seria algo a
retratar o panorama da época, mas absolutamente passageiro, como uma tendência
Pop, no sentido efêmero do termo. Ninguém em 1956, nem mesmo o “Colonel” Tom
Parker (o astuto empresário de Elvis Presley), poderia afirmar categoricamente
que o Rock transformar-se-ia em uma instituição sólida a atravessar décadas e
gerações, eu acredito. Portanto, se assim foi concebido como filme e eu acredito nessa premissa, ou seja, como algo
meramente ocasional, pode-se afirmar que “The Girl Can’t Help It” foi um filme que
ganhou o bilhete premiado de loteria, por pura ação da sorte.
Na cena em
que Tom e Jerri alugam uma sala de estúdio para ensaiar, quem está a ensaiar em
uma outra sala no mesmo complexo? Pois é para arrepiar ver a figura
sensacional de Gene Vincent, acompanhado por sua selvagem banda Rockabilly (His
Blue Caps), a executar: “Be Bop a Lula”. Em uma aparição de TV, eis Eddie Cochran
em ação, com a sua guitarra e a típica mise-en-scène que o marcou, ou seja, é
para emocionar.
E assim, números ocorridos em shows de casas noturnas, ocorrem
também. Little Richard aparece a cantar e tocar ao vivo em um número
sensacional. Fats Domino canta um R’n’B belíssimo. O super classudo quinteto
vocal R’n’B, “The Platters”, canta o seu mega sucesso, “You Never, Never Know”.
Eddie Fontaine, Teddy Randazzo and the Three Chuckles, Abbey Lincoln, Johnnie
Ollen, Nino Tempo e “The Treniers”, reforçam o time. Em suma, é um luxo para
esse filme.
No caso da
cantora, Julie London, a sua aparição, como eu havia comentado sem explicar com
mais detalhes anteriormente, foi muito interessante. Em uma cena em que a
personagem de Tom Miller (Tom Ewell), chega em sua residência chateado e
embriagado, ele resolve colocar um LP da cantora na vitrola para reforçar a sua
nostalgia, visto que na ficção dessa história, ele houvera sido o seu produtor.
Então, eis que a voz bonita de Julie ressoa a interpretar o belíssimo blues,
“Cry me a River” (a interpretação de Joe Cocker para essa canção seria visceral
para essa canção, em 1970), neste caso com um arranjo jazzy, lindo, a exibir a
ação de uma guitarra muito bem executada, mediante o uso de belos acordes e
fraseados bem digitados.
No entanto, como Tom mostra-se bêbado, ele enxerga a
cantora a materializar-se enquanto ouve a música, em diversos pontos da sua
casa, para enfim desaparecer ao descer uma escada e logicamente a coincidir com
o final da canção, quando a agulha da vitrola encerra a sua ação no LP. É
portanto uma aparição fantasmagórica da cantora, fruto de um delírio da parte de
Tom, por conta da sua embriagues.
Cabe
destacar que o filme ainda teve a presença do maestro e trompetista, Ray
Anthony, que conduziu a orquestra na gravação da música de Murdock, onde Jerri
apenas berrou a imitar uma sirene (e que também aparece ao final no tal show).
E da atriz, Juanita Moore, que interpretou, Hilda.
Frank
Tashlin, foi um diretor, roteirista e produtor de cinema com uma lista
interminável de filmes em seu currículo. Egresso dos anos trinta, quando ele dirigiu
“The Girl Can’t Help It, já era um veterano e bem sucedido diretor. Em sua
carreira, trabalhou com vários gêneros, embora seja geralmente lembrado pelas
comédias, e no caso, ele dirigiu várias que alcançaram o sucesso popular, como
filmes da dupla formada por Dean Martin e Jerry Lewis e posteriormente em
muitos filmes apenas com Jerry Lewis, assim como voltaria a trabalhar com Jayne
Mansfield, ainda na década de cinquenta, como em “Will Success Spoil Rock
Hunter” (?), em 1957, novamente a explorar a sensualidade dessa bela atriz.
“The Girl
Can’t Help It” não recebeu grandes elogios da crítica especializada à época. As
participações dos astros do Rock não eram nem consideradas importantes nesta
altura, conforme eu já contextualizei e a trama em si não despertou nenhuma
simpatia enquanto comédia, principalmente pelo fato da atuação de Jayne
Mansfield ter sido considerada uma mera imitação do tipo de apelo sexual que
Marilyn Monroe costumava provocar em seus filmes. Ao analisar friamente, não é
algo descabido, visto que nem Marilyn, tampouco Jayne ou outras tantas atrizes que
atuaram a usar desse artifício, foram artistas preparadas para atuar com um padrão
de interpretação “Shakesperiano”. Entretanto, documento histórico para o Rock,
à parte, se analisado como um filme regular, é uma comédia boa, portanto, a
tratar-se de um tipo de obra despojada de outra intenção artística superior, é
injusta a crítica mais exigente ao seu respeito, em meu entendimento.
Nas bilheterias,
o seu desempenho foi apenas razoável na ocasião, visto que a concorrência era
enorme em termos de comédias, o seu nicho de atuação mais determinado. Mesmo
que o Rock não tenha sido a principal motivação do filme em sua divulgação
inicial, tal percepção aumentou pelo efeito dos boatos. Portanto, foi neste
contexto que o filme propiciou algo inacreditável, visto que John Lennon teria
revelado, já depois de famoso, que a motivação pelo Rock já o encantara
anteriormente, mas quando o filme estreou na Inglaterra em 1957, o seu impacto
através de uma tela grande, determinou fortemente a sua vontade de tornar-se verdadeiramente
um músico de Rock, visto que ele mostrou-se inteiramente arrebatado ao assistir
diversos ídolos seus em ação, pela primeira vez e ao deparar-se com a imagem de
tais astros em carne e osso, convenceu-se que também poderia trilhar tal
caminho. Por conta desse filme, John esforçou-se em formar a sua primeira
banda, “The Quarrymen”, ou seja, a semente mais remota dos Beatles. Paul McCartney
narrou tal história também ao longo do documentário, “Anthology”, quando
comentou sobre o impacto que ele também recebeu por conta em ter visto esse
filme.
Há o registro ainda, de que quando os Beatles estavam a gravar a canção,
“Birthday”, que faria parte do LP duplo, White Album”, em 1968, eles interromperam
a sessão de gravação pois estava anunciada a reprise do filme em um canal da TV
britânica e assim, os quatro componentes preferiram estabelecer um pausa no
trabalho, somente para assistir mais uma vez essa comédia, que adoravam. Em
suma, se esse filme foi assim tão determinante como inspiração para que a vida
desses garotos de Liverpool modificasse-se ao ponto em culminar com a criação
dos Beatles, creio que está patente a sua importância na história.
Escrito por Frank Tashlin e Herbert Baker.
Produção e direção a cargo de Frank Tashlin, igualmente. Lançado em dezembro de
1956. É óbvio que esse filme teve inúmeras reprises em canais de TV aberta ao
longo do planeta, incluso o Brasil, onde eu tive o prazer de assistir pela
primeira vez nos anos sessenta, em pleno usufruto de minha infância que foi
muito enriquecida pela visão de grandes filmes, ainda bem. Nos anos oitenta, tal
filme ganhou a sua versão em fita VHS, passeou em canais de TV a cabo a partir
dessa época e posteriormente foi disponibilizado em formato DVD. Está no YouTube
sob versão integral para ser visto gratuitamente, e se o leitor ainda não teve
esse prazer, a minha recomendação é para que o faça em breve, pois é um documento
maravilhoso e sim, Jane Mansfield, está eternizada em sua beleza inacreditável.
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock1n1 Roll" através do seu volume III e a leitura pode ser feita a partir da página 393.
































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