domingo, 15 de março de 2026

Filme: The Girl Can't Help It (Sabes o que Quero) - Por Luiz Domingues

Este é um caso excepcional, pois trata de um filme que não foi concebido para ser um Rock Movie, propriamente dito, mas ao envolver diversos artistas sensacionais do universo do Rock cinquentista, inicialmente apenas como uma “escada” para servir às sketches propostas como piadas, eis que abriu um inesperado campo e tornou tal filme um dos melhores Rock Movies da história, por incrível que pareça. Mais do que isso, este filme precipitou um impensável arranjo involuntário que seria crucial para a história do Rock, portanto, é considerado nos dias atuais, uma importante peça, também por tal detalhe. Falo sobre o filme : “The Girl Can’t Help It”, que em português recebeu o malicioso título: “Sabes o que Quero”.
 
Cabe destacar que a tradição brasileira de estabelecer títulos completamente fora da tradução literal do original em línguas estrangeiras, gerou ao longo dos tempos, aberrações as mais diversas. A alegação da parte dos “gênios” do marketing que estabelecem tais mudanças desde os primórdios do cinema mudo, para alimentar a exibição nacional, sempre pautou-se pela ideia de que seria importante adaptar os títulos em torno do mote de cada filme, para promover assim o melhor entendimento da parte do público brasileiro, quando ocorressem expressões idiomáticas; gírias ou ditados culturais muito específicos em outras culturas e que seriam portanto incompreensíveis ao nosso entendimento. 
Mera balela, a julgar que seríamos tão provincianos assim ao ponto em ignorar completamente as diferenças culturais, tendo em vista que o Brasil é basicamente um país que recebeu imigração de povos do mundo inteiro, portanto, com tantas colônias estrangeiras aqui estabelecidas, nada causa tanta estranheza, em tese, mesmo que sejamos um povo colonizado por europeus, em nosso caso, pelos portugueses. Ao falar sobre esse filme em específico, a minha explanação sobre essa questão de invenção de nomes aleatórios, passa por tal aberração e há uma explicação para tal. Quem inventou o título: ”sabes o que quero”, quando teve essa ideia, quis certamente enfatizar os aspectos maliciosos, machistas e sexistas contidos no texto do filme e vou além, pois a inspiração para o nome inventado tem forte influência das antigas chanchadas brasileiras dos anos cinquenta, notadamente filmes com referência direta ao antigo teatro de revista, vedetes & rebolados, ou seja, a  tratar-se de fitas a envolver artistas com estilo de humor debochado, tais como Dercy Gonçalves e Zé Trindade, principalmente. Portanto, trata-se sim de uma comédia norte-americana típica da década de cinquenta, a buscar o elemento erótico como mote, porém dentro de um abordagem com limites, naturalmente, muito longe da falta de decoro e da cafajestagem que supostamente o responsável pela elaboração do título em português para o público brasileiro, considerou, talvez baseado em suas convicções pessoais.
Postas tais considerações iniciais, eu avanço para explicar mais um detalhe do ponto de vista cinematográfico. Tal tipo de abordagem humorística, no cinema norte-americano (falo sobre comédias românticas), remontava tranquilamente aos anos trinta e quarenta, ou seja, fora bem explorada em algumas obras assinadas por diretores do quilate de Ernest Lubitsch, Frank Capra, Charles Vidor e outros. Porém, tal gênero das comédias românticas evoluiu e enfim, ganhou um ar mais apimentado nos anos cinquenta, quando Marilyn Monroe foi protagonista de vários filmes a explorar o humor em torno da sua beleza descomunal e o inerente machismo gerado, como “Gentleman Prefer Blondies” (de Howard Hawks), “How To Marry a Millionaire” (de Nunally Johnson) e outras, mas principalmente com a ótima comédia dirigida por Billy Wilder, “The Seven Year Itch”, a mais apimentada até então, em 1955. 
Nesse sentido de explorar a sua beleza (Marilyn), com um tipo de roteiro cem por cento baseado no furor gerado pela tensão sexual que ela provocava naturalmente entre os homens, chegou-se ao clímax no cinema cinquentista. Nesse filme em específico, que teve um mote muito próximo das sketches do humor televisivo, Marilyn interpreta uma mulher sexy, mas absolutamente ingênua, que provoca os sonhos de um vizinho que viu-se livre da esposa e dos filhos por alguns dias (as tais “coceiras dos sete anos de casamento”, a designar uma fase onde os homens voltariam a sonhar com outras mulheres, além da esposa), e assim, as piadas desenvolvem-se em meio à malícia que só existe na mente do rapaz, pois ela, a personagem defendida por Marilyn, gera tais situações sensuais, completamente desprovida de qualquer insinuação erótica, daí a graça das piadas. Bem, o ator que atuou com Marilyn em tal filme, foi Tom Ewell.
Pois um ano depois, em 1956, eis que sob a batuta do diretor, Frank Tashlin, o bom ator e comediante, Tom Ewell novamente foi convocado para estrelar uma comédia nos mesmos moldes, a explorar a tensão sexual, porém deste vez com uma concorrente de Marilyn, a exuberante, Jayne Mansfield
Tão linda quanto, voluptuosa, loura e acostumada a interpretar o papel da garota ingênua, porém sexy e que derretia os corações dos homens por anda passava, foi uma escolha perfeita para a história. A estrutura da comédia, foi praticamente a mesma adotada em filmes similares, principalmente os estrelados por Marilyn Monroe, mas neste caso, a história conteve o diferencial de ambientar-se no mundo da música e foi nesse ponto, que a opção em aproveitar a recente euforia gerada pelo Rock’n’ Roll, no início da segunda metade da década de cinquenta, transformou este filme em algo muito maior que uma comédia tradicional da época, mas a revelar-se um dos maiores Rock Movies daquela década.
Senão vejamos: a história baseia-se na história de um mafioso que explora máquinas de jogos de azar ao estilo caça níqueis espalhadas por centenas de estabelecimentos comerciais norte-americanos. Esse sujeito chama-se: Marty “Fats” Murdock (interpretado por Edmund O’Brien, aliás, um ator que já era bem experiente na ocasião e curiosamente não muito afeito a comédias, porém normalmente escalado para filmes de guerra, westerns e tramas de espionagem).
Pois esse tal Murdock é bastante temperamental, daquele tipo que não aceita desculpas ou negativas e quer ser satisfeito o tempo todo e com rapidez. Ele tem uma namorada que é belíssima e por onde passa, encanta os homens, chamada: Jerri Jordan (interpretada por Jayne Mansfield). Murdock inventa que a sua namorada precisa cantar e assim tornar-se uma estrela da música, porém, sem aptidão e nem mesmo desejo algum pessoal nesse sentido, ela frustra os planos do mafioso. Pois então, ele contrata um produtor musical que é considerado competente no mercado, todavia é também um ébrio contumaz, na figura de Tom Miller (interpretado por Tom Ewell). 
 
Neste caso, a sua contratação teve duas motivações básicas: ele era considerado o responsável pelo sucesso da cantora real, Julie London (a interpretar a si mesma em pequena participação no filme), e também por ser conhecido por não misturar o lado pessoal com o profissional e não ter tido nenhum envolvimento amoroso com Julie, portanto, uma condição sine qua non para Murdock não alimentar ciúmes em relação à Jerri. Cabe destacar que Julie London, na vida real, além de ter sido uma boa cantora, foi atriz, também e a sua atuação neste filme é sui generis, conforme comentarei a seguir. 
Murdock tem um capanga próximo, apelidado como “mousie” (interpretado por Henry Jones, um ator também experiente, com participação em diversos filmes no seu currículo, além de muitas participações em seriados de TV), que fica a observar a movimentação toda de Tom. “Mousie”, Tom & Jerri, logicamente foram nomes a sugerir uma brincadeira com o famoso desenho animado com tais personagens.
Daí em diante, Tom passa a conviver com Jerri e claro que encanta-se com a sua beleza e apelo sexy, irresistível. Nesses ponto, várias cenas abrem espaço para piadas incessantes sobre como ela enlouquece os homens, bem naquele tipo de humorismo sexista e machista de antigamente, em torno da “mulher dotada de pouca inteligência, porém boazuda”. Mote detestável a parte, por rebaixar a mulher ao posto de um mero objeto sexual, não posso negar que enquanto piadas, são engraçadas. Como por exemplo, cenas em que ela anda pelas ruas (ao som da canção: “The Girl Can’t Help It” interpretada pelo grande, Little Richard), e assim provoca acidentes absurdos, tal como o homem que carrega cubos de gelo e os derrete com o calor do corpo ao ver Jerri passar; o leiteiro que provoca a ebulição do leite dentro das garrafas que carrega ou o senhor idoso que ao mirar o corpo escultural da beldade, tem as lentes dos seus óculos, rachadas, instantaneamente.
Tom fica íntimo de Jerri e descobre no cotidiano que ela não quer cantar de forma alguma e o seu sonho é ser uma dedicada dona de casa, bem no espírito da mulher “bela; recatada e do lar”, perfeita ao ideário do modo de vida norte-americano. Ele comunica isso à Murdock e o mafioso não aceita tal diagnóstico. Então, Tom aluga um estúdio de ensaio e ao piano, propõe alguns exercícios vocais para aquecer a voz de Jerri, mas ela desafina de uma forma tão absurda que chega a espatifar uma lâmpada. 
Convencido de que ela não tem a mínima condição para pleitear ser uma cantora, no entanto, isso não demove Murdock de seu plano e neste caso, gera-se mais uma piada, desta feita a desdenhar do Rock, pois Murdock considera que a voz horrorosa da bela moça, seria perfeita para que ela gravasse uma música que ele mesmo teria composto quando fora presidiário, a tratar-se de um Rock (“Rock Around The Rock Pile”, que vem a ser uma paródia debochada de “Rock Around the Clock”, de Bill Haley and His Comets). Pois então, Tom Miller grava a canção absurda de Murdock e ela, Jerri, grava a sua participação apenas com gritos guturais horripilantes, a imitar uma sirene de prisão e certamente antecipou em mais de uma década as performances costumeiras da parte de Yoko Ono, sem dúvida. É bem engraçada a cena em que Jerri grava em estúdio a sua participação deprimente nessa canção. 
 
Uma vez em Chicago, Tom procura um rapaz apelidado como “Wheeler” (interpretado por John Emery), um desafeto de Murdock em meio às rivalidades entre grupos mafiosos distintos, e esse rival mantém um esquema de controle de máquinas jukebox espalhadas por muitas lanchonetes e estabelecimentos semelhantes ao longo da América do Norte inteira. Pois tão importante quanto tocar nas emissoras de rádio, foi manter os discos de artistas disponíveis em máquinas jukebox, na América cinquentista. Portanto, essa constatação mercadológica e tipicamente cinquentista, é muito interessante no filme, a mostrar os bastidores do show business da época. 
 
Wheeler mostra-se propenso a fechar contrato pois gosta da música em questão, no entanto, descobre que o seu compositor foi Murdock, o seu inimigo-mor e cancela tudo. Nesse ínterim, Murdock contra-ataca e através de um emissário seu, sabota os negócios de Wheeler, para que ninguém mais compre as suas máquinas de jukebox. A confusão instaura-se, inclusive com as tais máquinas a serem destruídas e arremessadas às ruas em cenas violentas mas com o devido tom da comédia. Wheeler mostra-se enfurecido e com os seus capangas a apoiá-lo, jura vingança, a anunciar que eliminará Murdock. 
O espião de Murdock, “Mousie”, já havia descoberto que Tom e Jerri estavam apaixonados um pelo outro, mas ao invés de delatá-los ao patrão, simpatizara com ambos e omite a sua descoberta. Nesse ínterim, haverá um grande show de Rock’n’ Roll em um teatro, transmitido pela TV, onde Jerri fará a sua estreia como cantora. De forma surpreendente, Murdock confessa para o seu assistente, “Mousie”, que não gostava mais de Jerri e que não pretendia casar-se com ela. Ora, foi a dica milagrosa para o filme alcançar o seu final feliz. Nos mesmos bastidores em cena paralela, Jerri declara-se à Tom e conta mais uma verdade: ela fingira ser desafinada pois não pretendia manter uma carreira como cantora. Então, ela sobe ao palco e canta bem, para provar à Tom que falava a verdade. 
Quando todos encontram-se na coxia, Jerri confessa à Murdock que está apaixonada por Tom e este surpreende à todos ao oferecer-se para ser padrinho do casal, algo que seria bastante irreal para um mafioso na vida real, mas engraçado para a comédia, é claro. Simultaneamente, Wheeler e os seus capangas aparecem para alvejar Murdock, mas eis que Tom o empurra para o palco e ele canta o seu número, a inibir a ação de Wheeler e os seus bandidos. Tom e Jerri beijam-se e tudo acaba muito bem...
 
Enfim, uma típica comédia com apelo sensual dos anos cinquenta, bem dirigida, munida de um ótimo elenco e com produção muito boa. Então por quê é considerado um Rock Movie tão elogiado, se na verdade, pareceu ser uma comédia feita com outros propósitos? Bem, a resposta é que além da música título (que é sensacional), a ideia em inserir o Rock como um pano de fundo, proporcionou participações espetaculares ao longo do filme e então, tanto quanto as boas risadas que o filme proporciona e sim, Edmond O’Brien, Heny Jones e sobretudo, Tom Ewell, estiveram muito bem em suas atuações pessoais e também a considerar que a beleza sensual de Jayne Mansfield é para tirar o fôlego de qualquer um, a participação de muitos astros do Rock cinquentistas, é um verdadeiro desfile, a enriquecer este filme de uma forma absurda. 
Posso supor que à época, ninguém ligado a tal produção, e nem mesmo o tarimbado diretor, Frank Tashlin, deduziu que isso aconteceria, pois alguns desses artistas musicais eram apenas emergentes no calor de 1956, quando do lançamento desse filme, no entanto, com o decorrer do tempo, contar com as presenças de tantos artistas que tornaram-se lendas do Rock, fez com que esse filme transformasse-se em algo muito além de uma boa comédia, todavia um verdadeiro marco e sim, para ganhar a importância extra por haver tornado-se um dos maiores Rock Movies da década de cinquenta e quiçá de todos os tempos.
 
Como surgem as participações desses astros? De forma esparsa, pois como já afirmei, à época, possivelmente foram tratados como um ato secundário para o filme, a mostrá-los como artistas emergentes de um modismo que em sua concepção (falo sobre o estilo do Rock’n’ Roll), seria algo a retratar o panorama da época, mas absolutamente passageiro, como uma tendência Pop, no sentido efêmero do termo. Ninguém em 1956, nem mesmo o “Colonel” Tom Parker (o astuto empresário de Elvis Presley), poderia afirmar categoricamente que o Rock transformar-se-ia em uma instituição sólida a atravessar décadas e gerações, eu acredito. Portanto, se assim foi concebido como filme e eu acredito nessa premissa, ou seja, como algo meramente ocasional, pode-se afirmar que “The Girl Can’t Help It” foi um filme que ganhou o bilhete premiado de loteria, por pura ação da sorte.
Na cena em que Tom e Jerri alugam uma sala de estúdio para ensaiar, quem está a ensaiar em uma outra sala no mesmo complexo? Pois é para arrepiar ver a figura sensacional de Gene Vincent, acompanhado por sua selvagem banda Rockabilly (His Blue Caps), a executar: “Be Bop a Lula”. Em uma aparição de TV, eis Eddie Cochran em ação, com a sua guitarra e a típica mise-en-scène que o marcou, ou seja, é para emocionar. 
E assim, números ocorridos em shows de casas noturnas, ocorrem também. Little Richard aparece a cantar e tocar ao vivo em um número sensacional. Fats Domino canta um R’n’B belíssimo. O super classudo quinteto vocal R’n’B, “The Platters”, canta o seu mega sucesso, “You Never, Never Know”. Eddie Fontaine, Teddy Randazzo and the Three Chuckles, Abbey Lincoln, Johnnie Ollen, Nino Tempo e “The Treniers”, reforçam o time. Em suma, é um luxo para esse filme.
No caso da cantora, Julie London, a sua aparição, como eu havia comentado sem explicar com mais detalhes anteriormente, foi muito interessante. Em uma cena em que a personagem de Tom Miller (Tom Ewell), chega em sua residência chateado e embriagado, ele resolve colocar um LP da cantora na vitrola para reforçar a sua nostalgia, visto que na ficção dessa história, ele houvera sido o seu produtor. Então, eis que a voz bonita de Julie ressoa a interpretar o belíssimo blues, “Cry me a River” (a interpretação de Joe Cocker para essa canção seria visceral para essa canção, em 1970), neste caso com um arranjo jazzy, lindo, a exibir a ação de uma guitarra muito bem executada, mediante o uso de belos acordes e fraseados bem digitados. 
No entanto, como Tom mostra-se bêbado, ele enxerga a cantora a materializar-se enquanto ouve a música, em diversos pontos da sua casa, para enfim desaparecer ao descer uma escada e logicamente a coincidir com o final da canção, quando a agulha da vitrola encerra a sua ação no LP. É portanto uma aparição fantasmagórica da cantora, fruto de um delírio da parte de Tom, por conta da sua embriagues.
Cabe destacar que o filme ainda teve a presença do maestro e trompetista, Ray Anthony, que conduziu a orquestra na gravação da música de Murdock, onde Jerri apenas berrou a imitar uma sirene (e que também aparece ao final no tal show). E da atriz, Juanita Moore, que interpretou, Hilda.
 
Frank Tashlin, foi um diretor, roteirista e produtor de cinema com uma lista interminável de filmes em seu currículo. Egresso dos anos trinta, quando ele dirigiu “The Girl Can’t Help It, já era um veterano e bem sucedido diretor. Em sua carreira, trabalhou com vários gêneros, embora seja geralmente lembrado pelas comédias, e no caso, ele dirigiu várias que alcançaram o sucesso popular, como filmes da dupla formada por Dean Martin e Jerry Lewis e posteriormente em muitos filmes apenas com Jerry Lewis, assim como voltaria a trabalhar com Jayne Mansfield, ainda na década de cinquenta, como em “Will Success Spoil Rock Hunter” (?), em 1957, novamente a explorar a sensualidade dessa bela atriz.
“The Girl Can’t Help It” não recebeu grandes elogios da crítica especializada à época. As participações dos astros do Rock não eram nem consideradas importantes nesta altura, conforme eu já contextualizei e a trama em si não despertou nenhuma simpatia enquanto comédia, principalmente pelo fato da atuação de Jayne Mansfield ter sido considerada uma mera imitação do tipo de apelo sexual que Marilyn Monroe costumava provocar em seus filmes. Ao analisar friamente, não é algo descabido, visto que nem Marilyn, tampouco Jayne ou outras tantas atrizes que atuaram a usar desse artifício, foram artistas preparadas para atuar com um padrão de interpretação “Shakesperiano”. Entretanto, documento histórico para o Rock, à parte, se analisado como um filme regular, é uma comédia boa, portanto, a tratar-se de um tipo de obra despojada de outra intenção artística superior, é injusta a crítica mais exigente ao seu respeito, em meu entendimento.
Nas bilheterias, o seu desempenho foi apenas razoável na ocasião, visto que a concorrência era enorme em termos de comédias, o seu nicho de atuação mais determinado. Mesmo que o Rock não tenha sido a principal motivação do filme em sua divulgação inicial, tal percepção aumentou pelo efeito dos boatos. Portanto, foi neste contexto que o filme propiciou algo inacreditável, visto que John Lennon teria revelado, já depois de famoso, que a motivação pelo Rock já o encantara anteriormente, mas quando o filme estreou na Inglaterra em 1957, o seu impacto através de uma tela grande, determinou fortemente a sua vontade de tornar-se verdadeiramente um músico de Rock, visto que ele mostrou-se inteiramente arrebatado ao assistir diversos ídolos seus em ação, pela primeira vez e ao deparar-se com a imagem de tais astros em carne e osso, convenceu-se que também poderia trilhar tal caminho. Por conta desse filme, John esforçou-se em formar a sua primeira banda, “The Quarrymen”, ou seja, a semente mais remota dos Beatles. Paul McCartney narrou tal história também ao longo do documentário, “Anthology”, quando comentou sobre o impacto que ele também recebeu por conta em ter visto esse filme. 
Há o registro ainda, de que quando os Beatles estavam a gravar a canção, “Birthday”, que faria parte do LP duplo, White Album”, em 1968, eles interromperam a sessão de gravação pois estava anunciada a reprise do filme em um canal da TV britânica e assim, os quatro componentes preferiram estabelecer um pausa no trabalho, somente para assistir mais uma vez essa comédia, que adoravam. Em suma, se esse filme foi assim tão determinante como inspiração para que a vida desses garotos de Liverpool modificasse-se ao ponto em culminar com a criação dos Beatles, creio que está patente a sua importância na história.
Escrito por Frank Tashlin e Herbert Baker. Produção e direção a cargo de Frank Tashlin, igualmente. Lançado em dezembro de 1956. É óbvio que esse filme teve inúmeras reprises em canais de TV aberta ao longo do planeta, incluso o Brasil, onde eu tive o prazer de assistir pela primeira vez nos anos sessenta, em pleno usufruto de minha infância que foi muito enriquecida pela visão de grandes filmes, ainda bem. Nos anos oitenta, tal filme ganhou a sua versão em fita VHS, passeou em canais de TV a cabo a partir dessa época e posteriormente foi disponibilizado em formato DVD. Está no YouTube sob versão integral para ser visto gratuitamente, e se o leitor ainda não teve esse prazer, a minha recomendação é para que o faça em breve, pois é um documento maravilhoso e sim, Jane Mansfield, está eternizada em sua beleza inacreditável.

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock1n1 Roll" através do seu volume III e a leitura pode ser feita a partir da página 393.

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