Eis aqui uma
produção aparentemente despretensiosa, que teve tudo para ficar restrita às
mostras de cinema alternativo, onde fitas dessa natureza costumam despertar a
atenção de poucos aficionados do cinema anticomercial e igualmente da parte de críticos
muito específicos desse tipo de produção subterrânea, tão somente. No entanto,
dada a dimensão extra que angariou, por alguns fatores que eu elucidarei ao
longo da resenha, adquiriu um interesse maior.
Trata-se de uma história
bizarra, em princípio, que poderia ser encarada de diferentes formas, a saber:
por aparentar ser uma trama policial rocambolesca, por que envolve um plano de
estelionato motivado por uma falcatrua financeira cometida anteriormente; por
também constituir-se em uma comédia de costumes por conta de uma questão
familiar e sobretudo, ao ganhar uma aura Rock Movie, pois toda a farsa montada
pelos protagonistas em prol de um golpe, conteve as figuras de Janis Joplin e
John Lennon como fantasias em sua construção.
Trata-se de
uma produção franco-espanhola, chamada: “Janis et John”, que foi traduzida em
português da mesma forma, e em que pese a semelhança entre os idiomas francês e
português, creio que nem precisaria haver a tradução. Enfim, com Janis Joplin e
John Lennon a dar título ao filme, naturalmente que mesmo não sendo um filme
comercial com orçamento blockbuster, haveria em despertar a atenção dos
Rockers, Freaks & hippies e pelas circunstâncias do tempo em questão (2003,
quando o filme foi lançado), a revelar-se um público mais maduro em tese e
aliás, no filme, essa questão do envelhecimento dos aficionados de artistas
ícones da contracultura sessentista, como Janis e John, é abordada em alguns
aspectos, inclusive a garantir boas piadas e também reflexões revestidas de uma
maior seriedade em termos dessa questão da passagem do tempo e a marcar o arrefecimento
de ícones culturais.
A história é
montada em torno de uma família classe média francesa, e que vive em um
subúrbio, com toda a tranquilidade, a grosso modo. No entanto, apesar da
aparente normalidade em que vivem os seus componentes, há um desequilíbrio
financeiro em curso, e que o senhor, Pablo Sterni (interpretado por Sérgi
López), vai ter que resolver com certa urgência. Ele trabalha como um corretor
de seguros e só a contar com o seu salário e eventuais comissões, não tem
perspectiva em resolver a sua situação. Ele é casado com Brigitte Sterni
(interpretada por Marie Trintignant), que é uma dona de casa apática, em
permanente estado depressivo e cuja sogra, (interpretada por Amparo Soler
Leal), não gosta dela, declaradamente, exatamente por tal moça ser
excessivamente tímida e com tal tipo de comportamento, em sua ótica, não ser
uma boa esposa para o seu filho. Completa o tal núcleo familiar, o filho do
casal, um garoto em idade escolar, chamado, Jeremiah Sterni (interpretado por
Sacha Aubart).
Então, eis
que uma oportunidade surge para Pablo resolver as suas pendências financeiras,
quando um senhor o procura para fechar uma apólice de seguro para um carro que
pouco usa. Trata-se do monsieur Cannon (interpretado pelo veterano e ultra
consagrado ator, Jean-Louis Trintignant, que aliás, era pai na vida real, da
saudosa, Marie Trintignant, que protagoniza este filme), que providencia então
o seguro para o seu bólido, um Aston Martin DB4, que em tese, ele mantém
estacionado na garagem como uma peça de coleção, sem intenção em usá-lo como
transporte. É com tal perspectiva que o corretor, Pablo Sterni, vislumbra obter
uma vantagem pessoal, pois já que o tal senhor não usa o automóvel em questão,
por dedução, esse carro jamais sofreria um “sinistro”, e por extensão, o valor
do seguro jamais seria desembolsado pela seguradora. Falcatrua a revelar-se um
crime, é evidente, mas Pablo não pensa assim, visto que planeja usar o dinheiro
do seguro alheio e devolvê-lo sem que a sua empresa e sobretudo o monsieur
Cannon perceba o desfalque, pois Pablo não é um bandido, mas considera-se um
“homem de bem” e assim, tal desvio é por ele considerado uma pequena manobra
perfeitamente perdoável, ou seja, uma reflexão interessante sobre os pequenos
delitos que são considerados inofensivos no âmago da sociedade, no entanto,
delito não tem isenção por conta de sua extensão, pois qualquer delito é um
malfeito, simples assim.
Todavia, o
plano de Pablo vem abaixo, quando o imponderável ocorre. Eis que em uma noite, um
gatuno invade a garagem do monsieur Cannon e ao acelerar o seu carro de coleção,
tal ato culmina em um acidente lamentável, com o carro a mostrar-se semidestruído. Logicamente que o monsieur Cannon procura o escritório da
seguradora, no dia seguinte e surpreendido, o corretor, mantém a aparência de
normalidade ao atendê-lo, mas secretamente entra em pânico, pois agora vai ter
que arrumar dinheiro urgente para honrar o seguro e os reparos na oficina, não
serão baratos, visto que o carro tem o valor de um veículo especial, objeto de
coleção.
Então, eis
que ele lembra-se que tem um primo que foi hippie nos anos sessenta e que nos
dias atuais, vive a administrar uma loja de discos (chamada: “Strawberry”),
que é temática, por apenas vender material (não apenas discos), de Janis Joplin
e John Lennon. E há uma explicação para tal abordagem temática, a revelar-se
uma questão absurda, no entanto, plausível apenas se levar-se em consideração
as circunstâncias pelas quais isso foi construído. O tal hippie veterano é Léon
(interpretado pelo famoso ator, Christopher Lambert). Bem, em flashback, é
mostrado que em 1973, Léon ingerira um ácido lisérgico (LSD), e no banheiro de
uma casa noturna, onde encontrava-se naquele instante, teve uma alucinação ao
ver que Janis Joplin e John Lennon entraram juntos no mesmo recinto sanitário e
conversam com ele, a dar a entender que Léon teria uma missão a cumprir, em
manter a memória de ambos preservada de alguma forma e que ambos voltariam para
falar novamente com ele, no futuro.
Bem, o excesso ocorrido pelo abuso na
utilização de não apenas um, mas múltiplos ácidos dali em diante, lesou a
capacidade cerebral de Léon, certamente, mas para efeito de uma licença poética
bem grande, é sugerida a ideia de que Léon estaria sob efeito do mesmo ácido
ingerido em 1973. E cabe destacar que a ideia em ter tido tal visão com Janis
Joplin e John Lennon, teria sido motivada pelo fato de ambos ter falecido, no
entanto, na vida real, apenas Janis já não estava mais entre nós, desde 1970,
mas Lennon, estava vivo e muito ativo em 1973, tanto artisticamente com a sua
carreira em pleno curso e com bastante sucesso, além da forte militância
sociocultural e política em que ele inserira-se e cujas ações midiáticas
geravam apoio e ataques da parte de seus detratores, incluso agências
governamentais a serviço de nações gerenciadas por forças conservadoras.
Ocorre
um ponto anacrônico e não muito bem correto como construção da personagem, pois
Léon é retratado em 1973, mais como um punk de 1977, anti-hippie em essência,
do que verdadeiramente um hippie. A contradição expressa-se pelo seu corte de
cabelo e pelo uso de uma camiseta a conter o símbolo da anarquia, algo nada
plausível em 1973, e ainda mais se a intenção da descrição da personagem
apontava em tese, para retratar-se a figura de um freak sessenta/setentista
típico, fã de ícones do Rock sessentista, como Janis Joplin & John Lennon.
Bem,
fica por conta da pesquisa que não foi feita a contento, ou, em uma hipótese
mais remota ao meu ver, em deliberadamente marcar tal questão como algo
simbólico no intuito proposital de se passar ao espectador uma metáfora ou
alegoria, no entanto, se foi essa a intenção, deixo ao leitor a sua
interpretação, pois eu realmente não enxerguei dessa forma e nessa
predisposição, parece apenas um erro de interpretação cultural, ao misturar-se
conceitos dispares entre si.
Bem, o tempo
passou e Léon vive da movimentação de sua loja, no entanto, algo excepcional
ocorre, pois ele recebe inesperadamente uma herança milionária (um milhão de
francos). Com tal informação, Pablo, que não vê o primo há anos e certamente o
desprezava por ele, Léon, ter tornado-se catatônico, preso em uma viagem de
ácido há tanto tempo, arquiteta um plano mirabolante para poder apropriar-se de
uma parte dessa fortuna e assim poder resolver os seus problemas. Ele
simplesmente não teria como visitar o primo, após esse hiato gigantesco e
pedir-lhe dinheiro emprestado, e dessa forma, faz algo pior, ao montar um
estratagema absurdo.
Eis então
que ele contrata um ator desempregado, Walter Kingkate (interpretado pelo
famoso e ótimo ator, François Cluzet), para interpretar, John Lennon, visto que
tal rapaz mantinha uma relativa aparência com o astro do Rock e assim, com a cabeleira que
Lennon teve entre 1973 e 1974, mais ou menos, e o uso de um figurino parecido,
e claro, a conter em sua composição os óculos escuros com lentes redondas, a
sua marca registrada, eis que o ator ficou razoavelmente bem parecido
com o Rock Star britânico. Entretanto, a loucura arquitetada por Pablo,
extrapola-se ainda mais, quando ele sugere à sua tímida esposa, que ela
caracterize-se como Janis Joplin, para juntamente ao ator que simularia ser
John Lennon, participar da farsa montada para ludibriar o alucinado, Léon, e
dessa forma conseguir o dinheiro necessário para resolver os seus problemas.
É um ponto
interessante do filme, pois aqui, verdadeiramente, o que seria apenas uma trama
policialesca com cunho satírico e a conter uma leve drama sociocultural,
revela-se enfim um Rock Movie, pois além da trilha sonora que mostra-se
excelente, e a conter todas as motivações Rockers em torno da loja do
tresloucado, Léon, entra em cena a construção das personificações de Janis
Joplin e John Lennon, da parte dos farsantes, portanto, abundam as situações
engraçadas e também as sutilezas inerentes ao evocar-se a vida e obra de ambos
os artistas, e sobretudo, a importância cultural / contracultural que os dois possuem
na história.
E vai além
(veja só, leitor, que surpresa agradável ao tratar-se de um filme supostamente
alternativo e despretensioso), pois aspectos psicológicos em contraste, são
evocados, em relação às pessoas que vão cometer tal loucura, e as
personalidades dos artistas que simularão ser, para tentar ludibriar, Léon.
Isso inclui por extensão, o próprio, Léon e o grande articulador dessa farsa,
Pablo. Nesses termos, o maior contraste fica mesmo com a esposa de Pablo,
Brigitte, pois fica muito óbvio que a ideia é absurda em transformar uma mulher
tão tímida e apática, em uma personalidade tão extrovertida e explosiva como
foi Janis Joplin em vida, dada a sua intensidade como artista e pessoa. É nesse
aspecto que o filme torna-se ainda mais interessante portanto, pois se para
simplesmente ouvir a ideia estapafúrdia de Pablo, Brigitte já sentiu-se envergonhada,
imagine então como foi aceitar fazer parte dessa trapaça e vencer a sua timidez
contumaz, para fingir ser uma pessoa exuberante, algo completamente fora da sua
realidade.
Em tese, ela
só precisaria fingir ser Janis Joplin para ludibriar Léon, ao lado do falso,
John Lennon, e dessa maneira, seria apenas uma questão de compor um visual
parecido e esforçar-se em parecer ser extrovertida como Janis o fora em vida,
para empreender uma simples conversação e assim envolver o pobre dono da loja e
arrancar-lhe um dinheiro por conseguinte, o que aliás, seria a tarefa da parte
do Pablo. Nesse plano, Janis e John alegariam que estavam ali a cumprir a
promessa feita durante o delírio que Léon tivera em 1973, e depois dele ficar emocionado
com tal abordagem, Pablo teria facilidade para ir direto ao ponto ao ter em
mente que o seu primo estaria sob forte comoção.
Então, a
dificuldade de Brigitte é mais explorada, visto gerar um conflito maior,
todavia, a questão do falso Lennon defendido por Walter, também recebe um foco.
Ele é um ator sem perspectivas e assim agarra-se na personagem com um certo
exagero laboratorial, digamos assim, tanto que em uma cena, onde apresenta-se
em público em um restaurante, devidamente caracterizado, ao lado da falsa Janis
e de Pablo, ele briga com o autor do plano, a culminar com as vias de fato e indignado,
ele sai aos gritos do recinto: -“eu sou John Lennon!”
Bem,
confusões em torno desse imbróglio são propiciadas a garantir a dose necessária
de humor, e nesse ínterim, a parte mais musical ocorre, visto que em
determinado ponto, a falsa, Janis Joplin, visita a loja e Léon a conduz a um
anexo onde funciona uma sala de ensaio. Ali, ela é apresentada a três bons músicos
veteranos, com aparência de hippies velhos e então, Léon sugere que ela faça
uma jam session com esses rapazes. Claro que ela não canta nada e trava, em
meio aos acordes do clássico do repertório de Janis Joplin, “Kozmic Blues”. Em
cenas subsequentes, ela demonstra paulatinamente estar a gostar de viver a
personagem e essa parte revela o tal fator psicológico que eu mencionei
anteriormente e muito interessante a revelar-se embutido na história, pois
logicamente representa um despertar para a personagem, que alcança assim o
acesso à forças latentes que nem imaginava possuir dentro de si. Então, eis que
Brigitte passa a viver trajada como Janis Joplin, vinte e quatro horas por dia
e mais do que isso, adota posturas muito diferentes no trato social, ao perder
completamente a sua timidez obsessiva. Até a relação com a sua sogra, que
mostrava-se conflituosa, melhora muito, pois finalmente a mãe de Pablo percebe
nessa nova postura de sua nora, exatamente o que ela esperava da moça.
E o mais
incrível ocorre, quando ela, sem nenhuma explicação plausível e na base da pura
fantasia, melhora a sua performance musical, e isso culmina em cenas onde
paulatinamente melhora a sua performance para cantar sempre a mesma canção:
“Kosmic Blues”.
Walter por sua vez, também anima-se ao tentar compor como se
fosse John Lennon, e é engraçada a cena onde traz consigo uma suposta namorada,
não oriental, mas com baixa estatura e a usar longos cabelos negros, que
sentada em profundo silêncio, o vê trabalhar em várias cenas a repetir a mesma
intenção. Creio não ser necessário explicar a motivação dessa intervenção, não
é mesmo?
Bem,
chega-se em um ponto onde a farsa é descoberta por Léon, que “mata”
simbolicamente o falso Lennon ao alvejá-lo com um revolver que é uma réplica da
arma que Mark Chapman usou para assassinar Lennon na vida real.
Todavia, Janis
(ou melhor, Brigitte), já não sabe mais se deseja voltar para a sua velha vida
como dona de casa, pois agora frequenta botequins com os seus colegas de banda,
a beber, drogar-se e jogar bilhar até o dia amanhecer. Pablo percebe que criou
um problema a mais, então, ao colocar a esposa nessa fantasia descabida. Ele
passa a ter que cuidar da casa e do filho, pois Brigitte, ou melhor, Janis, não
realiza mais nenhuma tarefa caseira, como se não fosse mais uma mãe
tradicional. Pablo, atormentado com a situação, passa a ver diversas mulheres
pelas ruas, vestidas como Janis Joplin e aí fica dúbio se são os seus demônios
interiores a atormentá-lo ou a representação da liberdade que Brigitte
inspirara na vizinhança, de forma simbólica, naturalmente.
Eis que em uma
determinada noite, Pablo entra em um bar e vê Brigitte subir ao palco,
acompanhada da tal banda e ela canta: “Kozmic Blues” com a mesma desenvoltura
de Janis Joplin, o que deixa o seu marido, boquiaberto. A fantasia causara uma
transformação, verdadeiramente e agora, ele não reconhecia mais a própria
esposa com essa postura e sobretudo dotada desse talento musical todo.
Monsieur
Cannon aborda Pablo e confessa que já estava a par do golpe todo, pois por
coincidência, presenciara a cena que chegara às vias de fato no restaurante,
com os falsos John Lennon e Janis Joplin. Em “flashback”, a cena em questão é reprisada,
mas sob a perspectiva de Monsieur Cannon mediante uma imagem propiciada por
outro ângulo.
E o filme
encerra-se bem diferente dos filmes tradicionais comerciais em geral, ao
mostrar a família reunida em um restaurante e com a imagem de Brigitte/Janis
Joplin, a flutuar no ar, como a dar a entender que tal situação seria
eternizada por ela, doravante.
Em suma, uma
ideia bastante exótica, mas que funcionou, por incrível que pareça, ao mostrar
um desenvolvimento criativo. Tal filme, apesar desse mérito acumulado,
tornou-se triste por um aspecto não necessariamente motivado por sua causa, mas
que foi inevitável. Ocorreu que a boa atriz, Marie Trintignant, não assistiu o
filme em seu lançamento, visto que morreu tragicamente em agosto de 2003, apenas
três meses após o término das filmagens, assassinada pelo seu então namorado, o
músico, Bertrant Cantat, que a espancou covardemente, a ocasionar-lhe um edema
cerebral.
Uma curiosidade, Marie, além de ter sido filha de Jean-Louis
Trintignant (este, um ator importantíssimo do cinema francês e mundial, basta
ver o seu currículo impressionante), foi casada com o diretor deste filme,
Samuel Benchetrit (este, também ator e escritor de vários livros), e igualmente
fora casada com o ator, François Cluzet (que interpretou Walter/John Lennon,
neste filme, e mais um ator com vasta cinematografia elogiada). Sérgi López,
por sua vez, é um ator espanhol com um currículo gigantesco no cinema a
contabilizar inclusive trabalhos realizados com Woody Allen. Isso sem deixar de
mencionar a presença do ator, norte-americano, Christopher Lambert, cuja
trajetória dispensa apresentações. Então, a conclusão sobre o elenco, ao pensar-se
nesses atores citados, é óbvia no sentido em que o talento dramatúrgico reunido
para tal obra, foi gigantesco.
Mais alguns
atores no elenco, ainda não citados: Basile Leroux (como Bob, músico da
banda), Eric Hervé (como Freddy, outro músico), Reynald Tescaro (como Miki,
outro músico), Patrick Dietsch (como Johnny Rassov), Michel Berrie (como Victor
Artie), e outros.
A crítica
parece não ter entendido a proposta do filme, por não estabelecer uma boa
cotação em linhas gerais. Tirante o sisudo jornal “Le Monde”, normalmente
exigente em suas resenhas cinematográficas, e que considerou tal filme como a
uma peça inteligente. Em outros veículos menores, ressaltou-se a qualidade do
elenco, a conter alguns monstros do cinema europeu, e claro que isso foi um
fato consumado dentro dessa obra. No contraponto, o jornal, “Libération”, massacrou
a obra e observou exatamente o contrário, a dar conta que nem mesmo um elenco
tão bom conseguiu salvar o filme do constrangimento em apresentar-se com
diálogos tão fracos. E ainda execrou o diretor, ao chamá-lo como um “charlatão
da capital” e que ele não seria bom como escritor, tampouco como diretor de
cinema. Em outros veículos, falou-se que foi um desperdício de talento
generalizado e que resultou em dois minutos de um bom blues, quando finalmente
a farsante, Brigitte, cantou como Janis Joplin. Nas bilheterias, o resultado
foi apenas razoável, com a fita a ser exibida mais em circuito alternativo
pelos cinemas de arte. Tornou-se comentado entre os fãs mais específicos de
Janis Joplin e John Lennon, mas não ao ponto em tornar-se cultuado, mesmo por que,
não foi todo mundo que entendeu a proposta da obra em seu enredo.
A trilha
sonora é ótima. A despeito da música “Kozmic Blues” ter sido a única canção
recorrente nas tentativas de Brigitte para cantá-la, ouve-se bastante o som de
Janis Joplin ao longo do filme, com outras canções de seu repertório clássico,
e também de John Lennon, em sua carreira solo, bem entendido, visto que
dificilmente haveria qualquer canção dos Beatles, por motivos de direitos
autorais obstruídos. Como a viúva de Lennon, Yoko Ono, é bem mais benevolente nesse sentido
e ela controla tal material solo de Lennon, ficou viável a execução de suas
canções. Ouve-se também o som de artistas sessenta/setentistas tais como: T.
Rex, Ten Years After, Donovan, além de artistas mais modernos, em menor
proporção. Um dado
interessante sobre a produção, muitas cenas foram filmadas em Étiolles, cidade
pequena, situada vinte e sete quilômetros ao norte de Paris, portanto, que bom
assistir um filme francês que não tenha sucumbido à tentação de usar o clichê
ao utilizar a capital francesa em seus pontos turísticos, como externas. Cabe
explicar aliás, que se este filme foi uma coprodução franco-espanhola, ficou evidente
que tirante a presença dos atores, Sérgi López e Amparo Soler Leal, a ambientação
foi toda francófona.
Escrito por Samuel Benchetrit e Gábor Rassov,
foi dirigido por Samuel Benchetrit. Lançado em 2003, teve discreta exibição
televisiva. Foi lançado em formato DVD, logo a seguir e encontra-se à
disposição com facilidade no YouTube para ser assistido em versão integral e
gratuitamente.
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz, Câmera & Rock'n' Roll" através do seu volume III e a sua leitura está disponibilizada a partir da página 430.