terça-feira, 15 de setembro de 2026

Filme: Janis et John (Janis & John) - Por Luiz Domingues

Eis aqui uma produção aparentemente despretensiosa, que teve tudo para ficar restrita às mostras de cinema alternativo, onde fitas dessa natureza costumam despertar a atenção de poucos aficionados do cinema anticomercial e igualmente da parte de críticos muito específicos desse tipo de produção subterrânea, tão somente. No entanto, dada a dimensão extra que angariou, por alguns fatores que eu elucidarei ao longo da resenha, adquiriu um interesse maior. 
Trata-se de uma história bizarra, em princípio, que poderia ser encarada de diferentes formas, a saber: por aparentar ser uma trama policial rocambolesca, por que envolve um plano de estelionato motivado por uma falcatrua financeira cometida anteriormente; por também constituir-se em uma comédia de costumes por conta de uma questão familiar e sobretudo, ao ganhar uma aura Rock Movie, pois toda a farsa montada pelos protagonistas em prol de um golpe, conteve as figuras de Janis Joplin e John Lennon como fantasias em sua construção.
Trata-se de uma produção franco-espanhola, chamada: “Janis et John”, que foi traduzida em português da mesma forma, e em que pese a semelhança entre os idiomas francês e português, creio que nem precisaria haver a tradução. Enfim, com Janis Joplin e John Lennon a dar título ao filme, naturalmente que mesmo não sendo um filme comercial com orçamento blockbuster, haveria em despertar a atenção dos Rockers, Freaks & hippies e pelas circunstâncias do tempo em questão (2003, quando o filme foi lançado), a revelar-se um público mais maduro em tese e aliás, no filme, essa questão do envelhecimento dos aficionados de artistas ícones da contracultura sessentista, como Janis e John, é abordada em alguns aspectos, inclusive a garantir boas piadas e também reflexões revestidas de uma maior seriedade em termos dessa questão da passagem do tempo e a marcar o arrefecimento de ícones culturais. 
A história é montada em torno de uma família classe média francesa, e que vive em um subúrbio, com toda a tranquilidade, a grosso modo. No entanto, apesar da aparente normalidade em que vivem os seus componentes, há um desequilíbrio financeiro em curso, e que o senhor, Pablo Sterni (interpretado por Sérgi López), vai ter que resolver com certa urgência. Ele trabalha como um corretor de seguros e só a contar com o seu salário e eventuais comissões, não tem perspectiva em resolver a sua situação. Ele é casado com Brigitte Sterni (interpretada por Marie Trintignant), que é uma dona de casa apática, em permanente estado depressivo e cuja sogra, (interpretada por Amparo Soler Leal), não gosta dela, declaradamente, exatamente por tal moça ser excessivamente tímida e com tal tipo de comportamento, em sua ótica, não ser uma boa esposa para o seu filho. Completa o tal núcleo familiar, o filho do casal, um garoto em idade escolar, chamado, Jeremiah Sterni (interpretado por Sacha Aubart).
Então, eis que uma oportunidade surge para Pablo resolver as suas pendências financeiras, quando um senhor o procura para fechar uma apólice de seguro para um carro que pouco usa. Trata-se do monsieur Cannon (interpretado pelo veterano e ultra consagrado ator, Jean-Louis Trintignant, que aliás, era pai na vida real, da saudosa, Marie Trintignant, que protagoniza este filme), que providencia então o seguro para o seu bólido, um Aston Martin DB4, que em tese, ele mantém estacionado na garagem como uma peça de coleção, sem intenção em usá-lo como transporte. 
É com tal perspectiva que o corretor, Pablo Sterni, vislumbra obter uma vantagem pessoal, pois já que o tal senhor não usa o automóvel em questão, por dedução, esse carro jamais sofreria um “sinistro”, e por extensão, o valor do seguro jamais seria desembolsado pela seguradora. Falcatrua a revelar-se um crime, é evidente, mas Pablo não pensa assim, visto que planeja usar o dinheiro do seguro alheio e devolvê-lo sem que a sua empresa e sobretudo o monsieur Cannon perceba o desfalque, pois Pablo não é um bandido, mas considera-se um “homem de bem” e assim, tal desvio é por ele considerado uma pequena manobra perfeitamente perdoável, ou seja, uma reflexão interessante sobre os pequenos delitos que são considerados inofensivos no âmago da sociedade, no entanto, delito não tem isenção por conta de sua extensão, pois qualquer delito é um malfeito, simples assim.
 
Todavia, o plano de Pablo vem abaixo, quando o imponderável ocorre. Eis que em uma noite, um gatuno invade a garagem do monsieur Cannon e ao acelerar o seu carro de coleção, tal ato culmina em um acidente lamentável, com o carro a mostrar-se semidestruído. Logicamente que o monsieur Cannon procura o escritório da seguradora, no dia seguinte e surpreendido, o corretor, mantém a aparência de normalidade ao atendê-lo, mas secretamente entra em pânico, pois agora vai ter que arrumar dinheiro urgente para honrar o seguro e os reparos na oficina, não serão baratos, visto que o carro tem o valor de um veículo especial, objeto de coleção.
Então, eis que ele lembra-se que tem um primo que foi hippie nos anos sessenta e que nos dias atuais, vive a administrar uma loja de discos (chamada: “Strawberry”), que é temática, por apenas vender material (não apenas discos), de Janis Joplin e John Lennon. E há uma explicação para tal abordagem temática, a revelar-se uma questão absurda, no entanto, plausível apenas se levar-se em consideração as circunstâncias pelas quais isso foi construído.
O tal hippie veterano é Léon (interpretado pelo famoso ator, Christopher Lambert). Bem, em flashback, é mostrado que em 1973, Léon ingerira um ácido lisérgico (LSD), e no banheiro de uma casa noturna, onde encontrava-se naquele instante, teve uma alucinação ao ver que Janis Joplin e John Lennon entraram juntos no mesmo recinto sanitário e conversam com ele, a dar a entender que Léon teria uma missão a cumprir, em manter a memória de ambos preservada de alguma forma e que ambos voltariam para falar novamente com ele, no futuro. 
 
Bem, o excesso ocorrido pelo abuso na utilização de não apenas um, mas múltiplos ácidos dali em diante, lesou a capacidade cerebral de Léon, certamente, mas para efeito de uma licença poética bem grande, é sugerida a ideia de que Léon estaria sob efeito do mesmo ácido ingerido em 1973. E cabe destacar que a ideia em ter tido tal visão com Janis Joplin e John Lennon, teria sido motivada pelo fato de ambos ter falecido, no entanto, na vida real, apenas Janis já não estava mais entre nós, desde 1970, mas Lennon, estava vivo e muito ativo em 1973, tanto artisticamente com a sua carreira em pleno curso e com bastante sucesso, além da forte militância sociocultural e política em que ele inserira-se e cujas ações midiáticas geravam apoio e ataques da parte de seus detratores, incluso agências governamentais a serviço de nações gerenciadas por forças conservadoras. 
 
Ocorre um ponto anacrônico e não muito bem correto como construção da personagem, pois Léon é retratado em 1973, mais como um punk de 1977, anti-hippie em essência, do que verdadeiramente um hippie. A contradição expressa-se pelo seu corte de cabelo e pelo uso de uma camiseta a conter o símbolo da anarquia, algo nada plausível em 1973, e ainda mais se a intenção da descrição da personagem apontava em tese, para retratar-se a figura de um freak sessenta/setentista típico, fã de ícones do Rock sessentista, como Janis Joplin & John Lennon. 
 
Bem, fica por conta da pesquisa que não foi feita a contento, ou, em uma hipótese mais remota ao meu ver, em deliberadamente marcar tal questão como algo simbólico no intuito proposital de se passar ao espectador uma metáfora ou alegoria, no entanto, se foi essa a intenção, deixo ao leitor a sua interpretação, pois eu realmente não enxerguei dessa forma e nessa predisposição, parece apenas um erro de interpretação cultural, ao misturar-se conceitos dispares entre si.
Bem, o tempo passou e Léon vive da movimentação de sua loja, no entanto, algo excepcional ocorre, pois ele recebe inesperadamente uma herança milionária (um milhão de francos). Com tal informação, Pablo, que não vê o primo há anos e certamente o desprezava por ele, Léon, ter tornado-se catatônico, preso em uma viagem de ácido há tanto tempo, arquiteta um plano mirabolante para poder apropriar-se de uma parte dessa fortuna e assim poder resolver os seus problemas. Ele simplesmente não teria como visitar o primo, após esse hiato gigantesco e pedir-lhe dinheiro emprestado, e dessa forma, faz algo pior, ao montar um estratagema absurdo.
Eis então que ele contrata um ator desempregado, Walter Kingkate (interpretado pelo famoso e ótimo ator, François Cluzet), para interpretar, John Lennon, visto que tal rapaz mantinha uma relativa aparência com o astro do Rock e assim, com a cabeleira que Lennon teve entre 1973 e 1974, mais ou menos, e o uso de um figurino parecido, e claro, a conter em sua composição os óculos escuros com lentes redondas, a sua marca registrada, eis que o ator ficou razoavelmente bem parecido com o Rock Star britânico. Entretanto, a loucura arquitetada por Pablo, extrapola-se ainda mais, quando ele sugere à sua tímida esposa, que ela caracterize-se como Janis Joplin, para juntamente ao ator que simularia ser John Lennon, participar da farsa montada para ludibriar o alucinado, Léon, e dessa forma conseguir o dinheiro necessário para resolver os seus problemas.
 
É um ponto interessante do filme, pois aqui, verdadeiramente, o que seria apenas uma trama policialesca com cunho satírico e a conter uma leve drama sociocultural, revela-se enfim um Rock Movie, pois além da trilha sonora que mostra-se excelente, e a conter todas as motivações Rockers em torno da loja do tresloucado, Léon, entra em cena a construção das personificações de Janis Joplin e John Lennon, da parte dos farsantes, portanto, abundam as situações engraçadas e também as sutilezas inerentes ao evocar-se a vida e obra de ambos os artistas, e sobretudo, a importância cultural / contracultural que os dois possuem na história.
E vai além (veja só, leitor, que surpresa agradável ao tratar-se de um filme supostamente alternativo e despretensioso), pois aspectos psicológicos em contraste, são evocados, em relação às pessoas que vão cometer tal loucura, e as personalidades dos artistas que simularão ser, para tentar ludibriar, Léon. Isso inclui por extensão, o próprio, Léon e o grande articulador dessa farsa, Pablo. Nesses termos, o maior contraste fica mesmo com a esposa de Pablo, Brigitte, pois fica muito óbvio que a ideia é absurda em transformar uma mulher tão tímida e apática, em uma personalidade tão extrovertida e explosiva como foi Janis Joplin em vida, dada a sua intensidade como artista e pessoa. É nesse aspecto que o filme torna-se ainda mais interessante portanto, pois se para simplesmente ouvir a ideia estapafúrdia de Pablo, Brigitte já sentiu-se envergonhada, imagine então como foi aceitar fazer parte dessa trapaça e vencer a sua timidez contumaz, para fingir ser uma pessoa exuberante, algo completamente fora da sua realidade.
Em tese, ela só precisaria fingir ser Janis Joplin para ludibriar Léon, ao lado do falso, John Lennon, e dessa maneira, seria apenas uma questão de compor um visual parecido e esforçar-se em parecer ser extrovertida como Janis o fora em vida, para empreender uma simples conversação e assim envolver o pobre dono da loja e arrancar-lhe um dinheiro por conseguinte, o que aliás, seria a tarefa da parte do Pablo. Nesse plano, Janis e John alegariam que estavam ali a cumprir a promessa feita durante o delírio que Léon tivera em 1973, e depois dele ficar emocionado com tal abordagem, Pablo teria facilidade para ir direto ao ponto ao ter em mente que o seu primo estaria sob forte comoção.
 
Então, a dificuldade de Brigitte é mais explorada, visto gerar um conflito maior, todavia, a questão do falso Lennon defendido por Walter, também recebe um foco. Ele é um ator sem perspectivas e assim agarra-se na personagem com um certo exagero laboratorial, digamos assim, tanto que em uma cena, onde apresenta-se em público em um restaurante, devidamente caracterizado, ao lado da falsa Janis e de Pablo, ele briga com o autor do plano, a culminar com as vias de fato e indignado, ele sai aos gritos do recinto: -“eu sou John Lennon!”
Bem, confusões em torno desse imbróglio são propiciadas a garantir a dose necessária de humor, e nesse ínterim, a parte mais musical ocorre, visto que em determinado ponto, a falsa, Janis Joplin, visita a loja e Léon a conduz a um anexo onde funciona uma sala de ensaio. Ali, ela é apresentada a três bons músicos veteranos, com aparência de hippies velhos e então, Léon sugere que ela faça uma jam session com esses rapazes. Claro que ela não canta nada e trava, em meio aos acordes do clássico do repertório de Janis Joplin, “Kozmic Blues”. Em cenas subsequentes, ela demonstra paulatinamente estar a gostar de viver a personagem e essa parte revela o tal fator psicológico que eu mencionei anteriormente e muito interessante a revelar-se embutido na história, pois logicamente representa um despertar para a personagem, que alcança assim o acesso à forças latentes que nem imaginava possuir dentro de si. 
Então, eis que Brigitte passa a viver trajada como Janis Joplin, vinte e quatro horas por dia e mais do que isso, adota posturas muito diferentes no trato social, ao perder completamente a sua timidez obsessiva. Até a relação com a sua sogra, que mostrava-se conflituosa, melhora muito, pois finalmente a mãe de Pablo percebe nessa nova postura de sua nora, exatamente o que ela esperava da moça.
 
E o mais incrível ocorre, quando ela, sem nenhuma explicação plausível e na base da pura fantasia, melhora a sua performance musical, e isso culmina em cenas onde paulatinamente melhora a sua performance para cantar sempre a mesma canção: “Kosmic Blues”.
Walter por sua vez, também anima-se ao tentar compor como se fosse John Lennon, e é engraçada a cena onde traz consigo uma suposta namorada, não oriental, mas com baixa estatura e a usar longos cabelos negros, que sentada em profundo silêncio, o vê trabalhar em várias cenas a repetir a mesma intenção. Creio não ser necessário explicar a motivação dessa intervenção, não é mesmo?
 
Bem, chega-se em um ponto onde a farsa é descoberta por Léon, que “mata” simbolicamente o falso Lennon ao alvejá-lo com um revolver que é uma réplica da arma que Mark Chapman usou para assassinar Lennon na vida real. 
 
Todavia, Janis (ou melhor, Brigitte), já não sabe mais se deseja voltar para a sua velha vida como dona de casa, pois agora frequenta botequins com os seus colegas de banda, a beber, drogar-se e jogar bilhar até o dia amanhecer. Pablo percebe que criou um problema a mais, então, ao colocar a esposa nessa fantasia descabida. Ele passa a ter que cuidar da casa e do filho, pois Brigitte, ou melhor, Janis, não realiza mais nenhuma tarefa caseira, como se não fosse mais uma mãe tradicional. Pablo, atormentado com a situação, passa a ver diversas mulheres pelas ruas, vestidas como Janis Joplin e aí fica dúbio se são os seus demônios interiores a atormentá-lo ou a representação da liberdade que Brigitte inspirara na vizinhança, de forma simbólica, naturalmente.
 
Eis que em uma determinada noite, Pablo entra em um bar e vê Brigitte subir ao palco, acompanhada da tal banda e ela canta: “Kozmic Blues” com a mesma desenvoltura de Janis Joplin, o que deixa o seu marido, boquiaberto. A fantasia causara uma transformação, verdadeiramente e agora, ele não reconhecia mais a própria esposa com essa postura e sobretudo dotada desse talento musical todo.
Monsieur Cannon aborda Pablo e confessa que já estava a par do golpe todo, pois por coincidência, presenciara a cena que chegara às vias de fato no restaurante, com os falsos John Lennon e Janis Joplin. Em “flashback”, a cena em questão é reprisada, mas sob a perspectiva de Monsieur Cannon mediante uma imagem propiciada por outro ângulo.
 
E o filme encerra-se bem diferente dos filmes tradicionais comerciais em geral, ao mostrar a família reunida em um restaurante e com a imagem de Brigitte/Janis Joplin, a flutuar no ar, como a dar a entender que tal situação seria eternizada por ela, doravante.
Em suma, uma ideia bastante exótica, mas que funcionou, por incrível que pareça, ao mostrar um desenvolvimento criativo. Tal filme, apesar desse mérito acumulado, tornou-se triste por um aspecto não necessariamente motivado por sua causa, mas que foi inevitável. Ocorreu que a boa atriz, Marie Trintignant, não assistiu o filme em seu lançamento, visto que morreu tragicamente em agosto de 2003, apenas três meses após o término das filmagens, assassinada pelo seu então namorado, o músico, Bertrant Cantat, que a espancou covardemente, a ocasionar-lhe um edema cerebral. 
Uma curiosidade, Marie, além de ter sido filha de Jean-Louis Trintignant (este, um ator importantíssimo do cinema francês e mundial, basta ver o seu currículo impressionante), foi casada com o diretor deste filme, Samuel Benchetrit (este, também ator e escritor de vários livros), e igualmente fora casada com o ator, François Cluzet (que interpretou Walter/John Lennon, neste filme, e mais um ator com vasta cinematografia elogiada). Sérgi López, por sua vez, é um ator espanhol com um currículo gigantesco no cinema a contabilizar inclusive trabalhos realizados com Woody Allen. Isso sem deixar de mencionar a presença do ator, norte-americano, Christopher Lambert, cuja trajetória dispensa apresentações. Então, a conclusão sobre o elenco, ao pensar-se nesses atores citados, é óbvia no sentido em que o talento dramatúrgico reunido para tal obra, foi gigantesco.
 
Mais alguns atores no elenco, ainda não citados: Basile Leroux (como Bob, músico da banda), Eric Hervé (como Freddy, outro músico), Reynald Tescaro (como Miki, outro músico), Patrick Dietsch (como Johnny Rassov), Michel Berrie (como Victor Artie), e outros. 
A crítica parece não ter entendido a proposta do filme, por não estabelecer uma boa cotação em linhas gerais. Tirante o sisudo jornal “Le Monde”, normalmente exigente em suas resenhas cinematográficas, e que considerou tal filme como a uma peça inteligente. Em outros veículos menores, ressaltou-se a qualidade do elenco, a conter alguns monstros do cinema europeu, e claro que isso foi um fato consumado dentro dessa obra. No contraponto, o jornal, “Libération”, massacrou a obra e observou exatamente o contrário, a dar conta que nem mesmo um elenco tão bom conseguiu salvar o filme do constrangimento em apresentar-se com diálogos tão fracos. E ainda execrou o diretor, ao chamá-lo como um “charlatão da capital” e que ele não seria bom como escritor, tampouco como diretor de cinema. Em outros veículos, falou-se que foi um desperdício de talento generalizado e que resultou em dois minutos de um bom blues, quando finalmente a farsante, Brigitte, cantou como Janis Joplin. Nas bilheterias, o resultado foi apenas razoável, com a fita a ser exibida mais em circuito alternativo pelos cinemas de arte. Tornou-se comentado entre os fãs mais específicos de Janis Joplin e John Lennon, mas não ao ponto em tornar-se cultuado, mesmo por que, não foi todo mundo que entendeu a proposta da obra em seu enredo.
 
A trilha sonora é ótima. A despeito da música “Kozmic Blues” ter sido a única canção recorrente nas tentativas de Brigitte para cantá-la, ouve-se bastante o som de Janis Joplin ao longo do filme, com outras canções de seu repertório clássico, e também de John Lennon, em sua carreira solo, bem entendido, visto que dificilmente haveria qualquer canção dos Beatles, por motivos de direitos autorais obstruídos. Como a viúva de Lennon, Yoko Ono, é bem mais benevolente nesse sentido e ela controla tal material solo de Lennon, ficou viável a execução de suas canções. Ouve-se também o som de artistas sessenta/setentistas tais como: T. Rex, Ten Years After
Donovan, além de artistas mais modernos, em menor proporção. 
Um dado interessante sobre a produção, muitas cenas foram filmadas em Étiolles, cidade pequena, situada vinte e sete quilômetros ao norte de Paris, portanto, que bom assistir um filme francês que não tenha sucumbido à tentação de usar o clichê ao utilizar a capital francesa em seus pontos turísticos, como externas. Cabe explicar aliás, que se este filme foi uma coprodução franco-espanhola, ficou evidente que tirante a presença dos atores, Sérgi López e Amparo Soler Leal, a ambientação foi toda francófona.  

Escrito por Samuel Benchetrit e Gábor Rassov, foi dirigido por Samuel Benchetrit. Lançado em 2003, teve discreta exibição televisiva. Foi lançado em formato DVD, logo a seguir e encontra-se à disposição com facilidade no YouTube para ser assistido em versão integral e gratuitamente. 

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz, Câmera & Rock'n' Roll" através do seu volume III e a sua leitura está disponibilizada a partir da página 430.