sábado, 19 de janeiro de 2013

Sábado Som - Por Luiz Domingues

Foi num sábado de abril de 1974, que um fenômeno inimaginável ocorreu na TV brasileira, no horário das 16:00 h.

Mudando a sua programação habitual, a Rede Globo colocou no ar um programa chamado "Sábado Som", produzido e apresentado pelo jornalista Nelson Motta, com o objetivo de exibir o melhor do Rock internacional, daquele momento.

De queixo caído, Rockers; Freaks e Hippies tupiniquins não acostumados à esse tipo de tratamento cultural inclusivo, comemoraram a oportunidade incrível e improvável até então.

E logo de cara, a estreia foi para lá de especial, com a exibição do documentário, "Live at Pompeii", uma produção de 1971, com o Pink Floyd tocando ao vivo nas ruínas da cidade romana de Pompeia.

Um espetacular especial, pleno de clima lúgubre e sob a aura de um Pink Floyd em grande fase da carreira.

Era inacreditável estar vendo isso na TV, num sábado à tarde, pois não éramos norte-americanos ou europeus, acostumados a ter esse tipo de suporte nos meios de comunicação.
Até então, eram raras as oportunidades para a exibição de material de bandas de Rock internacionais, salvo pequenas intervenções sazonais.

Tomo como exemplo a minha experiência pessoal que deve ter se repetido para muitos aficionados da minha faixa etária, em termos de reação e repercussão desse programa inicial. Na segunda feira posterior, às 7:00 h. da manhã no portão da escola, o assunto não era outro entre os freaks do colégio. 
A expressão "você viu" (?), foi repetida muitas vezes nas rodinhas e tornou-se  o assunto da semana, sem dúvida alguma, tanto quanto um ano antes, houvera sido com a primeira exibição dos Secos & Molhados, no programa Fantástico, que deixou todo mundo estupefato, também.

E assim sucedeu-se, sábado após sábado, vídeos inacreditáveis de artistas que eram muito distantes para nós, sendo exibidos.
O material que alimentava o programa, era proveniente de boas fontes das TV's americanas e europeias : Don Kirshner's Rock Concert; "Midnight Special"; "In Concert"; "Old Grey Eistle Test"; "Top of The Pops"; "Rockpalast" etc.

Sendo assim, por meses a fio, o horário das 16:00 h. dos sábados virou sagrado para nós.



O mundo podia desabar, mas ninguém tirava-nos da sagrada poltrona da sala de estar...

Causou furor a exibição da banda holandesa, Focus, e ouso dizer que a enorme popularidade da banda no Brasil, iniciou-se ali no Sábado Som. 
Ninguém nunca mais se esqueceu daquela banda espetacular, com um tecladista / vocalista alucinado, que em meio à um Hard-Prog-Rock muito bem tocado, fazia malabarismos vocais à la "yodol", um falsete exótico e dificílimo de se cantar, típico do folclórico europeu, Dá-lhe, Hocus Pocus !!
Allman Brothers Band; Alice Cooper; Poco; Chuck Berry; Triumvirat; Greenslade; Uriah Heep; Gentle Giant; Slade; David Bowie, T.Rex; Suzi Quatro; Johhny Winter; Black Oak Arkansas; Average White Band...etc etc

Eram artistas americanos e europeus, de várias vertentes do Rock, sendo exibidos para o nosso total deleite.
O programa alvoroçou os Rockers de tal forma, que permito-me contar aqui uma experiência pessoal : a minha professora de português, preocupada em fugir do óbvio, gostava de inserir tópicos culturais nas brechas do programa didático tradicional e maçante que era obrigada a ministrar.

Entre um tópico de gramática e outro de ortografia, gostava de estimular discussões no âmbito cultural e claro que isso era legal.
Mas, como ninguém é perfeito, segundo seus parâmetros pessoais, o Rock era algo menor, talvez uma subcultura inferior.

Motivada pela repercussão do Sábado Som e pela visita de Tia Alice, propôs uma redação onde o tema era : "quem é o melhor, Alice Cooper ou Hermeto Paschoal" ?
É claro que a intenção era buscar estrato nas nossas redações infanto-juvenis para corroborar a concepção dela, de de que Alice Cooper era obviamente inferior, por ser um enlatado americano de mau gosto blá-blá-blá...

Na minha redação, argumentei que não enxergava disparidade entre esses artistas e gostava das particularidades dos dois, e indo além, incluí o Allman Brothers, como um exemplo a mais de sonoridade diferente e de extrema excelência artística.
Assim éramos nos anos setenta, sem preconceitos, sem tribos fechadas em nichos...tudo era divino e maravilhoso, sem divisões.

No final de 1974, o Sábado Som exibiu um especial condensado do Festival Califórnia Jam, ocorrido poucos meses antes. 

Para os padrões da época, era inacreditável ver artistas ao vivo, com o frescor, dessa proximidade temporal.

Grudamos na poltrona vendo Keith Emerson tocando um piano de calda, girando no ar como se fosse um número circense (e era); Ritchie Blackmore destruindo o palco numa fúria ensandecida em meio às chamas; o Black Sabbath propagando seus temas pesados à luz do dia, num contraste quase ideológico perante sua obra.... 

Mas o sucesso comercial de tal empreitada Rocker talvez não fosse proporcional ao nosso entusiasmo setorizado e assim, a Rede Globo tirou o programa do ar, ainda no começo de 1975, substituindo-o por um seriado chamado Star Lost
O sábado Som marcou época e gerou repercussão diluída em pequenas ações. Conheci lojas de discos e até de artigos sem relação com a música diretamente, que abriram com esse nome.

E também um selo com essa denominação, que chegou a lançar diversos artistas, principalmente bandas do chamado "Krautrock", uma vertente do Rock alemão muito interessante, formada por artistas com tendência ao Rock progressivo e experimental.

Esse selo lançou bandas como Nektar; Embryo; Amon Düll II; Karthago, entre outras, no mercado brasileiro.

Em meados de 1976, a Globo repaginou o programa e o relançou sob o nome de "Rock Concert", sem a presença de Nelson Motta, mas essa é uma outra história, como diria o Charles Gavin... 

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2012

2 comentários:

  1. Adorei a matéria, Luiz!
    Abração!

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    1. Sensacional saber disso, amigo Mingo !!

      O Blog é seu, visite-o sempre !!

      Grande abraço !!

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