sábado, 5 de janeiro de 2013

Orelhões Revigorados pela Internet - Por Luiz Domingues



Uma grande ideia já está sendo viabilizada para salvar um ícone urbano das cidades brasileiras.

Já em testes avançados na cidade do Rio de Janeiro, os antigos orelhões, cabines telefônicas típicas do Brasil, poderão ter sobrevida, modernizando-se.

A ideia é que sejam agora postos de acesso à internet wireless, deixando de lado a velha função da telefonia que entrou em franca decadência, com a mega popularização dos telefones celulares.

Claro que ainda tem pessoas que utilizam as velhas e combalidas cabines de telefonia pública, mas numa conta generalizada, esse número de usuários caiu drasticamente nos últimos anos e as operadoras de telefonia só as mantém nas ruas por respeito às decisões governamentais.

Mesmo assim, com uma fonte de prejuízo gigantesco pelo pouco uso e também pelos problemas decorrentes do contumaz vandalismo perpetrado pelo povo brasileiro (lamentável isso...), as operadoras pressionavam o governo para aliviar as sanções e retirar os orelhões das ruas.

Agora, não só ganham sobrevida, como adequam-se aos novos tempos, ganhando outra utilidade.

A ideia seria o usuário comprar um cartão contendo uma senha e determinando um tempo de uso, parecido com o dos cartões telefônicos atuais, netos das velhas fichas de antigamente (a super usada expressão "caiu a ficha" para designar uma lembrança de algum fato ou tomada de posição, veio daí).

Lembrando um pouco a história, os primeiros telefones públicos surgiram no Brasil nos anos vinte do século passado.

Os primeiros foram instalados na cidade de Santos, no litoral paulista.

Em princípio eram instalados em repartições públicas, e a seguir aparecerem em restaurantes, bares, farmácias, padarias etc.

Por incrível que pareça, só no início dos anos setenta, é que as autoridades passaram a instalar cabines nas ruas, como já era comum há décadas nos países europeus e nos Estados Unidos.

A ideia original foi a de instalar cabines semelhantes às de Londres, nas calçadas de São Paulo e do Rio, mas a incrível falta de educação do povo, inviabilizou o projeto, devido às depredações e também pelo uso das cabines para atos obscenos e/ou esconderijo de bandidos.


Dessa forma, por volta de 1972, surgiu a ideia da cabine oval e aberta, criada por uma engenheira sino-brasileira, chamada Chu Ming Silveira, que era funcionária da CTB, a velha Companhia Telefônica Brasileira.


Segundo a criadora, a cabine aberta ocupava menos espaço nas calçadas e por ser aberta, inibia atos de vandalismo ou ações obscuras feitas por pessoas mal intencionadas.


Logo o formato ovalado caiu nas graças do povo e recebeu o apelido de "orelhão", uma alusão ao seu formato e sua função de servir à telefonia.

Em São Paulo, havia também um outro tipo de orelhão, de mesmo formato, porém menor e feito de acrílico cor de abóbora transparente, que era usado em terminais de ônibus e na antiga rodoviária da estação da Luz. Era chamado "orelhinha" e também era outra criação de Chu Ming Silveira.

Mas ela teve problemas com a patente de seu invento, culminando em processo na justiça que levou anos para reconhecer sua invenção e o devida protocolo no INPI.


E um fato curiosíssimo ocorreu que se o dramaturgo Dias Gomes soubesse, renderia uma novela tão surreal como "O Bem Amado" e "Saramandaia", suas geniais criações de realismo fantástico.

Foi o seguinte : numa declaração da engenheira Chu Ming Silveira publicada num jornal, ela afirmou que "inspirou-se na forma ovalada, por ser um círculo e essa forma era perfeita".


Uma juíza indignou-se com tal declaração e processou Chu Ming Silveira, afirmando que só Deus era perfeito.


Nos autos, questionava-se se a engenheira com tal pensamento teria tido a ousadia de querer ter "inventado" Deus, entre outras asneiras.

E como suposto argumento "sério", alegava que os orelhões seriam máquinas de engolir fichas, lesando os consumidores.


Pasmem, tamanha discussão durou 20 longos anos nos tribunais, entrando para o rol do folclore jurídico brasileiro.

Mesmo sendo duramente maltratado pelos vândalos, os orelhões salvaram vidas, chamando ambulâncias, bombeiros e polícia nas situações de emergência.
Ajudaram milhões de pessoas nas mais diversas situações e agora ganham a sobrevida pós-massificação dos celulares.

E fora a nova função como ponto de inclusão digital, os orelhões ganharam recentemente o caráter de tornarem-se verdadeiras instalações de artes plásticas.

Aqui em São Paulo e já espalhando-se por diversas outras cidades, os orelhões tornaram-se atrativo para turistas, graças às intervenções criativas de diversos artistas plásticos.
É muito comum ver turistas filmando-os e fotografando-os devido à essa repaginação criativa, que os tornou objetos de arte.

E que assim permaneçam, como simpáticos e úteis equipamentos urbanos.
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica e republicada posteriormente no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012.

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