sexta-feira, 1 de março de 2013

Pressure Point - Por Luiz Domingues



Sidney Poitier era mais que um ator sensacional, mesmo no início de carreira. 
 
Era também extremamente corajoso, pois encarou papéis muito espinhosos por ser um ator negro, numa época onde a luta pelos direitos civis na América esquentou.

E não foram poucos os filmes que estrelou, cutucando firme na ferida do preconceito racial, entre o final dos anos cinquenta, até a metade dos anos setenta, sempre com enorme dignidade artística e no tocante aos nobres ideais de justiça e igualdade entre os homens.
Em "Pressure Point" ("Tormentos D'alma"), deu mais uma contribuição contundente nesse sentido.

O filme começa num ponto do futuro, onde um jovem psiquiatra de uma instituição prisional, consulta seu colega veterano, queixando-se sobre um jovem interno e infrator, incorrigível, segundo ele.
Peter Falk (que ficaria famoso anos depois interpretando o genial e mal-ajambrado inspetor Columbo, na série homônima de TV), interpreta esse jovem psiquiatra e o veterano é interpretado por Sidney Poitier que começa a aconselhar o jovem colega e lembra-se de um intrigante caso que teve em início de carreira, vinte anos antes.

O flashback nos leva à 1942, com o Dr. tendo de cuidar de um prisioneiro muito perturbado, interpretado pelo cantor/ator Bobby Darin.
O prisioneiro é um homem branco, de 29 anos e que fora preso por crime de sedição (atentados contra a estabilidade sócio-política de um país).

Seu crime foi envolver-se com simpatizantes do nazismo e se meter em ações pró-nazismo, às vezes com pequenos atos de sabotagem, incluso.

No primeiro encontro entre o prisioneiro e o Dr., a reação do prisioneiro já dá mostras do que seriam as sessões, pois sua gargalhada sarcástica ao se deparar com um psiquiatra negro, diz tudo.
Mesmo assim, o jovem psiquiatra não se abala e com muita paciência vai contornando a situação, tentando trazer o prisioneiro para a sessão propriamente dita.

Um diálogo tenso e pleno de mordacidade é travado entre ambos, mas o psiquiatra mantém sua postura terapêutica de sobriedade.

Numa primeira avaliação, é recomendado que fique confinado, evitando o convívio com outros detentos.
Na cela, o prisioneiro tem surtos. Numa impressionante tomada, vê a si próprio como um minúsculo homem pendurado nas bordas do ralo da pia, pedindo socorro à si próprio, mas seu impulso psicótico é abrir a torneira e jogar o homenzinho pelo ralo abaixo.

Passa então a ter convívio com outros detentos, mas as brigas são inevitáveis, por saberem que ele é nazista.

Em nova sessão, o Dr. começa a ganhar-lhe a confiança e na base da maiêutica, arranca-lhe informações sobre sua infância.

Em suas lembranças, o prisioneiro diz ser o responsável pelo sofrimento de um casamento falido. Por sua causa, graças à gravidez indesejada de sua mãe, e que odiava o pai por ser truculento, bêbado e o detestar por ter gerado esse casamento forçado.
Seu pai, um açougueiro, sempre lhe vem à mente em meio à pedaços cadavéricos de carne e facões ameaçadores.

Num momento contraditório de seu discurso, o prisioneiro diz achar os negros, um povo forte. Isso chama a atenção do Dr., que o indaga sobre essa opinião, ao que ele diz que "não ter nada contra os negros, só deseja que eles voltem para a África".

Uma resposta pela tangente, mas obviamente carregada de ódio implícito.

Indo além, diz odiar apenas os judeus, por fingirem-se de brancos e dessa forma, ser mais difícil detectá-los nas ruas...

Em outras sessões, consegue descrever fantasias do passado, onde criara um amigo imaginário que era um menino mudo e que servia apenas de saco de pancadas para ações de bullying de sua parte.
Em outros delírios, via-se como um "soberano" com o poder da vida e da morte, oprimindo outros meninos e até seus pais.

Na vida real, vira líder de uma gang infanto-juvenil de vândalos, fazendo arruaças e provocando prejuízos na vizinhança.

São impressionantes as cenas desses delírios oníricos, pois fundem-se à cena de ambos (prisioneiro e psiquiatra), no consultório, sem efeitos especiais, apenas com os atores das duas cenas dividindo o mesmo espaço, como numa encenação teatral. Isso gerou uma atmosfera sufocante, com uma carga dramática incrível.

Certamente teve o dedo do produtor Stanley Kramer numa ideia dessas, e pelo fato de também ser um diretor com experiência no teatro, deu sua contribuição decisiva ao filme, nessas concepções.
O prisioneiro demonstra incomum inteligência lógica e se torna caixa do açougue de seu pai, onde não erra o troco para os fregueses. Mas num surto por ver o pai cortando aqueles pedaços de carne, briga e foge, caindo na vida.

O Dr. queixa-se ao diretor do presídio, por não estar conseguindo cuidar desse caso, mas o diretor é incisivo : "Peitei muita gente para bancar um psiquiatra negro neste presídio, não me desaponte"...sem dúvida, o racismo estava por todas as partes na América, até implicitamente em pessoas que julgavam não serem preconceituosas.

Questão de conceito...ou preconceito...
Seguindo nas sessões, o prisioneiro conta passagens de sua juventude, como pequeno criminoso e arruaceiro. O Dr. impressiona-se com a forma com a qual conta tais passagens, dando mostras de uma frieza que o incomoda. Há algo além dos distúrbios psicológicos nesse paciente, algo que não entende, mas lhe incomoda, por achar sombrio.

Voltando às reminiscências, o prisioneiro conta-lhe sobre uma fase onde resolveu sobreviver honestamente, vendendo maçãs nas ruas. Num desses dias de trabalho, conheceu uma garota que se interessou por ele.
Era uma moça bonita e gentil, que comprou todas as suas maçãs com segunda intenção, e pediu-lhe para carregá-las para ela, até a sua casa.

Pedindo para que entrasse na residência, o prisioneiro sentiu o ambiente de um lar bem estruturado e impressionou-se com algo que nunca experimentara em sua vida.

Num salto de tempo, o prisioneiro aparece batendo à porta, usando sua melhor roupa, mas ainda assim inapropriada para sair com uma garota de família burguesa, quando ouve o pai dela aos gritos, dizendo à filha, que a proibia de sair com um "mendigo".

A seguir, vê na porta, um símbolo judaico, denotando a origem daquela família.

Corte para o prisioneiro numa reunião de nazistas, num salãozinho pobre de um bairro proletário.

O discurso do palestrante o hipnotiza.

O homem fala que a América está oprimida por conta dos judeus que dominam os bancos, a política e toda a infra-estrutura. São responsáveis diretos pela grande depressão, mas uma luz vinda da Europa, trazia-lhes a esperança de uma América melhor...
Os olhos do prisioneiro parecem hipnotizados, essas palavras calavam fundo em sua personalidade recalcada e alguém lhe dizer que tudo era culpa de um grupo de pessoas, dava-lhe a ferramenta para expurgar seu ódio, contra um alvo fixo.

De um salãozinho mequetrefe, começam a crescer e angariando apoio e dinheiro, o movimento nazi dentro da América causou barulho, atacando sinagogas; lojas de comerciantes judeus; ações contra negros etc.

Contando suas lembranças ao doutor, o prisioneiro se empolga e diz : -"Você tem o poder, e poder gera o medo e o medo gera o ódio"...

Numa dessas ações de sabotagem, o prisioneiro foi pego e diagnosticado como doente mental.
Nas sessões, deixa claro que ainda sente-se em missão nazista, mesmo preso e sua meta seria "doutrinar" pessoas brancas ali, para a causa.

Fala então uma verdade assustadora para o doutor, fazendo-o ver que esse era o medo que o psiquiatra tinha, e não sabia detectar : O fato dele ser um doutor cuidando de um doente branco, não significava que os negros tinham condições de igualdade na sociedade.

"Nem em mil anos , vocês terão o poder"..., diz o prisioneiro.
É um verdadeiro soco no estômago que o filme dava em pleno 1962, o que era extraordinário para a tomada de consciência a respeito dos direitos civis, nos anos sessenta.

Além de tocar-lhe pessoalmente como homem negro, o Dr. enxerga nesse momento o ponto para desvendar o caso e poder curar o prisioneiro.
O homem que via na pia, caindo pelo ralo, era seu pai e a vontade de matá-lo era enorme, mas ele fraquejava e morria, quando abria a torneira e empurrava a si próprio, ralo abaixo.

Aparentemente, o prisioneiro se cura ao aceitar tal diagnóstico, livrando-se do trauma. Passa a dormir regularmente, sem ser atormentado por aqueles surtos delirantes.

Então, os diretores da prisão querem lhe dar a liberdade condicional, mas o doutor nega um laudo autorizando, alegando que apesar da melhora, não significava a alta do tratamento e o prisioneiro ainda tinha periculosidade para a sociedade, por ser nazista convicto e nutrir ódio por negros e judeus.
Os diretores se alvoroçam e pressionam o doutor, que mostra-se irredutível em seu diagnóstico.

Numa última sessão, travam diálogo ríspido e o prisioneiro mostra sua verdadeira face nazista, corroída por ódio racial.

O Dr. se mostra ofendido e o desafia para uma briga corporal. Era na verdade uma estratégia terapêutica, e depois do prisioneiro ter amansado, o Dr. reitera que ele ainda precisa de terapia e portanto, estava negando-lhe a condicional.
Numa entrevista incomum, o prisioneiro e os diretores da prisão, pressionam o doutor pelo laudo. Os diretores, leigos no campo da psiquiatria, deixam-se levar pelo aparente equilíbrio do prisioneiro, mas o doutor sabe que é apenas dissimulação de uma mente doentia, ainda que com elevado grau de capacidade de raciocínio lógico.
Sente-se dessa forma desprestigiado pelos diretores e resolve pedir demissão como psiquiatra da prisão, ao ver que passariam por cima de sua decisão profissional.

Cinicamente, o prisioneiro o visita no consultório, dizendo-lhe que enganara à todos e assim, dando mostras de ter fingido o tempo todo.

Dissimulado, diz : -"Em quem você acha que eles acreditariam ? Num homem branco e doente que recuperou-se, ou num negro" ?
O doutor explode num discurso duro. É um ponto crucial do filme, onde fica claro o posicionamento da obra, em prol dos direitos civis, e claramente um libelo contra o preconceito racial na América.
Nesse ponto, o filme volta ao início, com o doutor envelhecido e pensativo após contar esse dilacerante caso profissional de seu início de carreira. O jovem psiquiatra que o procurara com lamentos, está cabisbaixo e embasbacado com o relato.

O motivo pelo qual reclamava e alegava não saber lidar, ficara pequeno diante dessa experiência do doutor mais velho...
Pegando o prontuário de seu paciente, dá mostras que não desistirá do caso e saindo do gabinete, diz ao doutor : -"Já sei como resolverei esse caso...vou pintar-me de negro...", numa clara reverência ao colega veterano.

A resposta do doutor é : -"Não me desaponte como um homem branco"... claramente ironizando a barbaridade racista que ouvira quando jovem, da boca do diretor do presídio !

Bobby Darin era um cantor de sucesso, surgido para o grande público, no final dos anos cinquenta.
Com talento para atuar como ator, foi seguindo o caminho de outros cantores extraordinários que seguiram essa mesma trilha, como Frank Sinatra e Elvis Presley.

Em "Pressure Point", encarou um papel forte e mostrou qualidades. 


Teve muitos sucessos na música ("Splish Splash", por exemplo) e sua biografia pessoal é dramática, pois nascera com um grave problema cardíaco e desde pequeno, sua mãe o incentivara a viver cada dia como se fosse o último.
Sendo assim, aprendeu a tocar vários instrumentos musicais, tornou-se um cantor/compositor de sucesso, casou-se com uma atriz famosa (Sandra Dee), e quando já era muito famoso como cantor e ator, viu-se em meio à um escândalo público, quando revelaram-lhe que sua irmã mais velha, era na verdade sua verdadeira mãe, e não a avó que ele acreditava ser sua mãe. Numa época de padrões morais conservadores, isso lhe causou um enorme constrangimento, que praticamente detonou a sua carreira.
E quanto à Sidney Poitier, como disse no início, trata-se de um dos mais extraordinários atores que conheço. Sua filmografia é tão sensacional e vitoriosa, que cabe uma matéria, focando só nisso.

"Pressure Point" é um filme de parcos recursos de produção. Filmado em preto e branco, com cenários simples, destaca-se pela qualidade do texto, bem fundamentando, num assunto explosivo para a época.

Fora a mão firme do diretor Hubert Cornfield, e a produção do grande Stanley Kramer, e além dos dois protagonistas, claro, destaco também a bela trilha sonora, com temas jazzísticos muito nervosos, dando um clima lúgubre, que causa calafrios e portanto, serve e muito bem à carga dramática ideal para o desenvolvimento do filme.
Notaram que em nenhum momento da matéria eu citei os nomes dos personagens ?

Pois é...no filme, a proposta foi a de não dar nomes à ninguém e espero que essa estranheza da obra, tenha também causado um efeito aqui para o leitor, instigando-lhe a ver o filme...
Obra muito interessante e que traz um painel esclarecedor sob o estrato do ódio racial, elemento execrável que ainda (2013), não podemos comemorar que esteja erradicado do planeta.

12 comentários:

  1. Aguçou minha curiosidade ,Mestre.Lembrou-me de varios filmes como Bopha,Hotel Ruanda,aquele biográfico sobre o Biko....Sempre me interessei pelo assunto,tanto quando vi o Martin Luther King Jr em seus magníficos discursos e pregações,quanto quando li a história emocionante da Rosa Parks numa reportagem antiga.Esperamos que o assunto tenha fim um dia e que a lembrança da segregação seja só um pesadelo superado pela Humanidade.Vou atrás do filme,grande abraço e parabéns pela matéria.Luiz Albano

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    1. Grande Luiz Albano !

      Que legal que a matéria despertou-lhe a vontade ver o filme. Considero esse filme muito bom e na verdade, é só um entre outros tantos, que o ator Sidney Poitier protagonizou com o tema do racismo, como mote.

      Estou propenso à resenhar outros inclusive, tamanha a contundência de cada um, com repercussão direta na luta pelos direitos civis na América e por serem dignos representantes do cinema libertário, dos anos sessenta.

      Os filmes que você citou são mais modernos, mas certamente beberam na fonte de "Pressure Point" e demais trabalhos que Poitier realizou.

      Vá sim atrás do filme, porque vale a pena.

      Grande abraço e muito obrigado por ler e comentar !!

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  2. Oi Luiz. Muito bem lembrado em falar sobre esse maravilhoso ator Sidney Poitier. Ja assisti vários filmes dele. Não tive um preferido. "Ao mestre com carinho" foi muito bom! Outro que me lembro e que assisti várias vezes foi "Adivinhe quem vem para o jantar". E muitos outros...
    Sidney Poitier, não foi só o primeiro ator negro da história a receber o prêmio Oscar de melhor ator. Além de ser bem merecido o prêmio. Ele era um negro muito bonito e charmoso. Isso o ajudou muito.Fale mais sim sobre ele. Vale a pena lembrar.
    Parabéns mais uma vez pelo seu trabalho.

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    1. Oi, Bete !

      Que bom que gostou da matéria. Fico contente por saber que aprecia a carreira do grande ator Sidney Poitier. Também sou muito fã dele e de seus filmes que são fortes.

      Os que citou, por exemplo, são muito bons e eu nutro muita simpatia por ambos.

      Vou amadurecer sim, a ideia de falar sobre outros filmes dele e também especificamente sobre sua biografia.

      Obrigado por ler, comentar e elogiar !

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  3. Oi Luiz. Vi que ficou postado dois comentários. É que como o primeiro não tinha postado. Escrevi o segundo. rs
    Tentei excluir e não consegui. Faça isso por mim se conseguir ok?
    Mais uma vez. Parabéns!
    Obrigada por compartilhar!
    Bjos!

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    1. Eu vi, Bete.

      Não se preocupe, essas coisas acontecem na internet.

      Obrigado por ler e comentar !

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  4. Um grande filme,sobre um psicopata, só que não me lembro de muitas coisas...mas a parte que mais marcou foi essa http://youtu.be/67kmoNgLJa0 obrigado pela lembrança,ótimo texto amigo.

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  5. Verdade, Kim !!

    Gosto muito desse filme. Acho-o forte desde o mote principal com o psiquiatra negro tratando profissionalmente e com muito empenho de um psicopata nazista. Esse contraste é sensacional.

    Mas ele vai além. As construções mentais do personagem do prisioneiro, encurralando o psiquiatra, as cenas teatralizadas das viagens oníricas e a dura realidade dos diretores da prisão em relação ao doutor, são támbem , interessantíssimos predicados.

    Esse trecho que sugeriu no You Tube é muito forte. O jogo da velha, uma obcessão do psicopata nazista, com a garota sendo humilhada e agredida, é muito forte.

    Obrigado por ler, comentar, elogiar e trazer esse importante adendo !!

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  6. Vi o filme Luiz e deu vontade de revê-lo.Belo texto de um tema ainda muito atual.
    Abraço
    Dum

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    1. Meu amigo Dum !

      Vale muito a pena assistir novamente. "Pressure Point" investe forte no conceito do confronto de ideias sobre o racismo.

      Obrigado por ler e comentar !

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  7. Oi, Luiz

    Ainda não assisti ao filme, mas pelo teu texto, me pareceu muito interessante.
    Fiquei com muita vontade de assistir.

    Abraços

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    1. Oi, Janete !

      Fico muito contente que a resenha tenha lhe despertado a vontade de assistir.

      Eu recomendo-o e tenho a certeza de que vai se impressionar positivamente, quando vê-lo.

      Obrigado por ler e comentar !

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