sábado, 30 de março de 2013

Paths of Glory - Por Luiz Domingues



O cinema, de uma maneira geral, costuma privilegiar a II Guerra Mundial, quando produz filmes sobre guerras do Século XX.

Portanto, bem mais modesta, tanto entre os americanos, quanto europeus, é a produção enfocando a Primeira Guerra Mundial, como se esse conflito bélico terrível, que consumiu vidas, sofrimento e penúria social sem precedentes, fosse um evento menor na história.
Para início de conversa, essa guerra foi conhecida como "a guerra para acabar com todas as guerras", tamanha a amplitude de suas implicações geopolíticas.

Um exemplo raro se deu numa produção norte-americana, relativamente modesta, dirigida pelo diretor britânico, Stanley Kubrick, e lançada em 1957.
Trata-se de "Paths of Glory" (em português, "Glória Feita de Sangue"), uma história baseada em fatos reais e que representa uma mácula na história do exército francês, e indo além, uma vergonha que ultrapassa fronteiras e constrange qualquer corporação militar, seja de que nacionalidade for.

Baseado no livro homônimo, de Humphrey Cobb, de 1935, que não alcançou grande sucesso à época, seus direitos foram adquiridos nos anos cinquenta, por uma módica quantia, e havia uma explicação para essa desvalorização : além do pouco sucesso do livro, uma tentativa de adaptá-lo ao teatro, também fracassara.
Mas Kubrick comprou essa briga, e mesmo sabendo que a história era polêmica, foi até o fim, lançando-o em 1957.

A história se passa em 1916, bem no meio do período, onde a I Guerra Mundial ocorreu.

Enquanto um batalhão francês enfrenta duro embate contra os alemães no front, dois oficiais de alta patente travam um diálogo de gabinete, cujo teor o colocaria numa situação de alto risco.
O General-Chefe do Estado Maior, George Broulard (interpretado por Adolphe Menjou), um homem maquiavélico e arrogante, dá ordens para seu subordinado direto, o general de campo, Paulo Mireau (interpretado por George McReady), que tal batalhão avance imediatamente contra as forças alemãs.

Argumentando que seria uma estratégia muito arriscada pelas circunstâncias, Mireau tenta demover o comandante dessa ordem, mas este o suborna, oferecendo-lhe uma promoção.
Contaminado por essa oferta infame, Mireau vai ao front e dá a ordem do ataque, mesmo sabendo que dificilmente essa ação lograria êxito e pelo contrário, muitas vidas seriam sacrificadas inutilmente.

Mas, inebriado pelos seus interesses pessoais, ele insiste na ordem, e enfurece o coronel Dax (interpretado por Kirk Douglas), que percebe ser uma ordem descabida e sem objetivo militar, mais parecendo uma loucura suicida.
Chega o período noturno e tudo fica ainda mais perigoso e absurdo. Mireau vai se alterando, e chega a arrancar um soldado da trincheira e o jogar na mira dos alemães, para que alvejado inevitavelmente, mexa com os brios dos soldados.

É quando um batedor é enviado para análise e um outro arremessa uma granada, matando-o.
Usando esse evento para justificar o ataque, Mireau enfurece-se e ordena o avanço, mas Dax, usando do expediente do regimento interno, recusa dar ordem aos homens, e exige a ordem do Comando Maior, por escrito.

Mireau ameaça abrir fogo contra todo o batalhão, mas Dax o impede, corajosamente.
Mas o episódio chega ao conhecimento da cúpula, com o General Broulard frustrado por ter seu plano pessoal arruinado e dessa forma, não perde tempo e abre uma Corte Marcial, visando julgar e condenar à morte, todo o batalhão, por covardia e deserção.

O coronel Dax enlouquece, sentindo ser uma ação orquestrada, visando usar a vida daqueles pobres soldados, apenas como um joguete de interesse político.

Como era também um advogado na sua formação civil, ele em pessoa se oferece para defender os seus homens, na Corte Marcial.
Com muito custo, consegue reduzir a sanha de Broulard e Mireau, e num acordo, isenta o batalhão inteiro de culpa, mas três homens são escolhidos para absorver essa infâmia.


Dessa maneira, o tenente Roget (Wayne Morris), por ser comandante de um destacamento; Maurice Ferol (Timothy Carey); por ser considerado um "pária", e o recruta Arnaud (Joe Turkel), simplesmente escolhido num sorteio aleatório, são os homens levados ao tribunal.
O julgamento dessa Corte Marcial é obviamente uma farsa e Dax, mesmo usando de todos os seus recursos como advogado e indignado por ver a injustiça militar conspurcando a honra da corporação, não consegue evitar o veredicto de cartas marcadas.
Os três homens são condenados e fuzilados, a despeito de sua inocência.

Na manhã seguinte, Broulard convida Dax para um café da manhã bem indigesto.
Chegando ao gabinete do general, encontra-o com Mireau, ambos se regozijando pelo fuzilamento dos pobres inocentes.
Mas, Mireau surpreende ao dizer para Dax que vai indiciar Broulard, responsabilizando-o pela ordem do ataque suicida.
Broulard fica abalado com tal revelação, que obviamente é uma traição, e um ato de descarte.

A seguir, Mireau tenta subornar Dax, oferecendo-lhe uma promoção que o catapultaria à uma posição de destaque na cúpula do poder, no exército francês.
Dax explode, rasga o código de decoro e solta o verbo, acusando Broulard de ser um homem mesquinho, preocupado apenas em obter o poder para usufruir dele em questão pessoal, portanto, ser uma vergonha para a corporação e a pátria.

Enquanto isso, os homens daquele batalhão estão numa taverna, relaxando um pouco, depois de passarem semanas no inferno das trincheiras do front, e abalados com a Corte Marcial injusta que queria condená-los à morte e ceifou três colegas, indevidamente. E o sentimento de estarem vivos era meramente aleatório...
Na Taverna, surge uma oportunidade de relaxar, quando uma garota alemã é forçada a subir no palco e cantar, para entretê-los.

Teoricamente, ela não corria o risco de ser abusada e ferida, mas o pavor estava em seus olhos, diante daqueles homens rudes, inimigos e sedentos por uma válvula de escape, ainda mais com o elemento sexual em voga.
Acuada e muito assustada, ela não vê alternativa a não ser começar a cantar uma canção folclórica de sua terra.

Começa então, timidamente, a cantarolar "Der Treue Husar", sob os risos de escárnio e deboche, e ouvindo provocações humilhantes.

Mas algo surpreendente acontece...

Os homens começam a silenciar seus insultos e pilhérias, sendo vencidos por uma estranha emoção, que paulatinamente começa a arrebatá-los. 

Alguns mudaram o semblante, outros começaram a cantarolar a canção e subitamente, a emoção generalizou-se.

Cortes rápidos mostram rostos cansados e rudes, vertendo lágrimas, tendo dificuldade para engolir a saliva.

O motivo dessa comoção, foi o fato dessa canção ter calado fundo na honra desses homens injustiçados. A canção fala de honra, amizade e lealdade, e naquele instante, era a ferida comum à todos.
Nesse instante, o Coronel Dax observa seus homens aos prantos dentro da taverna, e orgulha-se desse sentimento espontâneo da parte deles.

Um mensageiro o aborda na porta da taverna e lhe comunica que o batalhão recebeu ordens imediatas de voltar ao front, mas o coronel Dax se compadece, e ordena que os homens tenham mais alguns minutos de relaxamento na taverna, antes de voltarem ao inferno das trincheiras.

O filme chega ao fim, sem um final feliz e deixando no espectador, o amargo da injustiça na boca, coisa difícil de digerir.
Kubrick foi hábil nesse final, usando dessa emoção para exprimir toda a indignação proposta na história, pelo ato de injustiça perpetrada pelos poderosos, por questões meramente mesquinhas.

O filme não foi um super sucesso à época, mas gerou algum desconforto.

Na Espanha, por exemplo, foi vetado pelo ditador Franco, porque foi considerado como propaganda antimilitar.

Na Alemanha, foi evitado, por poder fomentar sentimento anti-francês, e na França, gerou protestos por macular a imagem de seu exército.
Outra curiosidade, foi que Kubrick teve problemas com o ator Timothy Carey, que acabou sendo demitido antes de concluir as filmagens. Como seu personagem era importante, por interpretar um dos três condenados ao fuzilamento, a solução foi concluir as filmagens com um dublê, evitando tomadas reveladoras e certamente cortando diálogos.

Mais uma curiosidade interessante, se deu com o ator Adolphe Menjou. Kubrick queria que ele atingisse o auge da agressividade para uma cena de grande relevância dramática. Menjou era um ótimo ator, e interpretava profissionalmente, mas Kubrick queria algo a mais.
Dessa forma, usou uma estratégia perigosa, mas que revelou-se eficaz. Na manhã onde deveria filmar tal cena, Kubrick o obrigou a fazer mais de 20 takes da mesma cena, cobrando-lhe mais convicção na interpretação.

Profundamente irritado, Menjou enlouqueceu no set, quando Kubrick anunciou que não haveria pausa para o almoço, até que se terminasse a filmagem dessa cena.
Aos berros, Menjou deu um chilique no set e calmamente Kubrick ouviu os xingamentos e o convidou a fazer uma última tentativa. 

Com essa raiva à tona, Menjou interpretou exatamente como Kubrick esperava, e todos foram almoçar felizes, pela missão cumprida...


Outro fato interessante, a garota alemã que interpretou a assustada cantora na taverna, se chamava Christiane Harlan. Nos créditos do filme, ela apareceu com um nome artístico, Susanne Christian. Essa atriz, casou-se na vida real com Kubrick, e foi sua esposa até o seu falecimento, em 1999. Hoje, cuida do acervo do falecido marido, sendo curadora da exposição sensacional, onde exibe-se grande parte de sua memorabilia.

Eis um raro filme ambientado na I Guerra Mundial, que vai além do conflito em si, e versa sobre a injustiça; honra; companheirismo; lealdade etc.
Não é o melhor filme da carreira de Stanley Kubrick, certamente, mas eu o considero um grande trabalho.

E a cena final, é primorosa. Difícil não se emocionar com o efeito da canção sobre os soldados.

6 comentários:

  1. Que beleza de artigo, Luiz!Estava pensando nesses dias (quando estava escrevendo sobre Hugo Cabret) como o cinema realizou muito mais filmes sobre a segunda guerra do que sobre a primeira. O historiador Eric Hobsbawm dizia que até para os europeus, quando se quer falar de guerra mundial eles falam "a grande guerra", a respeito da primeira, porque foi quando eles se desencantaram com o mundo. Nunca, até então, se imaginaria tamanha crueldade. Eu ainda não vi esse filme de Kubrik, mas vc me despertou MUITA vontade de ver... Obrigada, beijos

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  2. Oi, Claudinha !

    Que legal saber que você gostou da resenha e isso a estimulou a assistir o filme. Eu o recomendo, sem dúvida alguma.

    Quanto às suas observações sobre a Primeira Guerra Mundial, concordo inteiramente. Foi uma guerra terrível, que devastou a Europa, e só ficou diminuída na história por conta dos horrores do nazi-fascismo que atrelaram-se à Segunda Guerra, imprimindo-lhe a impressão de ter sido pior.

    Obrigado por ler, comentar e elogiar !

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  3. Fala Luiz!
    Mais uma vez comentou um excelente filme é um dos Kubriks que eu mais gosto.
    Parabéns,
    Zé Reis.

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    1. Fala, Zé Reis !

      De fato, um filmão, também acho.

      Obrigado por ler e comentar !

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  4. Como em toda história de guerra e em filmes, não deixa de ser triste. Além de tantas pessoas perderem a vida, o suborno a maldade e o poder, acabam de certa forma piorando ainda mais aos envolvidos.
    Muito bem explicada essa matéria. Gostei muito e pretendo assistir o filme. Ótima história e ótimo atores.
    Obrigada Luiz, por compartilhar.
    Parabéns!

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    1. Toda guerra, seja lá qual for a causa envolvida, é estúpida, parto desse princípio.

      Gostei de saber que apreciou a matéria e motivou-se a ver o filme. Recomendo-o, sem dúvida.

      Obrigado por ler e comentar !

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